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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Post Inesquecível do Duelos - por Alba Vieira

Vale a pena ler de novo, se você já conhece, e é ótima oportunidade para conhecer, se ainda não leu este magnífico poema da Ana.


MANÁ DA SECA
(ANA)

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Desciam os abutres das nuvens
Em voos rasantes sobre nós:
Fileira crua de retirantes,
Muitos passos, nenhuma voz.

Só há um caminho à frente
Indo sei lá pra onde,
Vindo de lugar nenhum,
Talvez onde a morte se esconde.

Da convivência com ela
Tanto tempo, sem descanso,
Estamos a arriscar
Aportar em outro canto.

O que buscamos não sei,
Acho que aqui ninguém sabe...
Tantos dias sem comer,
O pensar já não nos cabe.

Andamos para outro lugar
Buscando apenas distância
De momentos entristecidos
Que dizimaram a infância

De um vilarejo esquecido
Entre o vazio e o nada,
Formado por alguns casebres,
Sem vegetação ou estrada.

Por isto não foi difícil
Abandonar o abandono,
Seguir para outro destino
Dentro do mesmo longo sono.

Sono perpétuo sem sonhos,
Sono que nos leva alhures,
Sono enviado da morte
Para alimentar os abutres.
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domingo, 29 de novembro de 2009

Restos Mortais - por Ana

Três mulheres tocam o enterro
Três mulheres choram o morto
Três mulheres vêm da capela
Três mulheres levam o corpo

Cada uma um casebre vazio
Por viuvez ou abandono
Muitas outras partiram antes
Sem lágrimas, sem consolo

Na rede descansa o padre
Em seu derradeiro conforto
Está calada a voz de Deus
Mais um implacável desgosto

Carpem sem dor, outra vez
O mesmo ritual longo
Um a um à terra tornam
Cumprindo o destino roto

Carcará aguarda, cruel
Da morte sentindo o gosto
Não se passa uma semana
Estará o banquete posto
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sábado, 31 de outubro de 2009

Crianças Infelizes/Felizes - por Dan

“A melhor maneira de tornar as crianças boas, é torná-las felizes.”
(Oscar Wilde)

“As lágrimas dos velhos são tão terríveis como as das crianças são naturais.”
(Honoré de Balzac)
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Caminhando pelas ruas da cidade de São Paulo, Pedro observa os grandes prédios, os monumentos, os cartazes, as propagandas nas lojas e sozinho sente a falta de amor. Carrega nas costas o peso do abandono. Sempre esteve sozinho e continua sozinho. Esmola, rouba, vê nas vitrines o doce que nunca comeu...
- Papai, me dá um nó na garganta ver essas crianças pedindo esmolas e fazendo malabarismo nos faróis.
- Ah, Dudu, não liga! Nós estamos bem e temos uma família.
- Para Matheus! Até pouco tempo eu estava que nem eles; sem ninguém, sem família.
- Matheus, quem é o seu melhor amigo?
- O Dudu, tia Selma.
- Você já imaginou que o Dudu podia estar neste farol, pedindo esmola?
- O quê?
- É, Matheus, você se esqueceu que eu sou adotado? Tive sorte de ir para o abrigo. Lá é um lugar triste, mas cuidaram de mim. Depois tive mais sorte de ser adotado pelos meus pais. E se não tivesse acontecido nada disso eu estaria na rua e, pior ainda, apanhando do homem enrugado.
- Dudu, nunca pensei nisso! Às vezes esqueço que você é adotado!
- Sabe, Matheus, o Pato, meu amigo, foi menino de rua. Ele ficava mendigando nos faróis e até roubou. No abrigo era o protetor das crianças menores. É uma alma boa, que não teve a mesma sorte que você.
- Puxa! Desculpe mesmo, Dudu! Sou um estabanado. Falo as coisas sem pensar!
- Está bom, Matheus, também não precisa se matar por causa disso. Só pense melhor nas coisas antes de dizê-las. Combinado?
- Combinado, tio Pedro. Posso ajudar essas crianças em alguma coisa?
- É, papai, como um ex-menor abandonado, também gostaria! Será que podíamos ajudá-los, mendigando junto com eles?
- Mendigar, Dudu, isso não é ajudar! É necessário estudar e achar alguma coisa para fazer.
- Ih, pai, é tão difícil!!!!!
- Nada na vida é fácil, meu filho.
- Dudu, vamos formar um esquadrão “Antimenor Abandonado”.
- Boa, Matheus, grande idéia!!!
- Calma lá, vocês dois. Primeiro estudem o problema e vejam como podem ajudar. Não façam nada sem pensar bem e sem falar comigo com a mamãe e com os pais do Matheus.
- Tá bom, papai!
(...)
- E seu irmão diz que você precisa estudar mais!
- Não é estudo, papai! Estou pesquisando sobre os menores de rua.
- Ora filho, não deixa de ser um estudo! Você ficou muito interessado.
- É, pai, aprendi muitas coisas. Só não achei uma forma de ajudar.
- Dudu, é assim mesmo! Primeiro a gente aprende. Depois descobre formas de ajudar.
- Mas me diga, o que você aprendeu?
- Pai, você não ia ver o jogo?
- O filho da gente é mais importante que o jogo! Vim te buscar para você assistir comigo. Mas já que está tão compenetrado no seu trabalho, vamos conversar sobre ele.
- Você é meu papai do coração. Nunca me deixa só!
- Me diz o que você aprendeu?
- Bom, primeiro as crianças de rua estão em situação de risco social e psicológico, quase todos foram vítimas de maus tratos ou de abandono. Por trás de um menor de rua sempre tem um adulto. Li sobre alguns casos de crianças que foram encontradas em companhias de homens ou mulheres que estavam bêbedos, diziam serem seus pais e os espancavam. Pensei no homem enrugado. Li também que em épocas de festas, como no Natal, as crianças que pedem em farol, apanham mais, pois seus pais ou responsáveis acham que devem ganhar mais dinheiro.
- É um absurdo, não?
- Todas as crianças querem a mesma coisa, uma família. Assim como eu queria.
- Essas coisas são muito tristes!
- Li também sobre a Chacina da Candelária, eu e o Matheus não acreditamos, achamos um falta de amor às crianças.
- É, Dudu, essas injustiças acontecem no mundo todo, mas existem pessoas que se propõe a ajudar, no Rio de Janeiro mesmo foi formado o Projeto URUÊ e existem outros projetos nas favelas, em São Paulo também e nós vamos achar uma forma de você e o Matheus ajudarem.
- Legal, pai, liguei para a Celinha e para a Elisa e elas também vão ajudar...
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(Extraído do novo livro do DUDU, ainda inacabado e sem nome... eu vou com calma.)
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“As crianças têm mais necessidade de modelos do que de críticas.”
(Joseph Joubert)

“Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças.”
(Fernando Pessoa)
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Visitem Dan
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tudo Passa - por Alba Vieira

Quanta coisa abandonamos pelo caminho!...
Sonhos, crenças, amigos, ideais...
O tempo traga, sem percebermos,
Tudo a que não nos ligamos mais.

Só fica para sempre (se é que isso existe)
O que passou a fazer parte de nós,
Aquilo que regamos com a água bendita do amor,
Que olhamos, e lembramos, se estamos sós.

Abandonamos o que aos poucos em nós perde o viço
E somos deixados por quem se desinteressou...
Mas há coisas que acabam dando sumiço,
Mesmo se delas cuidamos com amor.

É que cada coisa na vida tem seu tempo
E há o tempo certo de cada coisa nos deixar.
Melhor seguir praticando o desapego,
Viver o momento inteiramente, ser capaz de abandonar.

Ousar seguir prendendo-se a nada,
Voar mais alto, se preciso for,
Pois os únicos laços, nesta longa estrada,
Que jamais se rompem, são os do Amor...




Visitem Alba Vieira
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Minha Querida: - por Aaron Caronte Badiz

Vivemos juntos há anos. Já fomos mais que irmãos, já fomos amantes, já fomos muito amigos, já fomos confidentes. Houve um tempo em que nós éramos um: a mesma forma de pensar; todos os medos expostos, você sempre buscando meu colo, se aconchegando no meu ombro para contar suas desventuras e seus dias; as noites em claro entre sorrisos e lembranças; as refeições temperadas a reflexões, divagações e análises existenciais.
Hoje continuamos aqui, juntos, mas somos dois. Eu sempre no escritório, você na cozinha. Ouvimos músicas diferentes; não assistimos aos mesmos programas; os relatos de seus dias são curtos; meu colo não te abriga mais; seus medos (se é que os tem), você os enfrenta sozinha; meu ombro está esquecido, apenas se curvando cada vez mais facilmente ao peso dos dias; as noites são de sono escuro e silencioso; as refeições são acompanhadas pelas notícias dos telejornais, que nem comentamos, pois refletem, monocordicamente, este mundo errado em que vivemos.
Então eu me pergunto e te pergunto: será que já nos conhecemos tanto e equilibramos tão bem dentro deste estado humano, que as palavras não são mais necessárias; ou será que, em algum momento de nossa jornada, sem sentir, nós nos abandonamos?
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Abandono - por Adhemar

Nas canções que eu canto
tu me lembras sempre;
pra secar teu pranto
eu fiquei ausente...

Também,
não te escrevo mais!
Qual sentido tem
querer-te e ter paz?...

Também,
qual é o meu caminho?
Quis ter-te comigo
e fiquei sozinho...

O caminho vai
muito além dos cantos,
das canções que canto
pra secar meu pranto...


(p/ BSF)
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Visitem Adhemar
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Abandonados por Nós Mesmos - por Adir Vieira

Abandonados estamos de nós mesmos. Quantos de nós ainda nos olhamos com aqueles olhos benevolentes da descoberta? Quantos de nós, tomam conta do corpo, dos pensamentos... Quantos de nós se dedicam a si mesmos, como pessoa, única e exclusivamente. Não sei se por medo de ir fundo nas descobertas talvez desagradáveis que compõem até o ser mais preparado, ou mesmo se por desleixo por se considerar já pronto ou, apenas, por ter que cuidar da sobrevivência.
O que sei é que o abandono de nós mesmos já se dá desde muito cedo, quando abrimos mão de nossos mais ínfimos desejos em prol de outros, seja da sociedade que nos rodeia ou da própria família que nos exige cada dia mais concessões.
Estou aqui na janela do meu quarto e acabo de levantar. Em frente a minha janela, o pátio de garagem do prédio vizinho. São apenas seis horas da manhã, mas dois meninos gêmeos, de apenas sete anos, acompanham e são puxados pela mãe para o carro e mostram visivelmente que preferiam estar na cama sonhando sonhos azuis.
A mãe, ao mesmo tempo em que os força a entrar no carro com uma das mãos, com a outra penteia freneticamente os cabelos.
Dois tipos de abandono: o da mãe por si mesma em fazer valer sua sobrevivência e o dos meninos em deixar pra trás seus primeiros desejos de dormir e sonhar.



Visitem Adir Vieira
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Abandonada - por Alba Vieira

Sozinha entre iguais desconhecidos
E abandonada pela sensatez
Disfarço e ando solta. Faz sentido?
Incrível essa minha desfaçatez!

Pareço pensar como todo mundo
Ninguém imagina o que em minha mente vai
Se pudessem lê-la nesse segundo
Veriam, claramente, a causa dos meus ais.

É que meu universo é tão sombrio
Que parece para nada haver esperança
Eu me debato sempre nesse caudaloso rio
Enquanto aguardo (paradoxo) a bonança.

E vou tocando os dias sempre iguais
Fazendo só o que deve ser feito
Sem cor, sem brilho, só fatos banais...
Pois que o problema é o olhar que não endireito.

Chamem de depressão ou de falta de graça
Não importa o nome que se dê
O fato é que não consigo escapar da trapaça
Que o mundo fez comigo ou eu mesma fui capaz de fazer.

É isso mesmo, vejo claramente agora
Não é Deus nem o mundo, sou eu que me abandono
E pra poder dar uma reviravolta nessa hora
Ao invés de me vitimizar, só tendo comigo o definitivo confronto.



Visitem Alba Vieira
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Tributo aos Meus Amigos - por Alessandro Santos

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MEDO DO ABANDONO
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Tenho medo de ser abandonado
Não abandonado por meus amores
Pois são estes efêmeros.
São chamas que se apagam
Ao balancear de ventos fortes
Que anunciam as tempestades.

Tenho medo que me faltem os amigos
Que eles me abandonem
Que me falte o brilho de seu sorriso
E a melodia de suas vozes
Ao entoar lindos hinos de alegria.

Tenho medo que as amizades virem cinza
Em meio ao fogo de um momento
A raiva de um instante
A discussão de um minuto
O estopim de uma palavra
Mal dita e mal entendida.

Tenho medo de que a distância
Por mais perto que pareça
E mais longe que seja
Seja um precipício, intransponível
Vigiado por um rio profundo
E inquietante em seu percurso,
Que evita que nos aproximemos novamente,
Que lembremo-nos dos bons tempos.

Tenho medo de que meus sonhos
Se tornem ambiciosos demais
E sufoquem os sonhos de meus amigos
Tenho medo de que meus sonhos
Se tornem inquietantes demais
E que em busca de realizá-los
Eu me esqueça de minhas amizades.

Tenho medo de acordar
E descobrir que as amizades
Eram apenas sonhos.

Tenho medo de dormir
E descobrir, ao acordar,
Que meus amigos se foram.

Tenho medo de dormir novamente
E mais uma vez acordar
Dormir, acordar,
E não desfrutar do prazer que amigos nos dão.

Tenho medo de ser eu
Sem ter você, amigo
Companheiro, chato
Brilhante, sincero,
Falso, inteligente...
E todas as faces que você tem
Quando eu preciso delas
E, mesmo sem dizer nada,
Você sabe qual deve usar.

E ao mesmo tempo em que tenho medo
Tenho esperança
Esperança de que nunca me faltem amigos
Esperança de que nunca eu perca amigos
Esperança, ESPERANÇA.

Tenho esperança
Esperança de que as cinzas das discussões
Geradas em meio ao fogo de um momento
Em meio à raiva de um instante
Em meio à discussão de um minuto
Em meio ao estopim de uma palavra
(Mal dita e mal entendida)
Seja matéria-prima da ressurreição
Assim como Roma voltou das cinzas,
Assim como a fênix ressurgiu das mesmas.
Ambas mais fortes, mais inabaláveis,
Mais tudo.

Se eu acredito serem possíveis tais coisas?
Eu acredito em tantas coisas más que o mundo me impõe
Que acreditar em meus amigos
E a infindável amizade entre nós
É uma das maneiras de ser feliz.

A certeza de uma vida repleta de amigos
É combustível suficiente
Para a certeza e o desejo de viver.

E assim
Tendo a esperança do meu lado
Meu medo se dissipa
Esperança, como dizem,
É a última que morre
E enquanto ela não morrer a certeza continua
E uma luta também:
Viver com um infinito de amigos
E ter um infinito de amigos pra viver.



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Abandono - por Ana

Eu te abandono agora
E sem dor na consciência.
Esgotei todo o amor
E a minha paciência.

Por anos me dediquei,
Em troca só veio coice.
Inteligência é pra isso:
Um dia passar a foice.

Vai cuidar da tua vida,
Que da minha cuido eu.
Eu fico melhor sozinha.
Sai do meu pé, Zebedeu!

Eu levo aquela ampulheta,
Tu fica com a frigideira,
Também vou levar a mala,
Pode ficar com a fruteira.

Enfim minha liberdade,
Não ter mais que te aturar.
No more engomar cuecas,
Ver Esporte Espetacular,

Nunca mais festas na laje,
Não mais churrasco domingo,
Nem desencravar tuas unhas,
Nunca mais pisar num bingo,

Não passar mal com teus puns
E teu cheiro de chulé,
Não aparar mais teus pelos,
Nem aturar a outra mulher

Ligando pra cá todo dia,
Gritando no meu ouvido,
Cobrando a pensão dos filhos:
Zezé, Luizinho e Fido.

Vou-me embora, já cansei!
Deixo o cachorro pulguento,
O Faminto é seu, se vira!
Acabou-se meu tormento!

O carro fica contigo
(Aquela banheira velha),
Vou levar os DVD’s,
Tu fica com a louça e a grelha.

Do resto não faço questão,
Nem da cadeira de vime.
Meu Deus! Eu tô exultante!
Ser tão feliz é quase um crime!
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Abandono - por Ana Lucia Timotheo da Costa

Barriga à boca
ela caminha.
Pés inchados,
sandálias velhas,
filho a caminho.
Sequer sonha,
sequer vive.
Apenas resiste.
Como pensar no amanhã
se não vive o hoje?
Mais um será cuspido
à terra do abandono.




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Abandono - por Ana Maria Guimarães Ferreira

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Abandono do lar
Abandono do incapaz
E do que é capaz
Abandono material
E do espiritual
Abandono intelectual
E do que não é normal
Abandono afetivo
Desapego emotivo

Quando você abandonou
Nosso lar,
Nossas coisas materiais
E espirituais
Nossos livros
Nosso encontro intelectual
Até mesmo nosso amor
Tudo o que era normal
De repente
Virou anormal

Senti o abandono afetivo
Do desapego
Do apego perdido
Do amor escondido
E reprimido
Sofrido
Sentimento invisível
Que me consumiu
Uma sensação
Estranha
Indecifrável
Esquisita
De que tudo
Tem um fim
Até os sonhos se acabaram
Se transformaram em nada
Em impossível
De ser
De ter
Sem você
Esse olhar inexistente
Que não sinto mais em mim
De tua voz agora muda
Que não fala
Aos meus ouvidos

Só sei
Que eu fui morrendo aos poucos
Em todos esses anos
Que fiquei esperando por você!



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Abandono - por Cacá

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“...Migalhas dormidas do teu pão
Raspas e restos
Me interessam
Pequenas porções de ilusão
Mentiras sinceras me interessam
Me interessam, me interessam...”
(“Maior Abandonado”, Cazuza)
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Eu fui procurar uma senhora que vi no jornal. Lá na praça da rodoviária onde ela vive. O que me chamou atenção não foi o abandono. É que ela é da minha cidade, Itabira. Está aqui em Belo Horizonte porque os filhos a abandonaram ou ela abandonou os filhos. Não sei de quem partiu a iniciativa. Isso virou algo tão corriqueiro nas ruas das grandes cidades que esses seres são como elementos da paisagem urbana. Como postes que se mexem e têm vontades de vez em quando. Só são notados pelo cheiro que incomoda, pelas necessidades fisiológicas que fazem nas ruas. Mas esse não é um tema que eu quero para uma crônica sobre abandono. É um caso crônico de polícia, justiça, das injustiças que já não fazem tanta diferença a quase ninguém. É assim, dizem quase todos: uns vencem na vida, outros não. Têm milhares de argumentos, de justificativas, umas mais sórdidas que as outras. Têm até teorias sociológicas, psicológicas de que a desigualdade é inerente ao ser humano.

Atualização da teoria de Malthus. Aquele inglês que disse, no século dezoito, que a melhor maneira de se acabar com a pobreza era eliminando os pobres através da fome, das pestes e das guerras. Em certa medida, mesmo que não esteja nos programas de governo do mundo, tem dado resultado. Outro dia eu vi um senhor dando umas moedas para um homem imundo e maltrapilho na rua. O homem estendeu a mão para agradecer ao senhor e este recusou. Depois se virou para os passantes e com aquela fisionomia de asco (acho que era asquerosa), comentou “Tá louco, que nojo!”.
Ainda não é dessa forma que queria tratar do abandono em uma crônica. Que saco!

A senhora da entrevista era articulada no linguajar, disse que possuía casa, já teve trabalho, mas resolveu ir morar nas ruas. Quando a pergunta era sobre os filhos ela desviava o olhar despistando as lágrimas que insistiam em derrubar a sua altivez momentânea e vacilante.

A mídia faz sempre esses trabalhos maravilhosos. Mas fica lá num canto de página. O que importa mesmo à grande maioria é a chamada de capa, a manchete (resulta em venda imediata). O resto cai no esquecimento, no abandono também.

Já reparou que com o advento do “politicamente correto” o menor abandonado ganhou o eufemismo de menino de rua? Fica até mais fácil mantermos o estado de abandono com menos culpa. A semântica ajuda bastante nos gestos.

O abandono não encontra redenção em nenhuma teoria. Não sucumbe à insensibilidade. Saí daquela cena. Na mente, uma definição doída: a fotografia da indiferença jogada ao relento.
Não consigo falar mais nada.
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Visitem Cacá
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Abandono - por Dália Negra


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Eu te abandonei três vezes.
Tirei de mim, joguei, vivo, aos cães.
Eu te arranquei de mim. Peito aberto.
Rasguei o coração com os dedos.
Escavei com as unhas.
Até não haver nada de ti.
Revirei a alma, aflita, buscando tua presença.
Onde a encontrei, apaguei com a indiferença.
Nas profundezas sombrias de fogo e dor queimei as lembranças.
Em meu pensamento maldisse tuas cinzas e as arremessei no mar do esquecimento.
Limpei-me de ti. Peito fechado.
Mas junto contigo foram minha alma e coração.
E me ficaram as cicatrizes.
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Abandono - por Dan

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Abandonar uma pessoa é um ato de renúncia, desprezo, desleixo. Falta de amparo. Praticam o abandono os pais que deixam, sem justa causa, de prover o sustento, a guarda e a educação dos filhos menores de 18 anos.
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- Não foi assim que eu pensei, Roberto, queria uma família.
- Não se forma uma família da noite para o dia. E o garoto só está aqui há 3 meses.
- Reclamação da escola todo dia, assim vai ser expulso. Ele não tem jeito, nem é branco, eu queria um bebê, assim nem precisava saber que era adotado. Depois de hoje não fico mais com ele.
Daniel olhava para a janela do carro do juizado, pensando nestas palavras, nem as entendia direito, mas elas machucavam seu coração e faziam seus olhos encherem de lágrimas.

Todos os pais, adotivos ou biológicos, assumem riscos, criam expectativas e sonhos em relação aos filhos. Surpresas, dificuldades e decepções sempre poderão ocorrer, de ambas as partes. Diante das dificuldades encontradas, alguns pais pensam em devolver a criança.

- Ângela, se devolvermos o Daniel dificilmente nos deixarão trazer outro, dirão que não estamos preparados, e com razão.
- Olha meu estado. Tenho de aguentar as pessoas me olhando. O Daniel é diferente, Roberto, diferente de nós. Todos percebem isso. E sua índole não é boa. Quanto mais falamos, mais ele comete erros, mais ele faz questão de me humilhar perante os outros.
- Ele nem sabe o que é humilhar, só tem 4 anos, não abstrai as coisas.
- Não me venha com esse papo intelectual, não é você que passa o dia com ele, não é você que tem de aguentá-lo todas as horas.
- Ângela, você também trabalha, ele fica com a babá.
- Eu não aguento mais ele. Quero uma criança menor, e branca, que eu possa moldar que eu possa chamar de filho. É isso que explicaremos no juizado, tentamos, mas não deu certo!

Filho, pessoa que pula no nosso colo, que nos olha com carinho, que abre aqueles olhos esbugalhados e ri com aquele jeitinho maroto pedindo por amor e atenção. É só deixar de lado os preconceitos e olhar pra ele como alguém a ser conquistado.
A criança, por menor que seja, quando passada para a guarda de uma família tardiamente, já teve sua vivência de abandono e sofrimento. A adoção é, em primeiro lugar, um ato de amor, um ato de altruísmo, não de egoísmo, uma forma de partilhar este amor e este altruísmo é constituindo uma família. Adotar uma criança é amar quem já sofreu e está aqui...

Daniel sozinho no banco de traz no carro do juizado não entendia direito o que tinha acontecido com ele: primeiro foi retirado da mãe muito pequeno, para morar no abrigo, depois foi morar com uma família, que achou que era para sempre e agora esta voltando para o abrigo. Será que seu destino é ficar só? Por que ninguém o quer? Ele era feliz, ficou infeliz, depois ficou feliz de novo e agora novamente infeliz.
O que Ângela não sabe é que o abrigo não é um pet shop, e Daniel muito menos é um cãozinho numa vitrine. Ele é uma pessoa, na verdade uma pessoinha em carne e osso, que foi abandonado e emocionalmente abusado, por isso sua ambientação é muito difícil, pois nunca teve uma família só para si.

O carro finalmente chega ao abrigo, Daniel sai, a Diretora vai recebê-lo com um beijo e palavras carinhosas. Está muito triste e começa a chorar, mas logo reconhece os amigos e sai para brincar...
O que Daniel não sabe é que Roberto e Ângela são os seres mais burros do universo e não puderam ver a pessoinha extraordinária que estava na frente deles e o quanto é grande seu coração e o quanto é fácil de amá-lo, fácil de fazê-lo feliz, fácil de fazê-lo filho. Mas um dia ele vai pertencer a alguém. Alguém que o ame sem egoísmos, que o ame sem preconceitos. Alguém que o leve para casa e o faça se sentir bem.
Que o faça se sentir pertencer a alguém.
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Visitem Dan
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A Rosa Amarela - por DAS


Num certo momento da vida, nossas estradas se encontraram e tornaram-se uma só.
Por um tempo, plantamos flores ao longo do caminho e cuidávamos diariamente desse amor. Assim, a cada amanhecer, o sol banhava com sua luz esse jardim, cheio das mais variadas rosas e borboletas, tornando vivas suas cores e fazendo dele um imenso arco-íris!
Tudo era lindo e conseguia até ver um futuro. Bastava fechar os olhos e ele estava ali: um lugar mágico, cheio de vida, de sonhos... Era perfeito!
Eu pensei que fosse...
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.Como em todo jardim, as ervas daninhas espreitavam e os espinhos existiam.
Num certo momento da nossa estrada, o colorido deu lugar a um verde musgo, feio... Os espinhos, antes, quase inexistentes, tornaram-se fortes, aumentaram e passaram a ferir cada vez mais fundo.
Em desespero, tentei arrancar tudo com as próprias mãos, numa tentativa louca de fazer voltar o colorido, a paz... o amor...
Eu tentei de tudo!
Tirei forças de onde nem sabia que existia, mas, infelizmente, não foram suficientes!
De repente, eu estava só, sofrendo, com aquela dor invisível, mas tão insuportável... Minhas mãos sangravam, mas não tanto quanto meu coração!
Desabei no chão, sem forças. Senti frio, senti o vazio tomar conta de todo o meu ser... Não havia mais nada!
Eu estava perdida dentro da minha solidão, do meu desespero... Queria gritar por ajuda, por respostas, mas não conseguia! Só as lágrimas estavam ali comigo. Muitas delas!
E inundaram tudo ao meu redor...
Completamente entregue a esse universo de sofrimento... acabei adormecendo.
Não sei quanto tempo fiquei ali, morta pro mundo e querendo realmente estar morta, pois pra mim não havia mais nada à minha frente, só a escuridão da noite e aquele frio que doía tanto...

Quando despertei do meu torpor, abri os olhos devagar e respirei fundo. Tudo estava do mesmo jeito. As lágrimas haviam secado, mas uma nova enxurrada estava por vir, eu sentia.
Foi então que o vi...
Era pequeno e fraco, mas a cor prendeu minha atenção... Um botão de rosa de um amarelo muito vibrante bem ali, do meu lado... Tinha nascido no mesmo lugar onde minhas lágrimas haviam caído.
Um raio de sol o iluminou e aos poucos ele foi se abrindo, transformando-se. Fiquei paralisada. Prendi a respiração, com medo que um leve sopro pudesse matá-lo.

Uma rosa diferente de todas que eu já tinha visto formou-se... Era linda!
Senti uma lágrima rolar pelo meu rosto, mas o motivo era diferente agora.
Não era mais por tristeza...
Respirei profundamente.
Agora era por esperança!
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..
Visitem DAS
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Abandono - por Edlúcia Ster

Brasil, 1914. Missionários salesianos chegam à Amazônia. Arrogam-se o direito de achar obscenos os corpos nus dos índios. Colocam roupas neles, sequestram as almas deles, apropriam-se da mente deles. Lançam sobre eles olhares que poluem, que transformam beleza em lascívia, pureza em pecado. Desde a chegada daqueles de além-mar, estamos à deriva, abandonados à nossa própria sorte. Foi catequese de um lado, escravidão de outro...
Abandonar a carne, tradução do termo latino que deu origem à palavra “carnaval”. Depois o significado seria invertido: abandonar-se à carne. Ou comer vorazmente a carne? Mergulhar na carne? Afundar-se na carne? Estar faminto como o carnaval que a todos devora? Devoramos carne, dia após dia: a carne exposta na violência, na sexualidade desenfreada (esvaziada, reduzida, simplificada, empobrecida, dessignificada)...
Abandonamos nós mesmos, abandonamos o outro. Colha o abandono: adote uma flor, um arco-íris, uma criança...



Visitem Edlúcia Ster
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Abandono - por Frederico Salvo

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Dentro de mim houve um dia,
Repleto de áurea alegria,
Um outro eu que hoje mora
Distante, pois foi embora
Perdido em melancolia.
Ficou tão somente a saudade
Que desde a mais tenra idade,
Covarde lhe perseguia.

E como foi isso, ora pois?

Foi sem dizer aonde ia
Numa noite em que chovia
À cântaros; que maçada:
Sozinho na madrugada
Partiu frente à ventania
Deixando no abandono
O peito que era dono
Daquele um que partia.

E o que levou consigo?

Levou a fotografia
D’um riso que pertencia
A um passado distante,
Uma graça emigrante
Que lhe fugira da vida
Fazendo entristecida
Sua doce fantasia.

Não havia outra saída?

Não. De fato não havia.
Era triste em demasia.
Como ave que não voa,
Harmonia que destoa,
Quimera que não pode ser.
No tal amor queria crer.
Infelizmente já não cria.



Visitem Frederico Salvo
.
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Abandono do Lar - por J.F. de Souza

fica a casa
abandonada

fiz de ti
minha morada

mas você foi
embora

agora,
estou


eu
e mais
nada




Visitem J.F. de Souza no seu blog pessoal e no Blog de 7 Cabeças
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Cadeira Vazia - por Ju Blasina

Teria te amado tanto
E por tantas vezes te faria sorrir
Teria te dado orgulho
E alguma preocupação, é verdade
Brigaríamos por vezes
Noutras te odiaria
Mas no final, tudo seria perdoado
E entre lágrimas e abraços
Voltaríamos a nos amar “como sempre”...
E nos momentos mais importantes da minha vida
Não restaria esta cadeira vazia.
Tua ausência sempre se fez presente
Posso ouvir, no silêncio, as palavras nunca ditas
Quando tudo o que me resta são memórias
Um tanto escassas, um tanto falsas
De alguém que mais imagino
do que conheço
E queira ou não queira
Por mais que eu negue
a saudade do que não foi
Onde quer que eu me esconda
Estarás sempre presente
Pois parte de ti, por menor que seja
Mora eterna em meu ser
E mesmo que nunca venhas
Sempre haverá uma cadeira vazia
Escondida, em algum lugar da minha vida
Ainda esperando por ti...




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