O lançamento recente de novidades no universo
do Super Mario Bros trouxe de volta um personagem que muitas crianças já
conhecem e adoram. E, se você parar para observar com um pouco mais de atenção,
ele pode ajudar muito a gente a entender algo importante sobre ansiedade
infantil.
O Mario não é um personagem que vive em um
mundo fácil. Ele encontra obstáculos o tempo todo, erra, perde, precisa
recomeçar e, ainda assim, continua avançando. Isso se aproxima muito mais da
vida real do que a ideia de que a criança precisa estar tranquila o tempo todo
para conseguir lidar com as situações desafiadoras.
A ansiedade, na infância, faz parte do
desenvolvimento. Ela aparece diante de situações novas, desafiadoras ou
incertas e prepara o corpo para reagir. O problema não é a ansiedade em si, mas
quando ela começa a ser intensa demais, frequente ou passa a limitar o
comportamento da criança, fazendo com que ela evite situações importantes para
o seu crescimento.
E aqui está um ponto que costuma confundir
muitos pais: ansiedade infantil nem sempre aparece de forma óbvia. Em vez de
dizer que está ansiosa, a criança pode se mostrar irritada, chorar com
facilidade, ter dificuldade para dormir, reclamar de dor de barriga antes da
escola ou evitar atividades que antes eram simples. Em muitos casos, ela não
consegue explicar o que está acontecendo, mas demonstra através do
comportamento que algo não está bem.
Diante disso, é natural que o adulto queira
proteger a criança, mas essa tentativa pode reforçar o ciclo da ansiedade.
Quando a criança evita uma situação difícil e sente alívio, ela aprende que
evitar funciona. Aos poucos, começa a depender dessa estratégia e o mundo vai
ficando menor.
Se você imaginar o Mario nesse cenário, pense
no que aconteceria se, toda vez que ele caísse em um buraco, o jogo ou o filme
simplesmente eliminasse os obstáculos para que ele não errasse mais. No começo,
isso poderia parecer mais confortável, mas, na prática, ele não aprenderia nada,
não desenvolveria habilidade e não conseguiria avançar para fases mais
complexas, além de ficar bem sem graça, não é?
Fases fáceis demais e sem desafio não são
divertidas para jogar, assim como fases difíceis demais e impossíveis de
passar, acabam com a brincadeira.
Na vida real, o processo é semelhante. A
criança precisa de experiências em que ela consiga enfrentar desafios, mesmo
com algum nível de desconforto, para construir segurança e isso não significa
se expor de forma brusca ou sem preparo. Assim como no jogo, existe uma
progressão. O Mario começa com desafios simples e, aos poucos, enfrenta
situações mais complexas. Essa organização é essencial para que o aprendizado
aconteça.
Outro ponto importante é a forma como o erro é
tratado. No jogo, errar faz parte do processo. Ninguém espera que o Mario
acerte tudo de primeira, e o próprio funcionamento do jogo já prevê repetição e
tentativa. Quando a criança aprende que errar não é um problema, mas parte do caminho,
ela se torna mais disponível para tentar, experimentar e persistir.
Esse tipo de lógica não é apenas uma metáfora
interessante. A literatura científica mostra que jogos e brincadeiras tem um
papel relevante na redução de sintomas de ansiedade em crianças, especialmente
porque favorecem a expressão emocional, o engajamento e a construção de
habilidades de enfrentamento.
❌Se você olhar bem, a ansiedade do seu filho não é tão diferente de um jogo.
😞Tem fases fáceis, fases difíceis e aqueles momentos em que parece que ele travou bem no “chefão”.
😣O problema é que, na vida real, a criança não entende o que está acontecendo. Ela só sente e muitas vezes acha que não vai conseguir passar daquela fase. É aí que entra o treino.
✅Ansiedade não se resolve evitando o jogo, mas aprendendo a jogar melhor. Com estratégia, repetição e apoio, aquilo que parecia impossível começa a ficar enfrentável.
↪️E sim, vai ter erro no caminho, vai ter tentativa que não dá certo. Mas isso não significa fracasso, significa prática.
😀Seu filho não precisa vencer tudo de primeira. Ele precisa aprender que consegue continuar jogando.
Uma revisão sistemática publicada no JMIR
Mental Health, que analisou 22 estudos feitos com crianças e adolescentes,
indica que intervenções com jogos, inclusive jogos comerciais, podem gerar
melhora significativa na saúde mental quando utilizados como intervenção ou
complemento terapêutico.
Esses resultados são explicados, em grande parte, pelo fato de o jogo
funcionar como um ambiente seguro de experimentação, no qual a criança pode
testar respostas, errar e ajustar o comportamento sem consequências reais.
Os estudos incluíam ensaios
clínicos randomizados com diferentes perfis clínicos, como ansiedade e TDAH, e
apontaram que as habilidades aprendidas durante o jogo foram levadas para
situações da vida real.
Complementando esses achados, uma meta-análise mais recente identificou que
intervenções baseadas em jogos ajudam a reduzir sintomas de ansiedade e
depressão, principalmente quando há uma base cognitivo comportamental e uso em
contexto clínico estruturado. Ou seja: não é qualquer jogo usado de qualquer
jeito. A escolha dos jogos, a intencionalidade e o contexto, importam.
Resumindo: existem evidência
consistentes de que jogos podem reduzir ansiedade, aumentar o engajamento e
facilitar a aprendizagem de habilidades, especialmente quando estruturados com
princípios da terapia cognitivo comportamental.
Na prática clínica, esse tipo de recurso é
utilizado com intencionalidade. Em terapia, é possível organizar desafios como
se fossem fases, trabalhar a repetição sem que o erro seja visto como fracasso
e ajudar a criança a perceber o próprio progresso ao longo do tempo. O jogo
vira uma linguagem acessível para ensinar algo que, de outra forma, seria muito
abstrato.
Em casa, alguns ajustes já podem fazer diferença. Em vez de retirar a criança da situação que gera ansiedade, você pode ajudar a dividir o desafio em partes menores, tornando o enfrentamento mais possível. Também é importante valorizar o esforço, mesmo quando o resultado não é perfeito, e mostrar que tentar já é um passo importante. Além disso, normalizar o erro ajuda a reduzir o medo de falhar, que muitas vezes mantém a ansiedade.
Se a ansiedade estiver interferindo de forma
mais significativa na rotina, no desempenho escolar ou nas relações, o
acompanhamento psicológico é um caminho. A terapia ajuda a criança a
desenvolver estratégias para lidar com o que sente, em vez de apenas evitar, e
isso tem impacto direto na forma como ela se relaciona com os desafios ao longo
do desenvolvimento.
No fim, o que a gente busca não é uma infância
sem medo, mas uma infância em que a criança aprende que é capaz de seguir em
frente mesmo quando o medo aparece.
João tinha 9 anos quando os pais me procuraram com um padrão muito claro já instalado: ele recusava atividades que antes fazia sem problema, reclamava de dor de barriga antes da escola, ficava irritado diante de qualquer situação nova e, na primeira dificuldade, desistia.
Na
tentativa de resolver e sem muita orientação, os pais alternavam entre proteger
e cobrar, sem saber que os dois extremos estavam alimentando o mesmo ciclo.
O que
ficou claro desde o início é que João havia aprendido que evitar funcionava. Cada vez que saía de uma situação difícil e sentia alívio, o cérebro
registrava essa estratégia como eficiente e a lista de coisas impossíveis foi
crescendo porque ele nunca tinha a experiência de tentar e conseguir.
Na
terapia, organizamos os desafios como se fossem fases de um jogo. Começamos pelo que era mais fácil de enfrentar para que ele acumulasse
experiências de que era capaz. Cada pequena vitória era nomeada, celebrada e
usada como evidência contra o pensamento de que ele não conseguia.
Outro
ponto central foi a relação dele com o erro. Ele tinha
muito medo de errar. Por isso, preferia não tentar a tentar e falhar. Dentro do
processo, trabalhamos o erro como parte do caminho, não como prova de
incapacidade. Aos poucos, ele foi se tornando mais disponível para tentar,
mesmo sem garantia de resultado.
Com os
pais, o trabalho foi sobre como responder diferente. Em vez de retirar das situações que geravam ansiedade, aprenderam a
dividir o desafio em partes menores e a valorizar o esforço mesmo quando o
resultado não era perfeito. Mostrar que tentar já é um passo importante mudou a
mensagem que chegava até ele.
Esse caso
resume bem o que acontece quando o ciclo de evitação fica sem intervenção por
muito tempo. A terapia ajuda a criança a desenvolver estratégias para lidar com
o que sente, em vez de apenas evitar e isso tem impacto direto na forma como
ela se relaciona com os desafios ao longo do desenvolvimento.
No fim, o que a gente busca não é uma
infância sem medo. É uma infância em que a criança aprende que é capaz de
seguir em frente mesmo quando o medo aparece.
Se você reconheceu algo da sua história
aqui, me manda uma mensagem.