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domingo, 20 de julho de 2014

Lembranças e Saudades de uma Mulher Madura - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Eu estava na internet cansada e pensando que nunca mais tinha tido uma pequena inspiração para escrever o que eu chamava de crônicas do dia a dia.
Na verdade, pedaços de mim, que amigos mais queridos chamavam de crônicas e eu acreditava...
Encontrei por acaso... será que por acaso? Como diria Jung, “coincidências não existem”... uma crônica que adorei, o jeito dela estar ali, dizendo coisas tão simples de forma tão poética - numa casa feita de poesias - A CASA DE RUBEM ALVES - esse era o site do cronista.
Será que podemos dizer sem ofender a família, a esposa, filhos e netos, mas como uma adolescente impetuosa, "Amei-o"?
Amei suas crônicas, sorvi cada uma delicadamente e, como um doce pequeno porém precioso, fui colocando pedaços pequenos dentro de minha alma.
Me apaixonei perdidamente por cada uma delas e sem querer parecer vulgar sentia vontade de tê-las e lê-las.
Numa delas, em especial, me perdi e me achei. Quando ele fala do “Velho que acordou menino”.
Me senti assim renascendo, acordando num sonho e como ele fui me lembrando das pessoas especiais e interessantes que apareceram em minha vida e como num passe de mágica acordei menina.
Uma simples lembrança me levou de volta ao passado, à infância, à adolescência e à maturidade. Tudo em instantes, como um furacão que me rodopiava e me levava a lugares distantes da minha mente, das minhas recordações.
Foi assim que no meio de uma nuvem branca eu a vi:


A Professora Emília

Era uma mulher pequenina, talvez com quarenta e oito ou cinqüenta anos, bem morena, quase negra, um pouco curvada ou pelo tempo ou pela fragilidade do corpo magro, de cabelos crespos e mesclados com brancos e de uma doçura angelical.
Nunca soube seu sobrenome.
Naquele tempo professora era professora, não tia. Mantinha uma relação de afeto com respeito, mas com consciência de que estávamos num patamar abaixo dela, sem relações de parentesco mas com relações de amor e carinho.
Com ela aprendi as primeiras letras e a subir cada escada das palavras. Observadora atenta, ela era a grande mestra que, hoje, não existe mais. Cuidava de cada um de nós com o amor e o carinho de uma mãe. Sabia quando estávamos famintos, quando estávamos com problemas em casa. Nada lhe passava despercebido.
Foi assim que minha mãe foi chamada à escola pública pela minha querida mestra para me levar ao oculista, pois ela descobrira que eu era míope. Óculos feitos, eu estava ali radiante de alegria a galgar degraus e degraus do conhecimento.
Foi ali que descobri pela primeira vez a fome devassadora da paixão - foram suas mãos que me guiaram pelos caminhos do amor aos livros. Eu tomava café, almoçava e jantava livros.
Fiquei gulosa e depois de alguns anos, quando me mudei e passei a estudar perto de uma Biblioteca Municipal (hoje nem sei mais se as crianças freqüentam bibliotecas), li todos os livros da Biblioteca Municipal Carlos Alberto, no Méier, e foi assim que me tornei a “devoradora de livros”.
E a professora Emília ainda hoje continua povoando minhas memórias e é revivida por mim através de uma velha foto desbotada (daquelas de antigamente, nos grupos escolares onde as crianças sentavam-se e a professora permanecia perfilada ao lado dos seus pupilos).
Com certeza ela já içou vôo para Colégios no Alto e de lá me viu crescer...
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Meu Presente dos Céus - por Alba Vieira

Doce presença a guiar nossas vidas.
Esteio macio onde sempre nos apoiamos.
Inesgotável energia, tão bem usada em prol da família.
Rosto luminoso irradiando luz em nossa casa.
Eixo que harmonizou todos que se acercavam dela.
Palavras certas sempre proferidas nos momentos de dificuldades.
Ouvidos atentos para nossos problemas em todas as horas.
Amor incondicional espalhado por nossos caminhos.
Alimento espiritual disfarçado em receitas inesquecíveis.
Olhar inquieto buscando sempre novos horizontes.
Estímulo que nos fazia alcançar nossa força quando fraquejávamos.
Otimismo diante da vida, mesmo nos seus trechos mais puxados.
Coragem e decisão que conduziram todo o clã.
Espírito empreendedor representado por suas obras memoráveis.
Compassividade como única religião atuando através do trabalho.
Responsabilidade e envolvimento total na vida familiar.

Presente dos céus para nós, minha mãe completaria hoje 88 anos,
E há três anos ela deixou saudade...

E tudo que foi durante sua vida, impresso em nossos corações.



Visitem Alba Vieira
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Maníaco do Mictório - por Gio

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Intervalo. Chegando ao Centro de Convivência da faculdade, decido ir ao banheiro antes de comprar um lanche. Aparentemente vazio, entro em uma das cabines, fecho a porta e... Sinto alguma coisa ao botar a mão no bolso. Papel. Papel-moeda. 50 reais. Não é todo dia que se acha uma onça no bolso da calça, certo? Fui guardar o dinheiro na carteira, sorridente e certo de que aquilo era um sinal. Foi, mas não de sorte: era sinal de um dia incomum.

Depois de voltar da Lua e parar de imaginar o que fazer com o dinheiro não esperado, voltei ao meu objetivo inicial. Coloquei a mão no zíper da calça, mas parei imediatamente. Tinha a sensação de estar sendo observado. Resolvi olhar para cima: um careca de óculos estava apoiado na divisória dos banheiros, me olhando. Intrigado com a cena, perguntei “O que foi?”, no que ele prontamente respondeu me encarando “Que que é o que!?”.

Fiquei imaginando que tipo de substância ilícita o ser tinha ingerido, enquanto o encarava incrédulo. Quando ele desceu, fiquei alguns segundos processando a cena que tinha acabado de presenciar. Finalmente, achei que estava em paz, e fui novamente tentar abrir o zíper. Tu tens um celular pra me emprestar?

Era ele, de novo. Tive que fazer uma “manobra de recolhimento”, e a situação embaraçosa conseguiu alterar meus nervos. Não consegui responder nada àquele ser que não parecia fazer sentido algum. Saí do banheiro: ficaria para outra hora. Ao sair, vi um amigo meu e um desconhecido rindo de mim, e quando eu cheguei perto, indagaram: Ah, então tu foi atacado pelo maníaco do mictório?

Foi assim que eu conheci o “maníaco do mictório”, um dos personagens lendários da FURG. Seu nome eu não sei, mas sei que cursa História, pois está na aula de um amigo meu. Graças aos seus “ataques”, já foi indiciado, já levou surra de algumas turmas e já foi suspenso durante algum tempo. Ele para um pouco, mas logo continua com seus atentados.

O CC é a sua zona de caça: fica esperando na frente de um dos bares, e quando algum homem entra no banheiro, ele o segue. Logo, ouve-se alguém bufando, ou o barulho de alguém apanhando. Um colega meu fez ensino médio no mesmo colégio e ano que o maníaco, e alguém lhe perguntou se o dito era gay ou louco. Ele respondeu: “Os dois, e ainda não toma banho”.

Muitas histórias circulam a respeito dessa figura. Reza a lenda que alguém entrou em uma cabine e não fechou a porta: ele seguiu a pessoa, parou atrás dela, e baixou as calças. Outro estava usando o mictório, no que alguém chega para usar o mictório do lado. Ele levou alguns instantes para perceber que o “vizinho” não estava realmente usando o mictório – e mais uma fração de segundos para perceber que ele estava olhando... É, vocês sabem para onde.

Ultimamente ele anda parado, resolveu dar uma trégua. Ou cansou de apanhar, ou achou outro banheiro para azucrinar. Mas a fama segue, e a tensão de usar o banheiro no CC também. Se ele estiver por perto, nem pensar.
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domingo, 6 de setembro de 2009

Domingo! - por Adir Vieira

Hoje o dia surgiu alegre, como domingo mesmo, apesar de o sol estar indeciso sobre se deve ou não aparecer.
Dormi muito, parece que minha alma adivinhou que hoje eu teria o dia inteirinho para mim.
São mais de nove horas e tenho que correr para o café da manhã.
Às doze horas ficou combinado que o filho mais novo do meu marido passaria aqui com a esposa para nos levar para um almoço fora.
Penso nele e vejo-o diante de mim. Tem trinta e quatro anos e quase dois metros de altura, mas sua aparência é de uma criança feliz. Apenas seus olhos falam. Tem uma elegância natural, mesmo vestido de bermudas e chinelos de dedo. Vê-se logo que foi uma criança criada com muito amor e muito bem criada. Acho que herdou do pai o gosto pelas boas coisas da vida e tem o poder de descobrir sempre o melhor. Mostra estar sempre antenado com as novidades e faz questão de experimentá-las no momento do seu surgimento, sempre que pode. Não fala muito, mas sabe de tudo, principalmente do que lhe interessa.
Não é mesquinho, nem um pouco. Tem pena do mundo. Reúne mesmo todas as qualidades de um bom moço. É carinhoso com todos, principalmente com as crianças e com os velhos. Nunca piegas. Bonito, por dentro e por fora.
Pois é, hoje, daqui a pouco, estaremos juntos, caminhando com ele, nessa sua alegria, quando, como criança, entra no melhor restaurante e diz:
- Pai, aqui você vai comer “aquele” peixe cru!



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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Minha Bruxa Boa - por Adir Vieira

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(Imagem: Anna Leão)

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Ontem novamente falei com ela.
Percebo que sua voz a cada dia está mais fraquinha, mas jamais deixa com que sua eterna segurança e o tom imponente desapareçam.
É sempre uma grande alegria ouvi-la, pois junto com sua voz, voltam a minha mente todos os momentos bons vividos na convivência que tive com ela durante a infância e a adolescência.
Creio que hoje ela já tenha uns oitenta anos, pois era um pouco mais nova do que minha mãe falecida há três anos.
O bom nessa criatura é injetar na gente, quando fala, um ânimo genuíno, real. Qualquer ser vivente que tivesse vivido todos os reveses pelos quais ela passou, seria, no mínimo, revoltada com a vida. Ela não, não tem tempo para essas bobagens.
Já está velhinha e doente, mas a alegria que demonstra quando ouve a nossa voz tem o aroma e a sutileza da maior felicidade da juventude.
Tem sempre lições de vida para passar e, nessas horas, esquece que está tão longe e que a ligação telefônica é cara. Eu também não me importo, porque sentir sua energia não tem preço.
Sempre tem novidades, apesar de viver só, a maior parte do tempo. Pelo que me disse, o único filho a visita diariamente e a empregada cuida de suas tarefas, enquanto ela divaga sobre a vida, fazendo crochet.
Ontem veio ela com mais uma de suas crendices que não tenho a mínima condição de contestar, mesmo com todos os meus diplomas.
Ganhei o dia, quando ela me disse:
- Sempre que você quiser alguma coisa, olhe para o Céu e diga: MILAGRE ESPECIAL URGENTE! Duvido que você não consiga!...
Faz questão de afirmar que só eu estou sabendo disso...
Foi sempre assim, a convivência com ela. Pedaços de coragem e sabedoria jogados ao vento, à mercê de quem quisesse pegar.
Não preciso dizer a vocês que desde ontem já repeti a expressão umas vinte vezes....
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

A Coragem de um Homem - por Jorge Queiroz da Silva

Conheci na minha vida profissional um homem de coragem, formado em farmácia, que atuava como Diretor de Operações numa indústria em que trabalhei.
Respondia pelas áreas de importação e exportação e pela obra de expansão da empresa.
O que mais me marcou foram as indicações de energia, coragem e força desse executivo, que era um autodidata. Muito me admirei em saber que tinha sido o comandante do vapor Márcia, que teria sido afundado na última guerra mundial pelo submarino alemão em águas brasileiras.
Vou tentar relatar agora uma história que diz bem da sua coragem e que muito combinava com o seu jeitão de homem forte e decidido, e que, num determinado momento da vida, mais ou menos na faixa de 40 anos, iniciou um processo de cegueira. Lutou bravamente contra a doença, quando a recomendação médica o proibia inclusive de dirigir automóvel, principalmente no período noturno. No entanto, ele não desistia e continuava a vir ao trabalho diariamente, dirigindo seu próprio carro, evitando apenas de sair tarde, preferindo deixar o trabalho ao cair da noite, quando ainda a cidade estava iluminada.
Um dia descuidou-se, o dia avançou e ele insistiu em ir para casa quase anoitecendo. Iria fazer um deslocamento da Tijuca até o Leblon, e já quase chegando em casa a sua visão começou a faltar e para não dar o braço a torcer, colou o seu carro na traseira do carro da frente e a visão das lanternas o ajudava a dirigir. O carro da frente andava, ele andava junto, o carro da frente parava, ele parava junto, aí então o carro da frente não mais andou e ele, muito irritado, começou a buzinar, esbravejando:
- Oh, rapaz! Não vai andar não?
Ao que o outro respondeu:
- Como é que eu vou andar, se estou dentro da minha garagem?
Todos comentavam o fato e tentavam, cada um à sua maneira, se espelhar nesse grande exemplo de coragem e firmeza diante da vida.



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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A Perua II - por Adir Vieira

A perua se faz notar sempre do mesmo jeito.
Suas roupas são diferentes das de todo o mundo. Se a moda é saia comprida ela usa microssaia. Se os tecidos da ocasião são discretos, ela usa os mais berrantes.
Adereços não lhe faltam e têm que ser multicoloridos. Nunca lhe faltam cremes, pós e qualquer produto que colora a sua face e deixe sua pele com outro aspecto. Chego a pensar que qualquer empresa de cosméticos que tivesse como cliente apenas dez ou vinte delas, jamais fracassaria e em menos de dois anos já teria formado várias filiais.
A perua caminha diferente, senta diferente, fala diferente e, logicamente, pensa diferente.
Crê firmemente que os adereços e as vestes têm o poder de transformá-la de bruxa em princesa. Se arrisca uma olhada ao espelho, nunca se vê, verdadeiramente.
Sua voz assume entonações diversas, dependendo de com quem está falando e de onde esteja.
Seus braços, então, acredita ela, que foram pendurados ao corpo com a função de auxiliar a linguagem e todo o resto.
Se caminha, são eles que se mexem antes dos pés, se fala, cada palavra é acompanhada de gestos e mais gestos, como se o ouvinte fosse deficiente auditivo.
A perua é única. Acha que o mundo é dela.
Quer fazer mal a uma perua?
Finja-se de morto quando ela estiver por perto ou quando passar por você peruando.
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Simpática Convivência com Meu Tio Nilo e suas Histórias Maravilhosas! - por Jorge Queiroz da Silva

Meu tio Nilo foi um dos meus sete tios.
Tendo nascido de parto prematuro aos seis meses de gestação teria menos possibilidade de viver com saúde, ainda mais numa época em que tudo era muito complicado. Como dizia minha mãe, nascer era tão problemático como morrer.
Lembro que, nas histórias de família, mamãe contava que o seu primeiro berço foi uma caixa de sapatos, pois como prematuro de extremo risco, necessitava de cuidados muito especiais para sobreviver.
Podemos imaginar a dificuldade da família para que na altura dos seus vinte anos, sem qualquer recurso especial, ele pudesse ser considerado uma pessoa de saúde normal.
No entanto, de todos os meus tios, era o mais inteligente, embora tivesse o menor grau de instrução.
Em compensação foi, durante toda a sua vida, o melhor dos tios e o que mais valeu à minha mãe, sendo sempre o seu fiel escudeiro.
Morou em nossa casa até o término da sua vida e era um ser bem diferente dos demais.Não tinha muito juízo, mas alegrava todos os nossos almoços de domingo com suas brincadeiras e grande otimismo.
Era quem ajudava financeiramente a minha mãe, visto que a contemplava com um pouco do resultado das gorjetas que recebia.
Agradava assim minha mãe pelos cuidados especiais que lhe devotava com o bom trato de suas roupas e com sua alimentação. Aliás, minha mãe tornou-se sua protetora desde a morte de sua mãe.
Na época, apesar da pouca idade em relação a ele, sempre cuidou para que ele pudesse ter algum rendimento que lhe garantisse o dia de amanhã.
Deu-lhe algumas idéias para que ele pudesse ter algum dinheiro, um ganho como autônomo, pois era um participante ativo das nossas noites cariocas, no Edifício Avenida Central, na Avenida Rio Branco.
Sempre nos dias de Natal e Ano Novo ele fazia questão de brindar a todos com uma pequena lembrança e não nos poupava dos seus famosos e engraçados discursos otimistas, nos quais sempre dizia que todas as pessoas daquela mesa de ceia um dia ainda iriam se banhar em muito dinheiro!
E era aquela saudação na passagem de cada ano, que sempre nos trazia alguma alegria porque, em segundos, ele nos transformava em raros milionários na sua forma otimista de nos ver, falando com bastante ênfase, de pé, na cabeceira da mesa de Natal.
Não possuía nenhum certificado escolar ou profissional, apenas uma carteira de identidade, mas, mesmo assim, conseguia ganhar dinheiro como ninguém.
Causava inveja a muitos chefes de família, com os ganhos recebidos com um subemprego, o de abrir as portas dos carros na entrada do Jóquei Clube do Brasil, na sua antiga sede na Av. Almirante Barroso.
Era um guardador dos carros oficiais que, naquela área, ficavam sob sua responsabilidade. Trabalhou ali por mais de trinta anos.
No exercício do seu trabalho teve a oportunidade de se aproximar, naturalmente, de todos os Ministros, Juízes, Senadores, Deputados e até mesmo do Presidente da República, o Getúlio Vargas, chegando, nessa oportunidade, a abrir as portas do carro do consulado americano que conduzia o Presidente Roosevelt, freqüentemente no Brasil, faturando a sua primeira gorjeta em dólares. Também servia nas portas dos Clubes, inclusive o Clube Naval.
Era muito o que ganhava com as gorjetas, abrindo as portas dos automóveis luxuosos dessas autoridades, visto que empatizava com todos.
Minha mãe sempre dizia que se ele tivesse tido juízo, teria feito um excelente pé-de-meia.
Por trabalhar na rua e devido a sua grande facilidade de ganho, dele se aproximavam também as prostitutas, os homossexuais, os mendigos e os cachaceiros das noitadas, que se faziam de amigos para levá-lo para beber, com a finalidade única de lhe tomar dinheiro.
Ele se trajava sempre com roupas de primeira qualidade, e o interessante é que nunca gastou o dinheiro do seu trabalho para comprar suas vestimentas e sapatos, pois ganhava daquelas autoridades. Às vezes, com orgulho, exibia um par de sapatos que não usava em respeito ao dono, o Getúlio Vargas.
Infelizmente, a bebida que lhe faziam pagar na rua não só prejudicava o resultado do seu trabalho e ganho como, também, o levava a um estado de total embriaguez, que o fazia até dormir pelas calçadas da cidade.
Quantas e quantas vezes eu, ainda menino, com muita pena, tentava levantá-lo do chão frio e até molhado pela chuva.
Quando ele conseguia chegar em casa, normalmente estava totalmente sujo, o que causava um impacto pela desconexão com sua roupa alinhada.
Cheirando mal, levava minha mãe ao desespero quando, entrando pela porta da nossa casa, gritava por ajuda, fingindo estar sendo vítima de forte dor de barriga.
Lembro-me de minha mãe clamando por Deus do Céu, Jesus Cristo e Nossa Senhora, enquanto mandava que ele fosse direto para o banheiro, pegasse as roupas e as jogasse no molho, direto no tanque de roupas, para que depois cuidasse delas.
Mesmo assim, com todas as dificuldades da vida, ele sempre foi, dos meus tios, o mais honesto, o mais consciente com a minha mãe, aquele a quem eu mais respeitava e com quem mais conversava.
Recordo-me de que me trazia balas e pequenos brinquedos, ajudava ainda nas compras de meus cadernos e livros escolares.
Era dono do maior otimismo de vida, pois a convivência que ele manteve com autoridades e políticos sempre o levou ao delírio!
Foi um importante personagem na minha vida infantil, que me fez ouvir pela primeira vez o nome de milhões de contos de réis, a moeda da época, muito difícil de se ganhar. Duvido muito que, se qualquer outra pessoa que mantivesse um papo com ele de, pelo menos dez minutos, não passasse a se sentir um grande milionário!
Lembro também que, às vezes, meu pai, muito nervoso com suas histórias, queria expulsá-lo lá de casa, principalmente por ele fazer minha mãe passar por todos aqueles momentos inconvenientes.

Eu era ainda um menino e a história mais incomum que ouvi a seu respeito foi aquela em que ele, na tentativa de imitar os guias espirituais de minha mãe e de outras pessoas que eram ligadas à religião, se instalou na casa de uma mulher de vida fácil.
Lá longe de nossa casa, na Baía da Guanabara, se fazia passar por um guia conselheiro, incorporando simuladamente o “Caboclo Mamador” que baixava dizendo:
- “Caboclo Mamador, Caboclo quer mamar.” E só atendia as mulheres mais jovens residentes naquela região, onde ele era totalmente desconhecido.
Além de ganhar pelos trabalhos, ele ainda criava, em volta dele, um circulo só de mulheres jovens que, curiosas e ansiosas para obterem os milagres da vida em relação a casamento, obedeciam as suas ordens quando pedia que colocassem seus seios para fora. E ele saía mamando e repetindo que, ao mamar, ele traria bons fluidos às consulentes. Daria força às mulheres para arranjar um bom casamento com um rico pretendente ou um bom emprego.
E eu só vim a saber dessa história depois que os jornais de Niterói noticiaram a fama do Caboclo Mamador.
Não preciso dizer que ele foi detido, os jornais fizeram publicação a respeito, mas felizmente para ele, por ser réu primário, foi liberado pela polícia depois que fizeram o pagamento da fiança.
Portador de leve deficiência mental, uma leve esquizofrenia, foi ainda apoiado pela própria justiça, que classificou as mulheres que lhe deram o seio para mamar de sem-vergonhas, inexperientes, frisando que elas colaboraram diretamente para que ele se utilizasse daquela farsa espiritual!
Lembro também da tristeza de minha mãe quando soube das notícias que corriam nos jornais. Repetia sem parar:
- “Que vergonha, que vergonha, meu Deus! Não sei o que fazer com o Nilo!”
Desse dia em diante, o tio Nilo passou a ser um homem mais caseiro, deixando que as prostitutas do centro da cidade tomassem conta do dinheiro de seu trabalho honesto como recepcionista das autoridades do Governo.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meu Tipo Inesquecível - por Adir Vieira

Hoje falei, por telefone, com meu tipo inesquecível. Lembrei-me da minha infância e de sua presença constante em minha vida.
Devia ter uns trinta e cinco anos. Era mãe de dois meninos, um da minha idade e o outro da idade de uma das minhas irmãs. Sabíamos que ela e o marido não se davam muito bem. Ouvíamos com relativa freqüência suas brigas conjugais. Era nossa vizinha do lado direito. Tinha uma alegria permanente, apesar dos problemas. Não me lembro de nunca tê-la visto verdadeiramente triste. Era isso o que me fascinava! Gostava de vestes coloridas e nunca esquecia o batom e o pó compacto. No bairro, tinha fama de namoradeira, pois era jovem e bonita, diferente das mães da rua que aparentavam um semblante mais responsável, de acordo com a época.
Eu e minhas irmãs a admirávamos, visto que sua felicidade aparente e seu porte de moça descompromissada com a vida nada tinha a ver com seus constantes votos pra tudo e pra todos de – vá com Deus!, que Deus te crie!, que Deus te proteja e te guarde! – tão próprios das velhinhas beatas do local.
Sabia uma imensa coletânea de simpatias e rezas para curar os pequenos males – as frieiras e as erisipelas. Nunca contou como aprendeu o ofício, mas nele acreditávamos piamente e constatávamos seus efeitos em nós mesmos e em quem se permitia experimentá-lo.
Apesar de sua fama de irresponsável, minha mãe gostava muito dela, para nossa sorte, e só a ela nos confiava quando, depois de muitos pedidos, concordava em nos deixar acompanhá-la à padaria, à quitanda ou à papelaria, locais próximos de nossa casa. Aquele pequeno percurso que, na maioria das vezes, não durava mais de dez minutos, de mãos dadas com ela, parecia uma eternidade extasiante. Corríamos no seu ritmo, sorríamos com suas brincadeiras, enfim, saboreávamos cada gesto, cada som vindo dela.
Lembro-me perfeitamente do dia em que fomos todos juntos assistir à cantora Emilinha Borba numa apresentação no palco montado num caminhão, no Convento que precisava arrecadar fundos. Muitas pessoas lá estavam, parece que todo o bairro havia se deslocado para lá, mas a alegria de nossa grande amiga sobrepujava a de todos.
Lembro-me, hoje ainda, já passados quase cinqüenta anos, do brilho do seu olhar, da sua alegria genuína. O dia seguinte, com seus comentários sobre a festa, as canções, o figurino da artista, era melhor ainda. Ninguém conseguia contar uma história e prender tanto nossa atenção daquele jeito. Só ela, meu tipo inesquecível.
Ali, ao lado de nossa casa, no parapeito do muro divisório, nas conversas das tardes, nos relatos sobre os problemas de sua família e antepassados, ia lançando mosaicos de aprendizado na nossa formação, inesquecíveis para sempre.
Choramos quando, depois da separação do marido, precisou se ausentar por dois anos. Sofremos por ela quando ficou longe dos dois filhos para garantir a pensão alimentícia. Na sua volta, vibramos.
E, assim, foi seguindo a vida. Crescemos e vimos seus filhos crescerem. Na luta pela sobrevivência criava artesanatos variados, todos voltados para a espiritualidade. Quantas colchas de retalhos e quantos panos de crochet multicoloridos nos exibia com orgulho…
Há alguns anos, adoeceu brabo. O fumo acirrado deu-lhe de presente um enfisema incurável. Já nessa época tivemos a certeza de que a morte do filho mais velho, vitimado de câncer no pulmão, em muito havia contribuído para que sua doença se alastrasse. Necessitou de novos ares e com muita tristeza, mais uma vez, sentimos essa separação. Embora já estivéssemos casadas e fisicamente longe dela, com a venda da casa e sua saída definitiva, parecia que um cordão crucial de nossas vidas havia sido rompido.
Hoje, distante, ainda doente, sem grandes possibilidades, já conta com mais de oitenta anos, conserva a alegria - sua eterna companheira - e a fé inabalável na vida, a certeza de que tudo é o que tem que ser.
Como eu ia dizendo, hoje falei com ela por uns longos dez minutos e, como sempre, meu coração se encheu de fé e esperança.

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