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quinta-feira, 23 de maio de 2013

In Natura - por Leo Santos

As coisas do Brasil visito sim
entre as notícias me esbaldo
com o novo carro do Rubinho
e a velha noitada do Ronaldo

Os fatos da terra, claro, procuro
mesmo não faltando nada
encontro nova taxa de juros,
e a velha desculpa esfarrapada

As tralhas que deixei rememoro
saudade, afinal, é um problema
acho um novo retrato da miséria
no velho glamour do cinema

Na velha fonte bebo, fazer o quê
a sede fere a goela, é mal
vejo a nova vítima do BBB
a velha imbecilização nacional

Afinal, não sou desnaturado
mas a distância deturpa a figura
me faz comprar enlatados
pedaços de corrupção in natura

Ainda assim, amo minha gente
não dizem que o amor é cego?
A maioria, espero, é decente
inda que uns, não valham um prego
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sábado, 17 de outubro de 2009

E Assim é a Vida... - por Adir Vieira


Judith vinha caminhando lentamente pela rua movimentada. No rosto, uma expressão de cansaço, de quem tinha lutado o dia inteiro e sabia que ainda até o cair da noite teria muitas coisas a fazer. Sabia que os três filhos a esperavam para o jantar, sabia que a casa, como sempre, necessitaria de uma “organizada” e que ainda teria que estender no varal as roupas que o marido, antes de sair para o trabalho - pois o seu turno era noturno -, havia colocado na máquina de lavar.
As pessoas passavam por Judith e estranhavam sua calma aparente, visto que todas naquele percurso, corriam praticamente. Tinham ânsia de chegar ao local para onde iam. Fosse sua própria casa ou algum outro lugar. Mas Judith não. Caminhava sem pressa, com o olhar fixo no vazio. Passava diariamente por aquele local e era, a essa altura, uma autômata. Na sua mente revivia a vida vivida até ali. Quantos sonhos havia deixado para trás quando escolheu para seu marido o Gilberto. Gostava de sua alegria, de sua forma carinhosa de ver a vida, de seu sentimentalismo em excesso. Lembrava do dia em que ele, às três da manhã, quando retornava do trabalho, trazia nos braços um cãozinho faminto, encontrado na esquina de casa, choramingando. Lembrava de sua felicidade extasiante no nascimento dos filhos, de suas promessas aos mesmos pelo vidro do berçário de que a eles nada faltaria, tivesse ele que morrer por cada um.
Lembrava de como os anos, agora já dez passados, foram exterminando de sua personalidade, com as dificuldades diárias, aquele sorriso aberto, aquela confiança no amanhã, aquela certeza de que tudo seria melhor no dia seguinte.
Lembrava de quantas vezes nesses anos todos, encontrou-o chorando escondido no banheiro, vendo-a partir para a batalha da sobrevivência. Por mais que Judith tentasse mostrar-lhe que não era sacrifício partilhar com ele a criação dos filhos, Gilberto não se convencia de sua obrigação em fazê-lo sozinho, pelo menos no terreno financeiro.
E assim vinha Judith pela rua, pensando, pensando... De repente viu diante dos olhos o Joaquim, seu primeiro amor, um sonho de criança. Ele não estava ali e ela sequer sabia como se lembrou dele naquela hora, mas sentiu, aos quarenta anos, com todo o fervor, o sangue percorrer-lhe as entranhas, quente e rápido, como a proclamar a vida!



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quarta-feira, 29 de julho de 2009

Meu Sonho de Consumo II - por Adir Vieira

Tomei um banho rápido com o intuito de não desistir da compra. Sempre acontece isso com meus desejos frugais – acabo deixando-os de lado.
Com a ideia fixa na cafeteira, saí em direção ao shopping próximo, pois lá, com certeza, escolheria, nas diversas lojas de eletrodomésticos e nas lojas de departamentos, aquela ideal para a minha cozinha.
Não gosto de café, mas prepará-lo ali seria tudo de bom. Antes de comprá-la, garanti num reforço para a não-desistência: os grãos adequados, escolhidos logo na entrada, no supermercado.
Percorri duas ou três lojas, inclusive a que distribuiu o folheto de propaganda e, para minha tristeza, todas demonstravam estoque zero e os vendedores informavam aquele extenso prazo de entrega. O preço nunca condizia com o divulgado porque isso, porque aquilo.
Meu desejo de comprá-la ia definhando e até questionei se era tão forte assim. Mas já tinha os grãos, o que fazer senão ir em busca da preciosidade?
Andei por mais algumas lojas, mas, sabem, nenhuma das que eu via correspondia àquela dos meus sonhos – ou eram grandes demais ou a diversidade de preparo não condizia com a utilidade que eu dela iria fazer.
Desalentada e culpando minha ferrenha compulsão em certas horas, voltei para casa com o pacote de grãos de café para cafeteira expresso.
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quinta-feira, 16 de julho de 2009

Hoje - por Alba Vieira

O momento atual é como cair em areia movediça. Quanto mais tento sair, mais afundo e sou coberta pela lama. São tempos cinza, sem perfume, nem mesmo ar. Não há melodia nas horas que escorrem num compasso que se mantem o mesmo, nada se cria, apenas é possível repetir, repetir, repetir. Meus olhos miram, mas não veem. A paisagem interna é de seca. Não há emoção. E sem ela, só resta ceder e afundar para sempre.



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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Indo Embora - por Alba Vieira

Há momentos que são tristes. ‘Eu me sinto presa’. São tantas coisas densas, tantos problemas pequenos que não me permitem voar...
Quero alçar um vôo leve e levar comigo aquele que almeja a liberdade.

Há momentos que são cheios de alegria. Estou solta e leve, para fugir de tantas coisas que me impedem, que me mantém numa caminhada tão medíocre...
Quero correr, pular, sumir deste mundo grotesco, alma livre que sou. Sou presa somente pela emoção, pelos contatos de amor.

Sinto-me amarrada, atolada, cansada e sem ânimo de me libertar. Busco aquilo que sei que posso e não consigo. Não sei andar nesse caminho de pedras quando sei que vim de um lugar onde caminhava sobre as nuvens.
Quero voltar, quero me reencontrar. Vou-me embora. Vou voar. Vou ser. Longe daqui...



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domingo, 22 de fevereiro de 2009

Resgate - por Adhemar

Passei na loja de penhores
e lá deixei
uns tantos antigos amores:
- fora de hora
- usados
- gastos
Alguns sem brilho,
meio embaçados;
alguns sem uso,
mesmo assim meio estragados.
Tinha uns fora de moda,
tinha muitos fora dos trilhos.
Outros tantos
totalmente por fora...
Inesperados?
Quilos e quilos!

E lá na loja de penhores
deixei também:
- amores não correspondidos
- amores pequenos
- romances compridos
Tudo apurado,
não deu vintém.

Passei então
com toda essa carga emotiva
no estabelecimento
de lixo reciclável...




Visitem Adhemar.................................
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Desilusão

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