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quarta-feira, 23 de julho de 2014

PAX - por Zaira Leite

Eu poderia dar o nome de vida
a esse despenhadeiro para a morte.
Não revolver a terra,
nem lançar a semente,
não burilar o seixo
ao sabor da corrente.
Desprezar meu madeiro,
inventar nova sorte.

E nessa estranha vertigem eu poderia
estrangular a voz do sentimento
ao som dos falsos guizos,
na folia das máscaras
de mentirosos sorrisos.
Toldar a luz do bem,
A transparência da alma e o véu do pensamento.

Eu poderia ignorar a fonte
De infinita doçura e do amor universal
Calando a consciência
Na erosão dos sentidos,
No conteúdo das taças
Do vinho em efervescência
Numa atração incoerente pelo erro fatal.

Mas não teria, porém, no caminho de volta,
Uma só flor sequer da colheita outonal;
Vazios, os meus braços.
E não haveria uma bandeira branca
Desdobrada, ao transpor minha reta final.
.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Zaira Leite


Nasceu sob o signo de Touro, a 27/04/1920,
em Estrela do Norte, Lorena, São Paulo.
.Foi criada em Realengo, no Rio de Janeiro,
onde viveu até 2003, quando faleceu.
.
Possuía o segundo grau
e escrevia poemas e trovas.
.
Participou dos I, II e III Jogos Florais de
Nova Friburgo, tendo três trovas publicadas
na Coleção Trovadores Brasileiros
da Editora Vecchi.
.
Na foto está com dois de seus inúmeros bisnetos,
que também participam do Duelos.
.
.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Casa Grande da Vovó... - por Zaira Leite

Casa grande da vovó...
Dos seus sonhos de criança;
Foste a doce realidade.
Hoje tudo é cinza e pó...
Guardaste minha esperança,
Deste-me em troca a saudade...

Naqueles tempos risonhos
Dos seus mais felizes sonhos
Foste o encantador cenário;
Cidade, parque ou floresta
Para o meu viver em festa
De teatro imaginário.

Eras boa e acolhedora,
E em teu recesso outrora
Eu pedia a vovozinha,
Que mais feliz me tornasse
E uma história me contasse
De pastor e princesinha.

Em fantasias... quimeras...
Trago minh’alma perdida
E envolta em terna ilusão,
De te rever tal qual eras,
Com a linda entrada florida
De rosas, cravos, tinhorão.

O tempo por mim vivido
Sob esse teto querido
Para sempre hei de lembrar,
Dos meus avós os carinhos,
Que para mim foram aminhos
Numa rede a me embalar...
.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Dança dos Chinelinhos - por Zaira Leite

Os chinelinhos andavam
da sala até a cozinha;
na cozinha volteavam,
formando estranhos desenhos
de estrelas e sóis distantes;
depois, à sala voltavam,
iam, vinham, sem cessar
para o seu baile dançar
e decorar de mansinho
os passos desse caminho
que andavam sem tontear;
os chinelinhos travessos
quase viravam no avesso,
marcando os passos do mundo
imenso e tão limitado...
os chinelinhos à esquerda,
à direita os chinelinhos,
bem firmes, depois, no centro,
a esperar e a buscar;
os chinelinhos dançavam,
deslizavam, escorregavam,
os chinelinhos viviam,
os chinelinhos cansavam,
os chinelinhos gastavam,
e nas idas e nas vindas
de sua andança no chão,
os chinelinhos morreram
e, sem querer, imprimiram
na última volta que deram,
a marca de um coração...

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