Creative Commons License


Bem-vindo ao Duelos!
Valeu a visita!
Deixe seu comentário!
Um grande abraço a todos!
(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




Mostrando postagens com marcador .Bruno D'Almeida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador .Bruno D'Almeida. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Por um Mundo Depois das Nove - por Bruno D’Almeida

Fábio Tanajura acordou tarde naquela manhã. Estafa, estresse, canseira, irritação constante, dois xingamentos ao colega de trabalho e uma falta de ereção com a esposa o levaram a procurar ajuda. Estava doente e recebeu calmantes, daqueles que deixam a pessoa lerda com espasmos escorrendo pelo cantinho da boca, um atestado médico com recomendações de durma bem e estima de melhoras. Depois de vinte anos madrugando para chegar ao trabalho no horário, mais quinze de escola funcionando ao nascer do sol, sentiu a sensação de acordar sem horário determinado. Estava um pouco melhor. Correu para o computador e mandou ver:

Eu odeio acordar cedo. Fico o dia inteiro com sono. De que adiantar cumprir um horário tão chatinho e descumprir o direito augusto de viver bem? Passei minha vida inteira cumprindo com minhas obrigações e descumprindo os objetivos que tracei para mim. Tudo que tenho a fazer é viver como uma máquina de produção de força de trabalho com sentimentos amordaçados? Nada de poesia e de nostalgia, nada de pensar que sou gente e que posso acordar naturalmente? Sinto-me tão depressivo em levantar no horário que acordo antes do despertador só para ter o prazer de desligá-lo.
Os bancos abrem às dez horas. Muitas agências de publicidade começam a funcionar às nove. Os shoppings também abrem às nove. O comércio abre a partir das oito da manhã. Por que diabo as escolas começam a funcionar às sete horas da madrugada? Uma crueldade sem tamanho fazer uma criança ou adolescente acordar às cinco, sair de casa às seis e vegetar sentado na cadeira no horário previsto. Dizem que é pra criar disciplina. Acho que cria muito mais remela nos olhos e bocejos de vitamina de banana com chocolate.
Ao acordar cedo demais, deixamos de contemplar a beleza das coisas. Fazemos tudo no automático. Imaginem milhões de beijos automáticos de bom dia flor do dia sem o menor amor acontecendo neste exato momento em algum lugar do mundo. Muita gente se deprime por causa disso e recorre a coisas esdrúxulas. O cidadão adoece diante do desejo de se libertar das amarras do tempo comportado. Por isso muita gente acaba aderindo a uma seita fabricada em manuais de auto-ajuda, que fazem uma lavagem cerebral e deixam você gritando de manhã cedo coisas do tipo bom dia plantinha, bom dia mundo, bom dia qualquer porcaria. Até a tentativa forçada de libertação para horários tão malucos para acordar semeia a insanidade.
Sou a favor de um mundo que comece depois das nove. As pessoas acordariam às sete, no máximo, e chegariam tranqüilas ao curso de suas vidas. Imagine uma legião de pessoas sorridentes, libertadas de acordar com as galinhas. Imagine tirar as olheiras horrorosas do rosto. Lembre-se que toda olheira é um pé-de-galinha em potencial. Vamos gastar menos dinheiro com cremes.
Por isso estou criando o movimento consciente pelo ócio. Sem pressas de carros, ônibus, metrô e motocicletas, todos os meios de transporte querem acelerar o mundo, mas o máximo que conseguem é uma profusão de engarrafamentos e tudo fica devagar às avessas. O mundo não agüenta a rapidez da velocidade paranóica e simplesmente pára. E causa mais irritação. Por que não assumimos conscientemente que podemos fazer tudo bem e devagar? Pense um pouco sobre isso.

Tanajura terminou o texto, leu, releu, tirou os erros de ortografia, releu, lambeu e lambeu a cria, sua jóia rara da humanidade, pegou sua lista de contatos do correio eletrônico e mandou para todo mundo solicitando que fizessem o mesmo. Ainda disse que se todos fizessem isso, em cinco dias o mundo se tornaria um canteiro de felicidade e que qualquer um tinha o dever de cumprir sua missão de um mundo melhor.
Alguns depois responderam que ele deveria parar com a mania de abarrotar suas caixas de mensagens com textos açucarados e utópicos, mas Tanajura nem ligava. Naquele dia, talvez somente naquele dia, ele sentia um misto de alegria comedida e sensação de dever cumprido, assistindo televisão às dez da manhã. Dava risadas sozinho e anotava a receita de creme de frango com brócolis que passava na telinha.


.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O Grande Barato da Esperança é Esperar - por Bruno D’Almeida

.
.
.
.
Eu nem gosto muito das festas de fim de ano. Duvido de mensagem sincera que tenha nos créditos finais as logomarcas dos patrocinadores. Mas ao mesmo tempo, quando essa época chega, não há como deixar de refletir sobre algo que nasce, essa famigerada esperança. Alguns comemoram o nascimento de Jesus, outros mais antigos o solstício de verão. Muita gente comemora porque não aguentava mais um ano tão sem sal, feito comida de hipertenso. Não importa: todos esperam, de uma forma ou de outra, que algo de extraordinário aconteça em suas vidas.

É por isso que eu não gosto dos últimos dias de dezembro. Na verdade, eles têm cheiro, sabor e consistência dos primeiros dias de janeiro. Não gosto de alimentar esperanças com endereço extraviado. Não espero que uma nuvem abra do céu, nem uma redenção da raça humana no dia do Juízo Final. Como posso acreditar que algum mágico vá bater a sua varinha e todos nós seremos felizes? Tolice. Não há transformações mirabolantes ou desfechos cinematográficos, nada vai mudar de uma hora para outra em nosso jardim. Se quisermos algo de verdade, devemos acreditar no poder de nossas próprias ações.

Há sim, as transformações pessoais e das pessoas que estão ao nosso redor. Isso eu comemoro todos os dias, nem precisa fechar a porteira do ano. Mas quem sabe o Natal e o Ano Novo possam trazer algo de bom, mesmo que Papai Noel e Santa Clauss sejam incapazes de tomarem um café dormido na minha casa. Eu não convido mesmo, e se vierem eu boto para fora debaixo de vassouradas. Essas festas de final de ano só me fazem gastar mais dinheiro. Porém, eu começo a não acreditar que as coisas podem melhorar: tomo a convicção de que posso fazê-las melhorar. A cada ano, uma reflexão, novos caminhos, novas trilhas, novos rumos, novas estações.

É o lado bom de pensar no ano que vem. Olho pra esse ano que passou e meu espírito me diz que ano que vem pode ser diferente. Que seja mesmo. O homem ama a felicidade porque ela nunca diz quando vai aparecer, basta vivermos com ela todo dia para não darmos valor. A esperança se encarrega de aguardá-la. Afinal, esperança é o único sentimento que nunca se realiza, pois o grande barato dela mesmo é esperar. É isso. Esses dias reacendem a faísca sublime da esperança. Esperança numa vida melhor. E esse sentimento é maior do que todo torpor, toda angústia, toda aflição dessa estada sem data de partida definida, contudo tão certa quanto inevitável.

Só que antes de ir, quero ter para mim a certeza de que algo valeu a pena. E por isso posso comemorar. Pronto. É o suficiente para que todos os meus projetos de vida saiam correndo do baú velho de trancas enferrujadas. Que ano que vem eu possa ter mais dinheiro e menos dores na coluna. Que eu possa comer mais brigadeiro. Que eu possa me reunir mais vezes com os amigos que não vejo há tempos. Não tem jeito, essa festinha comercial, para todos consumirem, comprarem presentes e roupas brancas me faz, depois de uma certa tristeza momentânea, mimetizá-la num rio de fé em busca de um punhado de felicidade.

Eu já disse que não gosto muito dessa época de fim de ano. Mas nestes dias eu costumo sorrir sozinho, feito criança boba, e dizer que vou deixar meu nome escrito nas mesmas estrelas por onde passaram os Reis Magos. Ah, sim, eu vou! Eu não estou nessa vida por brincadeira e vou ser muito feliz. Minhas asas são tortas, mas sabem planar e sentir o faro do infinito. Boas festas e felicidades para todos nós! Pelas sementes de esperança que todo ano brotam novamente, feito ervas daninhas, em nossos corações.
.
.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Recado - por Bruno D’Almeida

Tenho andado tão corrido que dei uma pausa nos escritos... mas estou me preparando pra voltar com tudo!
Beijos!!!!!



.
.

domingo, 12 de julho de 2009

A Revolta do Pão de Queijo - por Bruno D’Almeida

O casal mineiro, em plena primeira viagem de namoro, foi barrado na saída do hotel em Gramado com dois pães de queijo na mão. Eles não podiam ficar para a belíssima ceia matinal, pois estavam atrasados para um passeio pelas cidades das serras gaúchas. Diante de compotas de doces de leite, de goiaba, guloseimas de chocolate, suco de uva Isabel, bolos e tortas caseiras, frutas macias, frescas e doces, cestas de todos os pães possíveis e imaginários, eles não podiam levar um pão de queijo.

Depois de uma argumentação amigável, uma discussão controlada e vários xingamentos inomináveis, deu-se naquele lugar a maior revolução desde que os farrapos se voltaram contra o poder do Império. A bela mocinha disse que aquele trem não ia ficar barato, e quando voltassem do passeio de trem em Bento Gonçalves, o dono do hotel ia ver com quantos pães de queijos se faz uma Maria Fumaça. O gerente devolveu um bá, guria, deu pra ti, e eles saíram revoltados sem ao menos saber o que aquela expressão regional significava.

Entraram indignados na van que os conduziria ao passeio. Nem todo o glamour das ruas perfeitas de Gramado e seu Festival de Cinema com estrelas do Brasil e do mundo, nem a arquitetura colonial alemã imponente de Canela, nem o frescor do vento matinal de Nova Petrópolis, nada os animava. As belíssimas peças de inox na maravilhosa fábrica de artefatos domésticos de Carlos Ribeiro eram uma monotonia. As provas de queijos e vinhos se tornaram entediantes. O passeio no Maria Fumaça não teve a menor graça. Era um paradoxo: enquanto todos ao redor estavam felizes e admirados com tudo, um casal recolhido a uma tristeza inquebrantável formava uma imagem fosca daquele belo quadro.

Bastou um ato de desrespeito e de descortesia para mudar a percepção de todas as coisas. A maior revolução que podemos nos permitir é a mudança do olhar. Um mundo de magia pode se transformar no pior dos porões das almas castigadas de qualquer inferno imaginário. Findado o passeio, o casal pôs em prática o plano que arquitetaram durante todo o dia.

Foram a Câmara Municipal, à rádio e ao jornal. Cada pessoa que encontravam no saguão do hotel era informada da barbaridade que tinham passado. Almoçando, passeando, a todo o momento contavam o acontecido. Passaram a acordar mais cedo para participarem do café da manhã do início ao fim para relatar a quem quer que fosse o direito augusto de um mineiro comer seu pão de queijo.

A confusão chegou aos ouvidos do prefeito da cidade. De maneira diplomática e evidentemente política, foi se retratar publicamente ao casal na frente do hotel e na presença da comunidade local gramadense. Disse que a razão de existir do povo gaúcho daquela região era tratar bem cada turista. Que eles tinham razão na sua revolta e que um acontecimento isolado não podia macular toda a grandeza de um povo. Ao lado do dono do hotel, que perdera quase metade dos hóspedes em dois dias de confusão, pediram perdão pelo ocorrido, dando ao casal passagem e hospedagem uma vez por verão pelo período de dez anos.

Voltaram para casa de alma lavada, travestidos do espírito de luta dos mártires da Inconfidência Mineira. Tomando um chimarrão no fim da tarde, souvenir comprado na viagem, os nossos ferrenhos defensores dos direitos do consumidor estampavam um sorriso no rosto maior do que qualquer trem bão que você possa imaginar.



.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Tropa de Elite - por Bruno D’Almeida

Adorei Tropa de Elite, sobretudo pelo roteiro, que tem uma verossimilhança fantástica. As pessoas podem criticar o posicionamento do personagem, mas o filme mostra de maneira crua a marginalidade do ponto de vista do policial. Bráulio Montovani, o roteirista, foi o mesmo de Cidade de Deus, e não ficou o mesmo filme, apesar de tratar de favela, tráfico e polícia.



Resposta a Pegou Geral..., de Ana.
.
.
.
Visitem Bruno D’Almeida
José Padilha, Fernando Meirelles

domingo, 5 de julho de 2009

Minha Filha Não Remexe a Bundinha - por Bruno D’Almeida

Dona Feliciana não queria a filha de seis anos vestida como se fosse uma dançarina de pagode ou fantasiada de rainha do funk. Foi tratando de desligar o som e de trocar a roupa da menina, tirando o shortinho malhação e o top de lycra. Limpando a base avermelhada, a sombra nos olhos e o batom borrado da boca daquela alminha em fase de crescimento, ela disse espere um pouco minha filha, preciso falar com sua tia, dirigindo-se à cozinha e esfregando freneticamente os molares dentro da boca.

Duelo verbal. Feliciana, ou Feliz, como era chamada por tia Leocrécia, começou a bradar. Não quero minha filha parecendo uma coisinha vulgar, onde seus coleguinhas da alfabetização queiram agarrá-la como se ela fosse o corrimão da escola. Não quero a coisa mais importante da minha vida esfregando as mãos no corpo e se requebrando até ficar de cócoras, ouvindo o cantor machista da música chamá-la de ordinária, cachorra e que vá remexendo a bundinha, disse a mãe. Sou contra a erotização infantil. Quem perde a infância antes da hora passa a idade adulta lamentando que seu melhor momento da vida não aconteceu.

Tia Leocrécia não deixou por menos. Acorde, Feliz, a vida não é a vida da Chapeuzinho Vermelho, dizia a tia. Não pode colocar sua filha numa redoma de vidro e esconder as verdades verdadeiras do mundo. Dorinha precisa ver a vida como ela é, se preparar pra encarar a vida de frente, afinal o elo de ligação que liga ela com a gente um dia vai sair para fora, falava a tia assassina da linguagem objetiva. Você é enfermeira, é uma pessoa estudada, mas não é dona da verdade, disse Leocrécia, que só tinha estudado o Ensino Fundamental. A tia parou de falar para prestar atenção no programa da televisão, onde a câmera focava, em pleno horário de almoço, um homem com a cabeça estourada por um fuzil na favela do Brongo.

Mudando o canal para um programa onde bonecos coloridos e feitos com massas de modelar cantavam uma ciranda, por ter percebido a presença da filha, dona Feliciana olhava pro seu troféu e dizia que não era contra qualquer estilo musical ou manifestação de pensamento, que inclusive costumava brincar seu carnaval dançando exatamente as mesmas músicas que proibia sua filha de ouvir. Mas era tempo de sua filha curtir a infância sendo criança de verdade e não apenas uma miniatura de adulto, correndo o risco de Dorinha ser abusada por um pedófilo troglodita neste país de crimes nem sempre solucionados. Vamos embora, minha filha.

Mas não acabou por aí. Feliz precisava convencer a própria prole. A menina disse que queria ser como as colegas da escola, e a mãe devolveu que não queria saber dos filhos dos outros e sim da sua filha. De cara embirrada, foi praticamente obrigada a usar seu vestido bordado rosa e entrelaçar os cabelos. Sentada no sofá e de braços cruzados, foi aos poucos prestando atenção na gritaria e nas risadas vindas do lado de fora da janela. Suas amigas de rua brincavam de amarelinha. Nem precisou sua mãe terminar de balançar a cabeça permitindo, e lá se foi Dorinha correndo encontrar Duda, Fatinha e Maria Luíza. A euforia foi tanta, mas tanta, que a menina esqueceu o cd de DJ Marlboro que sua tia lhe deu de presente.



.

domingo, 28 de junho de 2009

Viagem da Viagem de Quase Lua de Mel - por Bruno D’Almeida

Olhando para o teto da cama, Daniel Limeira relembrou o momento em que encontrou uma pessoa do passado na rua. Foram cinco intermináveis segundos até o sinal abrir. E ele lembrou mais ainda, mais do que gostaria. Aquela mulher recebeu a maior declaração de amor que ele fora capaz de fazer. Mas é o seguinte: essa história não tem final feliz. Tem certeza de que precisa relembrar? Daniel mandou seu anjo-diabo da guarda calar a boca.

Primeira viagem dos noivos. Ela dá a ideia de colocarem as alianças na mão esquerda e fazerem de conta de que já são casados assim que entrassem no avião. Ele obedece prontamente, mas tem uma ideia melhor. Vai ao banheiro, escreve um bilhete para o comandante do voo:
Esta é a lua de mel de Daniel e Maria Rita. Por favor anuncie boas-vindas para nós.

Pronto, só bastava isso. Entraram com as alianças na mão esquerda. Atrás de Rita, Daniel entregou o bilhete à aeromoça, que recebe o papel desconfiada, provavelmente achando que se tratava de algum terrorista. Devidamente acomodados no Boing 737 da Varig, começam a tirar as fotos de recordação ali mesmo. Chega a comissária de bordo com cara de poucos amigos. Meus senhores, disse ela, devido a um overbooking, houve duplicidade na venda de assentos. Os senhores precisam se levantar imediatamente.

Barraco. Não sabia que uma moça tão fina e requintada, moradora da Ladeira da Barra, pudesse falar aquela quantidade de palavrões. Aprendi alguns, inclusive. Criatura ignóbil. Sacripanta. Levantamos, ela furiosa batendo os tamancos atrás da aeromoça, que ia dizendo minha senhora, tenha calma, isso acontece, mas não se preocupe, vamos fazer o possível para resolver este problema. O que estou tentando dizer aos senhores é que seus lugares foram devidamente transferidos… para a primeira classe.

Ritinha não sabia se morria de vergonha pelo barraco ou pela alegria da surpresa. Suplicou duzentos e noventa e quatro pedidos de desculpas para uma comissária que, pelo visto, não aceitou nenhuma delas e saiu com cara de quem ajuda todo mundo e só recebe coice. Ao sentarem naquela poltrona azul grande, confortável e imponente, o comandante falou pelo microfone: senhoras e senhores, este é o voo 7257 de Salvador com destino a Fortaleza. Dia lindo de sol. Eu sou comandante Rodrigo Lopes, desejo a todos uma boa viagem. Gostaria de parabenizar o casal Daniel e Maria Rita pela lua de mel. Faremos o possível para tornar este momento inesquecível.

Nem sabia que um avião podia servir champanha em taças de cristal. Mas era verdade. Era verdade também o prato de costeletas de cordeiro com creme de maracujá. De dez em dez minutos, o comandante felicitava o casal. Maria Rita já havia acabado com todos os lenços de papel de tanto chorar. Até mesmo na hora de avisar que o avião daria voltas em loop por quinze minutos antes de começar a aterrissagem, por conta de uma chuva forte de verão, ele felicitou o casal. Desceram. Chegaram. Foi tudo lindo, cinco dias de felicidade. Comemoraram intensamente um matrimônio que nunca existiu de verdade. Acabou sem nunca ter sido.

Daniel acendeu a luz, pegou a agenda de telefones, leu um número que lembrou ter decorado uma vez e ligou. Enquanto chamava, pensava em todas as besteiras que fizeram depois, tanta imaturidade que desfizeram uma história sem fim ter fim. Ela atendeu. Ele não teve coragem de falar. Ela também não disse nada. Sabiam exatamente quem estava do outro lado da linha. Desligaram. O simples fato de jurarmos esquecimento perpétuo de uma lembrança demonstra nossa incapacidade de esquecê-la. Ele apagou a luz, mas manteve seus pensamentos acesos por toda a madrugada.



.

domingo, 21 de junho de 2009

Estratégias Mirabolantes para Sedução de Mulheres - por Bruno D’Almeida

Lá estavam todos amontoados naquela salinha miserável para aprender a conquistar mulheres. Jovens na faixa de 16 a 97 anos, dos mais variados tipos, alguns com espinhas no rosto, outros com cabelos nas mãos. Entram os dois palestrantes do Instituto para Iniciação da Sedução. Silêncio. Quer dizer, um quase-silêncio: barulho do ventilador de teto rangendo, respirações fumegantes, dentes igualmente rangendo. O show vai começar.

Meus senhores, diz o palestrante Alex Gomes, este é o dia mais importante de suas vidas. De agora em diante, nada mais de dinheiro gasto com revistas masculinas! Nada de ficar chorando pelos cantos, agora todos vocês serão homens sedutores e saberão conquistar mulheres. Dediquei grande parte da minha vida nestes meus 34 anos de existência a entender o que se passa na cabeça de uma mulher. Tornei-me biólogo para compreender que os principais fatores que fazem uma mulher ser seduzida por um homem são puramente genéticos. Tomem nota, por favor.

O homem exala no seu suor feromônios. A mulher sente o cheiro do macho e se apaixona. Por isso algumas mulheres gostam de homens musculosos. Feromônio puro. Outras mulheres gostam de homens com dinheiro, mas não é apenas o dinheiro que as atraem. O componente ancestral da fêmea, por conta da reprodução, exige dela um comportamento de preservar a espécie. Ela gosta de homem rico porque ele é capaz de dar filhos com segurança e estabilidade para ter uma família. O primeiro passo, meus caros, é tirar a barriga ordinária e andar bem vestido. Eu mesmo conquistei minhas primeiras 14 namoradas assim. Agora, tem outra coisa importante, que meu colega André Costa Pinto vai ensinar, que é o fator psicológico. André, a palavra é toda sua.

Meu caros, diz André, eu já conquistei as mais belas mulheres do mundo usando a cabeça. Vocês precisam entender que mulher gosta é de atitude. Vou dar uma dica importantíssima. Escrevam. Faça o seguinte quando quiser pegar a uma mulher na escola ou no trabalho: Diga a ela pra esperá-lo lá fora quando sair. Se ela não estiver lá, esqueça. Ela não quer saber de você. Mas se ela estiver lá fora te esperando, com braços e pernas cruzadas, sorriso no rosto dizendo diga o que você quer falar comigo, não tem nada para falar: agarre e beije logo. Mulher gosta é de atitude.

A plateia estava mimetizada. Ontem de noite fui a um barzinho, continuava ele, mirei uma gata e disse: preciso de uma opinião sincera e peço que me ajude. Sinceramente, o que te atrai num homem? Ela gaguejando, olhando nos meus olhos, disse que gostava de homem sincero, bonito, fiel e foi olhando pra mim e projetando nos meus olhos tudo o que ela achava de um homem perfeito. Depois de 23 minutos estávamos nos beijando e nem queiram saber o que aconteceu duas horas depois. Entendam que ninguém se apaixona por outra pessoa, as pessoas se apaixonam pela imagem que projetam dessa pessoa. O segredo então, é projetar a imagem de homem perfeito que elas pensam de você.

Vamos ao teste prático. Alex chama a assistente de sala. Vanessa, se eu te dissesse todas essas coisas, o que você faria? Ah, diz ela suspirando, eu me apaixonaria por você na mesma hora, assim como por qualquer um destes homens da plateia que mostrasse metade de seus conhecimentos sobre a alma feminina. Pois é isso, meus caros, disse agora André, saiam pelas ruas a partir de hoje como novos homens profundamente conhecedores da arte da sedução. Hoje à noite vistam a roupa mais bonita, encontrem a primeira mulher interessante que vejam pela frente e tenho certeza de que será um sucesso. Na saída não esqueçam de pegar os diplomas de vocês. Era o que tinha a dizer. Muito obrigado. Aplausos demorados de pé.

Nem precisa dizer que todos saíram da palestra encantados. Receberam material didático e midiático para aprofundar os conhecimentos adquiridos e com tira-dúvidas on line durantes três semanas. O pagamento foi parcelado em 10 sem juros no cartão. Um sujeito mais afoito encontrou a bela Vanessa no ponto de ônibus e foi logo perguntando o que a atraía num homem. Quase soltando uma gargalhada, ela acenou um adeus com as mãos e entrou correndo no primeiro ônibus que passou. Quase consegui, pensou ele. Com a próxima não haverá escapatória. Maldito ônibus.



domingo, 14 de junho de 2009

Cobras e Contas de Folhas de Bananeira - por Bruno D’Almeida

Na escola, Dentinho era apenas a criança desobediente, “que não queria nada com a hora do Brasil”. Era motivo de risos e de babas meladas na carteira. Tinha uma rotina que começava bem antes de chegar cedo na escola. Ninguém imaginava a aventura absurda a que aquela criança se lançava todos os dias com a família em busca da própria sobrevivência. Vinha direto do trabalho, sentava na cadeira da sala de aula e dormia solenemente.

Todos os dias era a mesma coisa. Adentrar a mata fechada, arranhar as canelas finas, ouvir a sinfonia dos sapos, o canto da coruja, o arrastar de cobras farfalhando folhas secas pelo chão. Levantava às 3h30 da manhã com o cheiro de café que d. Zica fazia na cozinha. Acordava no chuveiro frio e depois comia mecanicamente um pedaço de cuscuz com margarina. Seu pai já estava amolando os facões e separando os sacos de alinhagem.

Todos prontos, saíam às 4h da manhã e desciam pela encosta do fim de linha do bairro do Iapi em direção ao 19º Batalhão do Exército. Pulavam o muro e entravam num pedacinho remanescente de Mata Atlântica para colher folhas de bananeira, que servia para embalar o abará, um bolinho de feijão vendido pelas baianas de acarajé. Não podiam demorar mais do que meia hora para que não fossem encontrados e presos. Cada um saía de lá com dois sacos cheios.

Chegavam em casa antes de amanhecer completamente o dia. D. Zica cortava as folhas de bananeira em quadradinhos e seu Zé passava um por um na brasa acesa do fogão de lenha para que a folha ficasse amolecida e pudesse empacotar os abarás. Dentinho, já com a roupa da escola, contava as folhas e fechava os pacotes com cem peças cada. Beijava sua mãe, comia uma pamonha de carimã e ia embora vender as folhas para outras baianas da região com seu pai.

D. Zica ficava em casa para moer o feijão fradinho do tipo olho de pomba, que ficou boiando na água dentro de uma bacia de alumínio grande até que as cascas se soltassem. Lavou na água corrente até ficar bem limpinho, passou pelo moinho motorizado, misturou com cebola triturada, pedacinhos de gengibre, azeite de dendê, pedaços de camarão seco e pimenta. Bateu a massa até ficar homogênea, colocou sobre a folha de bananeira, embalou com desenvoltura como se fizesse dois cones invertidos e foi colocando um por um no caldeirão de fundo falso, onde o vapor da água cozinhava cento e cinquenta abarás para serem vendidos à noite.

Dentinho ia com seu pai batendo na casa das outras baianas de acarajé da região, pelos bairros do Pero Vaz, Largo do Tamarineiro, Caixa D’água, Cidade Nova e Pau Miúdo. Sobrou quase metade naquele dia e tiveram que pegar um ônibus e vender o restante na Feira de São Joaquim. O preço do cento da folha dependia da procura. Por sorte o material estava em falta no momento e conseguiram vender por um preço bom. Seu pai ia explicando pra Dentinho que, se ele aprendesse tudo direitinho, já teria um ofício quando ficasse adulto. Ganhou uma moeda de cinquenta centavos e foi contente para a escola, onde no intervalo poderia comprar uma banana real.

Pronto. Era por isso que, naquele momento, Dentinho estava dormindo na escola. Por isso ele chegou atrasado, com a roupa suja e todo suado. Sua professora estava preocupada, porque de vez em quando ele acordava nas aulas de matemática, resolvia contas com desenvoltura e voltava a dormir. Ficava fazendo contas sozinho nas raras vezes em que acordava, mesmo no horário das outras matérias. A professora escreveu na caderneta: esquizofrênico? Dentro de si, tão distante da escola quanto a escola estava dele, Dentinho lutava contra cobras, serpentes, lagartos gigantes para conseguir pegar folhas de bananeira, naquele sonho de fantasia e de singela verdade.



domingo, 7 de junho de 2009

Movimento Migratório de Peixes Dentro de um Táxi - por Bruno D’Almeida

Lúcio estava explicando suas teorias a mais um passageiro que entrava em seu táxi. Com seus cabelos esvoaçantes e barba por fazer, ele discorria que aquele domingo de pesadas nuvens pairando no céu era um excelente dia para fazer corridas e ganhar um dinheiro extra. Mas as pessoas nesse caso gostam de ficar em casa, retrucou o passageiro tirando melequinha do nariz. Mas o fato é que o senhor está pegando um táxi, meu amigo, eu vou te explicar como isso funciona, disse Lúcio, com cara de oráculo dos filmes de ação da Sessão da Tarde.

Quando chove logo cedinho, realmente eu fico boiando e não pego muitos passageiros. As pessoas adiam alguns compromissos que não são muito importantes e ficam em casa. Só consigo uma corrida ou outra de um cliente conhecido que liga pra mim. O bom mesmo é quando começa a chover depois das pessoas já estarem na rua. Aí é uma beleza. O cidadão já está no médico, na loteria, no shopping, correndo pela cidade, quando as nuvens ficam escuras no céu. A cidade já fica lenta na própria iminência da chuva. É hora de seguir as nuvens para encontrar os passageiros.

Eu prefiro os bairros de classe média nessas horas. Sempre encontro um senhor aposentado ou uma mulher madura com pressa. Aliás, essa é batata. Uma senhora de 40 anos, toda maquiada, com seu perfume francês, salto alto e bolsa tamanho gigante não espera nem chover para pegar um táxi, basta o tempo fechar que ela levanta a mão para o primeiro taxista que aparecer. Sempre quando chove eu faço umas quatro ou cinco corridas na Av. Paulo VI, no bairro da Pituba. Ou então vou para a Barra. Quer dizer que o senhor é taxista somente quando chove, riu o passageiro roendo cuidadosamente as unhas sujas. Não senhor, disse Lúcio, tem estratégia também quando o tempo está bom. Explico.

Quando faz sol, o movimento das pessoas muda. Eu fico na porta dos shoppings, na frente dos bares, eu adoro pegar passageiros em avenidas largas e retas no sol escaldante de meio-dia. Nesse caso, o melhor lugar são os espaços abertos, onde o calor insuportável força alguém a pegar um táxi e me agradecer pelo ar condicionado. Ofereço uma bala, o jornal está aí do lado, ele usa o táxi não só como uma corrida, mas como um alívio. O senhor mesmo, é hora de almoço, o senhor quer ir pra casa, viu aquela nuvem pesada lá na frente, o que pensou? Eu estava atrás daquele ponto de ônibus que o senhor estava, tive que dar a volta no quarteirão para passar bem devagar pela sua frente e o que o senhor fez? Eu aprendi tudo isso com meu pai, que era pescador. Como? Explico.

Eu sempre ia com meu pai nas embarcações da Colônia de Pesca do Rio Vermelho. Pescador adora pescar em dia de chuva. Ele fica torcendo para a chuva acabar depois de uns dois ou três dias, os peixes estão famintos, jogávamos a rede e era um mar de peixe. Muitas vezes, no mar, íamos ao encontro da chuva mesmo para pegar os cardumes de peixes fugindo. Já época de sol, era melhor de anzol mesmo. Tudo que tem vida neste mundo está sempre indo de um lugar para outro, seja fugindo da chuva, procurando comida ou correndo pra não perder o horário. O senhor mesmo está fazendo essas três coisas de uma só vez. Chegamos. São dezesseis reais e vinte. Quinze está bom. Até a próxima. Aqui está o meu cartão.

E lá se foi Lúcio buscando o movimento migratório das pessoas e de corridas através do céu nublado. Foi parando o carro devagar. Para onde vai a senhora? Salvador Shopping? Vamos. Eu sabia que a senhora ia pegar o meu táxi. Como? O tempo está fechado. Explico. É que…



domingo, 31 de maio de 2009

A Famigerada Desordem do Mundo - por Bruno D’Almeida

Ana Amélia tinha uma grande missão naquele dia: desencaixotar a mudança de sua casa nova. A vida corrida a impedia de procurar pratos, toalhas, incensos, roupas, computador, até a geladeira se perdeu no meio da bagunça. Filosofava sobre o processo de entropia escovando os dentes com os dedos. Antes de sair correndo para o trabalho, olhou para o caos dentro do próprio caos e disse a si mesma: de hoje não passa. Uma casa desarrumada pode ser uma metáfora inevitável sobre a bagunça que podemos propor às nossas próprias vidas.

É necessário dizer que nossa bela protagonista tinha um fusca 1967 amarelo. Um mimo. E lá ia ela, anacrônica, com sua roupa indiana bordada vermelha, margarida nos cabelos e uma cesta de vime com fitinhas coloridas no carona, onde levava sua refeição vegetariana: bananas, barras de cereais e bolacha Maria. Ana Amélia é um daqueles personagens de um bom filme francês que resolveu existir de verdade, com toda sua insustentável verossimilhança. E era assim que ela ia fazendo seu trabalho de agente de uma editora de livros, de escola em escola, tirando dúvidas sobre o uso do material didático. Nem esperava ela, naquele dia, encontrar uma bagunça muito maior do que sua casa nova.

A cidade chovia de maneira torrencial. Seu fusquinha atolava em aguaceiros, não era apenas uma chuva, era um dilúvio. Todas as visitas tiveram que ser canceladas, ou pela falta de possibilidade de chegar ao local ou pela suspensão das aulas nas unidades escolares. E foi assim durante todo o dia, uma sucessão de desacertos que só encontrava refúgio na certeza de arrumar a bagunça de sua casa. Ela precisava encontrar urgentemente a caixa de meias e de roupas miúdas, estava cansada de comprar promoções de três pares de meias por nove e noventa em lojas de departamentos. Sem contar o sumiço do cabo de água da máquina de lavar que a impedia de deixar as roupas com cheiro de sabão Omo. Atolava o cartão de crédito com roupas novas.

Mas o dia não estava perdido, havia uma palestra de amigos para assistir de noite. A chuva deu trégua. E lá foi Amélia, aquela que desafiava o compositor Mário Lago e sabia ser mulher de verdade. Depois da grande dificuldade de estacionar nas ruas estreitas de Salvador, encontrou uma multidão em frente ao prédio da faculdade com várias negativas e caras de adeus. Queda de energia, aulas suspensas. Ouvia e, mais do que isso, via com seus olhos vivos de âmbar a tristeza da amiga comunicar o adiamento da palestra. O que mais faltava acontecer? Vamos comer pizza, gritou. Tem uma pizzaria com massa de batata deliciosa perto de minha casa, vamos transformar a palestra em bate-papo para fechar nosso dia, discorria uma alma em busca do refúgio do prazer em meio ao turbilhão de vastas emoções de acontecimentos imperfeitos.

Bem, alguma coisa precisava dar certo naquele dia, não é? Sentada entre amigos, podiam todos falar e rir das besteiras que quisessem. Podiam pedir uma pizza família de rúcula com tomate seco, frango catupiry, margueritta e atum. Podiam discorrer sobre as experiências de uma aldeia hippie em Arembepe ou sobre o show de tributo a Bob Marley do fim de semana. Ana Amélia, no seu mundo hermético, desenhava no papel da mesa a paleta de cores de sua existência, a luta para se firmar no mundo que coubesse na grandeza de seus sonhos, a saudade dos sobrinhos em São Paulo e tantos outros pensamentos, até ser repreendida por seu comportamento autista e voltar a participar das conversas na mesa. Mas era fim de festa, diziam seus olhos vermelhos, seus bocejos áridos e a cara de quem, para conseguir dormir, bastava apenas fechar os olhos.

Subiu as escadas do Edifício Quitandinha, lugar escolhido a dedo pela nossa salvadora andorinha de seu universo particular, já lembrando da bagunça que a esperava. O banho serviu para refrescar a ideia de que, apesar do dia ruim, a beleza de seus anseios permanecia intacta. E lá ia ela fazendo contas de quanto tempo faltava para escrever uma nova peça de teatro, organizar um novo sarau ou espetáculo de dança e todas as coisas que uma artista precisa para tornar o viver muito mais do que a mera existência. Faltava pouco, muito pouco para tudo isso acontecer. E o sono era uma cantiga embalando aquela mulher cheia de vidas encaixotadas, dormindo tranquila diante da famigerada desordem do mundo.



domingo, 24 de maio de 2009

A Odisseia do Menino Infante e seu Cachorro-quente - por Bruno D’Almeida

De repente aquele menino magrinho se encontrou perdido no meio da praia. Alexsander olhava para tudo e não via nada. Nada além de vendedores de óculos escuros, de água de coco, de picolés e de bronzeadores que besuntavam corpos morenos na areia. Ele via o mar de gente na água, os adultos brincando de frescobol, ele via o mundo passar pela janelas dos seus olhos e não se reconhecia em nenhum rosto, nenhuma paisagem mirava seus pais e sua piscina de plástico azul com peixinhos multicores.

Olhou para o pedaço de cachorro-quente na mão e pensou Papai do Céu, agora só tenho isso para comer pelo resto da minha vida. Fez uma trouxinha com o papel laminado ao redor do seu lanche e o segurou firme como seu talismã da sorte. Apertava com cuidado seu alimento para a alma, a única coisa que lembrava seus pais e a possibilidade de se sentir com eles, de não parecer estar tão sozinho. Minha mãe está aqui comigo, pensava. Nenhuma presença se faz mais concreta do que a lembrança exata de quem mora dentro da gente.

Depois de meia hora sentado e de sentir o ardor do sol na sua pele amarela e fina de pêssego, um casal de idosos vê aquele infante olhando sozinho para o infinito. A pergunta sobre os pais de Xandinho foi seguida de braços abertos e de uma cara de não sei. Partem todos em busca do tão esperado encontro que só precisava acontecer. O garoto começa andar, andar, andar, cansar, cair, levantar, andar, nausear, vomitar, beber uma água de coco e sentar novamente na areia. Vamos levar você para casa e divulgar seu desaparecimento ao mundo, disse a senhora idosa com cara de Dona Benta do Sítio do Pica-pau Amarelo.

Chegou na casa do casal com cara de nunca mais. Nunca mais ia tomar banho de mangueira com sua cachorrinha Nina, que pulava feito louca no vazio do ar e depois se sacudia, distribuindo jatos de água e de pulgas. Nunca mais contaria as estrelas fluorescentes adesivadas no céu de seu quarto, nunca mais comeria bolo-pudim, nunca mais receberia sermões de seu pai por colocar os pés na mesa da sala de aula e de responder à professora com mais e mais porquês. Nunca mais tantas coisas pairavam naquela cabecinha de sete anos, e a velocidade de imagens fluía com a mesma densidade das lágrimas de seus olhos. A única coisa que ele via era tudo que não gostaria de ver.

O velhinho Pascoal, com cara de Visconde de Sabugosa das mesmas histórias de Monteiro Lobato, chamou o menino para o noticiário da tevê. A jornalista relatava o nome e a descrição da criança perdida com o telefone para contato. E aquele aparelho telefônico preto com teclas de disco não era mais apenas um telefone. Era o centro do universo, e seu silêncio ensurdecia os ouvidos da criança que, de tão concentrada com os olhos fixados naquele objeto em cima da escrivaninha de vime, ouvia apenas as vozes da sua momentânea loucura de falar em pensamento frases desconexas. É necessário lembrar que o telefone não tocava. E foi assim durante duas horas e quarenta e três minutos. Tocou. E para tristeza daquela alminha sardenta e dentuça, quando alguém ligou era para perguntar se, caso encontrasse os pais da criança, receberia alguma recompensa. Pascoal devolveu dizendo que não sabia que urubu falava e bateu o telefone.

Engolido por uma camisa listrada de malha piquê e ao lado de um saquinho de supermercado com sua sunga molhada, ele apagou no sofá. Dormia e babava e até em sonhos estava na mesma posição de cão-de-guarda do telefone. E dormindo sentia o tempo passar e despassar. Sentia o vazio de um desejo cheio de desesperança. Sentia a mão fria e sedosa de uma senhora dizendo acorde, meu filho, seus pais ligaram e estão vindo pegar você. Correu até a porta do apartamento e parou de repente. Sentiu falta de si mesmo. Foi até a geladeira, pegou o cachorro-quente embalado com alumínio amassado e cheio de areia e correu até o elevador, onde as portas se abriram para um mundo que por um instante, um eterno momento de instante, parecia não ter fim.



Chuva em Salvador - por Bruno D’Almeida

As chuvas estão muito fortes, alagando tudo e deixando a cidade num inferno. Moro numa região alta e tenho procurado não sair muito daqui. Houve um caso muito triste de uma mãe com uma criança que, ao andarem pela rua alagada, foram sugadas por um bueiro adentrando na rede de esgoto da cidade. Muitas mortes, muitos desabamentos, muita revolta, muita dor e desesperança. Espero que isso tenha fim. Nessas situações, depois da tempestade, vem a contagem dos mortos e feridos.



.

domingo, 17 de maio de 2009

O Dia em que Otacílio Pediu Demissão de Si Mesmo - por Bruno D’Almeida

Ele passa estalando os dedos solenemente pela sala dos professores e fixa um texto no mural de aulas:

Esta não é uma carta de despedida. Nem mesmo quem parte definitivamente e vai pro céu brincar de nuvem deixa de morar no coração da família. Por isso mesmo que deixo de coexistir ao lado de pessoas que me são tão caras, porém que nunca estarão ausentes, no mínimo porque sei que levarei comigo um pedaço de cada uma delas. Este é o verdadeiro significado da palavra presença: não necessariamente tudo que está ao nosso lado, mas tudo que habita em nós.

Eu, como tantas formigas neste açucareiro, tenho meus sonhos. Sou um escritor em tempo integral, e todas as atividades que faço derivam da exaustiva e prazerosa construção de palavras e de imagens. Saio para dar asas a este sonho: não quero mais apenas ler e corrigir os textos dos outros, nem ensinar aos outros uma língua que não está mais nos manuais de gramática. Meu maior desejo, inclusive, é o de sempre subvertê-la. Meus próprios textos me pediram, por favor, humildemente, e com todas as recomendações, de que não fossem mais silenciados. Gritem, meus filhos polissêmicos, que este mundo não é surdo. Alguém vai ouvir e me dar uma oportunidade.

Por isso a partir de agora quem quiser ver meus trabalhos e compartilhar esta delicadeza sutil de dizer o indizível, pode ler minhas crônicas, contos, poemas, ensaios, roteiros, filmes, comerciais de margarina, bulas de remédio, tudo que poder virar matéria, luz, câmera, ilusão, pensamento e sentimento. Estou me colocando para o mundo enquanto escritor e suas milhares de faces escondidas e escancaradas: cronista, redator publicitário, jornalista, roteirista, diretor e milhares de etecéteras.

Podem me encontrar discorrendo sobre os milhares de benefícios em acordar tarde, vejam meus filmes sobre a redescoberta da lua em um novo empreendimento imobiliário, entreguem meus poemas a um amor verdadeiro com um chocolate meio amargo. Leiam, sintam, emocionem-se, gritem, participem da minha vida com o que posso me dar de melhor, esta grande incapacidade de deixar de dizer o que sinto e penso sobre todas as coisas.

Não estou me despedindo de vocês. Estou saindo daqui ciente do que me espera lá fora, nesta nova jornada incerta de um mundo de finais felizes e de balas perdidas. Eu precisava cometer este erro grave, mas tão grave, em ser professor durante tantos anos, atividade que sempre fiz com tanta dedicação, para mudar de ideia com relação ao meu futuro e não errar no principal: não serei eu mesmo o maior erro da minha vida. Vou a procura de acertos e o principal deles é que não quero mais ser um sujeito passivo diante das palavras.

E foi exatamente com esse texto que aquele querido gordinho, com seus quase trinta anos de escola, publicou sua primeira crônica no jornal A Luneta, o mais prestigiado da região de Ribeira do Pombal.
.
.
.

domingo, 10 de maio de 2009

Marcianos Verdes e Todos os Devaneios do Mundo - por Bruno D’Almeida

O filho de três anos de Geysa e Léo sumiu na multidão de um shopping center. Bastou desviar a atenção por um minutinho, vendo os modelos de aparelhos celulares numa loja, e quando o papai foi mostrar o aparato móvel a Zezinho, um artefato com câmera, filmadora, rádio, tocador de música, transferência de dados, função pipoca de microondas e tudo mais, eis que o menino não estava mais do lado do casal. Saem os dois correndo feito loucos da loja.

Imagine um corredor com visão ao infinito cheio de formigas humanas andando pra todos os lados e a ausência de um cotoco de gente. Nunca na vida Geysa viu tantas pessoas juntas e, ao mesmo tempo, sentiu uma solidão tão grande no peito. Léo pensou que tinham sequestrado seu filho, que ele podia estar nas passarelas de acesso ao shopping com uma pessoa má segurando apertado as mãos suaves e tenras de seu precioso filho. Ele podia estar sendo vítima do tráfico internacional de crianças, do tráfico internacional de órgãos, podia ter sido abduzido por marcianos verdes que pousaram no teto daquele palácio de consumismo, todas as desgraças do mundo pairavam na cabeça do jovem casal naquele momento de desespero.

Os seguranças do centro de compras fizeram um esquema especial de busca. Relato físico-psicológico feito pelo pai e passado pelo rádio: criança linda, com cabelos castanhos encaracolados de anjinho do céu, olhos pretos faiscantes de jabuticaba, sorriso encantador, corpo gordinho, vestido com um conjunto azul do Cebolinha e um par de alpercatas bege de couro. Choro. Abraços apertados. Orações e promessas a Deus de nunca mais desgrudarem os olhos do seu maior tesouro. Foram intermináveis quinze minutos de ansiedade, até que um segurança relata aos pais a presença de uma criança com descrição compatível nas Lojas Americanas, ao lado da loja de celulares.

Suspense. Estava lá a criatura pequenininha, com um carrinho de plástico debaixo do braço, escolhendo outro, com um segurança ao lado de braços cruzados e sorriso largo no rosto de dever cumprido. A mãe agarra a criança falando meu filho o que você está fazendo longe de papai e mamãe? Eu tava comprando meu brinquedo, diz o projeto de gente com a maior naturalidade. Mas você não tem dinheiro, Zezinho, retrucou papai. Tenho sim, disse o menino tirando uma moeda de cinquenta centavos do bolso. Flash back. Como um raio, as coisas começaram a fazer sentido.

Almoço de formatura das secretárias executivas. Geysa, amigas da faculdade, respectivos maridos e namorados. Depois dos comes e bebes, um amigo do casal deu uma moedinha ao menino. A família feliz vai em seguida ao shopping, passa pela porta das Americanas, o guri pede um carrinho de presente, o pai diz automaticamente que não tem dinheiro e vai pra loja de aparelhos celulares gastar dinheiro. A criança pensa então em fazer uma surpresa aos pais e comprar seu próprio brinquedo com todo dinheiro do mundo de uma moeda niquelada.

Isso aconteceu há dois anos. E foi justamente numa nova reunião das secretárias, ao rever o dileto amigo do casal que deu a moedinha, que o assunto veio novamente à tona. O causador da confusão disse com sorriso sarcástico que se sentia feliz em ter mostrado a importância de prestar atenção aos filhos e de também revelar o espírito decisório, independente e autônomo do menino. E para eternizar aquele momento, nada melhor do que tirar uma foto dele com a criança segurando uma moedinha. Léo então, humildemente, sacou o celular-câmera-filmadora-máquina-de-lavar do bolso e registrou para sempre a foto predileta do álbum de família.



domingo, 3 de maio de 2009

Troque suas Amizades por um Mp3 - por Bruno D’Almeida

O formato mp3 revolucionou a indústria fonográfica, por compactar arquivos e possibilitar sua reprodução em dispositivos portáteis, e também criou uma legião de pessoas com um fone nos ouvidos. Os agora jurássicos gravadores e tocadores de discos a laser eram uma prévia de que uma pessoa pode ouvir música enquanto estuda, trabalha, dorme, acorda, escova os dentes, namora, pensa, não pensa ou faz qualquer outra atividade. Somos agora um bando de pessoas conectadas com suas predileções musicais e desconectadas com as outras pessoas do mundo.

O mais bacana disso tudo é poder ouvir as músicas que quiser. Posso carregar toda obra do The Beatles no bolso. Isso é muito legal. Não tenho saudades daquelas fitas-cassete que desmagnetizavam e se partiam sem meu consentimento, estragando um presente que recebi com recomendações do tipo “coletânea de músicas românticas”. Não tenho saudades dos discos de vinil que empenavam e arranhavam. Eu ficava ouvindo Renato Russo repetindo “temos todo, temos todo, temos todo” até empurrar a agulha e completar a frase “tempo do mundo”. Nada de saudosismo.

O xis da questão é o individualismo que essa onda provoca. Temos a oportunidade de coexistir sem conviver com as pessoas. Eu não preciso saudar as pessoas ao entrar no elevador ou sair de casa, basta virar o rosto e acompanhar Roberto Carlos expressar sua rebeldia comedida e planejada em “se você pretende saber quem eu sou, eu posso lhe dizer”.

Posso fingir que presto atenção no teorema de Pitágoras durante uma aula, com meus fones escondidos por uma jaqueta ou outro agasalho. O trabalho vira um módulo individual espacial, onde posso balançar a cabeça no vazio hermético da minha sala, sem precisar sequer cumprimentar meu colega. Se alguém quiser balbuciar duas palavras já acho que se trata de um tagarela em potencial. Estou até pensando em colocar uma plaquinha ao meu lado com os dizeres “cuidado, não dê comida aos animais”.

Vamos então lançar a campanha “Troque suas amizades por um mp3”. Temos várias frases de efeito altamente persuasivas: Não perca tempo com pessoas tão descartáveis e desimportantes na sua vida. Torne-se uma pessoa arredia, adote um comportamento estranho e anti-social. Pare de contemplar a beleza das coisas. Não faça amigos, você já tem toda companhia e ideologia de que precisa guardadas no seu tocador. Só fale com alguém depois de vários gritos de atenção ou quando alguém ficar sinalizando feito um palhaço na sua frente (não subentendam aqui nenhuma ofensa aos profissionais que trabalham no circo).

Eu que gosto tanto de falar, trocar idéias, fazer amizades, jogar conversa fora, namorar, viver e sei lá o quê, agora me vejo trancado no mundo da própria existência. Queria até pensar um pouco mais sobre isso e mudar minha vida, mas agora não dá. Não porque eu tenha vontade, isso até que não me falta, o problema é que estou aqui no trabalho ouvindo música e meu chefe está estourando suas cordas vocais de tanto me chamar. Tiro os fones do ouvido e ouço ser chamado de surdo, relapso, vagabundo e irresponsável. Já viram, vou ter que me explicar.



Visitem Bruno D’Almeida
Legião Urbana.

domingo, 26 de abril de 2009

A Bagaceira da Leitura do Mundo - por Bruno D’Almeida

Aprender a ler foi uma das coisas mais fantásticas que ocorreram na minha vida. Era um toquinho de gente descobrindo o mundo, quando pude perceber que ele era bem maior, era de um tamanho que não cabia naquele bolso sujo de balas, chicletes e outras porcarias que um guri de cinco anos costumava guardar e engordar. Eu aprendi a ler por uma necessidade, um fio condutor entre o desejo de devorar o mundo e decifrar as letras impressas em qualquer superfície.

Recebíamos em casa cartas de familiares de Salvador, pois tínhamos mudado para Aracaju. Meus pais sempre diziam que meu tio havia mandando lembranças, que minha madrinha estava morrendo de saudades, que meu primo Jean tinha jogado água na televisão e outras milhares de etecéteras. Eu via meu velho com os olhos grudados naquele papel rabiscado e imaginava que era mágica. “Pai, como você consegue entender as coisas que estão aí nesse papel?” Ele respondeu com um “sente aqui, meu filho, vou lhe explicar”. Pronto. A bagaceira da leitura começou ali, fiquei doido quando comecei a juntar as sílabas de bola, uva, casa e paralelepípedo.

Minha brincadeira virou a brincadeira de aprender a ler. Ficava com um caderno na mão atrás de mainha, pedindo pra ela me dizer palavras para eu escrever. E até hoje não me conformo pelo fato de a palavra balde não ser baude. Meu pai chegava de noite e me mostrava as benditas cartas, eu me achava o máximo saber que tia Pinha vinha passar as férias lá em casa, e que meu primo Jean estava virando um terrorista de verdade, agora tinha tocado fogo na televisão e atirado pela janela.

O próximo passo foram as histórias em quadrinhos. As palavras deixaram de ser soletradas, ficava feliz em bater o olho no texto e o significado das palavras aparecer num instante. Eu era leitor de bulas de remédio, outdoors, páginas de revistas, livros, jornal e queria até ver se dava pra ler alguma palavra naquele miserável papel higiênico rosa, tipo lixa, enquanto sentava no trono e me sentia rei. Rei das palavras.

Eu podia ler que um rapaz morreu atropelado na Avenida Brasil, podia ler Drummond dizer que o stop da vida parar era por conta do automóvel, eu lia que um tal de Figueredo mandou que o povo o esquecesse. Lembrava da letra de Cazuza gritando que o tempo não pára, eu li uma receita de bolo na primeira página censurada pela ditadura no jornal O Estado de São Paulo. Li que o mundo ia acabar por causa da bomba atômica. Eu misturava tudo num liquidificador chamado cabeça e aprendi a dizer o que penso e acho de tudo.

Mas a coisa mais importante que li na vida não foi nada disso. O que eu li de verdade estava nas entrelinhas, escondida nos cantos de todos os textos que passaram pelos meus olhos. Eu lia, lia, lia e percebia que ali estava uma fonte inesgotável de conhecimento. Por isso não vou te dizer qual foi a coisa mais incrível que li na minha vida. Se você quiser saber, mas saber de verdade, neste exato momento, pegue o primeiro texto de uma coisa que você curte muito e leia agora mesmo. Garanto que vai descobrir.




Visitem Bruno D’Almeida
Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 19 de abril de 2009

Argumentação Contra o Chuchu - por Bruno D’Almeida

Eu não quero ser chamado de chuchu. Como posso querer ser relacionado a uma coisa sem sabor, que não tem, por si só, capacidade de ser o prato principal de absolutamente nada de respeito? Veja bem, meu amor, essas coisas de ser especial, de morar no fundo do coração e tudo mais não combinam com uma hortaliça fruto de quinta categoria.

Eu prefiro até apelidos mais idiotas, bem afeitos a quem está apaixonado. Mas não pode ser também inho (odeio diminutivos, essa redução a um nada significante), mozão, neném, nego, branco, amarelo, docinho, bebê, bombom, anjo, ou qualquer coisa que já chamem por aí. Você foi dizer que eu era especial na sua vida, problema seu. Agora quero ser chamado de uma coisa que faça jus a essa singularidade.

Eu quero ser lembrado exatamente pelo que sinto por você. Um nome que remeta ao jeito que fico a seu lado, bobo, admirado, de coração acelerado, feliz até por receber um beijo no meio da rua, andar como dois adolescentes apaixonados, como quem descobriu tudo isso pela primeira vez. Como é o nome que se dá quando a gente acorda e pensa logo naquela pessoa? Do que posso chamar alguém que me fez ver que essa vidinha ordinária ainda pode ter um sentido?

E você ainda tem a coragem de me chamar de chuchu? Diga-me, o que essa cucurbitácea, originária da América Central, representa diante de tudo que falei até agora? Se você quisesse dizer que ela tem sabor suave, é de fácil digestibilidade, rica em fibras, com poucas calorias, abundante em potássio e fonte de vitaminas A e C, eu poderia até me empolgar. Até porque o que sinto por você é leve e sobretudo saudável. Mas tenho certeza de que você não se refere à fonte protéica deste parente do pepino e da melancia. Você está com preguiça de pensar em algo mais singular que traduza o que sentimos um pelo outro.

Eu quero ser chamado de amor. Essa coisa que faz o tempo ser mais do que cronológico, ser espacial, atemporal, que dura para sempre, pois é feito de momentos que jamais esqueceremos. Da próxima vez que você me chamar de chuchu, eu vou te dar vários deles, centenas de chuchus para você beijar, acariciar, ter ao seu lado como companheiros inseparáveis. Mais do que isso, vou fazer você comer chuchu três vezes ao dia, todo dia. Uma vida perfeitamente vegetativa. Parecerão comigo? Duvido que todos eles sejam capazes de sentir o que sinto por você. Por isso eu imploro, suplico, peço-lhe por clemência: que diabo, o meu nome não é chuchu!



sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fuga - por Bruno D’Almeida

Ao tilintar da hora marcada,
o dia nasce maquinal.
Cordas, cerdas e engrenagens
pregam o dia na parede.

Pastando pela pobre rua
pessoas pisavam nos passos;
colisões, contrições de passagens
do cidadão da cidade insentida.

Fui trair a cria no trabalho
medindo calado coisas e casos,
fazendo coisas que não gosto,
fingindo casos que não invento.

O fim da tarde foi meu fim.
Embriagado pelo breu da técnica
já não via, apenas oculava
já não vivia, apenas vegetava.

À noite, cansado, caído,
desabei implodido nos teus braços,
que como eu, clamavam
a fuga do dia maquinado.

Senti então, aliviado,
do fundo da pele cansada,
beijos e suspiros;
recompondo,
reerguendo na alma
a tímida certeza,
de que dentro do corpo,
ainda sou sangue,
ainda sou carne.



.

domingo, 12 de abril de 2009

Fraldinhas Meladas por Trocar - por Bruno D’Almeida

Eu quero um amor intenso. Ser intenso como as noites e dias difíceis, como as montanhas que parecem tão intransponíveis antes de içadas pela força da união. Eu quero um amor tão intenso que até a leveza, o simples, a mais objetiva das ações sejam fruto do fundo do coração. Como sabemos, o fundo do coração é o fundo falso de uma mala, onde se esconde tudo, menos o amor, que perpassa, transborda, inflama.

Mas o amor não é somente uma carreata de choro e presságio de martírio. Eu quero um amor que me chame do mais ridículo dos nomes. Um amor que tenha canção nossa, mesmo que seja banal, boba ou até jingle de comercial, não importa. É verdade que nada disso é importante, o amor não está nas propagandas, e sim nas sensações humanas. Chorei ao ver uma propaganda de fraldas descartáveis. Tem gente que chora de mentira ao ver um quadro famoso, e gente que chora de verdade ao ouvir uma música brega. Eu lembro de você na poesia daquele escritor, no vestido de qualquer cor da vitrine da loja, na mulher sorrindo para a câmera dizendo Hellman’s, a verdadeira maionese.

Desculpe-me, eu quero o amor mundano mesmo, eu já desisti de um amor ideal há tempos. Eu quero sua cara amassada de manhã, sua preguiça de ir ao banheiro, sua pele suada e salgada, suas caretas naturais e forçadas, suas calças encardidas, sua língua esbranquiçada, e suas doidas e sinceras declarações de amor. Eu quero seus beijos de madrugada, seus abraços de oito braços, e esse jeito de achar que tudo na vida tem jeito, menos os seus cabelos rebeldes.

Vamos ganhar um rebento e isso é coisa mais importante que faremos nessa existência. Quero vê-lo engatinhando ou andando pela casa, balbuciando papá, papá, o tempo todo. Que tenhamos mais contas a pagar do que saldo bancário, nada vai tirar o gosto do novo eletrodoméstico e da cama nova de lastro rígido. Eu te amo na conquista das pequenas coisas. Podemos antecipar projetos que tínhamos para o futuro, mas se o fizermos agora será também o futuro que passaremos a construir.

Meu amor, agora que vamos ser uma família completa, juntinhos, muito mais grudados do que chiclete debaixo de qualquer carteira escolar, eu quero te dizer apenas que te amo, e fazer dessa pequena palavra uma imensidão de realizações para te fazer feliz. O amor é a única palavra onde o significado está muito além dela. O amor estava passeando pelo ar, solto, quando pousou em nossos corações dizendo cheguei, ponham mais água nesse feijão, mais uma semente no mundo e, além de tudo, acordem para o maior sentido desta vida: ser uma família: painho, mainha e aquela coisinha fofinha, lindinha, chorando singelamente por sua fraldinha melada por trocar.


(Escrito quando soube que iria ser papai.)
.
.
.