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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pollyana - por Fatinha

Querido Brógui:

Há décadas atrás, quando eu ainda era uma criança, li um livro chamado “Pollyanna”. Você já leu? Então vou fazer uma síntese: Pollyana é uma menina pobrinha, órfã, que foi morar com o avô rabugento numa montanha sei lá onde (detalhes assim eu não lembro). O fato é que a menina tinha tudo para que pudéssemos chamá-la de coitadinha, tinha tudo para ser rebelde, menor infratora, mas ela OPTOU POR SER FELIZ.

Pollyana inventou um jogo, o “jogo do contente”. Um Natal, quando ela ainda morava no orfanato, as crianças receberam presentes que vinham num barril. A ela coube uma muleta. Ela não precisava de muletas, então ficou feliz pelo presente exatamente por isso: porque ela podia andar sem usar as tais. Sempre achei isso muito bacana. Ser feliz mesmo quando a vida insiste em nos dar motivos para reclamar da sorte.

Não tenho uma vida como a da Pollyana, tô muitíssimo longe disso, mas há momentos em que me pego reclamando da vida e, cá pra nós, isso não tem sentido algum. De uns tempos pra cá, venho exercitando (com adaptações) o jeito Pollyana de ser. Continuo com minhas ironias (que é uma maneira toda especial de fazer graça com o que não tem a menor graça). Tenho ainda meus momentos de fúria, chuto perna de mesa e coisa e tal. Mas tento sempre encontrar o melhor ângulo de visão para o que me aborrece.

Ontem mesmo eu estava no Fórum, andando pra lá e pra cá, quilômetros e quilômetros naquele labirinto de Creta, pronta para encontrar o Minotauro a qualquer momento. Quando ensaiei um putaquepariu, rapidamente Pollyana incorporou e agradeci por estar ali, andando que nem uma cachorra. Agradeci por ter um trabalho que me garante uma graninha. Agradeci por ter pernas para andar. Isso me deu forças para voltar ao cartório e esperar para obter a informação que queria.
Nada na vida vem só com bônus. Isso é só para as ONG’s. Não sou uma ONG, infelizmente. Não posso ter o melhor de todos os regimes jurídicos (pronto: baixou agora a advogada). Traduzindo: não posso querer ter as benesses sem arcar com os ônus delas decorrentes.

Precisa acordar para ir trabalhar? Agradeça, você tem um emprego. Mas o dinheiro é pouquinho? Agradeça, você tem um emprego.
Seu ex-marido é um merda? Agradeça, graças a ele você teve seus filhos. Seus filhos lhe enlouquecem? Agradeça por eles terem saúde para isso.
Você queria ir à praia e choveu? Agradeça por poder ficar em casa arrumando seu armário. Agradeça por ter coisas para arrumar.

Então é assim. Agradeça sempre. Agradeça por tudo. Jogue o jogo do contente. Pollyana está certa.
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Eleanor H. Porter

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Amigos - por Fatinha

Querido Brógui:

Recebi essa frase hoje:
“Meu pai costuma dizer sempre: quando você morrer, se tiver (feito) cinco amigos verdadeiros, então você teve uma vida notável” – Lee Iacocca

Fiz uma rápida associação ao que minha doce amiga Valerinha me disse outro dia. Ela disse que agora, ao conhecer uma pessoa, a primeira investigação que faz é quantos amigos ela tem. Concluiu ela, com a sapiência de sempre, que se a pessoa não tem nenhum amigo, tem algo de errado. Não ter marido, mulher, namorado, caso, ficante, não é tão desabonador quanto não ter sequer um amigo. Há algo de muito errado em uma pessoa que passa a vida toda sem construir laços com quem quer que seja, ainda que pensemos que há amizades pontuais, amizades com as quais perdemos o contato pelas contingências da vida, ainda que pensemos que nem todos os amigos se prestam a todos os papéis e a todas as ciladas que a verdadeira amizade impõe.
É isso. Sou uma pessoa agraciada por não poder contar nos dedos das mãos quantas pessoas eu considero como amigas, cada qual do seu jeitinho peculiar, cada qual ocupando um lugar bem distinto na minha vida, cada qual me fazendo feliz de uma maneira diferente.



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domingo, 17 de outubro de 2010

Cretinices - por Fatinha

Querido Brógui:

Essa edição é em homenagem a nós, professores, e à nossa árdua batalha no dia-a-dia. Não é inédita, aliás, pra falar a verdade, nem requentada mesmo é. Digamos que ela é “trequentada”. Ela é datada de 2002, não havia nem ainda o “Querido Diário” e, quando ele nasceu, eu requentei. Sendo assim, é a terceira vez que empurro o mesmo texto pela sua goela abaixo e ele ainda é, seis anos depois, a fiel, pura e cruel realidade de meu alunado.
Lá vai:

“Querido Diário:

Neguinho fica por aí espalhando que essa humilde e simpática professora de História é grossa, que é malcriada, que tem tolerância zero. Já me disseram que eu rosno e que meu olhar irado congela qualquer criatura num raio de cem metros.
Após o meu relato, diga sinceramente se a cretinice do alunado tem limites. Se você não é professor ou nunca teve contato com crianças, atire a primeira pedra.

Cretinice 1
Sete horas da manhã, cara inchada, ainda com cheiro de travesseiro, chegando ao meu local de trabalho, sabendo que vou ter que encarar dúzias de adolescentes e pré-adolescentes e crianças e colegas etc., etc., etc.
“A senhora vai dar aula?”
“Não, eu não vou dar aula, só vim aqui porque acordei às cinco e meia da manhã e como não tinha nada melhor pra fazer eu vim aqui passear e ver se você estava bem de saúde.”

Cretinice 2
Mesmo contexto.
"A senhora veio?”
“Não, eu não vim. O que você está vendo é um holograma, está tendo uma visão do inferno, você está sonhando e tendo um pesadelo.”

Cretinice 3
Mesmo contexto.
“Por que a senhora veio?”
“Por que você veio?”

Cretinice 4
Dia de prova.
“Professora, eu não assisti a nenhuma aula da senhora. O que eu escrevo na prova?”
“Seu nome. E vê se põe letra maiúscula.”

Cretinice 5
O trabalho é para ser feito em folha separada para que eles me entreguem no final da aula.
“Precisa colocar o nome e a turma?”
“Não. Ontem comprei pilhas novas pra minha bola de cristal.”

Cretinice 6
Seis meses depois de iniciado o ano letivo, o aluno pergunta:
“Qual é mesmo a matéria que a senhora ensina?”
“Grego arcaico.”

Cretinice 7
Acabo de passar um exercício no quadro.
“É pra copiar?”
“Não. É que eu estava com vontade de me sujar toda de giz, cheirar um pouquinho de pó e ficar com câimbra no braço.”

Cretinice 8
Continuando a cretinice nº 7, o aluno copia tudinho.
“É pra fazer?”
“Não. Leva pra casa que sua mãe responde pra você.”

Cretinice 9
Já em desespero, com a bexiga quase explodindo, pego a bolsa e aviso que vou descer.
“A senhora vai pra casa?”
“Não. Vou usar o banheiro aqui da escola mesmo.”

Cretinice 10
Dando continuidade, provando minha tese que cretinice não tem limites, o aluno retruca:
“Vai fazer o quê?”
“Brincar de amarelinha.”

Está com pena dos alunos? Tá achando que sou demasiadamente cruel, irônica, debochada e deseducadora? Pois você não entende nada de educação.
Passados alguns meses nessa salutar convivência, ao ouvir perguntas cretinas, apenas digo em voz baixa e com um sorriso sarcástico nos lábios: “É pra eu responder ou se trata de uma pergunta meramente retórica?” E o aluno, que é cretino, mas não é burro, rapidamente responde: “É meramente retórica.”
Viu? Eles sabem o que é retórica. Sou ou não sou uma professora de mão cheia?

Esse texto é dedicado à Michelle, minha ex-aluna, futura professora, provando que ainda há almas a serem salvas nesse mar de cretinice e que, por essa almas, vale o sacrifício.
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Postado, originalmente, em 17/10/2008.
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terça-feira, 16 de março de 2010

A Máquina de Lavar - por Fatinha

Querido Brógui:
.Segunda-feira, dia de corno. Nada como uma edição do Querido Diário requentada para começar bem o dia. Essa é do início de 2007.
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.“Querido Diário:

Cássia está com tendinite. Não veio trabalhar essa semana toda. Aqui em casa a roupa é lavada semana sim, semana não. Como essa era a semana sim que virou semana não, na sexta-feira percebi aterrorizada que não me restava limpo um pé de meia, uma blusinha, uma roupinha de ginástica, nadinha. Minhas gavetas estavam completamente vazias e o cesto de roupa suja completamente cheio. O meu terror veio da dupla constatação: 1) eu teria que encarar uma lavação de roupa; 2) tenho bem menos roupas do que gostaria de ter. Das duas, a última foi a que mais me doeu, é claro.
Então, cheguei ontem do curso já preparada psicologicamente para dar uma de peniqueira. Enquanto almoçava, lembrei-me vagamente de que não dominava a complexa técnica de operar a nova máquina de lavar. Pode parar de rir, essa é uma tarefa difícil, sim, nem vem. Poucas pessoas a sabem executar com maestria.
Bem, como penica que é penica não foge à luta, peguei o cesto de roupas sujas, fui lá pra trás, dei uma olhadinha nos botõezinhos daquela coisa (é botão que não acaba mais, a outra máquina só tinha o de ligar e o de desligar), tentei adivinhar como aquilo funcionava, não consegui e acabei por me render à leitura do Manuel.
Na máquina antiga, a gente primeiro enchia de água e depois botava a roupa. Foi o que fiz, coloquei a máquina pra encher enquanto lia as instruções. Aí, dez páginas depois, chegou numa parte que dizia: “nunca encha a máquina de água antes de colocar as roupas”. Danou-se. Já comecei errando. Desliguei rapidinho e pensei em esvaziá-la pra botar a roupa e depois encher de novo. Só que no Manuel não ensinava como tirar a água da máquina. Não sucumbi à tentação de tirar a água de dentro dela com um balde, achei que seria burrice demais, até para mim. Decidi colocar a roupa com ela cheia mesmo, qual o problema? Na medida em que fui colocando a roupa, o nível de água foi subindo, subindo. Simples lei da física aplicada à atividade peniqueira. Enquanto isso, continuei lendo as dicas do Manuel e cheguei na parte que ele dizia: “o nível da água não pode passar do quarto furo da bacia.” Que bacia? A bacia aqui de casa não está furada… É até relativamente nova… Não, sua Anta, a bacia da máquina, disse-me o Manuel. Parei de colocar roupa antes que transbordasse, liguei novamente a máquina e ela começou a bater.
Daí o Manuel me disse: “coloque o sabão em pó e o amaciante nos recipientes devidos.” Danou-se de novo! Esqueci que tinha que colocar sabão em pó e amaciante. Abri a máquina pra colocar o tal do sabão em pó e o amaciante e ela parou de bater. Pronto! Quebrou. Não, sua Anta, toda vez que você abre a tampa, ela para. Ah, tá. E cadê os tais dos recipientes devidos? Achei. Comecei a puxar e o treco não abria a tampinha. Lógico, sua Anta, não é de puxar, é uma gavetinha dividida em duas metades. Qual será a metade pra botar o sabão? E cadê o sabão? Onde será que a Cássia esconde o sabão em pó e o amaciante?
Vitória! Imagina se eu, com dois cursos superiores completos, mais de mil livros lidos, curso de inglês na Cultura, vinte anos de magistério e dez anos de academia de ginástica, iria ser derrotada por uma simples máquina de lavar! Fiquei contemplando minha façanha, embevecida, toda orgulhosa, quando de repente a bicha parou de bater de novo. Agora danou-se mesmo. Dessa vez eu consegui quebrar a máquina. Minha mãe vai me matar e o pior é que depois de morta ainda vou ter que lavar essa montanha de roupa no tanque!
Fiquei alguns minutos olhando para a máquina, em estado de choque, tentando inventar uma boa mentira pra contar pra minha mãe e ao mesmo tempo pensando como iria fazer pra tirar a roupa e a água de dentro daquela meleca. Repentinamente, ela começou a bater de novo. ???? É que o ciclo de lavagem completa tem uma batidinha e um intervalo pro molho, outra batidinha, outro intervalo, sua Anta! Legal, entendi.
Dei conta de toda a roupa da casa após três ciclos de lavagem completa. Pendurei tudo na corda, subindo e descendo as escadas para o terraço com as bacias cheias. Pura aeróbica.
Finalizei a missão com a alma lavada e enxaguada, como dizia Odorico Paraguaçú. Nada como um servicinho de corno pra deixar a pessoa livre de quaisquer problemas existenciais, emocionais, sexuais ou financeiros.”
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.Repostado, originalmente, em 13/10/2008.
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terça-feira, 9 de março de 2010

Pensando Gordo - por Fatinha

Querido Brógui:

Rapidinho: na mesma revista, veio uma matéria sobre o uso da terapia cognitivo-comportamental para emagrecer. Pobres psicólogos sérios que trabalham nessa linha… Além de solução mágica para o TOC, depressão, ansiedade, stress pós-traumático, fobias, vícios em jogo, bulimia, agora vão ter que dar conta dos gordinhos. O pior é ter que explicar para essa galera que terapia não é milagre, que o processo pode ser rápido ou não, que é necessário separar o joio do trigo…
Mas não é isso que quero falar. Lá no meio da matéria tem um quadro “O pensar gordo e o pensar magro”. Depois de ler atentamente como funciona a cabeça de um gordo e de um magro, concluí que sou, irremediavelmente uma magra com cabeça de gorda. Eu busco conforto na comida, às vezes como compulsivamente, tenho fome de doce, quando perco peso retomo meus horríveis hábitos alimentares ao invés de prosseguir na reeducação alimentar, quando engordo penso que jamais vou conseguir perder aquele quilinho, me sinto injustiçada porque tem gente que come e não engorda, não tenho hora certa pra comer.
Acho que vou ter que trabalhar isso com a minha terapeuta.
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.Postado, originalmente, em 12/10/2008.
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terça-feira, 2 de março de 2010

Diarreia Mental - por Fatinha

Querido Brógui:

Como hoje é domingo, não vou lhe servir uma edição requentada. Pra você, com amor, uma fresquinha.
Estava eu folheando a revista em busca de alguma coisinha leve para ler, o que é difícil atualmente em meio a essa crise no mercado financeiro que deixa até os modestos poupadores de cabelo em pé. O pior é que quanto mais os especialistas tentam me tranquilizar, mais nervosa fico, porque esses caras… não sei não. Mas, enfim, encontrei uma pérola que estimulou a minha produção de veneno. Pegue rapidinho seu soro antiofídico pra se garantir.
O título da entrevista com a atriz Cláudia Alencar é: “Ama a si próprio como a ti mesmo”. Vou repetir: “Ama a SI próprio como a TI mesmo”. FALA SÉÉÉÉRIO, como dizem meus alunos. Num relance, a dona já diz a que veio. A cidadã já começa mal, misturando a primeira com a segunda pessoa. Normal.
A atriz bate ponto na telinha na novela pra lá de trash “Os Mutantes”, da Record, que, a propósito, aconselho dar uma olhadinha por três minutos. Não passe desse tempo, os danos cerebrais podem ser irreversíveis. Tudo certo, tá ganhando seu dinheirinho honesto, mas isso não é salvo-conduto para abrir sua torneirinha de asneiras.
Numa tentativa de travar um papo-cabeça com a entrevistadora, a criatura diz que o “ama ao si próprio como a ti mesmo” vem da filosofia hinduísta que deu origem ao cristianismo. Hã? De onde ela tirou essa informação? Deixa pra lá.
Gentilmente, ela é corrigida: “Não seria ama ao próximo como a ti mesmo?” OK. Há vida inteligente no mundo jornalístico. Ponto para a entrevistadora.
Acho que a atriz leva muito a sério sua filosofia de vida. Só quem ama a si própria como a ti mesma tem uma autoestima tão inabalável a ponto de falar tanta abobrinha com tanta autoridade sem perder o rebolado. Admirável.
Sentido firmeza nas suas palavras, ela continua a bostejar, afirmando que os físicos dizem que com a maternidade a pessoa entende o lado divino do ser humano e passa para uma segunda dimensão. Deixa eu ver se eu entendi: de acordo com a física, há uma segunda dimensão, que tem a ver com o lado divino do ser humano e só quem tem passe livre para essa dimensão são as mães. Tenho amigas que são mães e que jamais mencionaram ter mudado de dimensão. Será que as mães podem transitar livremente entre as dimensões? E por que elas nunca me contaram como é por lá? Será que é algum segredo guardado tipo aquelas sociedades secretas? Vou investigar isso, detesto me sentir excluída. Se há uma outra dimensão, eu quero ir, nem que tenha que ter um filho para isso.
Para finalizar a diarreia mental, a moça, que também escreve poesia, arremata: “A ansiedade é falta de delicadeza com o andar da natureza.” Deixa eu ver se entendi. (…) Não, não entendi.
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.Postado, originalmente, em 12/10/2008.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Tá com Problema? - por Fatinha

Querido Brógui:

Olha só: eu perguntei se era pra parar de requentar e você não respondeu. Como diria o “velho deitado”, quem cala consente. Sendo assim, mais um texto direto do micro-ondas, em “homenagem” à derrota do Candidato Universal…
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.“Querido Diário:

‘Você que tem problemas com SPC, Serasa, títulos protestados, nome sujo na praça, falta de crédito em bancos, problemas com o dízimo, participe da Corrente da Prosperidade na Igreja Universal.’ Assim anunciou o carro de som.
Então, você que está na merda total trate de se organizar, abrir um espaço na sua agenda e dar uma passadinha na Universal hoje ainda, que é o dia da Corrente da Prosperidade.
Mesmo que você seja um safado de carteirinha, tome pirulito da boca da criança, tenha feito compras com o décimo terceiro salário que não saiu, deixou rolar o carnê da Casas Bahia, mandou a Casa & Vídeo pra casa do cacete ou mesmo enfiou o cacete na sua mulher, não tem problema. Vai lá que o pastor resolve.
Se deixou de pagar o dízimo, aí eu não sei como vai ser. É tipicamente um conflito de interesses. Afinal, como o pastor vai intervir a seu favor se você não pagou pelos serviços prestados? Aliás, se você tá tão mal na fita, o serviço não foi prestado e então é caso de apelar para o Código de Defesa do Consumidor. Eu não sei como funcionam as instâncias do tribunal divino, mas creio que você, contratante, pode apelar para a exceptio non adimpleti contractus, ou a exceção do contrato não cumprido. Não sabe o que é isso? Tudo bem. Eu também não sei se escrevi a expressão em latim corretamente. Em síntese, quer dizer que você pode deixar de cumprir sua parte no contrato se a outra parte também descumpriu a dela.
Se não for o suficiente, amanhã é o dia da Sessão do Descarrego. Se sua dureza é devida à macumba, nome na boca do sapo, pomba-gira, mau-olhado, vai lá. Se for preciso, o pastor lhe quebra todo de porrada. Você vai direto pro Souza Aguiar, mas o encosto sai (até porque não tem encosto que aguente uma internação no Souza Aguiar). Com encosto ou sem ele, você ainda pode meter uma ação de indenização no pastor. É dinheiro certo. O STJ garante (obs: na época tinha acabado de ser publicada uma decisão nesse sentido). Daí resolve-se o problema inicial. Tudo não começou com a falta de dinheiro? Pronto. A Universal resolveu de um jeito ou de outro.”
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.Postado, originalmente, em 08/10/2008.
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terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Alteração Ortográfica - por Fatinha

Querido Brógui:

Você sempre teve dificuldades com a língua portuguesa?
Sempre ficou em dúvida na hora de escrever uma palavrinha não-usual?
Relaxe… Tudo sempre pode ser pior. Agora temos as novas regras, oriundas de um acordo internacional firmado pelos países que usam a língua portuguesa como idioma oficial (República de Angola, República Federativa do Brasil, República de Cabo Verde, República de Guiné-Bissau, República de Moçambique, República Portuguesa e República Democrática de São Tomé e Príncipe).
Esse Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa veio para unificar a grafia de algumas palavras que cá eram escritas de uma maneira e por lá, de outra.
O referido Acordo produzirá efeitos somente a partir de 1º de janeiro de 2009, mas convém ir colocando as barbinhas de molho e juntando um trocado para comprar um novo Pai-dos-Burros.
Você achou essa notícia horrível, desesperadora? Não é não. De acordo com o Decreto nº 6583, de 29 de setembro de 2008, já em vigor, a implementação do Acordo obedecerá ao período de transição de 1º de janeiro de 2009 a 31 de dezembro de 2012, durante o qual coexistirão a norma ortográfica atualmente em vigor e a nova norma estabelecida. Isso quer dizer que temos três anos para reaprender a escrever e, enquanto isso, podemos usar a grafia antiga ou a nova, sem corrermos o risco de nos chamarem de analfabetos.
Agora, você tem noção do rebuliço que deve estar ocorrendo no mercado editorial? É, porque todos os livros publicados terão que ser revisados para se adequarem aos termos do Acordo. Neguinho deve estar querendo matar quem teve essa ideia brilhante.
Afora isso, imagine a situação do nosso povinho, que a duras penas conseguiu aprender a escrever (conseguiu?) do jeito que é hoje… A partir do ano que vem terá que desaprender e depois reaprender. Vai ser coisa para, no mínimo, duas gerações darem conta. Como sempre penso positivamente, talvez o quadro não seja tão calamitoso assim. A maioria da população brasileira não sofrerá os efeitos das alterações ortográficas. Já que escreve tudo errado mesmo, não terá um volume muito grande de informações para deletar do seu disco rígido.

PS: Pra quem estiver a fim de se inteirar, vá no site do Planalto e pegue a íntegra do Dec 6583. É fácil. Tem todas as alterações.
PS 2: Como já disse antes: Fatinha também é cultura.
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.Postado, originalmente, em 30/09/2008.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Como Assim? - por Fatinha

Querido Brógui:

Marque com um X a afirmativa correta.
Pergunta: “Como assim?”
Olhar incrédulo, suspiro, sorriso forçado.

Você vai ler as duas frases, a que estiver certa, você marca.
Pergunta: “Como assim?”
Olho esbugalhado, taquicardia, sorriso forçado.

Não tem duas frases? Então, uma delas está certa. Você pega o lápis e marca um X nela.
Pergunta: “E a que estiver errada?”

A que estiver errada, você deixa lá, não faz nada com ela.
Pergunta: “Como assim?”
Falta de ar.

Não está errada? Então não precisa fazer nada. Não marca nada. Não faz X. Deixa ela quietinha.
Pergunta: “É pra marcar um X na certa?”
Fogos de artifício.

É.
Pergunta: “Em cima da frase ou do lado?”
Enfarto quase que fulminante.

Cai o pano.
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.Postado, originalmente, em 26/09/2008.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Se Mata - por Fatinha

Querido Brógui:

Outro dia, na seção de cartas do leitor do jornal, um cara auto-denominado de lacto-ovo-vegetariano, reclamava porque foi no Outback, pediu uma pasta com frango – sem o frango – e o prato veio com cheiro de frango.
Há várias perguntas que não querem calar. Nem vou começar a falar o quão chato é uma pessoa com restrições a determinados alimentos. Marise vai comer meu fígado. Não, não vai não. Ele não come nada que vem de bichinho morto, mesmo que o bichinho morto seja eu e ela o tenha matado com suas próprias mãos.
A primeira delas é: o que diabos um lacto-ovo-vegetariano foi fazer num restaurante que tem o nome de Outback STEAK HOUSE? No meu inglês macarrônico, entendo que uma steak house serve steak, ou seja: carne. A única resposta que me vem é que o cara não sabia inglês, e, nesse caso, estaria coberto de razão. Foi enganado por essa mania tupiniquim de colocar tudo em inglês, num país onde o povo mal sabe ler em português. Boa explicação? Não. Não convenci nem a mim mesma. Se o cara não sabia o que era uma steak house, no minuto em que pegou o cardápio, poderia ter descoberto o seu equívoco e se retirado do recinto com o rabinho entre as pernas, ou, no máximo, indignado porque o nome do restaurante era em inglês.
Bem, ele não percebeu seu equívoco, ou percebeu e ficou com vergonha de se levantar da mesa e sair, ou então encarnou um espírito de porco – ops! porco não pode, é bicho – e resolver tirar uma onda com o cozinheiro pedindo macarrão com frango sem o frango. Anta! O cara se dispôs a pagar os olhos da cara – ô comidinha cara, a desse lugar – por um prato cujo ingrediente principal ele mandou tirar. Devia ter ficado em casa e, em meros três minutos, cozinhado um miojo. Mais barato e bem menos constrangedor.
Daí, veio o macarrão do cara. Ele comeu aquela merda sem molho algum e, para provar que veio ao mundo para encher o saco dos outros, reclamou que sentiu cheiro de frango no final. Além de burro, espírito de alface, não tem olfato, pois comeu tudinho e só sentiu o cheiro quando já estava lambendo o prato. Será que o cozinheiro, só de maldade, montou o prato dele num que já estava sujinho com os restos do frango de outrem? Não creio. Talvez eu fizesse isso naqueles meus dias de Mae West, ou o cara do botequim em que eu almoço, mas não quem trabalha num estabelecimento desse porte. Acho que o Mala queria mesmo era se eximir do pagamento da refeição.
Então, vamos combinar assim: quer comer pizza? Pizzaria. Quer comer carne? Churrascaria. Quer comer peixe cru? Japa. Se não come nada de origem animal, vegetais só se forem orgânicos e água mineral só se ela vier direto da fonte, se mata.
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.Postado, originalmente, em 25/09/2008.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Confissões - Fatinha

Querido Brógui:

Hoje é dia de confissão. Preparado para a intensa emoção de compartilhar os recônditos mais obscuros da minha vida?
Tudo começou quando percebi minha ojeriza a tirar fotos. Fotos minhas, claro. A dos outros, não me incomodo não. Não ficam lá muito boas, é verdade, mas a criatura já fica previamente advertida da inaptidão da fotógrafa quando ela pergunta: “Tem que sair a cabeça e o pé, ou eu posso escolher um dos dois?”
Por que eu não gosto de fotos? Primeiro porque não sou fotogênica. Minha cara nunca sai legal e fico arrasada quando dizem que ficou boa. É um raciocínio muito simples: se acho a foto feia e eu tenho aquela cara, fico logo pensando que sou feia também. Coisas de Fatinha.
Segundo, meu irmão sempre diz que quando eu rio para tirar retrato, aparecem trezentos dentes na minha boca. É um elogio (acho) ao meu sorrisão, mas…
Terceiro, em todas as fotos 3x4 eu saio com cara de marginal. Ah, tá. Você também sai. Mas, numa escala de zero a dez, eu seria presa num presídio de segurança máxima e você pegaria um regime aberto.
Quarta razão: minhas olheiras. Elas são potencializadas na fotografia. Se, em condições normais de temperatura e pressão, eu tenho que passar três camadas de corretivo para poder ir no portão de casa sem neguinho pensar que eu levei um soco em cada olho, na foto, fico parecendo um panda.
Não basta?
O quinto motivo é que, nas últimas e infelizes fotos que tirei, reparei que minha cara tá ficando caída. Tipo bochecha de bulldog. Exagero? É, mas já disse: meus retratos potencializam o que há de pior em mim.
Então, essa foi a primeira confissão do dia. Sigamos adiante.
Comprei uns produtos da linha Renew, da Avon. As mulherzinhas sabem do que eu estou falando. São aqueles produtos pra combater rugas, flacidez, manchas na pele, aspecto de cansaço, em suma: a decrepitude normal do rosto. Normal, mas nem por isso bem-vinda.
O que tem isso a ver com as fotos? Tudo. A minha confissão número dois é relacionada com a número um. Nas fotos, além de ver minhas olheiras e a bochecha de bulldog, ainda consegui perceber que pequenas ruguinhas estão se manifestando nas pálpebras inferiores. O que fazer? O que já deveria ter feito, porque também li na revista que os sinais da idade começam a aparecer aos trinta anos. Já estou no atraso.
Com isso, parto para minha terceira confissão do dia: eu peco todos os dias e meu pecado é um dos capitais, a vaidade. E digo mais: se depender de não cometer esse pecado para conquistar o Reino dos Céus, tô lascada. Já era. Faço ginástica, faço dieta, pinto as unhas, o cabelo, compro roupinha da moda, faço maquiagem, limpeza de pele, depilação, uso Renew, creme redutor de celulites, hidratante corporal. Pacote completo. Passagem direta só de ida para o Inferno. Por essas e outras, para compensar, para poder negociar com São Pedro na hora do acerto de contas, faço de tudo para ser uma boa pessoa. Na hora H, acho que Deus vai me perdoar por ser “humana, demasiadamente humana”.
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PS - A citação é de Nietzsche. Fatinha também é cultura.
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.Postado, originalmente, em 24/09/2008.
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Friedrich Nietzsche
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Caô pra Economizar - por Fatinha

Querido Brógui:

Viva a concorrência! Com isso, nós, consumidores, temos a nosso favor um poderoso instrumento de barganha. Tá caro? Manda cancelar. Ligue para a administradora de cartões de crédito, para o provedor de acesso à internet, para a companhia telefônica, para todas as empresas as quais você sustenta com assinaturas e MANDE CANCELAR! Eles nunca cancelam antes de perguntar por que. Daí você conta uma churumela, diz que tá desempregado, enche o ouvido do atendente de lágrimas, diz que não precisa do serviço e que o concorrente lhe ofereceu vantagens irrecusáveis. Caô total. Em alguns minutos você consegue isenção de pagamento, descontos, promoções e economiza uma graninha daqui, uma graninha dali…

Hoje consegui um desconto de vinte reais numa mensalidade. Micharia? Em um ano, terei economizado duzentos e quarenta. Mais que o suficiente para comprar uma bolsa ou dois sapatinhos ou um final de semana numa pousadinha meia-bomba ou três tanques de combustível ou doze escovas no cabelo…

Tá dada a dica da pirangueira-chefe.

PS - Não sabe o que pirangar? Na minha terra, Recife, é o mesmo que negociar pra economizar um troco. Fatinha também é cultura.
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Postado, originalmente, em 23/09/2008.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Nem Pollyanna Suportaria - por Fatinha

Querido Brógui:
Todas as células que compõem o meu corpo odeiam funk. Todas elas, sem exceção. Nada pior do que ouvir funk, como ouvi, quatorze horas seguidas, a ponto de eu desejar ardentemente ser surda. Acho que a nova arma de guerra dos traficantes que dominam o Morro dos Macacos é o enlouquecimento dos moradores das adjacências. Soube de um vizinho que ligou pra polícia. Sabe o que o atendente disse? Que já tinha recebido inúmeros telefonemas, mas a polícia só poderia ir lá verificar se o denunciante fosse junto. Agora, imagine a cena: chega o denunciante, vulgarmente conhecido como X-9, acompanhado de um PM e manda desligar o som. Tem noção?
Bem, voltando ao tema dessa edição, dizia eu que o funk era o que havia de pior no mundo. Mas, pensando melhor, há coisa pior: propaganda eleitoral. Cruel mesmo é constatar que, quando o Cão resolve fazer o seu trabalho, o faz direitinho. Que tal juntar as duas desgraças e divulgar o nome e número do infeliz do candidato, no ritmo do funk, usando um carro de som?
A essa altura, você, Querido Brógui, deve estar solidariamente meneando a cabeça e pensando que isso é o fim da picada. Eu lhe digo: não, não é. Tente figurar o que você sentiria ao ficar preso num engarrafamento, dentro de um coletivo, ao lado do tal carro de som? Achou ruim? Pois não acabou.
Depois de cinquenta minutos de tortura auditiva, levando guardachuvada e pisão no pé, você finalmente desce do ônibus. E o que faz imediatamente? Começa a cantarolar aquela coisa do Demo e quando percebe o que está fazendo finalmente se toca que a lavagem cerebral existe mesmo e você acaba de sofrer uma.
Não há células suficientes no meu corpinho para comportar tanto ódio. E olha que eu estou na minha fase zen-Pollyana-Heidi.
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Postado, originalmente, em 16/09/2008.
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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Pensamento Legal - por Fatinha

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Querido Brógui:

Outro dia, conversando sobre relacionamentos com um colega, ele soltou: “quem diz que quer se relacionar, mas não quer se envolver, tem que namorar uma planta.”

Genial!
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Postado, originalmente, em 02/09/2008.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

E Por Falar em Natal - por Fatinha

Querido Brógui:

E por falar em Natal, quem aqui nunca recebeu um presente nada a ver?

Começando pelo nefasto amigo oculto, uma solução boa pra economizar uma grana, mas sempre causa de profundas decepções. Há muito tempo que eu não participo de um, mas sempre acontecia a mesma coisa: eu me esmerava em comprar uma coisa maneira e recebia um treco que eu jamais em sã consciência teria coragem de dar de presente nem se fosse para meu inimigo oculto.

As situações mais embaraçosas são aquelas em que a pessoa toda sorridente diz pra você que o presente é a sua cara. Quando ouço isso tremo nas bases, porque lá vem bomba (eu tenho cara de bomba?). Como minha santa mãezinha me domesticou muito bem, eu agradeço, disfarço a decepção e penso: “Que que eu faço com isso?”.

Eu mesma já devo ter dado presentes assim. Munida da mais singela intenção de fazer o outro feliz e acabando por dar um tiro na água.

Já sei. Você deve estar procurando no seu disco rígido quais foram os presentes dados a mim e tentando adivinhar se eu gostei ou não. Pode parar de se torturar porque você nunca vai saber mesmo. E também nem pense em parar de me dar presentes por causa disso, porque aí eu vou ser obrigada a escrever um diário-denúncia dedurando você.

Em retribuição ao carinho, mesmo não gostando da coisa, procuro usá-la, em homenagem à pessoa que me presenteou. Sim, Querido Diário, minha crueldade tem limites. Não é assim que funciona? O outro me faz feliz dando e eu tento fazê-lo feliz usando. Quando não dá mesmo pra salvar o presente – há casos irremediáveis como roupa pequena, ou uma bijouteria que vai deixar minha pele em carne viva – há solução. Vou trocar, passo adiante – nem adianta fazer cara feia porque duvido que você nunca tenha feito isso – ou simplesmente meto no fundo do armário e pronto.

Temos aqui em casa a nossa secretária do lar – nome politicamente correto para empregada doméstica – que todo Natal traz um presentinho para nós. Ficamos sempre comovidos porque sabemos o quanto o dinheirinho dela é curto, inversamente proporcional ao prazer que ela sente em nos presentear. Quando ela vem toda contente com o embrulhinho na mão, entramos em pânico porque a cada ano ela se supera trazendo objetos de decoração pavorosos.

Um ano ganhamos um porta-papel higiênico. Sabe aquele que a gente pendura os rolinhos na parede? Tem coisa mais cafoninha? Na minha escala de valores, está no mesmo nível da roupinha para bujão de gás ou o pano de prato calendário – aqui em casa não usamos gás de bujão, graças a Deus.

No ano seguinte foi um vasinho de flores artificiais cor-de-rosa com areia colorida também cor-de-rosa. De chorar. O problema das flores artificiais é que além de serem horrorosas não morrem nunca. Não secam, não apodrecem. Só ficam ali se enchendo de poeira e desafiando meu senso estético. E tem mais: tudo quebra, menos o tal do vasinho.

Esse ano, veio a pérola. Umas flores amarelas – artificiais também – submersas em um aquário, com os dizeres: “Jesus o segredo da paz”. Tem noção?

PAUSA PRA EU RIR, TÔ ME CONTORCENDO, O TROÇO É MUITO FEIO…

O pior é que não dá pra defenestrar as coisas. Ela vai dar falta e ficar magoada. Solução: deixar os enfeites enfeiando o ambiente e ela sorrindo. Muito justo.

Mas, vou confessar a você que eu e minha santa mãezinha já arquitetamos o plano maligno de deixar esses objetos ao alcance do João Pedro. Se ele quebrou o galo do Presépio que armamos aqui em casa desde que eu me entendo por gente, tenho certeza de que não vai falhar nessa nobre missão que vamos a ele confiar.
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Postado, originalmente, em 26/12/2007.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Usando o Mouse com a Mão Esquerda - por Fatinha

Querido Brógui:

Como qualquer pessoa que já ultrapassou a barreira dos trinta anos e ingressou de vez na fase da decrepitude, a cada dia que passa descubro que um pedaço de mim sente dor. É dor no joelho, é dor nas costas, é dor no ombro, dor no punho, é dor no dedo indicador da mão direita. Dedo indicador da mão direita? É. No dedo indicador da mão direita. Uma dor tão específica, que eu duvido que exista algum supermegaortopedista especialista com pós-doutorado em Harvard que possa dar conta dela.
Antes que os engraçadinhos de plantão digam que a dor adveio de tanto eu tirar meleca, já vou advertindo que eu já detectei a origem da pereba: é o mouse do computador, essa máquina dos infernos que também acabou com meu ombro, meu punho e minhas costas. Não, o joelho sempre foi bichado, mesmo antes de Bill Gates nascer.
Para solucionar esse pequeno, mas extremamente incômodo problema, decidi começar a usar o mouse com a mão esquerda. Você já tentou isso? Tente.
Primeiro, a setinha fica descontrolada na tela. Ela não vai pro lugar que você quer. Nem que você urre e a ameace de morte. Acho que alguém com Parkinson seria mais ágil.
Depois, para ajudar o movimento a ficar mais coordenado, você se pega mexendo com a mão direita também. Você fica arrastando a mão vazia na mesa até ela ficar esfolada. Daí você percebe que o mouse não está lá, está na outra mão.
Depois, pra segurar a mão direita que insiste em se mover à revelia, você decide amarrá-la no braço da cadeira. Aí você percebe que precisa dela para digitar, a menos que queira também aprender a usar o teclado com a ponta do nariz.
Uma semana depois, você já consegue direcionar a setinha do mouse, a mão direita está mais ou menos sob controle, mas ainda se enrola com o clique dos botões. Ensinar pra mão esquerda o que é botão da direita e botão da esquerda é tarefa complexa. Indicador no botão da esquerda, dedo médio no botão da direita. Ou será o contrário? Por via das dúvidas, use apenas um dos dedos. Escolha o que lhe faz mais feliz.
Finalmente, após quinze longos dias, você consegue digitar um pequeno texto sem se contorcer como se tivesse tendo uma convulsão, fazer caretas, trincar os dentes e derrubar o teclado.
E o meu dedinho? Continua doendo.



Postado, originalmente, em 26/08/2008.
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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Tô Tentando - por Fatinha

Querido Brógui:

Procuro sempre me inserir dentro do grupo, ainda que negue veementemente essa minha necessidade de aceitação. Sempre mantenho a maior pose de quem-quiser-que-me-aceite-do-jeito-que-sou. Maior caô. Tenho em mim tatuada ainda a lembrança da adolescente que fui, meio gordota, cabelinho mau-com-Deus, tímida e nada, nem um tiquinho de nada, popular.
Por conta desse trauma de adolescente, vem o esforço de ser mais ou menos como todo mundo. Seguir as modas, não soltar nenhuma pérola politicamente incorreta, misturar-me à população local, seja lá qual for a população local.
No entanto, de vez em quando não dá. Vez por outra recebo uns olhares fulminantes, daqueles que me fazem sentir qual o mosquitinho do cocô do cavalo do bandido. Pequeninha, ridícula, uma coisinha à toa.
Um desses momentos é quando confesso humildemente que não tenho Orkut. NÃO TEM ORKUT? Não, digo eu, me desculpando por ser tão insignificante. Tenho meus motivos para não participar do que todo mundo participa, mas todo mundo acha que todo mundo tem que fazer o que todo mundo faz.
Outros momentos mosquitinho são quando confesso que não sei nadar e que não tenho passaporte. COMO ASSIM? Desculpe, não posso viajar de barco para fora do país. Mas, embora não saiba voar, posso viajar de avião, desde que não ultrapasse a fronteira.
Também não bebo e nunca fumei maconha. COMO? Tudo bem eu sou uma chata careta. Em compensação, posso levar uma dura de qualquer PM na madrugada. Tá bem. Essa opção não é mais saudável que as drogas.
VOCÊ NÃO FUROU A FILA E AINDA DEVOLVEU O TROCO QUE A MOÇA DEU ERRADO? Desculpe, “mas não posso, não devo, não quero viver como toda essa gente insiste em viver e não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal”.
NÃO TEM CÂMERA DIGITAL? Desculpe, não tinha nem daquela de filme…
OK, então eu confesso: sou uma marginal, mas tô tentando deixar de sê-lo. Comprei um pen drive essa semana, meu celular tem câmera que eu juro que ainda vou aprender como funciona, falo palavrão e como fritura.


Postado, originalmente, em 25/08/2008.
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Tempos de Lei Seca - por Fatinha

Querido Brógui:

Em tempos de lei seca, o melhor amigo do homem não é o cachorro, sou eu. Sabe que eu estou pensando seriamente em inaugurar um novo tipo de prestação de serviços que inclui buscar e depois entregar a domicílio, sãos e salvos, aqueles que gostam de uma bebidinha? Não digo que vou começar a transportar bebuns, porque minha tolerância a bêbados é nenhuma, mas posso perfeitamente começar a transportar os apreciadores de álcool que sabem beber e sabem parar antes de ficarem insuportavelmente chatos. Vou ganhar um troco, posso até incluir no pacote que o bebedor pague algumas doses de Coca Light para mim. Grande ideia.



Postado, originalmente, em 04/08/2008.
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terça-feira, 24 de novembro de 2009

Transgressão Total - por Fatinha

Querido Brógui:

Transgressão total é ir à praia no meio da semana. E mais: ir à praia, tomar sol sem passar filtro solar, ler um livro que não tenha nada a ver com Direito, tomar Coca-Cola normal, biscoito Globo e entrar na água fria apenas para fazer xixi.



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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Crise de Abstinência - por Fatinha

Querido Brógui:

Dez dias de abstinência. É muito tempo, muita privação.
No primeiro dia, o impulso de fazer uso. Coisa mecânica. Usa porque está lá, à mão e, já que está ali mesmo, dando sopa, porque não?
A partir do segundo dia, já caiu a ficha de que não vai ser possível contar com aquela companhia fiel, muleta total, fonte de prazer. Começa a dar saudades.
Depois, o inevitável: você percebe que rola uma relação de dependência. Você acreditava estar no controle da situação, mas não estava. Você é mero joguete nas mãos do hábito. Daí vem a sudorese, a insônia, os tremores nas mãos.
E aí, Querido Brógui? Ficou tenso? Tá nervoso achando que eu sou uma drogadita em fase de reabilitação e que você, logo você, nunca percebeu? Tá quase pegando o telefone pra me ligar e dar uma força? Já sei: vai mandar uma oração e uma receitinha infalível para aliviar o bode?
Relax, Brógui, relax. Eu estou me referindo aos dez dias em que meu computador ficou no estaleiro. Nada grave, a não ser a constatação de que tenho mais vícios (Ops! Agora o politicamente correto é falar “hábitos”) do que supunha. E você?



Postado, originalmente, em 02/08/2008.
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