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sábado, 14 de fevereiro de 2009

Descoberta

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domingo, 8 de fevereiro de 2009

Fernando Pessoa, “Eros e Psique” - Citado por Alba Vieira

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
.

Folhetim - por Vicenzo Raphaello

Tempo fazia que ela partira

Retraído
calado
triste
solitário

Mudou-se dos jardins
para o centro
Praça das Palmeiras
Num ap foi morar

Passava o tempo sentado
numa varanda
olhando sombras de gente
que sumiam sob as sombras das árvores

Levanta-se
coração palpita
quando de uma sombra
se faz a imagem
da mulher ausente

Ansioso
observa por dias seguidos
o ressurgir daquela imagem querida
Saudade sofrida

Volta a coragem
desce
sentado no banco espera

Ela aparece
com cuidado ele se achega
Você?
Com um gesto ela assente
O rosto amado
sua mão acaricia
com forte receio do encanto quebrar

Leva-a ao seu canto
inerte
com olhar marejado
de tanta ternura
ela beija-lhe os olhos
já na cama

Na sombra do quarto
ela vai
retorna
em quase plena nudez
como do último encontro

Ao seu lado deitada
com ansiedade
carícias acontecem
As mãos entre as coxas
no lugar do vazio
volume encontra

Enganado
com fúria reage
Aquele rosto cobre
tentando esconder
a vergonha
daquele engano
e assim permanece
quanto tempo não se sabe

Sabe-se porém
que tempos depois
jornais noticiam
a morte obscura
de homo casal.
.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Descoberta - por Alba Vieira

Seria descoberta o que me aconteceu ou acaso mais um resgate nesta já tão longa existência?
Experimento esta terra clara, sem cheiro, sem gosto, que se liga facilmente e vai-me permitindo, devagar, criar formas que são familiares para mim. Aprendi a trabalhar com argila ontem e a emoção do aprendizado foi enorme. Sentir a temperatura fria desta terra nas minhas mãos, que vai subindo à medida que o contato com ela vai aumentando… é maravilhoso. A argila permite esta troca de energia que é tão terapêutica.
Tomei uma porção de terra nas mãos e iniciei uma brincadeira de tentar moldar alguma coisa. Foi inútil. Percebi que não deveria conceber antes a imagem e passar a moldar as formas; pelo contrário, deixava minhas mãos livres para que, tocando a argila, como que fazendo carícias, ela cedesse à força das mãos e desvendasse a forma que seria então possível. À medida que eu percebia a forma em potencial e continuava alisando a peça, sentindo nas pontas dos dedos o que ela queria soltar, como queria exprimir-se… ela ia se revelando. Fui visualizando as formas, o nascimento da figura, as curvas do corpo que ia sendo moldado, a sua postura, a expressão do rosto, a totalidade da peça. Às vezes queria refazer algumas partes, acentuar uma curva, aumentar uma protuberância, afinar um traço e notava que, se quisesse realmente controlar algum detalhe, ele se perdia. Eu violentava a peça. Ela existia por si própria. O processo de criação, uma vez iniciado, tem vida própria. O artista tem que ter a sensibilidade de acompanhá-lo, seguindo seus passos apenas, sem desviá-los. De outra forma, mata a criação.
Moldar uma peça é como proceder no amor. Tocamos e sentimos o que o toque provoca no outro. Tantas vezes as reações são leves, tão sutis que podem escapar aos sentidos daquele que não estiver por inteiro na relação e assim se perde o melhor, o efeito não estará à altura do esperado. É uma relação. Depende de um e de outro. É preciso estar inteiro no processo da criação. Temos que captar as sutilezas para atingir o êxtase. De acordo com a sensibilidade do músico, será possível tirar, do mesmo instrumento, variadas qualidades de som. Assim é no amor, que é arte, e em qualquer arte.
Falei em resgate porque senti que já sabia fazer aquilo e sabia que alguma parte de mim havia registrado este conhecimento, esta vivência; então não foi uma descoberta… antes, foi redescoberta. Entrar em contato com habilidades perdidas no tempo é difícil de explicar, mas no fundo, bem lá no fundo, a gente percebe que já sabe aquilo.
Também no amor é assim. Há, em nossa alma, a vivência do amor verdadeiro. Nem sempre alcançamos o quanto sabemos amar porque o que importa não é o que o corpo sabe fazer nem o que a mente quer que o corpo faça; no amor, corpo e mente, juntos, conduzem à música orquestrada pela alma. Na relação com o outro o ego se perde, só quando ele cede a alma toma para si a condução do espetáculo, e só assim é grandioso porque é pleno, porque a alma sabe, porque já amou de verdade em alguma vida, em algum ego que já foi.
No amor, na arte, na arte do amor não há controle: há presença, agudeza de todos os sentidos, há entrega. E para a plenitude deve haver a transcendência dos sentidos. E no gozo, como na arte com argila, só se é tudo quando se permite não se ser nada. A peça só aparece quando não esperamos nada dela, quando soltamos as mãos, suavizamos os dedos para que, na dança com a argila, componham a música orquestrada pelo maestro maior que é Deus em nós, a expressão da alma.
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