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sábado, 23 de agosto de 2014

Einstein, a sua Carta e Deus - Enviada por Penélope Charmosa

 
Conhecida como a Einstein God-Letter,  foi escrita no dia 3 de janeiro de 1954, aproximadamente um ano antes de sua morte. Foi escrita à mão, em alemão, e era destinada ao filósofo Erik Gutkind, de quem ele havia lido a obra “Escolha a Vida: o apelo bíblico pela revolta”.


A palavra Deus é para mim nada mais do que a expressão e produto da fraqueza humana, a Bíblia é uma coleção de lendas honoráveis mas ainda assim primitivas que são, do mesmo modo, muito infantis. Nenhuma interpretação, não importa quão sutil seja, pode (para mim) mudar isso. Estas interpretações sutilizadas são altamente influenciadas de acordo com sua natureza e tem quase nada a ver com o texto original. Para mim a religião judaica, como todas as outras religiões, é uma encarnação das superstições mais infantis. E o povo judeu ao qual eu felizmente pertenço e com a mentalidade do qual eu tenho uma profunda afinidade não tem, para mim, qualquer qualidade diferente dos outros povos. De acordo com minha experiência, eles também não são melhores do que outros grupos humanos, embora sejam protegidos dos piores cânceres por falta de poder. De outra forma, eu não posso ver qualquer coisa "escolhida" a seu respeito.
 
No geral, eu acho doloroso que você clame uma posição privilegiada e tente defender esta ideia através de dois muros de orgulho, um externo como um homem e um interno como um judeu. Como um homem você demanda, de certa forma, uma dispensa da casualidade de outra forma aceita, e como um judeu o privilégio do monoteísmo. Mas uma casualidade limitada não é mais, de forma alguma, uma casualidade, como nosso maravilhoso Spinoza reconheceu incisivamente, provavelmente o primeiro a fazê-lo. E as interpretações anímicas das religiões da natureza não são, em princípio, anuladas pela monopolização. Com tais muros nós só podemos alcançar uma certa auto ilusão, mas nossos esforços morais não são melhorados por eles. Pelo contrário.
 
Agora que eu abertamente expus nossas diferenças em relação às convicções intelectuais, é ainda claro para mim que nós somos bem próximos no que se refere às coisas essenciais, ou seja, na nossa avaliação do comportamento humano. O que nos separa são somente proposições intelectuais e racionalizações na linguagem de Freud. Desta forma, eu acho que iriamos nos entender muito bem se falássemos de coisas concretas. Com agradecimentos amigáveis e os melhores desejos.
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Mário Quintana e a Carta - Citado por Penélope Charmosa

Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.



In “Do Caderno H”.
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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Para: Minha Menina - por cleo.nefertiti

Talvez essa possa ser minha última carta, me desculpe pelo drama mas as coisas estão muito difíceis por aqui sem você. Eu lhe disse que não iria agüentar muito longe de casa.
Os campos já estão preparados e os soldados estão prontos para o combate, não queria estar aqui mas sim com você naquele antigo farol que nos acompanhou até minha partida, não quero que chore pois suas lágrimas só me fazem sofrer ainda mais, eu as sinto em meu coração.
Não sei se será nossa última baralha ou a primeira esperança de eu voltar para seus braços, minha querida. Acordo pensando em você, durmo imaginando como estará nessa casa fria me esperando. Saiba que se eu sair dessa vou te levar aquele parque que tanto sonha ir, faremos um piquenique e farei aquela geléia que tanto ama…

Fiz aquilo, uma coisa que nem imagina… É isso mesmo, fiz uma tatuagem em sua honra… Um amigo daqui me ajudou te desenhei em mim para que todos saibam que meu coração será sempre seu… Sempre… Sempre… Vou colocá-lo nesta carta, então quanto chegar até você e as letras estiverem pulsando não se assuste é só meu coração que está nestas…

Você lembra de nossa musica? A ouço todo o tempo, pois sei que faz o mesmo… A música do nosso primeiro beijo, embaixo daquele grande farol… Você não parava de cantarolar:

Se eu o beijar onde está machucado,
Se eu o beijar onde está machucado,
Você se sentirá melhor, melhor, melhor?
Você vai sentir alguma coisa mesmo?
Você se sentirá melhor, melhor, melhor?
Você vai sentir alguma coisa mesmo?

Nunca vou esquecer… E quando sobreviver cobrarei cada beijo que me prometeu…

Cada bomba que estoura em meus ouvidos parece a certeza de que nunca mais vou lhe encontrar… tenho tanto medo de lhe perder, todo esse tempo que esperei para lhe conquistar e saber que posso te perder em poucos segundos… Não quero mais brincar de soldadinho de chumbo, mas sim de vida real… Ha!! Como quero sentir algo real não apenas ilusões… Sim. Algo real com você minha doce menina…

TE AMO!

Jonn Spektor

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Verdades, Previsões, Lamúrias e Outros Bichos - por Ana

Queridos Bródi:

Pois é... ano novo, vida nova... Eu que o diga!... Mais responsabilidades, mais trabalho, ligação intensa com a família... Eu GOSTO MUITO de todas estas coisas, mas... diz o horóscopo chinês que as pessoas de galo, tigre e sei-lá-o-quê vão ter um 2010 de muita sorte. Até agora, eu, que sou tigre de acordo com o povo de lá, não vi isso não. Tô vendo é muita coisa pra fazer, demandas que não acabam mais... De tigre refestelado em galho de árvore depois de um ótimo almoço sem muito esforço, tenho é nada. Não existe o cão labrador? Pois é, sou o tigre laborador. E tô mais pra outros bichos... Pareço um castor consertando desesperadamente seu dique antes de uma baita tempestade, formiga reparando formigueiro recém-pisado ou um polvo trabalhando numa linha de montagem em alta velocidade. Daqui a pouco meus tentáculos vão dar nó.
Não pensem que tô reclamando do trabalho, porque, como não sou normal, eu ADORO trabalhar. Mas é que então acontece uma coisa que tem tudo a ver com o Duelos: nesse ritmo frenético eu não consigo me inspirar... Quando termina a cota de tarefas do dia, sobra um tantinho de tempo pra ler o livro emprestado (o mais rápido possível, que eu não gosto de ficar com nada de ninguém) até não aguentar ficar mais de olho aberto.
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Eu visito o Duelos logo cedo, antes de ser atingida pela avalanche de tarefas esperadas e inesperadas (entendeu, Escrevinha, por que apareci no chat de “madrugada”?). Como sempre, passeio pelas mentes alheias com curiosidade e satisfação, pensando em interagir com elas e dizer estive aqui e gostei ou deixar comentários mais longos ou até sentar nas cadeirinhas do Duelos Café, calmamente, e fazer um lanchinho ouvindo boa música. Mas... qual o quê! O pc já está aberto em outras janelas, o telefone começa a tocar, outras palavras estão povoando minha mente de tal forma que não vem nem aquela maravilhosa centelhazinha de inspiração que sempre surgia quando eu lia vocês. Então lá vou eu arrancada, definitivamente, para outros mundos.
Ando me sentindo deserta, árida, pior que os coitadinhos de “Vidas Secas”: nem um cadáver de árvore ou caveira de jegue no meu horizonte pra contar história...
E assim começou meu auspicioso 2010: uma odisseia de concretude e a inspiração indo pro espaço...
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Referências: “2001: uma odisseia no espaço” e sua sequência “2010”; Ao Querido Brógui, de Fatinha.
Imagem: Dedo de Gente
Graciliano Ramos, Stanley Kubrick
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domingo, 14 de novembro de 2010

Carta. - por Thiago de Sá

Hoje senti o teu cheiro como há muito não sentia.
Os sentimentos de antes me voltaram à cabeça,
E fiquei aqui sozinho lembrando-me do quanto era gostoso acariciar o teu cabelo,
Sentir a tua pele...
E vê que me faz falta o teu beijo.
Mas, pela graça de Deus não posso viver o passado.
Contudo posso remontar o ontem nas perspectivas do futuro!
(Triste visão! Algemas que não me soltam.)
Já não são poucas as coisas que acumulei desde o último encontro.
E sem dúvida,
Não é mais novo
O sentimento de saudade que sufoca meu peito.
Como estará a tua vida depois de tudo que vivemos juntos?
Não sei. Gostaria de saber.
Porém, sei que a minha não é uma das melhores.
Entretanto sei o que existe dentro de mim,
E por este motivo acredito que tenho forças para erguer-me de qualquer queda.
Ser vitorioso não é apenas vencer,
Mas ser aquele que se supera depois da derrota.
A vida é um livro de longas páginas
E você deixou sua letra em uma delas.
Por isso será impossível esquecê-la.
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.......................................Visitem Thiago de Sá
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domingo, 31 de janeiro de 2010

Amor sem Fronteiras - por Aaron Caronte Badiz

Meu amor:
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Hoje venho lhe dizer que por todo o tempo que convivemos eu me senti um com você. Somos um casal com nossas diferenças pessoais, com nossas formas individuais, tão distintos um do outro... Mas ao mesmo tempo somos um mundo à parte de todos, um mundo harmônico, das mesmas palavras, das mesmas ideias, do mesmo pensar.
Somos um, meu amor, somos um só. E nós, dentro destas fronteiras que nos separam do que há lá fora, não temos nenhuma fronteira entre nós. E por isso eu te agradeço hoje e sempre.
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.....Com carinho,
..................Aaron
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Mi Amor - por Yuri

meu amor

eu estou ficando perdido, quando nada mais faz sentido
quando não tenho seus abraços, seus beijos... quando não tenho você!
nada mais esta fazendo sentido, é! esse circo todo só porque você não está aqui,
onde deveria estar o tempo todo.
eu sei que você está longe agora, mas eu sei que você pode me ouvir muito bem
quando mais ninguém estende as mãos, você me puxa do poço
quando mais ninguém me aguenta e é capaz de me entender, você me entende, e sempre fala as palavras certas
quando ninguém mais é capaz de buscar meu amor, você chega e faz carícias em meu coração
quando você não está aqui, eu desarmo ouvindo nossa canção
quando ouço sua voz de novo, o que quer você tenha feito de errado, já está certo o perdão
quando meu coração esta enterrado de agulhas... eu não sei pra onde correr, só até você
mas você está tão tão tão longe, eu sonho em te encontrar
esteja onde você estiver, desejaria ser a chuva para poder cobrir sua pele
mas seria inútil quando seu amor já cobre meu coração intensamente
mesmo longe eu posso te sentir aqui dentro, muito aqui dentro
mas sei que isso não basta, eu sei que pode parecer meio impossível tudo isso, mas não é!
se fosse escolher entre o que é melhor pra mim eu não escolheria estar aqui, assim!
mas já é tarde demais, talvez eu esteja mesmo doente de amor, obcecado por você
ou, talvez, te seguindo com meu coração e minhas intuições
sei que te esperarei aonde você for
eu estarei aqui no mesmo lugar! sei que trará a mais bonita flor, que simboliza só o nosso amor
nossos nomes escritos na árvore de uma ilha distante, já planejo minha morte ao seu lado
mas da vida não temos garantia de nada, nem nos mais poderosos jogos de magia podemos ver como será
o amor vivido, então aguarde, viva intensamente, e espere a vida te surpreender
porque o que é verdadeiro não é jogado ao vento tão fácil, o que sinto por você.
seu príncipe ainda te espera naquele antigo éden...
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Visitem Yuri
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Carta à Minha Alma (Se de Fato Existires) - por Leandro M. de Oliveira

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Sabes quanto é inexplicável. Muitos tentaram insistentemente me convencer disso, nunca acreditei de todo. E vós sois minha mais grave testemunha. Todavia, avesso àquelas implacáveis convicções produzidas em outrora, devo ceder. Há deveras alguns processos na mente humana que embora conduzidos por essa, não possuem um vínculo lógico com a racionalidade. Está acontecendo comigo agora. Alheio a tudo quanto foi de alto e elevado a meu pretenso entender, mergulho agora no túnel das lembranças mais frugais. Nenhum momento capital se me afigurou. Nem a lembrança de quando tive sexo pela primeira vez, nem a de quando chorei perdido ou a de quando fiz que chorassem por mim, nem mesmo o dia em que ganhei a primeira soma de dinheiro que me permitia mais que um punhado de balas e fui ludibriado por aquela velha que me vendeu coisas que eu nem queria. Nada. O frisson que nesse instante me domina é concebido de momentos banais, e ainda mais agudamente da displicência com esses. Vem me visitar agora, por exemplo, a lembrança que nem sabia se tinha, daquele dia de chuva. Um dia qualquer sem grandes eventos. Mas, lembro-me bem, a visão de meus pés pisando a terra molhada, a densidade do ar, o cheiro de vida acontecendo no ambiente... Tudo soa tão imaterial e mesmo assim tão presente. As formas assimétricas de minhas pegadas impressas no chão cor de chocolate, a fúria reconquistada das corredeiras do rio que com a chuva se despediam da vazante. O som da água contra as rochas na ribeira, o som dos cânticos pra sempre perdidos no tempo. Sempre. Haverão de existir em toda parte coisas perdidas, portos vazios, louça em cacos. Mas agora, depois de tempo passado é que posso enfim concluir. Na simplicidade daquele momento úmido eu estava em paz. Num assalto de inesperada transição fui dar em visita a outro quarto dessa casa estranha. Agora me vejo ainda mais remoçado. Minha pele lisa. Ainda virgem de pelos e espinhas, marcas de expressão ou testemunho dos anos. Olho à frente, como em mágica ou engenho do sobrenatural assisto à mulher de olhos agudos passar por mim. Não foi sequer um flerte, ela nem olhou diretamente. Mas como me lembro e de forma tão lúcida, do desenho assombrosamente perfeito de sua íris, naquela fração de segundo em que o sol raiava por sobre a fronte corada, pude testemunhar o reflexo que cega, a metamorfose de cores que daquela aquarela viva emanavam. Primeiro o negro, depois aclareando até um tom de mel e depois até um verde opaco. Misterioso, coisa em si ao mesmo tempo esparsa e concisa. Hipnótico como uma esmeralda tirada do útero da terra. Encantamento em estado bruto, perfeição não lapidada. Ela passou por mim. Foi quando nesse momento me dei ao exame mais apurado de sua silhueta. A textura de um algo esculpido por mãos superiores, o espírito das tentações míticas. Acho que foi ali, naquele acaso rápido, naquele momento insuspeitado, foi ali onde deveras aprendi a admirar uma anca. Não era mais possível retroceder. Não havia mais chances de tornar a ser criança. A invasão da masculinidade se fez em mim como tributo pago pelo fito ao desconhecido e eu subtraído da identidade cotidiana, nem me dei conta do que em verdade se formava à minha frente. De qualquer forma ela passou por mim, se foi pra nunca mais. Quantos anos faz? Dez, quinze? Não sei. Mas o perfume ainda habita minhas narinas como um hálito fresco. Mais uma porta cerrou, dei em outro quarto. Não reconheço o lugar, estou como que de olhos fechados. As sensações são familiares. Parte dos cabelos longos de uma moça deitados sobre meu ombro enquanto durmo, o cheiro que invadia a casa quando minha bisavó derretia rapadura pra fazer pé de moleque, o transe durante um beijo de quase hora em quem se gosta, ficar deitado ouvindo o som das tempestades de março. É tudo tão diverso e ao mesmo tempo tão uno. Filhos diferentes de um mesmo pai, dedos inaparentes da mesma mão. É como se durante a vida inteira eu tivesse feito a mesma coisa de várias maneiras. Uma forma diferente a cada dia, um dia em cada minuto. E sendo desagregado fui intenso, e perdendo o que mais amava encontrei a mim mesmo. É impossível recobrar a ausência adormecida por sob as areias do tempo. É impossível fazer planos quando a morte passeia por entre o bosque. Talvez tenha descoberto o enigma. Talvez entenda porque tanto me é agora revelado. Estou pra morrer! Há um pelotão de fuzilamento à minha frente. Nazistas, fascistas, judeus, cristãos, mulheres, crianças, chineses, neozelandeses... Gente de bem. Todos com armas apontadas. Todos estão com sede de sangue. Foi breve demais, minha alma. Será que de fato existes? Ou aquilo a que chamo alma é um departamento de arquivos que em momentos de angústia nos permite revisitar tudo o que não foi completamente sorvido pela percepção? Claro, um pouco de cada vez. Do contrário, o repertório se tornaria monótono. Parece injusto o fato de ter consciência de como se existe só quando esse estado de percepção vai prestes a fenecer. Nunca fui saudosista, aceito o novo, a mudança da biologia que é por si dinâmica. Entretanto, mesmo sabendo que não há perdão àquele que hesita, creio ter direitos de pelo menos nisso poder vacilar um pouco. Quase me entristece partir quando ainda existem tantos diamantes semeados pela estrada. Tão longa, tão sinuosa. Não tenho garantias e nem preciso tê-las. Durante alguns anos idealizei Valhala, onde os grandes ascendem à sede da imortalidade. Depois... Pó e sombra! Acidente da matéria, disso me senti composto. Quando a luz cessa sobre o corpo ele se funde com o esquecimento, deixa de existir. Foi bom sentir assim, foi bom ser tão livre quanto possível. Nenhum devir, nenhuma obrigação com a perenidade. O dilema de existir tem me vitimado nesses tempos. A consciência é minha porção divina? A consciência é o sintoma mais agudo da minha síndrome de fuga da própria condição? Pode ser que ocorra, talvez seja que tudo não passe de covardia. Seja como for, estou pronto. Posso morrer se assim o querem. Posso partir em vez derradeira. Mas como morrer ou partir? E se há algo depois? E se Valhala existe com outro nome, ou sem ele? Se esse escrito mesmo sobreviver, acaso não é uma forma de estar perene no inconsciente alheio e assim resistir à evasão última? O legado de cada um parece implacável, sempre reféns de nossos próprios fantasmas. Queria que alguém desligasse o plugue de meu corpo. Talvez uma oração sincera à santa da boa morte fosse útil. É pena, já não sou mais tão inocente. O pelotão faz mira em meu peito, engatilha as armas. Sei que a maioria das pessoas em meu lugar estaria no mínimo aterrorizada ou puta da vida, claro, no caso de que o medo permitisse essa última. Concretamente se pode dizer, pensar na brevidade da hora, ter ciência que caminha à extinção sem ter feito mais quando se podia. Andar a passos humanos por sobre a terra não é uma sucessão de horas coordenadas mas, antes, uma corrente infinda de questionamentos. Nunca ter perguntado o nome daquela moça, não ter rolado naquela lama que parecia chocolate, nunca ter se entregado à correnteza do rio que em minha frente seguia... Aos de osso e carne, lá estava, alheio e insondável como qualquer milagre deve ser. Sei que a indignação é legítima. Pelo julgamento dos que me conhecem e possivelmente daqueles que talvez me conhecerão (se houver para conhecer). Tenho tudo, ao mesmo tempo nada possuo. Não há segurança do que se leva, tão somente do que se deixa. Se acaso penetramos na totalidade daquilo que à nossa volta subsiste em silêncio. E são tantas coisas... É preciso mais que a eternidade pra chegar à comunhão plena e esse nó na garganta me fornece a suspeita vil de que talvez nem isso haja à disposição daquele que vai. Meu deus, meu deus por que me abandonastes?! Quando dei por mim já não estavas. Existes em aqui ou no sonho? Nas igrejas ou nos bordéis? Existes? Há muito não sei que são trombetas nem vejo anjos aqui ou lá. Queria ter a retidão dos monges, como não posso, galopo por sobre os sapatos, me meto a cabeça em fazer anarquias. Descendência de Caim. Tenho a praga dos hereges, se assim não fosse meu contento seria mais prático. Curiosamente, mesmo com toda a gravidade ainda quero sorrir. Poderia praguejar ou revoltar ou desesperar. Mas pra mim não parece justo. Como desperdiçar mais tempo se há entre nós tanta beleza?
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Att,
P.A
Porto Firme; Ano Domini? MMIX
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Minha Querida: - por Aaron Caronte Badiz

Vivemos juntos há anos. Já fomos mais que irmãos, já fomos amantes, já fomos muito amigos, já fomos confidentes. Houve um tempo em que nós éramos um: a mesma forma de pensar; todos os medos expostos, você sempre buscando meu colo, se aconchegando no meu ombro para contar suas desventuras e seus dias; as noites em claro entre sorrisos e lembranças; as refeições temperadas a reflexões, divagações e análises existenciais.
Hoje continuamos aqui, juntos, mas somos dois. Eu sempre no escritório, você na cozinha. Ouvimos músicas diferentes; não assistimos aos mesmos programas; os relatos de seus dias são curtos; meu colo não te abriga mais; seus medos (se é que os tem), você os enfrenta sozinha; meu ombro está esquecido, apenas se curvando cada vez mais facilmente ao peso dos dias; as noites são de sono escuro e silencioso; as refeições são acompanhadas pelas notícias dos telejornais, que nem comentamos, pois refletem, monocordicamente, este mundo errado em que vivemos.
Então eu me pergunto e te pergunto: será que já nos conhecemos tanto e equilibramos tão bem dentro deste estado humano, que as palavras não são mais necessárias; ou será que, em algum momento de nossa jornada, sem sentir, nós nos abandonamos?
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A Carta do Pai - por Thiago Benício

Até parece que nada te dei. Tudo o que tem, sempre sonhei. Foi pra você que fiz, e hoje sei que pareceu não ser suficiente, Não tive a sorte como pai de ter um filho consciente. Agora estou deixado pra trás. Nem sei de minha morte. Procuro mesmo não saber. Espero que tenha sorte e que progrida sem desprezo. E aqui estou neste lugar, um lugar de abandono seu, não tem ninguém pra conversar e discutir um futebol. Se um dia vier me visitar, traga aquela camisa do meu time, juntamente com o jornal de esportes para discutirmos...



Visitem Thiago Benício
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Metáfora da Rendição - por Alba Vieira

Estrelas se acendem em sequência,
Iluminando o negror do céu sem lua,
Todas as vezes que minha mente pensa
Que naquele momento minha boca é sua.

E o meu corpo aquecido se umedece
Como pétalas orvalhadas na madrugada
Que enfim se mostram. E rejuvenesce
Nas manhãs se abrindo em flor, sua amada.

Como é difícil conceber a minha vida
Sem a certeza de encontrar o seu olhar,
Farol que me protege das tormentas.
Eu que aprendi a me lançar em alto mar...

E então movida pela saudade que castiga,
Sem que exista ainda uma outra forma de chegar,
Peço perdão e rogo a os deuses com essa missiva:
Volte pra mim, meu coração é seu lugar.



Visitem Alba Vieira
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Meu Amor: - por Aaron Caronte Badiz

Digo, primeiro, que sinto saudade. Que viver sem você é doloroso e insuportável. Que apenas sonhar com seus beijos e carinhos numa insônia constante é tortura inominável. Que olhar sua foto ao lado da cama, sempre sorrindo para mim, entristece porque lembra sua ausência. Que sentir seus braços ao redor do meu pescoço quando estão tão longe é loucura irremediável. Que ouvir sua voz chamando meu nome pela casa é delírio incurável. Que estar distante de você é como viver sem coração.
E agora digo: volta. Para meus abraços, para minha alegria, para nosso aconchego, para nosso amor. Volta, porque a minha saudade é a sua, porque sua paixão sou eu e somos nós, porque tristeza tem fim e sua felicidade está aqui. Não volta porque te amo, e sim porque você sabe que me ama e que só o amor é capaz de completá-la. Volta, volta logo, minha querida, antes que eu te afogue em tantas palavras óbvias.
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Carta de Amor - por Adhemar

Amada.

Porque e pra quê são as únicas perguntas. Lembrar de você, pensar e desesperar num nó: esquecido por ti me pergunto por quê. Por que tua obsessiva presença nos meus sonhos? E nos meus pensamentos? A razão da procura está em cada canto onde passo.

Músicas sensíveis me retiram da realidade e me fazem procurar-te no mais alto onde tu possas estar. Depois, o pensamento se desvia, eu fico triste, registro no bloco os pensamentos opressivos - nesse calor que tua lembrança me traz... Mais uma vez estás aqui, tão viva que já nem posso ver a tua flor.

Sinto vontade de escrever, chorar, escrevo e choro numa esperança insana de te comover; choro pela tua flor morta nessa minha inépcia de te amar desesperadamente...

E é só o que posso fazer.

P/BSF
Visitem Adhemar
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Uma Carta de Amor - por Adir Vieira

Meu amor,
Como eu esperava, ainda não consegui dormir.
Estou sozinha na cozinha, envolvida pelos ruídos do prédio ao lado e ao mesmo tempo, espantada com a minha coragem. Em condições normais não vou nem ao banheiro sem acompanhante, nessa casa imensa. Mas hoje sinto que não importam os medos, não importa nada...
Só importa o meu arrependimento e a grande vontade de falar com você agora, como se você estivesse aqui.
Continuo carente, ansiosa e com raiva de mim mesma.
Você, só você me deu o céu, descobrindo o caminho das minhas vontades, dos meus anseios e, com isso, me deixou mais exigente, mais mimada, mais rebelde.
Estou terrivelmente arrependida de ter magoado você e, consequentemente, ficado frustrada.
Com a frustração de constatar que não sou tão poderosa e que é muito possível outros fatores interferirem no nosso amor. Acho que tenho me apoiado nos seus elogios e hoje, quando machuquei você, não esperava que você se rebelasse.
Lamentavelmente não sei disfarçar, nem acho que devo disfarçar pra você. Sei que deveria ser compreensiva como você acha que sou, mas não sou.
Você é carinhoso, dócil, amigo e eu magoei você. Não sonho com você. Tenho você.
Estou triste e não consigo chorar. Estou ávida por você de novo, como antes, inteiro...
Acho que estou ambiciosa demais nas minhas exigências.
Não sei de mais nada...
Só sei que você é minha vida e que eu não vivo mais sem você...



Visitem Adir Vieira
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Mando Notícias - por Alba Vieira

Escrevo-te somente após tanto tempo, não porque só agora me lembre de ti. Antes, recordo-me por quantas vezes tive que, a força, segurar o ímpeto de enviar-te muitas outras cartas que te escrevia apenas em minha mente, dizendo do meu amor.
Não, não estive afastada de ti, embora seja o que decerto te pareça.
O que ocorre é que me debati até agora em dúvidas de como estarias e como ficarias após teres notícias do meu amor que permaneceu inalterado, melhor dizê-lo, crescendo exponencialmente com o passar dos dias de tua ausência.
Pensava em ti, como ainda penso em todos os momentos. Imaginava-te pensando em mim, certa do meu amor e eu com a certeza do teu. Mas, como ousar e enviar-te uma só palavra que poderia, se eu estivesse enganada, despertar em ti qualquer rejeição ao meu amor? Afinal, quem ama teima em oscilar entre dúvidas e certezas, mesmo sabendo que se há amor, ele é certo.
Entretanto, aquele que ama como eu amo, não suporta a rejeição que o faz, ante essa possibilidade, preferir a própria morte.
E assim, covarde diante da incerteza do que ainda nutres por mim em teu coração, me deixei ficar em silêncio...
Até este momento supremo em que a vontade de gritar-te, mesmo que só por mais uma vez que te amo ainda, foi maior que o meu temor pelo teu silêncio.
E somente tenho uma coisa a dizer-te: que ainda te amo e te quero de volta para viver esse nosso amor do qual estou certa de que não te esqueceste.

Visitem Alba Vieira
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Feliz Dia dos Namorados - por Ana

Pelo chão que você pisa eu caminho devagar para não acordar as marcas de sua passagem que são guias do meu destino.
Pelo caminho que você traça eu sigo confiante e apaixonada, percebendo seu perfume entre as flores que o contornam.
Pela estrada de sua vida eu viajo sem bagagem, levando apenas minha alma tranquila que se une à sua nos momentos em que os atalhos de nossos traçados passos confluem para nosso encontro.
Por esta vida flutuo, amena, sorrindo alegrias gratuitas nascidas de nosso carinho e de nossa infinita paz.
Feliz Dia dos Namorados.
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Uma Carta de Amor - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Andava pelo parque e me sentara à sombra de uma árvore, curtindo a manhã de sol e a suave brisa que fazia com que aqueles atletas de fim de semana não suassem tanto, não cansassem tanto.
As folhas das árvores haviam caído e eu remexia com um pauzinho, galho partido de uma delas, quando toquei em algo.
Senti-me como um arqueólogo que acha uma tumba. Cuidadosamente, vasculhei as folhas e vi onde meu pequeno bastão arqueológico tinha emperrado.
E assim ela surgiu: um envelope não colado, com folhas dentro como se fosse uma carta. O envelope amarelado, não se sabe se pelo tempo ou por estar exposto ao tempo e às folhas, me dava a intuição de estar ali por muito tempo. Mas ele estava ali. Ávido para ser descoberto.
Fiquei em dúvida se devia ler o que estava ali ou se eu estaria adentrando na intimidade de alguém. Mas minha curiosidade de arqueólogo fez com que eu a pegasse delicadamente. Como se fosse um pincel, meus dedos espanaram a poeira e vi no envelope apenas uma frase: “A você com amor”.
E assim, fui me colocando numa história de vida, vivida por uma carta de amor datada de 2004.


Meu sempre querido,

.....Não sei se você chegará a ler esta carta ou se terei a coragem de te enviar, mas sei que preciso colocar aqui o que me vai à alma e o que me atormenta a ponto de me tirar o sono.
.....Não sei se você conseguirá entender o meu ato, mas espero que realmente você entenda.
.....Meu amor por você vai além do consciente, do racional. Amanheço com você no meu pensamento, passo o dia convivendo com sua imagem que circula pelos meus olhos e à noite, quando me deito, é você que vem povoar meus sonhos.
.....Não tenho tempo para mais nada a não ser ver você, pensar em você e amar você.
.....Por você abandonei meus sonhos, meus ideais, minha vida construída ao longo de dez anos. Abandonei uma família, marido e filhos.
.....Por você me transformei, mudei, melhorei, pois queria lhe dar sempre o que de melhor existisse em mim.
.....Não exigi nada, não pedi nada, não ousei nada.
.....Limitei-me a esperar, a ser paciente, a ter você sempre que desse.
.....Mas o tempo passou e o seu amor, apesar de não ter diminuído, mostrava-se acomodado e percebi que eu já não queria somente momentos perdidos, queria mais, muito mais. Queria você, queria viver, queria amar, mas queria você completo não pela metade.
.....Mas você não podia. Tinha sua filha doente que precisava de você. Eu sabia que ela não sobreviveria sem você ao seu lado.
.....E assim fui ficando e você continuava a sua vida mesmo me amando ao lado de outra que sequer sabia de minha existência.
.....Quando você me disse que não podia mais ficar sem mim, quando imaginei que você poderia também largar tudo e depois se arrepender, senti medo. Medo de você me culpar, medo de você se frustrar, de você se violentar e aos poucos se deixar morrer.
.....Não poderia conviver com isso, não suportaria te ver triste e culpado atormentado e acabado ao meu lado sem poder viver o grande amor que temos.
.....Por isso tomei essa decisão. Amo você demais para sentir sua dor e não poder curá-la.
.....Se a coragem não me faltar estarei hoje, depois de estarmos aqui no parque, te entregando essa carta e me despedindo de você. Não sei para onde irei, mas levarei comigo o amor a você.
.....Se não tiver coragem rasgarei essa carta e me abandonarei aos seus braços e viverei esse amor do jeito que der.
.....Seja qual for minha decisão ou minha coragem, saiba que sempre te amei e sempre te amarei.
.....Se acreditasse em almas gêmeas diria que você é a minha e eu a sua.
.....Mas não sei se posso ou se devo acreditar nisso, por isso prefiro crer que a razão do nosso encontro é divina, mas que mais divina é a sua tarefa e por isso saio do seu caminho como entrei: devagar, sozinha.
..........Perdoe,
..........Sou, como disse um poeta,
..........“Quem muito te quis bem”.

Tua amada amiga


Vinha um nome que prefiro não lembrar para não colocar a intimidade desse amor assim na poeira do vento.
Mas uma coisa me fez pensar: se ela tinha dado a ele a carta e ele a deixou perdida no parque, se chorou, desesperou-se e abandonou a carta com a raiva dos que foram abandonados. Ou se ela não teve coragem, abandonou a carta e a perdeu no meio das folhas e se foi com ele caminhando de braços e mãos juntas vivendo um grande amor...
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Cartas que Não Enviei - por Cacá

Eu gostaria que você sentisse imensamente essa carta como as escritas à mão. Há hoje tantas maneiras de dizer as coisas que se quer, que a caneta está sendo usada quase somente para as primeiras letras da alfabetização de escolas públicas ou para assinaturas em cheques. E mesmo esses meios já vão se tornar obsoletos já-já. O governo tem prometido colocar computadores em todas as escolas. Um tal “programa um computador por aluno”. E quanto às assinaturas, já há as digitais. Só falta os estabelecimentos aderirem. E então, a antiga pena, a shaffer, a montblanc e a indispensável bic estarão banidas à lembrança. Como os carteiros estão ficando.

Já não se escrevem mais cartas. Não da forma mais romântica que há para dizer “saudade de você”, “eu te amo”, “mande notícias pelo correio”. Eu não sei se você sente como eu uma diferença fria entre abrir um e-mail e rasgar um envelope depois de ter visto a letra no destinatário e remetente. Ali a carta já começa a me dizer alguma coisa. Há pessoalidade, há intimidade. Dizia o Milton que “qualquer maneira de amor vale a pena”, mas umas formas são tão portadoras que valem mais a pena. O adiamento das coisas em cumprimento à sina do tempo é a palavra saudade exercida em sua plenitude mais bonita. Tem graça eu falar tanto de sua falta e sem que ouça a minha voz, sem que espere o tempo de ir à caixa de correio, sem abraçar o papel da carta depois de lido o conteúdo? Esses afagos tão caros ao coração, modernidade nenhuma é capaz de subtrair de nós. Que outra forma é aceitável de se sentir amada por mim se não estamos perto? Há calor em meio eletrônico? Há desespero maior do que uma webcam com uma imagem que a mão não alcança? Que o beijo não refresca na tela?

A virtualidade só pode ser aplacada pelo papel de carta em cuja tinta escorreu amor junto com as palavras. Em caso extremo sou capaz de lhe mandar uma lágrima manchando a folha. E você poderá levá-la em sua bolsa, para o quarto, para o banheiro, dormir com ela sob o travesseiro ou ao seu lado. Tem calor essa lembrança.

Bom, também chega de comparações, senão fugimos do objetivo mais grandioso que é nunca esquecermos o nosso amor, independente de suas manifestações antigas ou modernas. Não deixarmos de nos amar será a modernidade eterna, onde quer que estejamos.

Vou lá correndo postar com um selinho bem bacana. O correio fecha às cinco. E vou contando as horas em forma de empurrão para ver se adianto o fim de semana de poder te ver de pertinho. Aí sim, entre beijos, abraços, carinhos profusos, seremos uma carta a quatro mãos dadas. Enquanto isso, repito aquela frase que é o sinal da sua ausência em mim: sem você o vazio tem hora marcada em meu coração.

Cacá



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Milton Nascimento

Oferenda - por Clarice A.

Vivia perto do mar e ia com frequência, geralmente à tarde, não para banhar-se mas para sentar-se na areia e perder o olhar na linha do horizonte ouvindo as ondas que quebravam suavemente nos seus pés. Ficava afastada das outras pessoas porque tinha adquirido um hábito de conversar com o mar em voz alta, fizera dele seu confidente e contava-lhe as coisas de sua vida, coisas boas e principalmente coisas mais íntimas que não gostaria de contar a outras pessoas. Eram as melhores horas do seu dia e saía dali renovada.
Num desses dias de contemplação e confidências notou bem próxima a ela uma garrafa com algo dentro. Recolheu-a e viu que era um papel dentro da garrafa. Seria uma mensagem? Um pedido de socorro? Levou-a para casa, quebrou a garrafa e abriu o papel que estava um pouco amassado mas bem legível, a caligrafia parecia de homem embora seja difícil precisar isto. Era uma carta. Começou a ler:
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AO MEU AMOR
........Amo-te a cada dia mais e sinto imensamente a tua falta. O teu corpo já é parte do meu. A tua voz, o teu sorriso e o teu olhar me acompanharão por todo o tempo que eu viver. A tua lembrança faz as horas passarem mais rápido porque sei que em breve estaremos juntos vivendo o que de melhor temos em nossas vidas: o nosso amor. Pensar em ti é o meu alimento e o meu descanso, amar-te e ser amado por ti é a razão da minha vida. Sinto falta do teu aconchego, tuas mãos acariciando os meus cabelos enquanto contas como foi teu dia e ouves atenta como foi o meu.
........Breve nos reencontraremos. Beijo tuas mãos, teus olhos e tua boca com todo o amor que sou capaz de amar.
..........DO TEU AMOR
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Uma carta de amor! Mas uma carta sem nome de destinatário ou remetente? Era um amor real ou pretendido, apenas sonhado? Escrita talvez para espantar a solidão? E existirá um amor assim para toda a vida? Perguntas para as quais jamais terá respostas. Ela apaixonou-se várias vezes, casou, separou, e por uma vez achou que seria para sempre, mas acabou. Um amor assim é matéria para romances literários.
Quem sabe ele seria um homem do mar? As viagens e a distância, o combustível inesgotável deste amor. O cotidiano costuma minar o amor. Por outro lado, a distância também não afasta, propiciando novos encontros? O que faz um amor resistir a tudo? Mais perguntas, imprecisas respostas.
A carta a tirou do estado letárgico em que se encontrava. Estava entrando em terreno perigoso, da desilusão, desinteresse e melancolia com uma frequência já preocupante.
Precisa contar ao mar sobre a carta, espera ansiosa pelo entardecer e quando a tarde enfim chega dirige-se para a praia. Como se aguardasse uma boa notícia e tivesse se preparado para ela, o mar tem o tom de verde que ela mais gosta. Aproxima-se até que a água toque seus pés, conta-lhe da carta, começa a ler e, naquele instante, com a luminosidade natural que ainda resta, ouve sua própria voz falando docemente palavras de amor. As palavras parecem tomar seu corpo e sua mente e ela entende que vive um momento especial. Está em outra frequência, sintonizada no amor. Entrega-se àquele momento, não procura explicações metafísicas ou transcendentais, também não se limita às suas crenças. Apropria-se da carta, aquela carta de amor é para ela. Agradece a Netuno, rei dos mares, e à Iemanjá, rainha das águas, a oferenda que recebeu deles. Sim, fez a via inversa, recebeu uma oferenda. A oferenda pressupõe uma oferta por uma boa causa. Recebe dos deuses a mensagem de que para amar é preciso estar em sintonia com o amor, e o amor, isto ela sabe, é múltiplo, de vários tipos e várias intensidades. E embora tudo indique o contrário, confia que o amor será a nossa estrela guia, de preferência já, neste novo milênio.
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Carta ao Amor - por Dália Negra

Eu amei muito.
Eu amei muito
E sofri

Sofri reveses
Perdas, decepções
Agressões, injustiças, dores

Sangrei sozinha
Perdida, tonta
Inexplicavelmente sangrei

Chorei calada
Lágrimas negras que mancharam meu rosto
Para sempre

Gritei revoltas
Pela vida, por não ter saída
Inutilmente gritei.

Eu amei muito.
Não sinto mais nada
E ainda estou aqui.
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