
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Urgência - por Paulo Chinelate

domingo, 6 de fevereiro de 2011
Fumacinha Ridícula - por Paulo Chinelate

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Antes, porém, um convite: se tiver um fumante por perto dê uma olhada, mire, fixe no quadro do levar o cigarro à boca, soprar, bater cinzas, sugar a brasa, reter, expirar… expirar… sugestiva esta palavra, a cada inspirada, o sujeito ou sujeita, em seguida expira, falece, morre, desencarna, estrebucha um pouquinho mais cedo. E paga para isso. Paga pelo maço, paga pelo ridículo e pagamos nós por tomar o mesmo veneno que eles.
Agora vou dar uma receita de como evitar toda esta tragédia:
Fui fumante por 20 anos. Aprendi a fumar quando era bonito, charmoso e socialmente correto. Aprendi no quartel, na Escola Militar. Nos acampamentos de instrução em campo, na hora do “boião”, recebíamos no bandejão e junto com a sobremesa uma carteira de cigarro. Lembro-me muito bem. Continental sem filtro. Maço branco com o desenho do mapa do continente americano. Engraçado que alguns crentes recebiam, não fumavam e vendiam para nós: “Não peco, mas vocês podem”. Ouvi dizer que o cigarro era doação da companhia de cigarros. Grande negócio: é que durante um ano aplicaram em nós e no resto de nossas vidas colhiam os frutos. Imaginem se existe um negócio mais lucrativo. Um ano de investimento, uma ou duas vezes por semana contra 30, 40 anos contínuos de retorno, se é que o cristão não sucumbe com câncer antes.
Daí em diante foi fácil o vício. Não satisfeito, passei a usar cachimbo (mais charmoso ainda). Cheiroso, aromático. Condizia com minha posição social de então.
Fui morar na Amazônia. Mineiro misturado com rios é igual a pescaria. Muito mosquito. Passei a usar charutos. Não os cubanos. Mata-ratos mesmo. Serviam (sic) para espantar as “muriçocas”, “maruins” e “piuns”. E lá vai bronca para o pulmão.
Ah, sim, desculpas mil. Estou devendo a receita para acabar com este drama vicioso.
Vamos lá então:
Sabemos das diversas “fórmulas”: leituras de auto-ajuda, remédios diversos, injetáveis ou orais, beberagens, simpatias, chicletes, balas de nicotina, receitas de comadres e compadres. Não adianta nada disto. Repito, não adianta nada disto sem “MOTIVAÇÃO” e “VONTADE”. O resto é alimentar a indústria existente.
Vou contar como parei:
Certa tarde, como sempre fazia, fui buscar as crianças na escola. Eram quatro pimpolhos. A mais velha com 8 anos, outra de 6, um de 4 e o último de dois. Eu, no estacionamento, dentro do velho fusquinha; entram as crianças no carro; naturalmetne eu dando uma de caipora, soltando mais fumaça dos que os velhos trens de minha Minas Gerais. A mais velha, sentada no banco da frente (bons tempos, não tinha cinto de segurança e criança ficava em qualquer lugar), vira para mim e diz: “Papai, por que o senhor não para de fumar?”. Olhei para ela espantado. A que viera esta conversa de cerca-lourenço? “É que a polícia federal esteve na escola e deu uma lição sobre ‘drogas’”. “Droga, era só o que faltava, é a única distração do papai”, dei a desculpa mais estapafúrgia que me ocorreu. “É, papai, como o senhor vai agir se me pegar um dia com um cigarro de maconha?” Quem ficou estapafúrdio agora foi eu. Olhei com cara de pastana para ela e para os outros três filhos sentados no banco de trás, certamente todos aguardando a “resposta”. Não contei uma nem duas, peguei o cigarro da boca e joguei fora. A carteira, inteirinha, também (detalhe: neste bom tempo também não tínhamos a educação ecológica de hoje).
E pronto, acabou, se quedó, c’est finit, the end. O que vocês querem mais? Parei de fumar desde aquele instante. E no more cigaretts, pipers and cigars. Tive a motivação e, principalmente, a VONTADE.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Vou me Mudar pra Roça... - por Paulo Chinelate
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Janeiro é para todos ou quase todos o mês da “depressão” financeira. E fico me lembrando do amigo Pedro Paulo. Ah! como hoje dou razão a ele. Vendeu a casa em Fortaleza, arrumou as trouxas e se mandou para o sertão do Ceará. Interiorzão dos brabos. Justificativa: “Não aguento mais a pressão da cidade grande”… e tecia o rosário de razões que a minha razão àquela época desconhecia: pagamentos de IPTU, IPVA, Seguros de Vida, Seguro do Carro, ITBI, II, ISS, ICMS, Cide Combustíveis, Cofins, CSLL, IOF, IPI, IOF, IPI, IOF, PIS/PASEP, Cartão de Estacionamento, Cartão de Crédito, Passe de Ônibus, Internet, TV a Cabo, Taxas de Condomínio, Gás, Luz, Água e Incêndio, Emplacamento do Carro. Ufa!
E lá se foi o Pedro Paulo. Mas, pensando bem, fugindo pra onde? E consegue se esconder? Ele jurou não comprar nem gás. Ia cozinhar a lenha. Coitado, nem ali, no seu fogão a lenha, feito do barro do riacho das águas de março (depois nem barro tem), como é que ele ia acender o fogo? À moda indígena? Garanto que não. Ia consumir uma caixinha de fósforos “Fiat Lux”. E nela tendo: IPI, ICMS. Para chegar na taberna mais próxima para buscar o sal, papel higiênico, charque e quinquilharias necessárias, irá de alpercatas que gastam e terão que ser trocadas. Lá vai o nosso Pedro Paulo a contribuir ao fisco, na marra, com o quinhão que lhe pertence. Sem se livrar nem um “tiquim” do famigerado IR.
Sei não. Depois destas linhas, já não estou dando tanta razão ao amigo fujão.
sábado, 15 de janeiro de 2011
“Começou Mais Um BBB” - por Paulo Chinelate

Como deve funcionar o ESQUEMA: 29.000.000 (milhões) de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado.
Vamos colocar o preço da ligação a R$0,30 (trinta centavos) e só. Então, teremos… R$8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais, que o povo brasileiro gastou (e gasta), em cada paredão!
Suponhamos que a GLOBO tenha feito um contrato “50% por 50%”, ou melhor,”meio a meio” com uma operadora de telefonia, ou seja, ela embolsou R$ 4.350.000,00.
Repito: Alguém poderia ficar indignado com a tal rede e a operadora de telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas.
Mas o “x” da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que paga-se para obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos participantes e, consequentemente, daqueles que só bebem nessa fonte.
Certa está a TV. O reality show dura cerca de 3 (três) meses, ou seja, o “sábio público” tem ainda várias chances de gastar quanto dinheiro quiser com as votações.
Aliás, algo muito natural, para quem gasta mais de R$ 8.000.000,00, repito, *** OITO MILHÕES DE REAIS *** numa só noite!
Coisa de país rico como o nosso, claro!
Nem a UNICEF (órgão das Nações Unidas para a infância), quando faz o programa CRIANÇA ESPERANÇA, com um forte apelo social, arrecada tanto dinheiro…
Vai ver deveriam bolar um show idêntico. Mas tenho dúvidas se daria audiência. Prova disso é que, na Inglaterra, pensou-se em fazer um só com gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial de testes de audiência.
Qual o motivo do fracasso?
O nível das conversas diárias foi considerado muito alto, ou seja, o público não se interessaria.
Programas deste nível existem no mundo inteiro, mas explodiram em audiência em países de 3º mundo…
Um país como o nosso, onde o cidadão vota para eliminar um bobão ou uma bobona qualquer… mas não se lembra em quem votou na última eleição…
Que vota numa legenda política sem jamais ter lido o programa do partido, mas que gasta seu escasso salário num programa que acredita ser de extrema utilidade para o seu desenvolvimento pessoal e que não perde um capítulo sequer do SHOW para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto…
Que eleitor é esse?
Depois não adianta dizer que político é ladrão, corrupto, safado etc.
Quem os colocou lá?
Claro, o mesmo eleitor que vota nos finais de semana no show!
Aí, aguente…
- As absolvições dos Renans Calheiros…
- Os Aumentos dos IOF’s…
- As Falências dos Sistemas de Saúde…
- As Epidemias de FEBRE-AMARELA…
- Os Anões do Congresso, “Os 40 Ladrões dos Ali Babás”
e de quebra…
Trabalhando igual a um BURRO mais de 5 (cinco) meses por ano para sustentar nefastas instituições ABSOLUTAMENTE DESACREDITADAS pela sociedade… enfim, estamos no início de mais uma temporada do tal Show, que motivos óbvios não nominei, que reflete, como nenhum outro, a PROSTITUIÇÃO de valores de nossa sociedade.
Enquanto isso a grande vilã das comunicações continuará se enchendo de glória e dinheiro com o patrocínio de canalhices ao vivo e a cores de 14 candidatos a um grande prêmio, vitória pela maior habilidade em agirem como DEVASSOS das relações com o próximo.
Enquanto a sociedade der audiência a esse tipo de patifaria televisiva, a falência da família e dos valores morais e éticos não vai mais retroceder.
Estejam certos de uma coisa:
Os ILETRADOS e os APRENDIZES, vítimas da falência da cultura, da educação e da família, terão dezenas de horas de puro deleite de como ser falso, mentiroso, infiel, hipócrita, leviano, canalha, com todos os derivativos da falta de ética e imoralidade estando à mostra.
Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura, filosofia ou de qualquer entretenimento televisivo relevante para melhorar a sua articulação, a sua autocrítica e a sua consciência…
A TV sabe muito bem disso; os autores das músicas: “Egüinha Pocotó” e “O Bonde do Tigrão” sabem muito bem disso; os Gugu e os Faustões também.
Não é maldade nem desabafo.
É puramente e somente vontade “querer entender”.
“A ignorância é a mãe de todos os males”.
François Rabelais (1483-1553)
Escritor e Padre Francês
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Portabilidade, a Quem Interessa? - por Paulo Chinelate
.Como diria em cearês: “Arre égua”!
Eu diria: “Tem consumidor que é cego”!
Este nosso governo, apadrinhado pelas grandes empresas lobistas, vem (ufa! não precisa mais do chapeuzinho na nova ortografia) dar um presente pra todos nós. Presente de grego, diga-se de passagem.
Prometeram e cumpriram a tal da PORTABILIDADE, isto é, direito de transferência dos números de telefones para outras operadoras. Que beleza! diziam. Que maravilha! disse eu também. Diziam e disse. Passado. Pois sigam a leitura até o fim e vejam se também não vão ficar no pretérito.
Tantas e quantas operadoras, quer móveis ou fixas, prometem sazonalmente pacotes de descontos nas ligações efetuadas nos seus telefones caso sejam contatos feitos para a mesma empresa da linha contratada. É ou não é?
Pois bem. Então me digam de cara: Quem vai ganhar com a portabilidade? O consumidor ou as operadoras?
Se ainda tem dúvidas, eu explico: Era possível identificar a operadora dos descontos pelos números iniciais das mesmas. Agora acabou isso. Você pensa que está dentro do esquema promocional e na verdade está faturando em favor das operadoras. Não dá mais para saber qual telefone pertence a tal e tal.
O interessante foi o palco montado para isso. Lembram-se da história do sapo que foi a uma festa no céu e que descoberto foi atirado lá de cima, de volta? Antes porém ele pediu e não foi atendido: “Me atirem na pedra e não na água”!
O mesmo ocorreu no presente assunto. As operadoras fizeram um “H” enorme para derrubar esta decisão do governo. Puro pano de fundo. O maior lucro é para elas mesmas. E nós, bocoiós (como diria em Minas), felizes da vida.
Mama mia (em italiano mesmo).
Em tempo: Desculpem a salada de idiomas. Foi para aliviar a raivinha por tanta hipocrisia junta.
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terça-feira, 23 de novembro de 2010
Protesto por Privilégios Raciais - por Paulo Chinelate
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Discriminação camuflada ou explícita?
Alguns atos governamentais dos últimos tempos têm-me ocupado deveras a ‘piolhenta’. Sabe aquele assunto que nos engasga, não consegue descer nem com uma ‘redondo’ empurrando? É o tal do separatismo sócio-racial que nos fizeram engolir com farinha seca pelos ‘omis’ lá de cima.
Não engolia mas ficava no ‘deixa ver no que qui dá’. Até que li uma opinião de um grande jurista brasileiro, Ives Gandra. Não fosse a sua conhecida reputação de homem probo, bastaria ler o artigo que indico abaixo para sabê-lo racional e íntegro.
Como eu disse, algo arranhava nesta história. Bolas! Cota racial para ingresso à universidade não será um ‘cala boca’ político de uma verdadeira incompetência administrativa? Não seria mais correto empregar e cobrar aplicações de fabulosas verbas às escolas públicas para oferecerem ensino de qualidade?
Outro absurdo desta incompetência em resolver equivocadamente por medidas e decretos: obrigando o oferecimento de vagas pela simples cor da pele ou pela etnia, vai garantir que este ou aquele estejam preparados para se formarem com qualidade em uma faculdade. Essas minorias, que agora cantam vitória, não chorarão mais tarde ao se candidatarem a um emprego por serem considerados formandos sem merecimento?
Se concordamos que devemos educar hoje para não punir amanhã, não seria mais cabível um bom ensino básico hoje para colhermos frutos amanhã nos vestibulares?
Pediria ao caro leitor apusesse sua opinião. Lembrando que grandes movimentos iniciam-se com leve sair da inércia.
Leia mais sobre o assunto em: Agência Serra
domingo, 31 de outubro de 2010
Devaneios - por Paulo Chinelate

Ah! Que bom estar aqui neste momento, enquanto a aragem um pouco fria do outono tomba levemente as folhagens das árvores.
Vejo, através da janela, o adormecer da tarde com seus raios luminosos a tingir de dourado o verde das montanhas, antecipando os primeiros sinais da noite que se aproxima.
Ah! Doces momentos! Encantamento de quem espreita cada segundo da vida e não quer perder nenhuma parte deste maravilhoso espetáculo da natureza.
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domingo, 24 de outubro de 2010
Memórias de um Ex-Seminarista (Parte XX) - por Paulo Chinelate
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FÉRIAS… MAS QUE FÉRIAS!?
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Meus irmãos cresceram como nunca e exceto por um detalhe interessante, a cada vez que em casa me aportava, tinha a sensação de tudo em casa estar diminuto. A moradia como que se encolhera.
A novidade mais importante foi a inauguração de uma casa bem vizinha à nossa. Era uma construção nova pertencente ao Conjunto JK , no local exato onde antes ficava pequena lagoa, objeto das minhas peraltices infantis.
A saudade do local de velhas lembranças, no entanto, logo se esvaiu. Uma figura está sendo a responsável por isso. O nome dela é Mercedes. Longos cabelos, negros e lisos. Mal pude ainda observar seus olhos. É moda os cabelos estarem caídos pelo rosto, qual burka natural. É linda. Tem a minha idade. Filha de numerosa prole, sendo uma das caçulas. Já frequenta nossa casa, amiga de minha irmã Conceição. Tão logo aqui cheguei veio se apresentar e conhecer o vizinho “padre”. Desde então me vi perdido em sensações e pensamentos nunca dantes experimentados. Algo como fogo ardente queima-me por inteiro. Sinto-me estranho. Muito diferente do que sinto por meus pais, irmãos e amigos.
Nunca foi tão gostoso ir à missa. Voltar junto com o grupo onde ela estava ela era divinamente agradável.
Minha irmã, como soer deve acontecer com algumas mulheres, alcovitando, facilitava os encontros e reencontros. Meus pais, na santa inocência, tinham tudo como muito normal.
O pior é que o tempo dispara justo quando as coisas são boas e favoráveis. Os vinte dias das férias sumiram como por encanto.
Retornando à lide clausural já não tenho mais outros que não pensamentos a Juiz de Fora. Não me seguram mais razões outras que dantes me fixaram tão longe dos meus.
Tudo me parece estranho. As luzes e os verdes deste lugar já não brilham nem colorem mais como dantes .
Iniciou-se o segundo período escolar do ano letivo com as atividades pertinentes. Como “terapia ocupacional” qualquer esforço pareceu-me inútil. Por muitas vezes estou sendo chamado à atenção às aulas. Estou sempre no mundo da Lua. “Lua com cabelos compridos e olhos escondidos”.
Fui chamado a uma reunião particular com o Irmão Reitor. Não imaginava a que se atinha tal encontro. Os resultados escolares do mês em andamento ainda não tinham sido recolhidos. Seria ainda o assunto do cigarro nos bastidores do teatro?
Dia seguinte e após os afazeres matinais, preces e faxinas, sou convocado à tal reunião. Estou mais ansioso que apreensivo. Adentro o gabinete austero do Reitor. Sou convidado a sentar-me e ficar aguardando alguns instantes enquanto o mestre assina uns papéis.
Finalmente, após ler uma ficha que detivera à parte, inicia a conversa perguntando como estou. Respondo-lhe que “bem”. Dá uma espiadela na ficha que, certamente, agora tinha eu convicção, era minha. Diz querer saber o motivo de minhas preocupações atuais, ao que respondo evasivamente, e com sinceridade: “nenhuma”.
Perguntou-me como foram as férias, como encontrara a família, que locais eu visitara e quem eu conhecera.
Sempre fui muito sincero. A lição que papai mais evidenciou foi a de que nunca mentisse, fosse em que oportunidade fosse. Abri-me, pois, ao caro superior como sempre o fiz com papai.
O mestre me olhou com carinho e compreensão. Fez-me ver que o que sentia não era pecaminoso ou errado. Muitos que ao seminário chegavam, depois de algum tempo acordavam para outros sentimentos que não o do celibato e da reclusão. No entanto, convida-me à oração e reflexão. Que permanecesse ainda o restante do ano em observação. Deixasse o tempo passar. Ao final do período em nova conversa decidiríamos, os dois, o melhor caminho a tomar.
Os dias foram rolando, devagar como carroça ladeira acima.
Agosto chegou e não deixei que terminasse. Pedi nova reunião. E expus minha vontade de partir.
Não houve oposição. Foi como se já se esperasse por este resultado. Só foi pedido tempo para uma troca de correspondência entre a Direção e papai.
Os valores necessários para a viagem chegaram com a resposta de papai.
Não obtive, como praxe, oportunidade para despedidas. Não podia ser o motivo ou estímulo a outras deserções. Muito menos pelos motivos supostamente aventados.
Voltei para o “mundo” no dia 5 de setembro de 1964.
Comigo acompanharam valores imensos. Dos Maristas tive a oportunidade de não só ter crescido como cristão, mas como verdadeiro cidadão, esta última virtude inseparável da primeira.
Não imaginava, no entanto, quanta influência teriam estes pouco menos de cinco anos em toda minha existência.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Humanitários ou Abutres? - por Paulo Chinelate
O carro tipo bugre em que transitava quebrando a barra da direção, capotou, ficando o motorista preso embaixo do mesmo.
O cinto de segurança ficara preso e ele em posição difícil gritava por ajuda. Acendeu a esperança quando, passos ouvidos, percebeu a aproximação da “ajuda”.
Ato seguinte, conforme relata, foi a causa de tantos pesadelos futuros dado o trauma que ficou. O dono dos passos que ouvira, baixando-se ao nível do chão em que se encontrava fez um único gesto: arrancou o relógio que estava em seu braço preso entre as ferragens e em seguida evadiu-se.
O caso acima não seria descrito neste artigo se não fosse a similitude do que estamos lendo e ouvindo nos noticiários sobre o Haiti.
Não estou me referindo aos saques e roubos de pessoas famintas.
Um troca-troca de acusações, destinação de verbas humanitárias e disputa por maiores quantidades de soldados e ONG’s. Contestação por mando territorial por nações quais as do aeroporto da capital e outros terrenos importantes.
Vêm-me a lembrança do antigo companheiro acidentado. Estamos lá para realmente ajudar um povo capenga de tudo ou estamos visualizando somente um grupo potencial de futuros consumidores de nossos produtos?
Que a mão direita não saiba o que a esquerda faz. (Jesus)
Somos os Humanitários ou os abutres?
Que os nossos mártires não o sejam em vão!
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sábado, 6 de fevereiro de 2010
Memórias de um Seminarista (Parte XIX) - por Paulo Chinelate
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Dá-se o nome de “ir para a bica”, o fato das saídas súbitas. O significado do cognome dado a este evento, conforme reza a tradição local, é de um sujeito que vai à bica para saciar a sede, escorrega e cai.
Vê-se que o sentido de queda não é aleatório. Associa-se ao episódio como derrota, ruína, perda e prejuízo. Há um quê de cuidados para não permitir muitos comentários sobre os afastamentos. Censura explicada, talvez, pela maledicência que daí pode advir ou, a meu julgamento, para evitar que companheiros simpáticos ao que “embicara” possam, sem razões maiores, seguirem os seus passos.
O certo é que eu analiso as reações de toda comunidade, já me colocando como um dos próximos candidatos a resvalar no “limo da bica”.
Iniciado o ano escolar, como de costume, é dada a partida aos ensaios de nova peça teatral. Meu papel, coadjuvante e de menor importância, com poucas falas, tem, porém, significado no enredo de “JULIANO, O APÓSTATA”. Peça que traduzia a saga dos primeiros cristãos ao tempo das perseguições.
Os cuidados da trupe na construção dos figurinos eram desde cedo tomados. Cada qual laborava, com base em um projeto, na construção dos capacetes dos soldados romanos, da coroa do rei, dos mantos, arcos e flechas, lanças, panos de bastidores etc.
Duas a três dezenas de companheiros estão investidos na façanha que apresentaremos em meados do ano. O interessante é que o Irmão Constantino, sempre solicito e amável, é severo o bastante para nos exigir que mantenhamos em segredo não só o enredo da peça como até mesmo o seu título. Não me recordo de que em anos anteriores houvesse vazamentos.
Eu farei também parte de uma esquete, geralmente humorística, que entremeia os atos da peça teatral permitindo que os bastidores sejam reformulados às exigências do enredo.
No cenário político os acontecimentos precipitaram-se: os militares, sustentados pela Igreja Católica e outras organizações da sociedade que clamam por ordem na ameaça anárquica, tomam a frente e o General Aragão Filho lidera, com as forças vindas de Minas Gerais, abafando qualquer levante a favor do infeliz João Belchior Marques Goulart, presidente perdido em querer transferir ao solo brasileiro um regime socialista.
De resto, rotina, rotina, rotina.
Junho desponta como sempre com os esperados festejos de São João, as apresentações teatrais tão aguardadas e a novidade: férias do meio de ano em família, dantes nunca ocorridas.
A apresentação teatral foi muito competida pelos convidados, como em todos os anos. Os trabalhos, tanto por parte dos atores como sonoplastia e iluminação, impecáveis. Só um acontecimento arranhou minha participação: enquanto aguardava a apresentação do terceiro ato da peça principal, e após ter concluído a exposição da esquete, estando eu e mais três colegas nos alçapões do palco, acendemos e “apreciamos” um cigarro retirado de um maço adquirido pelo contra-regras e usado pelo ator humorístico. Não contávamos com a ingerência do nosso Reitor Irmão Zeno Ângelo Camata, que certamente já pressentindo alguma peripécia nossa, nos pegou em fragrante. Nada foi dito, nada se escutou. Bastou seu olhar de inquisidor sobre os óculos redondos, grossos de aro fino para sabermos que estava tudo muito, muito censurável.
O tempo passou, saímos de férias e nenhuma consequência da peraltice praticada, aparentemente, teve curso.
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Visitem Paulo Chinelate
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Memórias de um Seminarista (Parte XVIII) - por Paulo Chinelate
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Confesso que nunca estive tão ansioso por espairecer junto aos meus queridos pais e irmãos.
Têm-me ocorrido pensamentos de voltar definitivamente ao convívio dos entes queridos. Não que haja da parte do ambiente de internato algo que cresça repúdio por ele, pelo contrário, tenho vivido dias de maior integração com meus amigos. Mas a sensação de estar em lugar errado não desapega de meus pensamentos. Vou completar dezesseis anos dentro de quatro meses. Apesar dos motivos que me trouxeram ao seminário tenham sido outros que não o vocacional, durante estes últimos anos tinha já aceitado ser do ambiente religioso a dedicação de minha vida. Mas, há alguns meses que venho tendo frequentes inclinações a querer outra coisa que não a vida celibatária e “reclusa”.
Li e reli muitos assuntos da vida militar. Fascinam-me a vida da caserna, a disciplina de soldado, a possibilidade de ter um dia voz de comando e quem sabe galgar a carreira dos grandes heróis da pátria. Sou filho de um ex-combatente da última guerra mundial. Sempre que papai relata os feitos de batalha, como que um frenesi abate sobre mim.
Estou em Juiz de Fora para passar o Natal, fato que desde 1960 não ocorria.
Está sendo maravilhoso poder compartilhar momentos íntimos com meus nove irmãos. Agora somos dez. Mamãe há cinco meses recebeu a visita de mais um irmãozinho. Como praxe em toda família de italianos, fui escolhido, como o mais velho, juntamente com minha irmã Conceição, convidado a ser o padrinho de batismo do bruguelo. O Maurinho dá início a uma lista de afilhados que certamente terei por toda a vida. Se o ambiente pessoal familiar se modificou durante estes últimos quatro anos por conta do desenvolvimento de meus irmãos, o espaço físico também teve suas variações. Por conta de papai estar agora com trabalho fixo, tem aprimorado a casa adaptando-a tanto ao maior conforto quanto ao crescimento da turma.
Por tudo isto, tenho pensado em poder retornar ao ninho que eu abandonara só para ser uma boca a menos.
Os companheiros de rua e bairro, assim como eu, cresceram. Como é gostoso encontrá-los, não mais nas molequices de outrora, tempo que nos parece longínquo, mas agora às saídas da missa das sete da noite, ou nos papos de esquina da pacata Rua Inácio Gama no Bairro de Lourdes.
As visitas aos parentes é uma praxe que mamãe não perdoa. Em alguns momentos, estes passeios são puramente agradáveis. Visitar minhas primas Terezinha, Maristela, Lena e Marice Cal. Meus primos Waltinho, Zé Carlos, João Batista e Juarez. No entanto, a paparicação de meus tios e avós me incomoda. Sou visto como o “santinho”, o “padre” da família. Sentimentos vão de choque contra a minha breve intenção, ainda secreta, de sair do seminário. Permaneço, portanto, em palpos de aranha. Calo-me ainda. Não sei qual seria a reação de papai e mamãe quando e se eu decidir por isto.
Terminados os vinte dias de tão breve descanso retorno às lides, agora se apresentando rotineiras, do seminário.
Passados alguns dias das ainda vívidas férias, o quadro nacional é perturbado por densas e negras nuvens. A política, diariamente acompanhada pela voz do locutor da Rádio Globo, o Repórter Esso, Heron Domingues, avalio o distúrbio que o Presidente João Goulart vem trazendo à nação desde a renúncia de Jânio Quadros.
O jornal Zero Hora, de Porto Alegre, achincalha o sentimento mais profundo, religioso, do Brasil fazendo publicar em primeira página uma estampa grotesca de Nossa Senhora Aparecida. Estão anunciando, em tintas pesadas o que será do Brasil caso opte pelo socialismo de cores soviéticas.
A condecoração do guerrilheiro Che Guevara por Jânio Quadros quando ainda presidente, a visita do presidente Goulart à China Comunista, o envio de caravanas de políticos, professores e estudantes à Cuba e à China, apoio governamental a invasões de terras pelas ligas camponesas lideradas pelo deputado comunista Francisco Julião, apoio de ministros à subversão da ordem, ataques diretos de políticos do Governo aos Estados Unidos, pregação oficial contra a hierarquia militar, e principalmente a presença do Presidente da República discursando frente a uma gigante manifestação de soldados e cabos contra oficiais e ministros, no Rio de Janeiro.
A Igreja, a imprensa, os empresários, as classes profissionais, as donas de casa e os militares protestam perante a conturbada economia brasileira enfrentando inflação com índices mensais superiores a 50%, elevado desemprego e baixo crescimento.
Tudo isto acompanhado com voracidade pelos nossos ouvidos, inda que adolescentes, já educados a discernir o joio do trigo.
Março terminou com notícias de movimentos sociais e militares. João Goulart foi deposto. Queira Deus que tudo serene. Que a paz retorne ao nosso sofrido povo. Dizem que está uma situação de guerra. Temo pelos meus familiares. Aquece o desejo de estar com eles.
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sábado, 5 de dezembro de 2009
Memórias de um Seminarista (Parte XVII) - por Paulo Chinelate
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Eu continuo expert em previsão do tempo. As setas da rosa dos ventos no cimo do dormitório dos noviços dão-me, através da posição do cata-vento adicionada pela direção das nuvens, a indicação se choverá ou não no dia seguinte. A pesquisa é maior quanto mais próxima houver a promessa de piqueniques, passeios, jogos.
Às quartas feiras temos livres as tardes para esportes ou trilha pela floresta. Portanto, nas terças o trabalho de pesquisa do tempo já está programado.
A grande novidade deste ano está sendo a participação maior em peças teatrais e esquetes. O Irmão Constantino, abnegado e paciente condutor dos peraltas adolescentes metidos a artistas, continua a tirar leite de pedra.
Por ocasião do encerramento dos semestres escolares de meio e final de ano são apresentadas seções teatrais. Os nobres convidados contam-se entre religiosos, políticos, fazendeiros vizinhos e moradores do entorno da fazenda que vêm usufruir conosco de momentos ansiosamente aguardados.
Apesar de eu participar de todas as atividades do juvenato, de ter passado como líder por Uberaba, sou tímido e retraído. Até mesmo assistir a filmes infantis de desenho animado faz-me ficar tenso e nervoso, ansioso com o destino dos personagens. Falar em público apresentando trabalhos - quer em sala de aula ou solando o cantochão nos recitais das “Vésperas” lá na capela - é para mim grande dificuldade.
Recebemos a visita de um Irmão Marista da província do Sul. Irmão Vital é o seu nome. Catarinense de porte considerável, tem em seu nome o que estampava em seu rosto vermelho e olhos de um azul celeste: expirava vitalidade.
Fará amanhã uma apresentação no salão de teatro sobre hipnotismo. Trabalha com letargia e paranormalidade. Procurou entre nós, fazendo testes, “cobaias” para sua apresentação. Fui escolhido tão logo colocou em mim seus olhos. Parece ler nossa alma. É psicólogo. Durante os testes que me coube fazer com ele acabou descobrindo meus problemas de timidez. Passou-me lição que deveria repetir para extirpar tal mal. Descobriu no dorso de minha mão direita, bem perto do pulso, como também na parte interna do meu polegar direito, duas verrugas que me causam muito desconforto. A do dedo prejudica, inclusive, a caligrafia. A do dorso sempre a bater em paredes sangrava amiúde. Passou-me lição urgente e sendo seguida, garantiu, em menos de quinze dias teriam sumido as aberrações que já me acompanhavam há anos. Eu já tinha feito antes diversos tratamentos inócuos, incluindo aí ácidos aplicados pelo “bondoso” Irmão enfermeiro.
No dia seguinte estamos eu e mais uma meia dúzia de colegas em cima, no palco, à disposição do “mestre”.
Entre diversas apresentações, a que mais surpreende perante uma plateia de mais de duzentas pessoas, é a imposição de mãos do Mestre Vital sobre pesada mesa e suspendê-la a considerável altura do solo. Em seguida, abaixada a mesa, nós seis auxiliares não conseguimos suspendê-la de forma alguma.
Outra impressionante demonstração foi testemunhar a interferência dele sobre um vaso de planta. Se seu rosto já é rubro por natureza, durante esta exposição ficou da cor de um tomate maduro. Espalma suas mãos em direção à planta a uma distância de uns dois metros, colocada que fora à beira do palco. Em pouco menos de minuto nota-se que a planta vai murchando defronte de nossos olhos.
Atravessou-me o pescoço com um grande alfinete e fez-me passear pela plateia. Retirou depois a peça de aço e novamente fui vistoriado pela curiosa plateia que estupefata não encontrou cicatriz e muito menos sangramento.
Diversas outras peripécias foram apresentadas: abraçados, dois a dois, nós éramos desafiados a desfazer o abraço. Um colega colocado deitado, tendo somente o calcanhar e a nuca apoiados em duas cadeiras, suportou três de nós sentados em cima dele sem ao menos vergar o corpo.
No mais, além de minhas verrugas se esfarelarem em menos de duas semanas, tudo corre sem grandes percalços.
Dentre todas estas amenidades e outras nem tanto tocamos o ano de 1963, só mesmo maculado pelas adversidades políticas que já permeavam o noticiário do “Repórter Esso”. O governo do “vassoureiro” Jânio Quadros está fazendo água. Há um desconforto político. O socialista João Goulart, nosso Vice-Presidente da República, tem praticado alguns atos que estão desagradando religiosos e militares.
Final de ano, vésperas de Natal, dá-se início ao nosso retiro espiritual.
Este ano seremos atendidos por um pregador Jesuíta. Homem sisudo, mas de coração brando.
Guardo, no entanto, grave impressão de suas pregações, principalmente quando afirmava que na porta do inferno existe um relógio cujo pêndulo, ao balançar, aponta para duas palavras escritas em cada lado: “Sempre” e “Nunca”. Significando, para quem cair no inferno, que nunca mais sairá e sempre ficará ali. Achei tétrica e inverossímil tal comparação. Não acredito em um Deus cruel que pune tão barbaramente seres ainda imperfeitos. No dia de confissões declarei a ele, pobre e singelo padre, minha visão sobre o Deus de amor que eu compreendia. Não gostou e pediu que eu rezasse para obter a minha conversão.
Chegam finalmente as férias em família. Posso desfrutar de vinte dias com meus familiares em Juiz de Fora.
domingo, 8 de novembro de 2009
Memórias de um Seminarista (Parte XVI) - por Paulo Chinelate
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Se em Mendes eu fazia parte dos “menores” porquanto estivera nas turmas ginasiais inferiores, aqui em Uberaba eu pertencia ao “staf” dos mais velhos.
Ser mais velho, aprendi logo, tinha suas vantagens e também responsabilidades. Eram os mais velhos que escolhiam os times na montagem dos campeonatos de futebol, vôlei, basquete, sinuca, natação etc. Isto dava status, muitas vezes eu era bajulado e paparicado. Verdadeiras lições no trato da vida. Por outro lado, tinha o dever de ser mais esforçado nos estudos. Não coadunava ser líder só das “peladas” e “rachas”, tinha que ter ascendência intelectual e, porque não dizer, moral. Por conta disto, minha colocação nas notas de aula aumentou. Era chamado pelos colegas a dar opiniões em diversas áreas.
Já com quatorze anos, notei mudanças outras que nem imaginava acontecer. O corpo de rapazinho se fazia notar. Comecei a ter dificuldades em participar do coral do colégio onde fora soprano desde que chegara ao Juvenato. Minha voz não obedecia às notas mais altas. Parecia pinto velho gogo transformando-se em frangote: nem piava nem cantava, era um cacarejo rouco.
Papai, congregado mariano, conseguira, para eu ler, desde os sete anos, uns livrinhos que pegava lá na igreja intitulados “Antes que aprendam na rua”. A cada ano de idade um livrinho diferente. Os primeiros informavam como as plantas se reproduziam, o trabalho das abelhinhas, e finalmente a sementinha que papai plantara em mamãe, sem contudo haver aprofundamento no assunto. Antes porém que eu viesse a saber de “outras novidades” saí para o Juvenato.
Se algo se modificava exteriormente em mim, o que diria sobre sentimentos interiores? Mas papai estava tão longe para dirimir minhas dúvidas e questionamentos... Foi quando recebemos a visita de lúcido Irmão Provincial. Com olhos da experiência de pedagogo e guia espiritual viu logo minha aflição. Chamou-me em conversa particular e compreendendo meu estágio de ignorância das coisas da vida pediu-me que elaborasse por escrito uma lista de perguntas sobre o que quer que fosse e que na entrevista seguinte mas responderia. Dito e feito.
Saí da conversação olhando o mundo diferentemente. Percebia agora os meus colegas menores com olhos de superioridade. Eu sabia de “coisas” que eles nem imaginavam. Olhava os mais velhos e adultos com a cumplicidade dos segredos da vida.
E os meus primeiros dias de puberdade foram passando.
Diferentemente de Mendes, pelo confinamento da fazenda, aqui saíamos a passear pela cidade em duplas ou trios. Fui conhecer o parque de exposição dos Zebus cuja capital brasileira da espécie era Uberaba. Terra dos arrozais a perderem-se de vista, identicamente ao feijão apelidado de uberabinha, traziam à cidade um ar de progresso que minha Juiz de Fora não possuía. E nós como que participávamos da vida extramuros.
Facilitados por antigos alunos do Diocesano, fazíamos piqueniques em suas fazendas, beiras de rio e cachoeiras. O Colégio Diocesano, o maior da cidade, oferecia-nos, com seus múltiplos campos de futebol rodeados de mangueiras, oportunidade para praticarmos as peraltices símias.
Findo o ano letivo, novidades bateram à porta. Não fora economicamente viável a manutenção de um seminário naquelas plagas. Voltaríamos no ano seguinte para Mendes.
Um misto de satisfação pelo retorno à antiga pousada. No entanto o medo de perder também a “pose” de maior. Aqui, em terra de cego, quem tinha um olho era rei, lá a coisa deveria ser diferente.
Pela metade do mês de dezembro empreendemos viagem de volta. Retornamos passando por São Paulo. Pelas cidades que cruzamos, Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo e outras, tivessem colégios Maristas, lá pousávamos. Conhecemos Aparecida do Norte. O bom, porém, foi trilhar as estradas já antes conhecidas entre Vassouras e Mendes. Entrar na fazenda de São José das Paineiras, nosso destino, foi uma sensação antes não experimentada.
O reencontro com antigos colegas e amigos, tomar conhecimento de outros tantos que tinham desistido da vida religiosa e que lá mais não encontramos, foi impressão mista que ia do contentamento à decepção.
E o ano de 1962 chega ao final com seus encontros, desencontros e reencontros.
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sábado, 24 de outubro de 2009
Luis Fernando Veríssimo em “Quem Sou Eu?” - Citado por Paulo Chinelate
Nesta altura da vida já não sei mais quem sou… Vejam só que dilema!!!Na ficha da loja sou CLIENTE, no restaurante FREGUÊS, quando alugo uma casa INQUILINO, na condução PASSAGEIRO, nos correios REMETENTE, no supermercado CONSUMIDOR.
Para a Receita Federal CONTRIBUINTE, se vendo algo importado CONTRABANDISTA. Se revendo algo sou MUAMBEIRO, se o carnê tá com o prazo vencido INADIMPLENTE, se não pago imposto SONEGADOR. Para votar ELEITOR, mas em comícios MASSA, em viagens TURISTA, na rua caminhando PEDESTRE, se sou atropelado ACIDENTADO, no hospital PACIENTE. Nos jornais viro VÍTIMA, se compro um livro LEITOR, se ouço rádio OUVINTE. Para o Ibope ESPECTADOR, para apresentador de televisão TELESPECTADOR, no campo de futebol TORCEDOR.
Se sou cruzeirense, SOFREDOR. Agora, já virei GALERA (se trabalho na ANATEL, sou COLABORADOR) e, quando morrer… uns dirão… FINADO, outros… DEFUNTO, para outros… EXTINTO, para o povão… PRESUNTO. Em certos círculos espiritualistas serei… DESENCARNADO, evangélicos dirão que fui… ARREBATADO.
E o pior de tudo é que para todo governante sou apenas um IMBECIL!!!
E pensar que um dia já fui mais EU.
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sábado, 17 de outubro de 2009
Terremotos, Tufões, Tsunamis Etc. - por Paulo Chinelate
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Todos ficamos estupefatos pelos acontecimentos atuais no campo das calamidades. São eles tufões, vendavais, ciclones, maremotos, furacões, erupções vulcânicas e cataclismas outros.
Ouvimos, por outro lado, que isto sempre aconteceu em todos os tempos. Tomamos conhecimento dos atuais, ao vivo e a cores, por conta dos meios de informação cobertos pela tecnologia moderna. No entanto a história sempre foi registrada de uma forma ou de outra, com atrasos ou não, e não sabemos se a intensidade foi como agora.
Portanto, podemos descartar que fatos idênticos aos de agora mataram igualmente no passado, ou que foram em tamanha intensidade como agora. Claro está que os fósseis encontrados pela paleontologia vêm demonstrar as ocorrências multimilenares dos cataclismas.
Tomemos como exemplo um só dos fenômenos, os tsunamis. Não conhecíamos, até pouco tempo atrás, nos estudos de geografia, ciências e afins, o fenômeno em referência. Ainda que já tenha havido eventos desta natureza, eram de diminuta grandeza nas áreas afetadas.
Então nos vem o questionamento: qual tem sido a causa primária de tais fatos?
É muito cômodo colocarmos culpa no homem pelo descuido no respeito à natureza. Nós, acionando o efeito estufa, podemos, certamente, comprometer as geleiras da Antártica ou do Ártico. Não participamos, no entanto, da ocorrência dos terremotos. A menos que agora estejamos sofrendo efeitos na camada geológica originados das desgraçadas experiências atômicas no passado no atol de Biquíni, o que me parece improvável. O efeito climático “El Niño” pelo superaquecimento das águas do Pacífico não nos parece resultado das queimas de gás em nossas cozinhas.
Então, por qual razão tantas mortes, tantas desgraças ao mesmo tempo?
A uma visão curta e míope, certamente não teríamos como responder. Mas se olharmos a natureza (digam-se aqui as leis naturais da destruição) que nos cerca, poderemos concluir que tudo no universo baila orquestrado sob leis estabelecidas de que não podemos fugir.
Conhecemos, ou nem tanto, as Leis Naturais estabelecidas tais como: relatividade, gravitacional, equilíbrio, ação e reação. Dentre elas existe uma tão pouco estudada, entendida e/ou aceita: A Lei da Destruição.
A árvore centenária da floresta amazônica que caída vira um pasto a bactérias, formigas, fungos e cupins está tão atrelada a esta lei quanto os insetos, animais e nós humanos. Precisamos, necessitamos ser renovados. Se as leis naturais existem para serem cumpridas, quem somos nós para pretender execrá-las?
A renovação, em todos os aspectos da vida material, é necessária. O que não percebemos (e aqui incluo até mesmo os profundamente espiritualizados) é o quão importante também é saber que a vida não termina com a morte física. Aqueles que ainda estão atrelados somente à vida aparente, física, que abram os olhos para ver, ouvidos para ouvir e coloquem todos os sentidos outros para perceberem que atrás do que se manifesta materialmente esconde-se uma vida pungente, a vida espiritual.
Se passarmos a entender o “fenômeno” da morte, qualquer que seja a forma que ela se apresentar, lidaremos com mais respeito com a vida física enquanto ela existir. Devemos também procurar perceber a abrangência que esta existência tem para vivermos a outra, esta sim verdadeira, a vida espiritual.
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sábado, 10 de outubro de 2009
Memórias de um Seminarista (Parte XV) - por Paulo Chinelate
CASA NOVA, VIDA NOVA!
Belo Horizonte. Como é desconhecida esta capital para os “mineiros” de Juiz de Fora! Não é à toa que nos apelidam de “cariocas do brejo”. Estamos lá, de costas para nossa capital e virados para Rio e São Paulo. Acho que vem daí a rivalidade também dos Cruzeirenses, Atleticanos e Americanos para com o nosso pobre Tupi Footeball Club.
Enquanto aguardávamos os transferidos de Mendes e os novos juvenistas para compormos uma só caravana, fomos conhecer os lugares mais pitorescos da capital mineira.
Mais uma vez o privilégio de tocar os pés no que seria o futuro Mineirão. As arquibancadas a meia altura de construção já nos deslumbrava. Fomos ao que seria o meio do campo. Tinha uma amostra em forma piramidal com as diversas camadas que formaria o subsolo do gramado: pedras graúdas, seguidas de outras menores até chegar à areia grossa, depois terra firme e enfim o gramado serviriam para os engenheiros projetarem o que seria o nível do segundo maior campo de futebol do mundo.
Visitar a Pampulha com seus murais, a lagoa e o seu vizinho aeroporto, bem retirados da cidade, foi um grande passeio.
Algo que presenciei ficou marcado em mim profundamente: Irmão Diniz, nosso futuro professor que iria conosco para Uberaba, nos levou à Faculdade de Letras onde terminara uma pós-graduação para pegar o seu diploma. Visitamos o grande complexo da Universidade Federal de Minas Gerais. Logo após esta visita, ele, Irmão Diniz, dirigindo a kombi em que viajávamos subiu um morro contendo casas muito pobres. Surpresa maior foi quando deparamos com diversas casinhas proletárias de tijolos. Muitas já prontas, outras pela metade e algumas nem tanto, com alguns voluntários, rapazes e moças a meter a mão no barro a erigir paredes. Ele fora o responsável técnico e mentor da grande obra de caridade destinada a substituir barracos de papelão e latão, ainda às fartas por onde a vista alcançasse. Pelos cumprimentos e depois despedidas, vimos muitas lágrimas, tanto dos trabalhadores quando dos futuros moradores. Fiquei sabendo então que seria a sua última participação naquele local de trabalho. Tinha tirado, logo que chegamos, farta quantidade de merenda distribuída a tantos quantos ali estavam. Creio que ele também, como eu e, aliás, como todos nós, sofria de suas perdas na vida.
Chegou o dia da viagem com a vinda do ônibus do Colégio Marista São José lá do Rio de Janeiro. Era uma grande jardineira, com seu bico comprido, trinta e dois assentos, todos ocupados por colegas chegados de Colatina-ES, Vila Velha-ES, Montes Claros-MG, Dores do Indaiá-MG e Patos de Minas-MG. Compúnhamos pequena comitiva, porém grandemente ansiosa pelo que nos pudesse aguardar em Uberaba-MG.
Algo interessante ocorreu nesta viagem. Dos dez contos de réis que ganhara do vovô, gastei um conto com o pintinho Lamparina e os outros nove estavam pesando em meus bolsos não acostumados a possuir tão “elevado” valor. Na primeira parada à beira da tremida estrada de chão batido que ligava a capital ao Triângulo Mineiro, comprei um pacote de balas e, não vendo nada mais útil, adquiri uma lata de azeitonas. Levando-a já aberta ao ônibus, ofereci aos colegas e estranhamente ninguém quis saber do meu regalo. Distraído com o chocalhar da estrada e da paisagem esvaziei a lata de quinhentos gramas, sozinho. Só sei que o resultado não foi bom. Não demorou muito uma cólica intensíssima me acometeu. Segura daqui e dali, não medi esforços para “determinar” ao motorista que parasse na primeira civilização que encontrasse. Foi o que ocorreu. Beira de estrada qualquer, às carreiras, adentrei um cubículo mal cheiroso instado como banheiro. O resultado foi sentido menos de um mês depois quando fui levado a um médico e constatada uma infecção na epiderme, por contato com algum lugar “sujo”.
O novo lar é lindo. Construção novinha cheirando a tinta fresca. Grandes e espaçadas salas de aula. Auditório de grandes dimensões. Uma capela especialmente construída com sistema de ressonância equilibrada para os corais que ali se apresentariam em missas solenes. Isto tudo em um grande sítio arborizado com piscina de água natural corrente e fruteiras diversas.
Não bastasse tudo isso, tínhamos a nossa disposição sete campos de futebol divididos entre si por frondosas mangueiras, localizados a pouca distância do seminário, no Colégio Diocesano de Uberaba, também dos Maristas.
Não consigo me esquecer do primeiro banho de piscina que fomos apresentados ao final do segundo dia. Eu, de calção novo, azul-marinho, a exemplo de companheiros que mergulhavam, decidi pular n’água. Mineirim dos bãos, diz o ditado, fica longe d’água. Constatei de imediato a razão disso. Novato na arte, senti a pressão da água em meus pulmões e ato contínuo aproximei-me da beira e pulei fora. Este pulei fora tem uma conotação bem própria: pulei sozinho, o calção ficou. Consegui, com uma entorse e um safanão evitar que o mesmo se afundasse e ali mesmo enfiei-o pernas acima. Envergonhado, não sei se do vexame ou da tinta azul que escorria pernas abaixo vinda do calção ex-novinho-em-folha.
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domingo, 4 de outubro de 2009
Olimpíadas - por Paulo Chinelate
Brasil, Japão, EEUU e Espanha buscaram apresentar o que de melhor poderiam oferecer ao Comitê Olímpico Internacional como garantia de futura sede dos jogos de 2016.
Não resta dúvida alguma que um país que sedia tal evento tem como lucrar em diversas frentes, senão vejamos.
As obras, tanto das sedes propriamente ditas quanto da estrutura necessária, isto é, vias de acesso, alojamentos e similares (restaurantes, lojas etc.) serão, desde o início, uma fonte de empregos em todos os quadrantes sociais. Do servente de pedreiro até o engenheiro, do auxiliar de cozinha às empresas de alimentos, do motorista de táxi às linhas aéreas, do guardador de carros ao soldado da segurança pública, a capilaridade na distribuição de responsabilidades na participação do evento e da renda, em todos os aspectos muitas vantagens se sentirão.
No pós-jogos é que reside o ganho maior. Sedes esportivas e escolas combinando o intelectual à terapia ocupacional dos esportes.
A Constituição de 1988 procurou satisfazer o cidadão e, em especial, o residente urbano. O inchaço das cidades fez deteriorar essa relação do ser humano com o meio em que vive, em especial no nosso Rio de Janeiro. Nesta oportunidade que agora surge estará certamente toda a sociedade carioca empenhada na recuperação do tempo perdido.
Que se crie um órgão gestor dos recursos que ali serão aplicados. Que o custo-benefício seja realmente alcançado. Que todos os esforços, financeiros e de gestão, tenham seus frutos colhidos lá na ponta final.
Não seria só o Rio de Janeiro a única cidade a tirar daí os ganhos do evento esportivo. O Brasil inteiro teria também participação. Atletas e visitantes do mundo inteiro aportariam na antiga capital brasileira. No entanto, e com plena certeza, os pacotes turísticos de todo os países sentir-se-iam obrigados a atender seus clientes com pacotes que incluiriam desde o pantanal matogrossense quanto o cantado Nordeste e não deixando ao largo, em épocas ecológicas, a nossa região amazônica.
Portanto, todos temos a lucrar, dos tupiniquins aos turistas e esportistas estrangeiros.
No que tange à participação de nossos atletas cremos ser o melhor de todos os lucros. É sabido que para um país sediar qualquer evento a aplicação dos recursos no humano, isto é, neste caso, em seus atletas é o maior objetivo: ficará criada para a posteridade a tradição participativa nos esportes amadores e olímpicos. Não ficaremos atrelados somente às peladas dos terrenos baldios. Extrapolará os limites da Cidade Maravilhosa e de seus monumentais estádios para alcançar os arrabaldes distantes. Filhos de netos desta geração sentirão, com certeza, os reflexos do sadio ambiente esportivo em suas vidas. Ocupar-se-ão na prática esportiva, a terapia ocupacional que tanto falta aos jovens. Sentir-se-ão longe do desejo aos tóxicos e vícios outros.
Parabéns, Brasil. Felicitações a tantos quantos fizeram por vencer esta etapa inicial rumo às Olimpíadas de 2016.
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domingo, 27 de setembro de 2009
Duelando Manchetes VIII: Educação de Adolescentes - por Paulo Chinelate
PASMEM-SE
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O verbo do título não tem a pretensão de um imperativo, antes disso, é um convite a se espantarem juntamente comigo.
Bem cedinho, 06:30 da manhã, sentado à mesa do café matinal, já tendo encontrado a tv da cozinha ligada, não pude deixar de assistir a uma reportagem no primeiro jornal do dia: em um determinado colégio de São Paulo, depois de um mutirão de pintura pelos pais e alunos por ocasião das comemorações de 7 de Setembro, foram surpreendidos dois dias depois com salas e muros internos todos pichados. Até aí, pode o amigo que me lê, perguntar: “Onde o motivo para espanto? Afinal, destas notícias já estamos saturados”. Concordo e peço paciência, chegarei lá. Após a apresentação de alguns testemunhos de pertinentes reações ao mal feito veio a bomba: a professora responsável pelo patrimônio do colégio, descobrindo o malfeitor executor do estrago, fê-lo pegar rolo e tinta e apagar, consertar todo o desacato. Vivas, alvíssaras, parabéns disse eu, ainda com o gosto do último gole de café na boca. Muitos outros também devem ter dito o mesmo à desagravada professora. Só que a estória não ficou por aí porquanto a família do aluno, melindrada pela correção da dita cuja, deu queixa à polícia e o escambau! O filhinho querido fora exacerbadamente corrigido pela professora, disseram. Ela a partir de então foi tratada como uma praticante de verdadeiro estupro moral ao coitadinho do aluno, que declarou estar envergonhado e não querer mais ir ao colégio. Pai, mãe e agregados, tomando as dores do filho, imputaram a culpa à professora.
Logo em seguida a matéria jornalística apresenta a professora pedindo desculpas e se dizendo culpada pelo exagero do gesto.
Aí parei pra pensar, analisar os fatos em si.
O ato da professora foi espetacular. Não creio que pegar este aluno, levá-lo perante um juiz e aguardar uma punição por parte da justiça fosse o caso. Não vem ao caso apelar para nossa “justiça” tão assoberbada em pilhas de processos em um caso mesquinho e paroquial. Uma professora de fim de subúrbio tem capacidade de executar, sim, uma tarefa tomando para si a incumbência de uma punição modelar.
Paizinhos queridos, ofendidos pelo seu filhinho pivete, terem recebido de uma professora o que eles mesmos não conseguiram dar a seus rebentos não justifica a reação adotada.
Estabeleceu-se como ridícula a posição da professora pelo fato de ela vir a público e pedir desculpas pelo seu ato.
A aceitar-se tal posicionamento da mestra por ter praticado tal ato com sentimento de vingança, tudo bem. Não foi isso, porém, o que ficou evidente na matéria.
Considero uma tremenda inversão de valores.
Quanto ao melindroso moleque, é para perguntar-lhe se aqueles que tão amorosamente fizeram consertos e pinturas no colégio como ato cívico em 7 de Setembro também não podem se sentir melindrados pelo seu gesto infame, e qual seria então o direito de resposta de todos estes ofendidos. Pincel nele, professora, sem medos e sem receios.
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sábado, 12 de setembro de 2009
Memórias de um Seminarista (Parte XIV) - por Paulo Chinelate
MUDANÇAS
Foi um bom ano. Por ter repetido o ano letivo, passei pelo “admissão” com ótimo proveito.
Os acontecimentos mundiais seguidos pela rádio-eletrola da sala de estudos nos trouxe as notícias da eleição e renúncia de Jânio Quadros. A Alemanha levanta o muro de Berlim, único buraco existente na “cortina de ferro”. Os Estados Unidos não conseguiram derrubar Fidel Castro com a investida da “Baía dos Porcos”.
Os eventos de final de ano repetiram-se espetaculares. Acresça-se às festas de formaturas, congratulatórias e passeios, o tão esperado leilão. Não fiquei atrás na pontuação adquirida durante o ano. As notas mensais das disciplinas bem como alguns títulos de campeão em futebol (eu sou goleiro), participação em caça às cobras e insetos me facilitaram poder arrematar lindas prendas no leilão. Muitos dos prêmios já têm destino certo: meus irmãozinhos em Juiz de Fora. Vou viajar de férias. Depois de dois anos sem vê-los e aos meus pais a saudade está apertada.
O acontecimento mais importante, no entanto, está na mudança de seminário, digo, juvenato. Foram extintas as séries inferiores do ginásio aqui em Mendes. O clima de despedida reina entre todos nós. O ano de 1962 será vivido em Uberaba-MG lá no triângulo mineiro. Das férias com a família já seguirei para o novo destino.
A despedida tem um gostinho de até breve. Em 1963 estarei de volta para fazer o 3º ano ginasial. Mas de qualquer forma o desconhecido nos dá sentimentos de insegurança pelo desconhecido.
Para a minha ida às férias tive a sorte de pegar uma carona em um Oldsmobile do pai do Halrey, colega e conterrâneo meu. Papai não precisou e acho que nem poderia vir me buscar.
Rever meus parentes foi de uma alegria imensa. Mamãe ganhou sua primeira geladeira, Frigidaire, mostra de que papai financeiramente está melhor. Meus irmãos cresceram demais. Passarei com todos vinte dias muito legais. Inclui-se aí o Natal. Procuro fazer minhas preces matinais, vesperais e noturnas. Tenho um manual de férias a preencher. Não posso esquecer a disciplina religiosa, na medida do possível indo às missas diariamente. Não é difícil. Papai continua fiel aos velhos costumes. Só que da igreja já vai direto aos Correios.
Volto para casa e procuro interagir, não mais como um molecote como dantes. A vizinhança e a farta parentela a me convidar para cafés e almoços. Se dantes de seguir ao seminário já era figurinha rara, imagina-se agora como sou tratado. E por ser referência tenho que fazer comportamentalmente por onde.
Continuo sendo o xodó da vovó Lídia, para ciumeira dos outros setenta netos.
Ganhei dez contos de réis do vovô João e aproveitei para comprar um lindo pintinho de um vendedor lá na estação Central do Brasil. O bichinho amarelinho e frágil me cativou ao primeiro olhar. Custou um conto de réis. Papai colocou um cesto de palha bem grande para acomodar o pobrezinho. Pia o dia todo, apesar do fubá e do milho pilado à sua disposição.
Aconteceu um acidente, a Dinha, prima velha que mora com a mamãe pisou no “Lamparina”, apelido que papai colocou no pintinho. O bichinho quebrou a asa. Papai encanou-a. Tomara que o coitado não sofra muito, embora esteja piando muito mais.
Conforme combinado, mais uma vez o pai do Harley nos conduzirá ao destino: Belo Horizonte. Ficaremos alojados no colégio Marista da capital mineira aguardando os outros juvenistas que, como eu, estão sendo transferidos para Uberaba. Desta vez não vamos de carro, mas de Litorina, trem de um só vagão, rápido e silencioso.
Após as já conhecidas despedidas, chorosas e saudosas por parte principalmente da mamãe, seguimos viagem. Lá pelas tantas, mergulhado nos meus pensamentos, dividido entre querer encarar as novidades da vida mas lamentando a repetida separação dos meus amados familiares, noto que o balançar do trem entre trilhos me alerta par uma lembrança. Não sabia bem qual. Ah! Não poderia ser outra coisa: a similitude dos ruídos das rodas do trem com o piado do “Lamparina” faz-me verter lágrimas de saudades.
sábado, 11 de julho de 2009
Memórias de um Seminarista (Parte XIII) - por Paulo Chinelate
MUDANÇAS EM VISTA
O ano escolar começou bem cedo. Tenho uma mesa de estudos com tampa de levantar onde guardo meus livros. Um ratinho branco disputa um lugarzinho entre os meus objetos escolares. Meu mascote recebe todos os dias sua ração de pão, bolacha e água. Levo-o para tomar sol às horas de recreio. Muitos são os animais de estimação adotados por colegas. Um tem uma pequena cobra cipó, verdinha que faz gosto. Outro, uma aranha tarântula, peluda, enorme. Meu vizinho de estudos tem um jeco, pequeno camaleão que troca de cores quase instantaneamente. Atrás do galpão dos banheiros temos vários viveiros de cobras que ficam aguardando o momento para serem mandadas para o Instituto Butantan. Recebemos soro antiofídico em troca dos espécimes que para lá enviamos. A floresta que nos circunda é rica de ofídios: jararacas, urutus, principalmente a urutu cruzeiro e cascavéis. A mais linda de todas é a caninana. Não é venenosa. Tem lindas escamas amarelas, pretas, verdes e vermelhas.
Outro dia fomos visitados por caravana de alunos e familiares Maristas do Rio de Janeiro. Um dos senhores da comitiva estava a filmar-nos em nosso dia a dia. Eu portava a caninana enrolada no meu braço quando ele se aproximou. Para minha infelicidade, naquele exato momento caiu um cisco em meu olho. Uma semana depois mandaram-nos a fita que foi exibida antes do filme do mês. Eu estava piscando e tentando explicar a origem, nome e dados do animal. Ficou hilário. A plateia riu a valer.
A sala de exibições dos filmes fica no porão abaixo da capela. Cabem umas trezentas pessoas. Tem palco e é lá que são apresentadas peças teatrais. Quem cuida tanto das projeções dos filmes como do teatro é o Irmão Constantino. É também nosso fotógrafo. Graças a ele tenho fotos do final do ano passado. Fotos oficiais com todos os colegas. Nunca vi o Irmão Constantino com cara fechada. Sempre solícito, nos recebe sempre com muito carinho. É nosso professor de matemática.
Uma coisa interessante: foi instituída uma tabela de valores para todas as atividades aqui no juvenato. Como se fosse dinheiro que vamos juntando durante o ano. Para as notas das provas mensais temos valores que vão sendo acumulados em nossa caderneta. Se participamos de uma gincana, acumulamos pontos se formos vencedores. Os campeonatos de jogos, tanto de campo quanto de salão têm sua pontuação específica. Disseram-nos que ao final do ano o acumulado servirá para adquirirmos objetos que serão leiloados. Isso nos causou um grande frisson. Todos participamos de tudo. Quero ver o resultado. Até pegar cobras para o Butantan vale pontuação. Conforme a raridade delas varia o valor.
O mais legal é participar da turma de entomólogos do Irmão Zeno Camata. Estamos formando um museu de insetos. Aprendi a tratar os insetos para a mumificação. Muitos deles são compartilhados com outros colégios Maristas espalhados pelo mundo. Exportamos os insetos em caixinhas de madeira de Mate Leão®, entre camadas de algodão. O cheiro do formol é muito saliente. Tem um inseto que dá uma alta pontuação. Só o vimos no catálogo. É o “moleque da bananeira”. O bichinho tem uma aparência humana se colocamo-lo em pé. É uma verdadeira fixação querer conseguir um espécime.
No salão de estudos, pelas oito horas da manhã, ouvimos o repórter Esso. O Irmão Claudino nos permite acompanhar o noticiário diariamente. Ficamos sabendo que Kruschev mandou erigir um muro dividindo Berlim ao meio. Pobre Alemanha. Fidel Castro se fixa no poder cada vez mais. Yuri Gagarin, astronauta russo, representa o primeiro homem a subir ao espaço sideral. Não gostamos da falta de respeito quando ele declara que “não vira Deus” no espaço celeste, numa reafirmação do ateísmo russo.
O ano está passando rapidamente. As notícias de casa são tranquilizadoras. Papai, agora empregado dos Correios e Telégrafos, transmite mais estabilidade à manutenção do seu lar.
Notícias ruins estão pairando pelo ar. O Juvenato vai fechar-se às turmas menores do ginásio. Os primeiro e segundo anos do ginásio não ficarão mais em Mendes/RJ. Isto quer dizer que vamos ser transferidos para Uberaba/MG por conta da inauguração de novo Juvenato no Triângulo Mineiro.
As mudanças carecem ainda de confirmação. Se ocorrerem, maior perda terei, já a tive em me separando dos companheiros no ano anterior, e agora me afastando do cantinho que adotei como minha segunda casa.

