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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Dormir Aqui e Amanhecer em Outro Lugar - por Saulo Rosa

Tudo aconteceu de repente, sem que eu tivesse tempo de me acostumar. Ontem eu vivia feliz com a minha família. Hoje acordei e a realidade era outra. Tudo se perdeu. Nem harmonia familiar, nem carreira, trabalho, sonhos, nem tampouco a saúde. Sou outro homem. Acordei com a sensação de estar em outro lugar. Um lugar lúgubre, sem amor, sem esperança. Tudo em que eu acreditava desmoronou. E, tão subitamente, que me encontro ainda tentando afastar os escombros e respirar um pouco o ar que é ainda possível sorver. Uma nuvem de fumaça encobre a paisagem e não me permite enxergar um palmo a distância, apesar de ter sido suficientemente forte para me desenterrar e ver um fio de luz. Sei que ainda há muito a fazer, dificuldades a enfrentar, emoções a deixar de lado até que possa me reerguer outra vez e buscar um caminho. Mas, nesse momento, fraquejo de novo e deixo a cabeça pender vertendo as lágrimas que me permitem lavar o rosto sujo e trazer um pouco de frescor à face e alívio ao coração, agora de pedra. Vou sobreviver, eu sei. Vou caminhar, embora trôpego e sair deste lugar inóspito onde acordei para a vida depois da noite inesquecível em que você me abandonou.
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Carta de Amor - por Saulo Rosa

Resisti a escrever-lhe por este tempo, já que palavras não teriam como expressar completamente o que sentia. Agora, sabendo que é a única forma de estar outra vez em contato com você, envio-lhe esta carta. Você pensa que o que senti por você esvaiu-se? Engana-se. É um fogo que se nutre com o passar das horas de sua ausência. E que ilumina até agora todo o meu ser que só sobreviveu à sua partida para reencontrá-la uma outra vez. E que espera ansioso por este momento, pode ter certeza disso.
Quando você me pediu um tempo, eu fiquei atônito por não entender como isso seria possível, uma vez que toda a minha existência estava voltada unicamente para você e eu supunha que era um sentimento recíproco, de mesma intensidade. Mas não me foi concedido o direito de recusar. Afastei-me de você e busquei sozinho a compreensão do que estava acontecendo. Supus que tivesse feito algo de muito errado, mas logo concluí que não era possível ser esta a causa, que você me amava profundamente e recebia feliz tudo que partisse de mim. Imaginei que seus sentimentos pudessem ter mudado sem que eu percebesse, que talvez estivesse envolvida com outro, mas descartei também esta hipótese porque o tempo passou e fiquei sabendo que você continuava sozinha.
Pensei muito em tudo que vivemos. Refugiei-me no trabalho enquanto, em minha mente, o mesmo filme montado com as passagens felizes de nossa vida se desenrolavam em segundo plano. Perdi o gosto por tudo, lutei muito para suplantar uma depressão que não me largava e que, finalmente, afetou meu desempenho profissional. Sobrevivi.
Nunca me conformei em perdê-la. Alimentei meu coração com as lembranças e vivi da esperança de um dia tudo ficar esclarecido e ser revertida esta ruptura descabida.
Tentei me desligar e até cedi ao assédio de outras mulheres. Acho que quem sofre de amor atrai pessoas em busca de afeto. Tentei, mas nenhum caso passou de algo fortuito que nunca pôde lançar raízes. E depois dos carinhos e de fazer amor com qualquer outra pessoa, o sentimento de perda ficava mais evidente, o rebote trazia ainda mais dor e desalento.
Depois de muito resistir, de tentar endurecer, viver distante da emoção, fui enredado em outra história que começou, hoje eu sei, por conta de muitas semelhanças físicas e de temperamento dessa mulher com você. Foi impossível ignorar um jeito tão semelhante ao seu de sorrir, os mesmos cabelos, o toque suave das mãos. Até uma voz que na expressão muito se assemelhava e quando dei por mim já tinha me envolvido e percebi que algum entusiasmo se insinuava em meus dias. Passei a ter sonhos com ela e em dado momento quem me aparecia era você. Quando percebi, já corria pros braços dela, mas era você que eu desejava encontrar. Fantasiei sem sentir que tínhamos nos reconciliado, estava feliz e um sorriso passou a ficar pregado em meu rosto, insistente. Daí para que ela também passasse a investir em nossa relação foi um pulo. E como eu andava todo enamorado, gentil, emanando uma vibração de puro amor, a moça deixou brotar em seu coração o mesmo sentimento.
Assim, eu chegava, ela sorria. Ficávamos juntos, era imensamente difícil nos afastarmos. Dormíamos juntos, queríamos mais: passar todo o dia juntos. Não demorou muito para percebermos que estávamos tão ligados que não era mais coerente morarmos em casas separadas. Nossas roupas já se misturavam nos armários da minha e da casa dela, nos encontrávamos muitas vezes “por acaso”, falávamos por telefone e e-mail repetidamente e já ousávamos fazer planos futuros juntos.
Posso dizer que voltei a viver novamente neste período, o que não acontecia desde que nos separamos.
Entretanto, em algum nível, eu sabia que não estava tudo bem. Havia em mim uma inquietação, uma ânsia, uma sensação de ferida que parecia ter cicatrizado, mas que voltava a sangrar de repente e ainda doendo muito, dizendo que ainda havia vida.
Levei esta história, este fogo fátuo somente até o dia em que acordei ao lado da moça depois de uma noite de amor e procurei por você na cama com a certeza de que era você e só você que eu queria, era você que eu amava nela sem que ela ou eu percebêssemos de pronto. Nesta manhã em que tive a certeza do que estava acontecendo comigo contei tudo a ela, me expus completamente e rompemos em definitivo, com marcas para ela bem menores do que o estrago que um casamento depois poderia trazer-lhe.
E, a partir daí, com este insight que me situou em relação a nós, decidi deixar de lado possíveis elocubrações que eu já tenha feito ou volte a fazer sobre o que motivou nossa separação e procurar você para me esclarecer.
Esta carta tem por objetivo mostrar a você o que aconteceu, como estou agora e lhe pedir que me diga o que de fato aconteceu com a gente, porque se separou de mim.Afinal, não é possível conceder um tempo pura e simplesmente, sem buscar a explicação, a alguém que despertou um amor que é tão imenso, que resistiu a um tempo grande demais e só aumentou. Te amo e te quero. Volte para mim ou então me liberte deste amor definitivamente.
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

Nascido de Novo - por Saulo Rosa

Tudo corria bem na minha vida quando passei a apresentar problemas de digestão. Eu sempre fui de comer muito bem e nenhuma comida me parecia pesada. Na época em que essa história começou, eu estava com cinquenta e três anos, trabalhava com vendas, numa empresa grande onde já exercia a função de gerente há mais de dez anos, com bastante sucesso, o que era importante pra mim. A minha vida pessoal estava estabilizada e eu era feliz.
Sem qualquer causa aparente, passei a ter problemas com todo tipo de comida mais gordurosa. A princípio não liguei e fui usando chás que me recomendavam. Mas como não surtiram muito efeito e os sintomas se agravaram, com vômitos e dores abdominais, resolvi ir ao médico.
A minha família notou que eu estava emagrecendo e eu de fato estava e sentia também um certo desânimo. Assim, sem ter outra alternativa, aceitei me submeter ao escrutínio dos médicos que, nessa altura, já eram vários. Depois de quase dois meses de investigação e estando bem pior de tudo, veio a confirmação após uma cirurgia com biópsia: eu estava com câncer no pâncreas.
Depois de toda a desolação que este diagnóstico provoca, insisti com os médicos que eu queria saber de tudo com todos os detalhes e desejava participar das escolhas de tratamento e saber direitinho quais eram as chances e quanto tempo teria de vida.
Foi pior ainda porque nesse tipo de tumor as notícias não eram muito alentadoras. Segundo me afirmaram os médicos, eu deveria ter só mais um ano de vida, mesmo com a quimioterapia. A imagem do tumor na tomografia era feia e na cirurgia não puderam ressecar a lesão e fizeram a biópsia só pra confirmar que era maligna e poderem fazer a quimioterapia.
Pois bem, concluí que se eu seguisse esse tratamento, teria pouco tempo de vida e uma droga de vida dentro de hospital e tomando veneno. Mas todas as pessoas da família e amigos queriam me apoiar e ajudar a seguir o tratamento que para eles era a única forma sensata de lidar com algo assim tão grave.
Apesar de fisicamente eu estar um quase lixo, de ter parado a minha vida completamente, deixado de trabalhar e fazer qualquer coisa que fosse prazerosa, no fundo de mim mesmo eu sabia que havia uma saída. Só que não era aquela.
Quando consegui deixar o hospital, sem ter feito ainda qualquer tratamento efetivo, resolvi me acalmar e esperar até que viesse ao meu encontro alguma solução. Eu não rezava pra me salvar nem pensava em pesquisar nada de novo em relação a um possível tratamento para o meu caso.
Passados exatos três dias depois de minha volta para casa, acordei com uma palavra martelando na minha cabeça. Não sabia o que significava, mas ela permaneceu por várias horas me indicando que deveria pesquisar o que estava querendo me dizer. Depois de uma busca exaustiva na Internet cheguei a um Xamã que trabalhava no norte do Brasil. Fazia curas espantosas e não cobrava pelo trabalho. Nunca tinha tido conhecimento dessas coisas nem desse índio e seu nome me chegou como inspiração. Sabia então que caminho deveria seguir e confiei.
Viajei até lá sozinho, enfrentando todas as recriminações da família e dos amigos que quase me impediram de partir pela preocupação com meu estado. No entanto, eu sentia que precisava estar sozinho nesse momento, que essa seria a minha força e que eu contaria com todo o apoio que precisasse de uma outra esfera que não aquela material com a qual eu estava tão familiarizado.
O contato com o Xamã foi de apenas algumas horas. Eu não precisei dizer nada. Esperei por alguns minutos sentado no chão dentro de uma tenda, rodeado por grandes pedras que me transmitiam um enorme calor. Suei muito e quando ele entrou, não pude enxergá-lo com nitidez porque estava escuro dentro da tenda. Pediu que me deitasse com uma voz firme e ao mesmo tempo tranquilizante, falando muito pouco num português comum. Suas mãos tocaram minha barriga com firmeza e cuidado e percebi que mexia profundamente no meu corpo, mas eu não sentia dor. Estava acordado e senti que ele retirou da minha barriga algo que tinha volume depois de fazer com os dedos movimentos precisos. Retirou-se e fiquei sozinho, com uma sensação estranha e ao mesmo tempo muito calmo e começando a ter sonolência. Não sei o que se passou depois que ele saiu. Dormi e quando acordei as pedras estavam lá e não havia mais o calor abrasador. Tudo estava silencioso do lado de fora. Eu me sentia bem. Resolvi levantar e sair. Encontrei o Xamã perto dali, sentado, tendo à sua volta crianças pequenas que o escutavam enquanto falava. Veio ao meu encontro. Disse-me que eu estava curado, que deveria voltar para casa só depois de ficar por um dia em repouso e silêncio, sem comer nada, podendo beber líquidos mornos em pequena quantidade. Falou que o que causou a minha doença tinha sido retirado e que eu ficaria muito bem. Fui tomado de grande emoção enquanto ele me parecia sereno e seus olhos me acalmavam. Nada mais perguntei. Fui embora dali como hipnotizado e nunca me esqueci da sua imagem e de tudo que vivi naquele dia.
Voltei para casa na noite do dia seguinte. Sentia-me muito bem. A minha família ficou aliviada ao me ver de volta. Não me estendi no relato da viagem e do tratamento que fiz. Precisava descansar. Ninguém parecia compreender o meu estado. Eu me sentia em paz e muito voltado para mim mesmo, como nunca tinha estado antes. Os dias se passaram e eu fui ficando cada vez melhor. Voltei a me alimentar aos poucos e já não tinha qualquer incômodo. As pessoas não entendiam como aquilo estava acontecendo. O tempo passou, fui aos poucos me recuperando, ganhando peso. Voltei a trabalhar. Voltei a ter a vida normal que sempre tive, sem que todos que acompanharam de perto o meu caso pudessem acreditar que eu estava curado. Não liguei, eu sabia que estava.
Depois de um ano de muita insistência das pessoas que me amavam, voltei aos médicos que não conseguiram explicar a minha evolução. Falaram em cura espontânea, mas insistiram em me investigar. Eu estava muito bem e permiti que fossem feitos novos exames. Para o espanto dos médicos não havia qualquer vestígio da doença e isto nunca acontecia em casos como o meu, com o diagnóstico comprovado de câncer do pâncreas e no grau de comprometimento que tinha já alcançado.
Eu estava curado realmente. E continuo em perfeita saúde até hoje quando já se passaram sete anos.
Compreendi depois de todo esse tempo que eu tive a minha chance, que pude percebê-la e aproveitá-la. Para isso percebi os sinais, me entreguei e segui o caminho que a vida me apontava. E mais que tudo isso, fui capaz de a partir desse acontecimento, mudar a perspectiva de enxergar a vida, o que representou de fato a verdadeira cura.
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