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domingo, 3 de outubro de 2010

As Eleições e Essas Coisas - por Leandro M. de Oliveira

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Amanhã, dia 3 de outubro, mais uma vez estaremos convidados, ou melhor, compelidos a participar do processo eleitoral. É realmente ambíguo o que acontece aqui, todo cidadão maior de idade está obrigado a votar ou sofrerá várias sanções se optar pela não participação. É exatamente nesse ponto que reside o caráter esdrúxulo da eleição, a ideia é que vivamos em uma democracia, entretanto estamos coagidos a participar de coisas que nem sempre nos interessam, as eleições são grande exemplo disso. Por definição de Aurélio Buarque de Holanda:

de.mo.cra.ci.a

Substantivo feminino.
1.Governo do povo; soberania popular.
2.Doutrina ou regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição equitativa do poder.


Assim, quando se fala em soberania popular, deve-se entender que isso signifique respeitar a diversidade de opiniões produzidas por esse determinado povo dentro de um determinado contexto sociopolítico. Soberania sendo o suporte do exercício democrático indica uma liberdade plena para a expressão da vontade, fazer o contrário é exercer uma ditadura travestida. Nesse sentido, vive-se ainda num regime que considera a liberdade tão somente como uma ficção jurídica. Ela põe-se aqui como uma peça hipotética que serve de sustento à introjeção de ideologias que restam como garantia de exercício de poder a grupos determinados, e quando surgem novos, não passam de variações do mesmo tema. Vivemos aqui uma democracia amordaçada, enjaulada e adestrada de acordo com interesses pré-determinados.

No que se refere ao campo da ação política enquanto participação eleitoral, tem existido nos últimos anos um fenômeno que considero interessante. A cada novo pleito sobe o número de candidatos digamos, hilários ou sem um perfil clássico. Isso tem irritado muita gente que se vê ameaçada por essa horda de políticos que são de certo modo “não-políticos”. Talvez o caso mais emblemático seja o de um candidato a deputado federal por São Paulo, o humorista “Tiririca”. Esse homem teve toda sua documentação aceita e achada conforme no momento do registro de sua candidatura pelo órgão competente, tudo feito de boa-fé. Todavia, agora que as pesquisas o apontam como um possível fenômeno de votação, provavelmente o maior da história do país, passa a existir uma corrida de promotores e juízes com intenção de cerceá-lo no direito de ser votado e eleito. E tudo por causa da suspeita de ser o candidato analfabeto; ora, em 2007 foi concluído que o Brasil tinha a maior taxa de analfabetos da América Latina, perdendo para Haiti, Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador, República Dominicana, Bolívia e Jamaica em número de pessoas que não sabem ler nem escrever.

De acordo com o IBGE, 10% de nossa população é constituída de analfabetos e 38,9% de analfabetos funcionais. Com isso gostaria de dizer aos senhores poderosos, que vocês fabricaram o Tiririca, assim como ainda vão fabricar muitos outros que serão fruto do descaso e da ingerência de vocês com a máquina pública. Tenho uma tese de que esses candidatos apareçam pela obrigação jurídica dos apolíticos de participarem da política, assim escolhem alguém com quem possam se identificar. Minha opção particular nessa eleição é votar em branco, pois entre o mau caratismo e a estupidez completa, prefiro não tomar afeto por nenhum. Revisitando a Constituição Federal, uma brevíssima reflexão:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)

Se a lei garante que todos são iguais, por que perseguem tanto o Tiririca? E se garante que todos são livres, por que não estou simplesmente à minha própria vontade para decidir ir ou não votar amanhã? (...)
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Esse texto está publicado na íntegra em Soturna Primavera.
Visitem, comentem, protestem!
Abraço a todos.
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terça-feira, 2 de março de 2010

Belphegor - por Leandro M. de Oliveira

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Vento norte que em rota inesperada faz desnorte. Esse ar, essas ruas, esse cadáver, eternamente jaz, flutuando sobre mim. Queria uma emoção leve que fizesse do tempo um exercício comum, como não consigo, caminho como quem se suicida, ou tomo o ônibus que leva a um país inverossímil. A persistência que parece insustentável, o ermo feito indizível. Tudo é partida. Subi o monte com grandes expectativas, quando lá cheguei só havia pedras e árvores. Buscar uma explicação é ter a alma pelo avesso, e eu como nada sei da direção comum, meto a mão no que sinto como um tumor que cresce de dentro pra fora. Viver custa caro, nisso tenho sido obrigado a por de própria algibeira. Por mil anos trabalhei no silêncio, obsoleto, agora minhas estão deformadas e minha vista cegou-se na incomensurável espera. Para o serviço de recenseamento seria eu excesso de contingente ou morto não declarado? Situação ingrata, ter de ser pertencido por alguma parte sem ser pertencido por parte alguma. Nessa terra devassa nem amargor é capaz de definir o meu amor. Todo sacrifício é degradação, toda vez que abro uma janela a paisagem persiste a mesma.

O silêncio às vezes é entrecortado pelos sons dum animal errante. O silêncio é um mistério inominável aos que carregam uma turba pelas ventas. Deus é som, animal, ou silêncio? Há tanta metafísica nas coisas ordinárias que a crença já não é algo mais tão seguro, os inquisidores tiraram férias... Não, não tiraram.
Apaixonar-se é ter nostalgia da perdida infância. Isso seria uma observação ou uma epígrafe? Talvez uma boa coisa pra se escrever nas paredes de um urinol público. As necessidades sempre fazem o homem parecer mais profundo. Irremediavelmente, a nostalgia tateia memórias além da memória, desce ao porão escuro agitando o pó já assentado. Na treva não há o que se contemple. Lá embaixo todos os sepulcros foram lacrados. Acaso existem infravermelhos pra se enxergar o escuro da alma? Na impossibilidade das respostas vou, com um cemitério na cabeça, com o universo todo por sobre os joelhos.

Conhecer do atemporal é engenho nobre. Irrelevante; debruçar-se a isso num mundo mais raso que um prato de sopa. Bem vindo à época da produção em série. Ave, triunfo burguês! Quem roubou meu cantil? Tenho sede e não há água em canto algum. Depois de certo tempo no deserto as pessoas passam a fazer parte dele. Homens de areia, mulheres de nada, paços insólitos permeiam a cidade. O mundo existe em mim como existe uma bruma a cobrir a paisagem, como existe alojada uma doença a que se quer purgar.

Prometeu amarga um perene castigo. Mandado ao Cáucaso por ser um homem bom? Bondosamente imbecil, salvar os outros é perder-se a si mesmo. O caminho e a resposta vêem de dentro. Também não sei por que cargas d’água me ponho a assim pensar, se dessa feita ocorresse, a espeleologia cuidaria de todos os vazios. Mãos ao alto ao mistério, mãos ao chão na queda. A gravidade é sempre inconstante, pode ser que estar em paz seja fechar os olhos e abrir a boca. Consumir idéias alheias é a forma mais antiética de canibalismo. Todavia fomos salvos, a TV democratizou o saber e fez com que todos soubessem as mesmas coisas. Boa noite e merda!

Depois que a mídia se tornou o nosso aiatolá, existir ficou tão colorido, tão nauseantemente simplificado que nem o vômito surte mais efeito. Tomaria alcalóides e dormiria como um xeique enfeitiçado, as garrafas estão vazias. Tenho de beber da esquizofrenia coletiva e fingir um pouco de lucidez. Onde estão meus óculos? Onde está a forma pacífica de ver as coisas? Já que tudo é guerra coloco botas de borracha e busco despojos na fossa sanitária das consciências. Estão vazias, visceralmente apartadas. Belphegor trabalha às tantas. Abençoados os que não se arrependem, amaldiçoados os que os abençoam. Discursar é uma forma de fazer com que as pessoas não reparem nossas vidraças, toda palavra é agressão. A luz apagou, a tempestade não estiou. Pra onde fugir agora? Que lugar é possível sem que haja luzes, tempestades e memória? Fronteiras de meu reino, de tantas terras donde nunca ouvirei falar. O vento sopra a este bordo, o vento sempre soprou a mesma nota. Não escutar o arredor é ser ultrapassado pelas costas, talvez exista cera demais nos ouvidos. Quero partir em disparada, mas a letargia parece ter atrofiado meus membros.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Asmodeus - por Leandro M. de Oliveira

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A justa medida de medir todas as coisas, sem conceito pregresso, sem participação no processo. Não se encontra uma boa solução na caixa de achados e perdidos. Salvo o amor-próprio, todo o tipo de paixão é decadência; essa é uma era de homens decadentes. Do olho do furacão todos estão cegados; como criticar as cores do quadro se a vida te fez daltônico? O dia consumido em horas, as horas consumidas em não ser. Viver é tomar parte na antiga tragédia, morrer é figurar nas estatísticas. Solas gastas patinam na lama e é preciso um coturno que amasse a terra com indiferença. Compadecer-se do passo adiante é degradação da pior espécie. Nada se destrói, as coisas vão reformuladas no contínuo de existir. Uma navalha abre carnes, uma navalha decepa membros. Acaso há lâminas nessa terra que abram ideias ou decepem ideologias? Se os cuteleiros tivessem consciência política a vida na polis seria menos hipócrita. O processo é mais sofisticado.

Vis escravos, pra sempre sejam.

A noite passa. Eu a tecer insônias como quem tece uma camisa de força. Qual a justa medida? Se cada homem é um e vários ao apelo das circunstâncias, qual o sentido de verdade? Toda fé é inútil. A vida vai arrombar sua casa, estuprar seus filhos e te fazer beber um café amargo pela manhã. Maldição! Na ditadura é fácil culpar alguém. Então vem você com seu senso democrático e sua mentira, quer comandar o mundo todo, mas falha no papel simplório de soberano da própria pele. Bem-vindo aos tempos do teatro experimental. A selva não permite regras de etiqueta, o que diferencia os homens é o lugar que cada um ocupa na cadeia alimentar. Tragam-me pantomimas; uma vez na vida, deixem que aconteça de dentro pra fora. O preço do pão torna as coisas pouco poéticas, compaixão para com os animais é engenho da mais cínica extravagância. Que Asmodeus dê cabo dos luxuriosos. E aqui estamos e cá continuaremos, por muito tempo até que os guias usem óculos, até que rebente a vergonha naqueles que te fizeram acreditar.

A vida existe na matéria, a matéria existe na aglomeração de átomos. O átomo é cheio de vida, e ao mesmo tempo vazio de matéria. Se não há matéria que preencha o átomo, não há vida na matéria. E se assim é, a vida vem de outra fonte e nada é como se pensa ser ou tudo é representação e nada é sequer coisa alguma. No primeiro caso o discurso é inútil, no segundo, a palavra é, na melhor das hipóteses, alçapão ou embuste. Detesto o cinismo existencial. Em qualquer feita tudo é ausente de sentido além daquele que o condicionamento permite.

Resumidamente, se tudo é vazio e ausente de sentido, talvez tudo seja deveras nada e como nada, inexiste em realidade. Se isso for, eu que pensei estar raciocinando me enganei, você que pensou estar em dívidas com a vida foi absolvido, e as palavras todas tampouco fizeram sentido, elas nem mesmo foram. Foram? Não foram?
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Χρόνος (Chronos) - por Leandro M. de Oliveira

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Em vezes é como se o tempo rastejasse mais lento, o ar é denso, quase viscoso. Em vezes essa sensação me acomete, como estar dopado numa camisa de força. Aparte isso, o mundo pulsa a virulência das horas irresgatáveis, por entre animais e homens, cospe a fúria do tempo a recolher seus tributos. Olho a medo as sacadas distantes, onde em tempos remotos havia castelãs virtuosas à minha espera. Constato. A vida corrompe até os mais distantes. Sensação; as mulheres são espectros, a virtude também, todas as coisas são invenções de um recém-chegado a tentar redefinir a dor que se sente na queda.

Tenho medo que meu corpo seja composto da argila dessa terra, que ele tenha se fundido ao chão enquanto os anos passavam sem alarde. A noite passa qual quimera, como passa o desfile de sombras, como passam e se aninham em mim tudo o que há de grave e profundo. Queria buscar na cidade um propósito novo, lá caminhando só encontrei postes e praças. Pelas ruas um silêncio inconsútil reina soberano, às vezes um cão cruza o caminho; silencioso.

O ar é de gelatina, definitivamente baço, mesmo ao sopé das luzes de sódio. Os sinos do campanário anunciam indiferentes, todos têm de prestar contas um dia. Antes, os que devem a si mesmos. Viver pra morrer, morrer pra viver. O pasmo de existir é oscilante em olhos e mãos, postura imobilizada. A única coisa digna de nota parece ser o dilema. Bem-aventurados os que não nasceram...
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O Homem Mais Solitário - por Leandro M. de Oliveira

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Prólogo (buscando justificação);

Que pra ser livre é preciso ser solitário. Absorver a indignidade alheia frente ao que te se é mais sacro. Caminhar até aquela fenda escura donde reside a vida além do mito cotidiano. Abandonar-se, mil vezes um milhão à ida sem volta, resignar e irromper na peregrinação sem ícones. Eis o desafio do novo, o impulso que nasce derradeiro insuspeitado, que faz o homem abandonar a condição de homem e recriar-se no além. Mudado em besta, pedra e esquecimento, segue ele o caminho do qual ninguém retorna. Urge amar como um Jesus ressuscitado e odiar como um nazista convicto. O homem livre não tem padrão. A ele cabe, entre puritanos dançar como um bandido bêbado, e entre malfeitores pregar os códigos da ética mais mosaica. A estrada é erma, no ermo qualquer homem vacila sua crença, é preciso ter fé que toda fé vazia em si. O ponto de chegada não existe, entre paredes e objetos só a aceitação do voo solo é o que o faz conhecer um mundo em além mundos. Ser todas as coisas e ao mesmo tempo não ser nada, estar em todos lugares sem nunca sair de si mesmo.

Tudo é construção. Tudo é um simulacro copioso do nada que os miseráveis inventaram para conceberem sua desgraça em inferior medida. O vazio é a única realidade possível.
Assim, apartado o caos da vida; que é homem, pedra, ou ideia? Que são todas as coisas senão coisa alguma que a mente finge, distorce, direciona ou aborta? É uma estrada sem pavimento, um jogar-se aos lobos, uma rota sem mapa. O regresso ao comando de si exige abandono e um pouco mais daquilo que é impensável à maioria dos homens, impedidos de um passo à frente, inúteis para sempre. A natureza é implacável. Quantos gênios se perderam entre o instante de agir e o pudor à transgressão do que lhes era imposta? Imobilizados pelo medo, descartáveis como lenços de papel. Não se deve consumir de outros homens ideias ou carne (como é comum nesses tempos), canibalizar-se é ordem do dia. Na indigestão dos tecidos mui familiares, no adocicado ferruginoso do sangue a ser metabolizado pelo mesmo sangue, um algo novo há de surgir. Para essa vida pré-fabricada, nauseantemente confortável, é decretado o fim. É tempo de ser selvagem, o último rei sempre esteve enforcado nas entranhas do último papa, entre a visão e a percepção as brumas do inglório Zeitgeist¹ turbaram um pouco o siso. É hora de recobrar-se da letargia. O que existe para o homem que abraça a caminhada? Nada. Tudo!

Capítulo um: Abençoado seja;

Para além de qualquer revolta meramente desnecessária (como todas o são), as impossibilidades são o conjunto de fatores que moldam a vida. A cara na porta, o carro que nunca se pode possuir, o restaurante em que nunca se pode comer, são no mundo em que o verbo ter a tudo conjuga, determinantes que canalizam as buscas do indivíduo. O homem desentranha da privação o fomento da transcendência, a nascente da força e o domínio do gênio que impulsiona para o além, vivem encerrados no não ser. Pegar o que se tem à mão e daí alçar voos maiores, quando não há rebelião, tudo é possível. O homo sapiens é como uma árvore, com raízes cravadas à terra mas, tendo no cume uma copa que se abre ao infinito. A chave do universo dorme nesse chão e nessa abertura, não é preciso buscá-la em outro lugar. O caminho da aceitação é a senda da vida plena, os boicotes do destino não vêm como castigo, com efeito como impulso ao aprimoramento.
O ser humano está nessa terra como síntese do todo, e participando de cada instância da vida deve realizar-se compreendendo então a totalidade de que é forjado. As privações são apenas uma forma de nos manter mais gratos na conquista e menos soberbos no desfrute. Tudo é perfeito. Abençoado seja.

Capítulo dois: Maldito esteja;

A vida é uma mentira. A compaixão é anestesia barata que cheira a decadência. Essa sandice propagada pelos ressentidos não é mais que um plano para o agrilhoar-se daqueles que nascem livres. “Se te baterem em um lado da face ofereça o outro”, eis aí a forma mais tirana de agressão. O homem de bem só deve odiar seus inimigos, é a única forma de digna de honrá-los. A vida é um acidente da matéria, o mundo é fruto das predisposições convulsivas da natureza. Fomos todos abortados! Todos frutos indesejados de uma relação maldita entre o natural e o acaso. O amor só é possível na cabeça de alguns sacerdotes e nos filmes de Hollywood, esse ídolo onisciente tem o mesmo fundamento das divagações de um bêbado.
(à minha frente um homem clama misericórdia divina, é preciso dizer a verdade...)
Vocês esquartejaram Deus, comeram suas carnes, e agora com o dedo na garganta querem vomitar pra fora a graça e a clemência que o tempo jamais permitiu aos que hesitam. Abandonem o cadáver, abrace o vivo, o que anda pela terra. O homem herdou um paraíso e fez dele um esgoto a céu aberto. Maldito seja!

Epílogo;

O tempo passou, a juventude também. As palavras tornaram alheias nos meandros de seu próprio labirinto. O escritor perdeu-se à procura delas...
Morreu por fim, em desencanto, ao descobrir que a emoção é muda, cega e surda. Toda representação é vã. A noite esmoreceu e o sonho também.
Abençoada a vida. Maldita a vida. Incerto o caminho.

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1- Zeitgeist é um termo alemão cuja tradução significa espírito de época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. O Zeitgeist significa, em suma, o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado período de tempo.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Sofístico (ou da Crise Criativa) - por Leandro M. de Oliveira

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O que é escrever senão fingir? Dissimular o ego, pregar ideais por nós nunca acreditados, ou quem sabe, ser subversivo, criar mil teses anarquistas e ainda assim engraxar os sapatos de manhã e escovar os dentes à noite. Escrever é transfigurar-se, é ter na matéria ordinária a quintessência de todas as pedras filosofais. Ser abduzido pela alma do mundo, psicografá-la, como um amante sexualiza seu primeiro amor, se perder na acolhida, deixar-se consumir pela cal. Escrever é deveras fingir! Fingir copiosamente a dor quer nunca habitou, esquecer a razão entre lembranças, cabelos e dentes. É dar parte ao furacão fazendo sombra à paragem mais densa, é reclamar liberdade ansiando pelos mil grilhões que unem a teia de existir.

A vida é curta. A alegria cotidiana é pífia. E o “escrevedor” que disso nada entende, segue em peregrinação santa por rotas ordinárias. Onde está o Graal? Na minha cabeça ou no meio das pernas dela? Ademais que é cabeça ou perna, ou sangue ou sonho, tudo mitificado está, pela dicotomia do não-ser sendo. No redondo escuro da hora, carregar o fardo é papel daquele que hesita. Ainda que tenha hesitado da maneira mais meticulosa possível, ninguém engana a vida. Quero rasgar o chão com as mãos nuas, quero rasgar pescoços com meus dentes à amostra. Tudo é hipótese. Essa terra imunda não conserva mais diamantes.

Partir ficando, ficar partindo, a palavra cuida, acaricia, sodomiza, espanca. A palavra beija e cospe, na cara uma verdade antiga muda mentira nova. Escrever é perder a razão pra nunca mais, e por fim quando lá nada houver ser, restituído de tudo, e outra vez perder, e outra vez ganhar. Eternamente farto, eternamente miserável. O profeta maldito segue porque escrever é uma maldição que a auto-piedade transformou em bênção. Não sei porque os bebês têm refluxo, não sei porque o homem mata a si mesmo. Tudo lisérgico, suavemente insuportável. É o mundo... Ser abortado da consciência em nome do espírito coletivo, uma mentira que deu certo, ou não. Assim, aquele que cria meios na individualidade o faz para ser múltiplo, para repartir entre as bestas, membros, tronco, cabeça e coração. Escrever é deixar-se à cova dos leões. Hoje quis me doar, todavia acordei com a disposição ao martírio em baixa...
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O Haiti é Aqui - Leandro M. Oliveira

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Desde o terremoto ocorrido no Haiti há alguns dias, vê-se um desfile de boas ações noticiadas em todas as instâncias da mídia. Governos nacionais, atletas, empresas, milionários, gente comum, todos unidos em prol do socorro a esse país vítima da mais aguda miséria histórica das Américas. Fato pacífico é que esse estado do Caribe vive em condições de uma precariedade às vezes inimaginável no século XXI, desde sua fundação como colônia escravista de exploração econômica francesa, até o século XX com a ocupação militar e depois política da América, esse país foi continuamente dilapidado em seus recursos financeiros, naturais e sociais. A tragédia haitiana vem de longa data, ao contrário do que se imagina, grande parte do quadro de caos apresentado pelas redes de TV como grande população de rua, falta de emprego, inacesso à educação, escassez alimentícia entre outros, são flagelos que acompanham a população desse desafortunado país com maior ou menor intensidade desde sua conturbada independência nos idos do ano 1.804.

Como humanista não há como não se apiedar, entendo o homem do futuro como um ser essencialmente sem bandeiras, que se alista em qualquer trincheira disponível à busca do progresso global, aceitando o mundo como pátria, desconhecendo as fronteiras. Entretanto, esse homem novo a meu ver depende de mais que de boa vontade e romantismo pra surgir, ele há de ser um evento concreto quando a opção for de dentro pra fora, quando em seu próprio país conhecer e trabalhar por uma justiça social efetiva, poderá ir a outros estados e reivindicar isso àqueles que lá vivem, todo o mais de empreita semelhante é conjetura ou aceitar a condição de massa de manobra dos poderosos.

O que se busca dizer com esse discurso, é que faz-se em esforço de pouca valia nos abstermos de questões básicas à evolução social interna em favor de outra ordem externa. Nesse caso vale o antigo dito popular de não adiantar em nada “descobrir um buraco pra tapar outro”. Vejo nos dias atuais o cinismo do governo brasileiro, enquanto milhões morrem de inanição, falta de emprego, educação, esclarecimento e oportunidade em inúmeros pontos desse país, nosso presidente ainda tem surtos de líder sindical e como em sonho ou ataque psicótico parece se sentir discursando na velha internacional comunista, com aquele grito de guerra inflamado e cheio de segundas intenções. Mas a era das revoluções foi (tristemente) sepultada, e os antigos líderes eram muito mais que fantoches nas mãos de uma pequena elite intelectual filha da classe média que os usa como símbolo e contraponto a uma já alardeada decadência burguesa, objetivando em última análise o status de novos messias da sociedade. Não, aqueles homens eram mais que massa de manobra.

Infelizmente hoje estamos, enquanto sociedade, acometidos pelo mal do “imbecil coletivo”, essa praga que em parte vem desses tempos de globalização, em parte das intenções escusas de quem nos informa do panorama geral (mídia) e seus afiliados. Tem-se a idéia de que é melhor salvar alguém do outro lado do mundo do que aquele que está perdido à sua porta e tudo só porque o jornal nacional falou que assim soa mais humano. Esse momento de mobilização das boas intenções por um país vizinho é também uma oportunidade de repensar a capacidade e necessidade de resolução das questões domésticas. Acaso é legítimo enviar milhões de dólares entre outros recursos a um país estrangeiro enquanto nós ainda que em menor escala perecemos das mesmas faltas? Os Estados Unidos estão lá, por uma dívida histórica e pela capacidade recursal que possuem, assim como os demais países europeus e os grandes asiáticos. Mas e o Brasil? Será que vale a pena deixar o sistema público de saúde em petição de miséria, igualmente a rede de ensino que nada oferece? Abandonar os miseráveis do Nordeste e do Jequitinhonha à própria sorte, tudo em nome da vaidade, do reclame de uma liderança regional que não governa a si própria... Por fim, a respeito dessas intervenções e abstenções do governo faço minhas as palavras do mestre Darcy Ribeiro, um dos maiores humanistas que esse país já conheceu:

“(...) Quem mais representa como massa humana a Latinidade somos nós, os mestiços Brasileiros. Nesse sentido, nós somos a Nova Roma, uma Roma que o mundo vai ver espantado, no momento em que realizarmos nossa potencialidade — tantas! No momento em que resolvermos problemas elementares: que todo mundo coma todo dia, que toda criança tenha uma escola, que se façam aquelas reformas urbanas e rurais para que a terra seja acessível para quem trabalha, para que as cidades sejam a morada dos homens, cordial. Nesse dia, vai florescer no mundo uma civilização diferente, que nunca ninguém viu. (...) Ao lado dos eslavos, milhões de eslavos! Ao lado dos neo-britânicos, milhões! Ao lado dos chineses, milhões! Dos árabes, milhões! De outros tantos milhões, existirá essa face morena.”
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Mito da Moral Superior - por Leandro M. de Oliveira

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A propósito da ideia de moralidade do indivíduo, há que se considerar inexatidão de qualquer gradação de valor imposta a ela num panorama de abertura. A palavra “moral” cria uma série de agenciamentos, de maneira geral é possível conectá-la com a ideia de um conjunto de regras, de uma orientação religiosa, de uma forma de relacionar-se em sociedade e daí por diante. Assim é a moral um produto das condições geográficas, políticas, temporais, emocionais e espirituais de cada qual. Tomando-se essa afirmação como positiva, é possível analisar fenômenos históricos de uma outra perspectiva. Por exemplo, os Espanhóis que aportaram na América Central no início do século XVI foram profundamente imorais ao impor sua moral cristã aos povos Maias que nada tinham haver com a mesma, e esses, por sua vez, cometeram o mesmo crime quando anteriormente à conquista europeia guerrearam abertamente com as tribos menores da região dizimando-as ou cooptando-as a seu serviço para a formação do império. Nos dois casos tudo pareceu lícito, tanto aos maias que pela glória de seu nome e da mãe Ixchel¹ subjugaram as pequenas tribos que nada entendiam de sua cultura superior, quanto aos espanhóis e antes ao sul os portugueses que em nome do bem (moral) cristão dizimaram povos inteiros por não serem compatíveis com suas aspirações ético-morais.

Dessa forma, poder-se-ia concluir que a moral é para o homem uma espécie de argumento criado por uma racionalidade não racional, ao passo que não é algo necessariamente descoberto do interior de cada um mas quase sempre absorvido através das condições em que se vive ou que lhe são impostas por uma força externa. Esse argumento objetiva, então, criar um conforto na consciência quando a práxis parece duvidosa, ou ainda nos conferir um sentido de superpotência, uma sensação de estar acima de qualquer instância do entendimento humano, permitindo ao ser que se imponha da maneira que lhe convier sem respeitar qualquer espaço comum. Essa segunda faceta da moral que licencia o homem a agir (às vezes bestialmente) vem produzindo ao longo da história episódios impactantes na forma de se perceber o mundo, bons exemplos estão no recém-findo século XX. Em amostra, quando se observa o fenômeno do nacional-socialismo alemão, não se vê em essência um grupo de monstros ou de qualquer outra sorte de criatura degenerada, o que se tem são homens comuns, que formam uma das nações mais culturalmente evoluídas do mundo que num determinado momento histórico sob a influência de acontecimentos e circunstâncias anteriores constroem e lapidam uma forma moral que lhes permite a tentativa da limpeza étnica, da invasão de outros países, da destruição de legados artísticos e sociais daqueles que não estão arrimados com a sua visão (moral) de mundo.

Os carrascos de Auschwitz só se tornaram carrascos porque foram derrotados pela história mas, se o vento tivesse lhes soprado a favor, hoje poderiam ser considerados heróis da raça humana e bustos de bronze poderiam ser erguidos em homenagem a tais feitos por todo o mundo. Talvez adaptando sua moral aos novos tempos, o vaticano poderia até canonizá-los como já fez algumas vezes com colonizadores das Américas e outros assassinos brutais. Nesse sentido, o crime nazista não foi a caçada de judeus, gays e ciganos, foi em última análise a inabilidade em fazer sua visão triunfar.

Assim, a moral prevalecente é antes uma afirmação política legada pelos vencedores da história, seja em um país, cidade, gueto ou nas nações unidas. É preciso abandonar o ideal imaculado de uma Aletheia² suprema, o bom e o justo que a nosso entendimento são dois dos responsáveis diretos pela produção da moral enquanto imperativo que orienta um determinado grupo, consubstanciam-se tão somente na legitimação de uma ideia qualquer, que na quase totalidade dos casos é alcançada pelo triunfo dessa ideia em seu meio. Por fim, não há moral fundamentalmente superior, todas são expressões da diversidade humana e merecem ser igualmente tomadas em conta. Budistas, católicos, protestantes, comunistas, homoafetivos, veteranos de guerra, hindus, vegetarianos, carnívoros... todos possuem uma raiz comum em sua percepção da vida, ao homem evoluído cabe adentrar esses meandros para extrair o melhor de cada um sem nunca encerrar o diálogo com todos. O que determina a abominação de determinada moral é tão somente o instinto de sobrevivência das demais.
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¹Ixchel – A principal deusa do panteão Maia.
²Aletheia – Do grego, verdade.
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A Ostra e a Pérola - por Leandro M. de Oliveira

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Não se farte comendo outras pessoas, não as mutile pela necessidade de mutilar, esse é para o ser um crime sem perdão. Tal prática degrada a individualidade, nega tudo quanto há de augusto e belo na vida. Derrota o homem livre em sua expressão maiúscula. É preciso caminhar até ferir os pés, moldar a argila até que as mãos sangrem. O homem superior tem como seu Graal a senda do não querer, ele concede trégua à futilidade da vida média, da escravidão da vontade. Quer se desvenciliar dos fetiches primários, anseia ser livre para o que vem depois. Com efeito, a humanidade do futuro vai além, requer mais coragem e menos daquilo que nos deixou a todos ultrapassados. Porque assim caminhamos, perdidos no próprio tempo. A assim dita necessidade do outro, não é mais que um labirinto de clamores onde se perde o EU. Andei sobre a terra, vivi entre homens. Deles nada me foi mostrado além fraqueza e pensamento degenerado. No mundo exterior não a há espaço para mendicância emotiva, só uma lei prevalece, aquela que é a todos os animais irrevogável, a soberania do mais forte. Esses são tempos primitivos, selvagens nada sabem de cordialidade. É preciso treinar o corpo, aprender a resistir. Deixar a alma congelar ao sabor dos ventos, vê-la uivar com o fim dos ciclos. Rosnar é necessário, alto e forte até que todos os abutres e chacais tomem distância. Com o tempo as intempéries da natureza soarão como uma carícia ao longo da pele. E você será imune, outra vez gigante, outra vez Titã.

Compreender a beleza não é simples como dormir à noite ou copular em horas impróprias, se assim fosse os asnos seriam dramaturgos de renome e as gralhas, divas da ópera. Tem-se que se dar por inteiro, exaurir-se, afastar-se, submergir ao fundo do mar no ponto extremo onde só existe aquela ostra embrutecida e com ela obcecar-se. Perder as carnes dos dedos, dilacerar com os dentes, romper às cabeçadas, deve-se provocar a abertura custe o que custar. E quando estiver gasto, entregue e derrotado, do interior desse receptáculo hostil vai ver surgir a perfeição na redondilha sem verso de uma pérola virgem. Você é a ostra, agarre a pérola, ela esteve aí dentro o tempo todo. Mas antes de abrir a porta é preciso se livrar dos cadáveres, daqueles já frios vindos de um passado que pra sempre jaz imutável e dos outros, produtos da crença no impossível futuro, as crianças sem ovário, os bebês de alma anincéfala. Escravos dão a luz a outros escravos, liberte-se antes de acontecer. Você conseguiria por um minuto deixar de ser um animal de carga? Nada te impede de tentar. A esquizofrenia deve ser suplantada em nome de algo mais são, Chronos não se apieda de quem hesita, sua marcha é veloz.

O homem novo, o gigante gerado pelo anão, que se rebela e encontra na rebeldia um algo maior. Ele nada possui, vai serpenteando à casa celeste e lá chegando ultrapassa-a, mais alto que o céu, mais baixo que o inferno. E assim sendo é o todo e ao mesmo tempo o nada, eternamente vazio, pra se preencher do que vier, onipresente. O que for de urgência, as circunstâncias proverão, a vida cuidará pra que se realize. Por hora basta estar atento ao fluxo interior, não ao passo cambaleante das ovelhas ou de qualquer outra das miseráveis manadas. Vocês mataram Deus e agora querem que eu pague para que o mantenham vivo. Vocês transformaram o que havia de nobre, converteram em favores de pecúnia, vocês e suas malditas tabelas de preço. Sempre a pisotear o campo quando esta prestes a florir, sempre a urinar nas fontes quando a água ainda é límpida. Solte fogos no velório, chore nos bacanais da “moralidade”. Constatar que essa vida é uma causa perdida pode não ser o melhor juízo pra começar o dia mas, com alguma boa vontade pode ser a raiz pedagógica de aprender um algo inédito. A transformação não permite escudeiros, é uma busca singular. Dessa vez tente com as próprias pernas. Sem cadáveres nas costas, sem rédeas na boca, só o caminho importa. Se te parece belo, torpe, colorido, cinza ou vil. Tudo o que acrescer de ti é incidental, frívolo e dispensável. O caminho tem desígnios próprios, ele é a opção dos que já não buscam mais mentir a si mesmos.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Esmo - por Leandro M. de Oliveira

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A história vai, a história leva consigo o que quer, deforma, finge, fica. E eu, homem comum, estou para ela como está uma folha, inadvertidamente a boiar na corrente de um rio, que está a boiar numa placa de terra, que boia no magnetismo dum polo, que boia feito esfera na amplidão dum infinito. Quantos auges e decadências, quantas partidas e chegadas, quanta existência tenho ainda de suportar? Já vivi muitas vidas, habitei muitos corpos. A cada dia passado distancio mais dos sentidos de outrora. Permaneço solto pela campa onde muitas vezes não queria estar. O ser aqui vai fluindo em estado de sobrevida, acima dos modos locais e, ao mesmo tempo, emaranhado em seus meandros como raízes de um jardim suspenso. Pode ser que eternamente permaneça aqui atado, nesse estreito horizonte tendo das asas tão somente o delírio. Irremediavelmente na condição de uma pérola que cresceu por reação alérgica ou na de um objeto estranho que numa cúpula se entranha sem que ninguém o pressinta. Pra quebrar a rotina procurei trabalhar na encenação do próximo espetáculo, preparei um discurso de redentor, mas a mim só coube o papel do gentio. Não, não fui educado na casa grande. Não tive tempo apto a decorar o catecismo romano, pensei ser uma abstenção salutar o exercício de não aprender dos homens as formas tradicionais de autorrepulsa. Quis dar aos que se diziam meus um mundo novo, a mensagem não era exatamente didática, na impossibilidade do passo além recebi na fronte o selo agudo do anátema. Cresci como cedro por entre eucaliptos, ou seria o contrário? Caminhei descalço só pra ver como é sentir os pés em carne viva. Contestação como profissão de fé. Sempre o estreito ao invés do largo, porque há mais luz fora que dentro da caverna. Fartei-me das sombras dos seres, quero agora conhecer o ser, contato imediato. Não tenho etiqueta, obediência, dieta saudável. O que trago no alforje é espólio das resultantes de um carisma selvagem. Minha fúria, minha tragédia, meu cabelo mal cortado. Tenho a irrelevância do anônimo e a turba da multidão. E isso se me afigura grave e isso me confunde o jugo. No ermo das noites não dormidas, na amplidão das estradas desabitadas, ao passo que me encontro me perco. E sendo eu, não sou ninguém. E não sendo nada, sinto as humanidades mais improváveis. Meu coração é essa fenda delgada donde o sol não visita. Meu coração é o lar donde habitam os homens que não querem mais mentir a si mesmos. Eles estão aqui, eles vêm de toda parte, depositando por sobre o altar imaginário suas flores e suas cicatrizes.

Acordei com grandes planos. Como a vida é pequena, esqueci tudo e me dei a seduções gratuitas.
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Carta à Minha Alma (Se de Fato Existires) - por Leandro M. de Oliveira

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Sabes quanto é inexplicável. Muitos tentaram insistentemente me convencer disso, nunca acreditei de todo. E vós sois minha mais grave testemunha. Todavia, avesso àquelas implacáveis convicções produzidas em outrora, devo ceder. Há deveras alguns processos na mente humana que embora conduzidos por essa, não possuem um vínculo lógico com a racionalidade. Está acontecendo comigo agora. Alheio a tudo quanto foi de alto e elevado a meu pretenso entender, mergulho agora no túnel das lembranças mais frugais. Nenhum momento capital se me afigurou. Nem a lembrança de quando tive sexo pela primeira vez, nem a de quando chorei perdido ou a de quando fiz que chorassem por mim, nem mesmo o dia em que ganhei a primeira soma de dinheiro que me permitia mais que um punhado de balas e fui ludibriado por aquela velha que me vendeu coisas que eu nem queria. Nada. O frisson que nesse instante me domina é concebido de momentos banais, e ainda mais agudamente da displicência com esses. Vem me visitar agora, por exemplo, a lembrança que nem sabia se tinha, daquele dia de chuva. Um dia qualquer sem grandes eventos. Mas, lembro-me bem, a visão de meus pés pisando a terra molhada, a densidade do ar, o cheiro de vida acontecendo no ambiente... Tudo soa tão imaterial e mesmo assim tão presente. As formas assimétricas de minhas pegadas impressas no chão cor de chocolate, a fúria reconquistada das corredeiras do rio que com a chuva se despediam da vazante. O som da água contra as rochas na ribeira, o som dos cânticos pra sempre perdidos no tempo. Sempre. Haverão de existir em toda parte coisas perdidas, portos vazios, louça em cacos. Mas agora, depois de tempo passado é que posso enfim concluir. Na simplicidade daquele momento úmido eu estava em paz. Num assalto de inesperada transição fui dar em visita a outro quarto dessa casa estranha. Agora me vejo ainda mais remoçado. Minha pele lisa. Ainda virgem de pelos e espinhas, marcas de expressão ou testemunho dos anos. Olho à frente, como em mágica ou engenho do sobrenatural assisto à mulher de olhos agudos passar por mim. Não foi sequer um flerte, ela nem olhou diretamente. Mas como me lembro e de forma tão lúcida, do desenho assombrosamente perfeito de sua íris, naquela fração de segundo em que o sol raiava por sobre a fronte corada, pude testemunhar o reflexo que cega, a metamorfose de cores que daquela aquarela viva emanavam. Primeiro o negro, depois aclareando até um tom de mel e depois até um verde opaco. Misterioso, coisa em si ao mesmo tempo esparsa e concisa. Hipnótico como uma esmeralda tirada do útero da terra. Encantamento em estado bruto, perfeição não lapidada. Ela passou por mim. Foi quando nesse momento me dei ao exame mais apurado de sua silhueta. A textura de um algo esculpido por mãos superiores, o espírito das tentações míticas. Acho que foi ali, naquele acaso rápido, naquele momento insuspeitado, foi ali onde deveras aprendi a admirar uma anca. Não era mais possível retroceder. Não havia mais chances de tornar a ser criança. A invasão da masculinidade se fez em mim como tributo pago pelo fito ao desconhecido e eu subtraído da identidade cotidiana, nem me dei conta do que em verdade se formava à minha frente. De qualquer forma ela passou por mim, se foi pra nunca mais. Quantos anos faz? Dez, quinze? Não sei. Mas o perfume ainda habita minhas narinas como um hálito fresco. Mais uma porta cerrou, dei em outro quarto. Não reconheço o lugar, estou como que de olhos fechados. As sensações são familiares. Parte dos cabelos longos de uma moça deitados sobre meu ombro enquanto durmo, o cheiro que invadia a casa quando minha bisavó derretia rapadura pra fazer pé de moleque, o transe durante um beijo de quase hora em quem se gosta, ficar deitado ouvindo o som das tempestades de março. É tudo tão diverso e ao mesmo tempo tão uno. Filhos diferentes de um mesmo pai, dedos inaparentes da mesma mão. É como se durante a vida inteira eu tivesse feito a mesma coisa de várias maneiras. Uma forma diferente a cada dia, um dia em cada minuto. E sendo desagregado fui intenso, e perdendo o que mais amava encontrei a mim mesmo. É impossível recobrar a ausência adormecida por sob as areias do tempo. É impossível fazer planos quando a morte passeia por entre o bosque. Talvez tenha descoberto o enigma. Talvez entenda porque tanto me é agora revelado. Estou pra morrer! Há um pelotão de fuzilamento à minha frente. Nazistas, fascistas, judeus, cristãos, mulheres, crianças, chineses, neozelandeses... Gente de bem. Todos com armas apontadas. Todos estão com sede de sangue. Foi breve demais, minha alma. Será que de fato existes? Ou aquilo a que chamo alma é um departamento de arquivos que em momentos de angústia nos permite revisitar tudo o que não foi completamente sorvido pela percepção? Claro, um pouco de cada vez. Do contrário, o repertório se tornaria monótono. Parece injusto o fato de ter consciência de como se existe só quando esse estado de percepção vai prestes a fenecer. Nunca fui saudosista, aceito o novo, a mudança da biologia que é por si dinâmica. Entretanto, mesmo sabendo que não há perdão àquele que hesita, creio ter direitos de pelo menos nisso poder vacilar um pouco. Quase me entristece partir quando ainda existem tantos diamantes semeados pela estrada. Tão longa, tão sinuosa. Não tenho garantias e nem preciso tê-las. Durante alguns anos idealizei Valhala, onde os grandes ascendem à sede da imortalidade. Depois... Pó e sombra! Acidente da matéria, disso me senti composto. Quando a luz cessa sobre o corpo ele se funde com o esquecimento, deixa de existir. Foi bom sentir assim, foi bom ser tão livre quanto possível. Nenhum devir, nenhuma obrigação com a perenidade. O dilema de existir tem me vitimado nesses tempos. A consciência é minha porção divina? A consciência é o sintoma mais agudo da minha síndrome de fuga da própria condição? Pode ser que ocorra, talvez seja que tudo não passe de covardia. Seja como for, estou pronto. Posso morrer se assim o querem. Posso partir em vez derradeira. Mas como morrer ou partir? E se há algo depois? E se Valhala existe com outro nome, ou sem ele? Se esse escrito mesmo sobreviver, acaso não é uma forma de estar perene no inconsciente alheio e assim resistir à evasão última? O legado de cada um parece implacável, sempre reféns de nossos próprios fantasmas. Queria que alguém desligasse o plugue de meu corpo. Talvez uma oração sincera à santa da boa morte fosse útil. É pena, já não sou mais tão inocente. O pelotão faz mira em meu peito, engatilha as armas. Sei que a maioria das pessoas em meu lugar estaria no mínimo aterrorizada ou puta da vida, claro, no caso de que o medo permitisse essa última. Concretamente se pode dizer, pensar na brevidade da hora, ter ciência que caminha à extinção sem ter feito mais quando se podia. Andar a passos humanos por sobre a terra não é uma sucessão de horas coordenadas mas, antes, uma corrente infinda de questionamentos. Nunca ter perguntado o nome daquela moça, não ter rolado naquela lama que parecia chocolate, nunca ter se entregado à correnteza do rio que em minha frente seguia... Aos de osso e carne, lá estava, alheio e insondável como qualquer milagre deve ser. Sei que a indignação é legítima. Pelo julgamento dos que me conhecem e possivelmente daqueles que talvez me conhecerão (se houver para conhecer). Tenho tudo, ao mesmo tempo nada possuo. Não há segurança do que se leva, tão somente do que se deixa. Se acaso penetramos na totalidade daquilo que à nossa volta subsiste em silêncio. E são tantas coisas... É preciso mais que a eternidade pra chegar à comunhão plena e esse nó na garganta me fornece a suspeita vil de que talvez nem isso haja à disposição daquele que vai. Meu deus, meu deus por que me abandonastes?! Quando dei por mim já não estavas. Existes em aqui ou no sonho? Nas igrejas ou nos bordéis? Existes? Há muito não sei que são trombetas nem vejo anjos aqui ou lá. Queria ter a retidão dos monges, como não posso, galopo por sobre os sapatos, me meto a cabeça em fazer anarquias. Descendência de Caim. Tenho a praga dos hereges, se assim não fosse meu contento seria mais prático. Curiosamente, mesmo com toda a gravidade ainda quero sorrir. Poderia praguejar ou revoltar ou desesperar. Mas pra mim não parece justo. Como desperdiçar mais tempo se há entre nós tanta beleza?
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Att,
P.A
Porto Firme; Ano Domini? MMIX
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chamado - por Leandro M. de Oliveira

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Te encontro às seis pra mudar o mundo. Se não der pode ser às sete ou às oito, avise com antecedência. Seus pais, assim como seus fantasmas, não dormem à noite, temo que fique muito tarde. De que adianta um triunfo se todos estão em suas camas. Esperaremos outro dia. Essas medidas artificiais de tempo. Os dias são como cartas de baralho, com naipes diferentes em mãos diversas, mas sempre servindo ao mesmo jogo sujo. O tempo em si é um artifício sujo, o cadáver pré-fabricado de si mesmo. Como quero transgredir! Como quero entender como se pode ter nostalgia por lembranças que às vezes nem são suas... O maio de 68, a primavera dos povos, minha habilidade em ser melhor nunca posta em prática. Sombras ruidosas, ecos do fundo. Gostaria de uma bebida ou uma noite de sono, ambas serviriam bem ao propósito de me entorpecer um pouco. E andamos mil léguas usando o sonho como um par de coturnos, aqui estamos, de volta à miséria que consome a cada um. Ela diz acreditar na ordem, do mesmo modo que todos os tiranos conhecidos, talvez só não tenha atinado para essa parte. As pessoas são boas ou indulgentes até que alcançam seus objetivos. Busco o natural que vem de dentro, antipatizo com as regras que vêm de fora. Pra que tanta euforia em dizer que o fascismo vale a pena? Se homens são como gado ou formigas, quero me matar com uma faca cega, não tolero isso. Entendo que a sua carência por um novo Hitler seja um sentimento urgente mas compreenda, seu sangue não é o dos escolhidos. Só porque Deus está morto, não queira exibir sua cabeça por mera vaidade. As balas e fuzis não têm consideração com quem os deseja. É mais fácil teorizar sobre o inferno quando nunca se esteve nele. É mais fácil matar que deixar viver. Droga! O óbvio sempre me embrulha a vida e o estômago. Quero o não trilhado. Odiar e amar, é como abrir os olhos ou ir ao banheiro. E se fosse tão simples a ponto de ser mentira? E se fosse tão acessível a ponto de ser engodo? Não há mais porque temer a luz ou a sombra. Aos que caminham pela senda tortuosa da descoberta do “EU” não deve haver espaço para outra companhia senão o da presença santa do nada sem termo. Esqueça as algemas e os cadáveres que te deram de presente, a libertação é uma experiência solitária. O templo só abre as portas aos que estão completamente nus diante dele. Mas você prefere fechar os olhos e vestir sua vergonha, levanta cedo pra ser adestrado como um cão. Ainda me lembro do canto dos ressentidos... Nas escolas ensinam algo como que o nosso modo de vida foi construído a partir de termos éticos e morais, que a religião e a política são o escudo e lança do homem de bem. Não obstante isso, a história do mundo ocidental (cristão) é construída por guerras, suplícios e martírios sem nenhum sentido. A política vai conduzida por tiranos e aspirantes aos mesmos, invariavelmente como abutres sobre o corpo decomposto do povo. Como falar em bem ou ética ou moral? A beleza dos sistemas é a tragédia dos que a ele são submetidos. Talvez a vida seja mesmo uma causa perdida. Talvez haja pó demais assentado por sobre os móveis. Pode não ser o melhor pensamento, mas é uma hipótese pedagógica. E a consciência da finitude do tempo e espaço de cada um faz o Sísifo que há no homem reclamar seu inútil papel de eternidade. A vontade de poder nos guia a cooptar a vida alheia pra que a nossa se nos pareça um pouco mais perene. Esse deve mesmo ser o segredo dos ratos que fazem barulho à noite no sótão. Acordai, homens! Acordai do sono de ontem, do medo de sempre...


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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Livre! - por Leandro M. de Oliveira

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E se Deus for só um fetiche? Uma coisa que os homens inventaram para se sentirem menos impotentes frente ao pasmo da vida e mais tarde o mercado (única divindade realmente sensível) apropriou-se dele como um produto que se autopromove, um negócio de poucos investimentos e lucros exorbitantes. As pessoas morrem de fome, ignorância, aids... e os bispos alegres e remotos ainda a viver em seus palacetes, e os pastores abstraídos e dissimulados em suas lanças ou iates. Tudo é uma farsa. A utopia cristã do altruísmo serve só a quem se beneficia da indulgência dos humildes. O que resta disso é um contínuo engodo, uma coisa construída e reinventada ao longo dos séculos, pra que a sua anestesia dure mais. As religiões foram, sem exceção, erguidas através de dogmas forjados. Seria talvez um ato de lucidez inconveniente pensar que no decorrer desse culto à mentira o homem esteja ajoelhando-se perante Satanás chamando-o de Senhor. É possível. Todavia não creio nisso como algo sujo em relação à pessoa, toda servidão é em essência blasfema à vida em si. Os homens deveriam viver como leões, isso seria respeitoso para com a natureza, mas alguém disse sobre ser como ovelhas. Um tedioso e monocromático rebanho ao bel-prazer de um leão travestido de carneiro chefe. Todos acharam isso fantástico. Pelo menos é o que minha avó tentava me dizer na infância, claro, com outras palavras. Bem-aventurados os simplórios, pois deles será o reino das noites bem dormidas. Enquanto andava pelas ruas vazias da cidade dava incessantemente graças à força invisível (que nem sei se existe) pelo nascimento de todos os transgressores da história. A mim, morrer com ideias frustradas parece ainda mais atrativo que viver como uma prostituta, talvez seja coisa da idade. O que há de divino no homem ainda não foi vislumbrado, as pessoas admiram demais as ornamentações nos jardins do templo, mas esquecem-se de examinar o que há sobre o altar. De qualquer forma, entre outdoors e reflexões os primeiros sempre foram considerados menos cansativos. O que foi feito da raça humana? A revolução científica, o renascentismo, o iluminismo, todos os ismos produzidos na minúscula história humana à qual alguns reivindicam uma grandeza infinda. Todos eles e toda ela são testemunhas cabais da miséria coletiva. A ânsia pelo inatingível, pela felicidade que não perece.
E a cada dia um novo messias propõe as fantasias mais obscenas ao povo, venha ele em forma de pessoa, ideologia ou sistema político. A observação empírica mostra: durante o amanhecer até mesmo um anão projeta grandes sombras. Vivemos em uma era ainda muito primitiva, a fantasia domina, o avaro é seguido como tendência de moda. Por que se preocupar? Mais algum dinheiro no cesto e alguns minutos de joelho são suficientes, amanhã estaremos todos no paraíso. A redenção tornou-se tão prática quanto macarrão instantâneo. Enquanto a maioria faz apoteose aos mistérios desvelados, sinto náuseas toda a vez que se mos oferecem. Pode ser que o preço da liberdade seja o vômito involuntário.
Enquanto isso nas escolas, nos quartéis, nas igrejas e nas casas as pessoas vão mentindo a si mesmas. Tudo pela prosperidade do pacto social, aquele mítico documento do qual ninguém nunca me apresentou uma linha do conteúdo. Agostinho de Hipona foi um homem, foi uma pessoa difícil; ao se acovardar do próprio intelecto disse a célebre frase: “Credo quia absurdum” isso ecoa com gravidade em nossos tempos. De qualquer forma há um mistério insondável, o fato do ente humano preferir acreditar no absurdo e no improvável em prejuízo à análise do óbvio. Será a transição do macaco para o homo sapiens uma feita inconclusa? Talvez eu seja um pássaro que perdeu as asas, talvez uma estrela decaída. Tente não pensar nisso, tente não comer tanta coisa industrializada. A vida é mais que isso e menos que qualquer outra coisa. Ouso por ser efêmero, sou imortal por acreditar no agora. Ninguém vai te salvar por piedade, procure oferecer algo em troca. Não quero a onipotência de um velho sentado em um trono, não preciso do estático do sempre. Quero a vida, quero o rastro do que se esvai à medida que os instantes vão passando. Pra mais tarde, quem sabe se reinventar ou ainda, se perder no oco do tempo de uma vez por todas. E disso sou feito, de delírio e sonho. De delírio crença na diferença, de sonho espera no agora. Enquanto os outros riem pelas planícies eu grito no alto dos montes. A esquizofrenia é meu veneno tanto quanto meu antídoto. Sou normal? Não, não quero ser. Prefiro estar apenas liberto. Prefiro acordar de noite e dormir de dia.


Santo Agostinho.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Novo - por Leandro M. de Oliveira

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Preparar, apontar... Morte ao tirano. Homens fuzilem-no! (1, 2...) Descansar armas. Ascendam a pira funerária ou deixem o corpo aos cães. (1, 2...) E algumas horas mais tarde, histeria coletiva... Saudações ao novo tirano! Ele já esperava pelo desjejum na sala de jantar. Sirvam-lhe carne e sangue se disso é composto o triunfo. Um cai e outro ascende, e esse também enfrenta a derrocada pra que um outro mais astuto venha. (1, 2...) Bola da vez, o eterno samsara do concurso mundial de vaidades. Seja rápido! Ou lento o bastante, pra que as sentinelas do caos te acertem no peito.
O problema humano não é político mas, antes de qualquer outro, um problema ético. Enquanto não houver um sentido de coerência de ação entre homens nada se fará tão pragmático como a inabilidade das buscas coletivas em produzir algo de bom ou justo. A consciência do senso comum é nascente como espelho da conjuntura em que se vive. Assim, há que se supor que enquanto o aviltamento do ser humano em seu sentido mais elevado for distribuído por meio de teorias, dissimulações e forja daqueles a quem cabe ditar um caminho na tecnocracia do mundo atual, todo o mais que se constrói a sua borda resultará inútil. A escola não ensina, a política não governa, o exército não protege, a TV não informa. As assim ditas redes de manutenção e formação da ordem social constituem só uma forma sofisticada do velho desejo de manter o homem médio anestesiado. Aquele homem bate mais uma vez à sua porta, vez em quando a capa do sacerdote, do candidato, do capitão, do professor ou do jornalista, vez em sempre o desejo frenético de te manter suficientemente submisso. Nada de novo pode ser produzido sem que o mestre ordene, isso seria uma subversão perigosa. Então a busca de um progresso inclusivo ofusca os olhos de teu amo. Morra como um cão! Ou vomite seu ressentimento na cara desses guias cegos. Eles te fizeram refém por muito tempo, é hora de acordar. O sol brilha lá fora, que ninguém nos cobre mais por esses raios. Expurgue de uma vez o seu medo e a sua escravidão, já é hora de tentar algo novo. E até que esse algo inédito apareça, nenhum comunismo, nenhum paganismo, nenhum filosofar profundo... Nada será capaz de restituir ao homem aquilo que desde sempre lhe sentiu usurpado. É preciso mergulhar mais fundo, vasculhar escombros, caminhar no subterrâneo de si próprio. Vá agora àquele quarto desabitado, acorde sua alma, chame-a pra dançar. Contemple em silêncio, comemore aos berros. És o soberano de teu próprio ser! Respire fundo, avance a passos confiantes. Siga até a fenda aberta entre o animal e o algo superior, costure-a com os dentes, reequilibre as partes. Una em si tudo o que é mundo disse impossível. Cuspa nos arremedos da vida, tenha a versão original. Um novo livro foi lançado, uma nova ideologia criada. Livros são suportes de palavras que são suportes de elevação a quem sabe usá-las. Ideologias são suportes de ideias que são suportes dos mais hábeis demagogos. Uma crença é semelhante a um instrumento de corte nas mãos de um homem, se ele é um cirurgião procurará curar com sua cirurgia, se é um açougueiro, maquinalmente decepará as partes que estiverem à sua frente. A questão fundamental está ligada àquilo a que cada um se propõe. Posso ser um socialista que não divide ou um capitalista que crê no altruísmo. Um homem-bomba que detona bombas de confete, um judeu que crê na humanidade como povo escolhido. E é isso que sou e é isso que podemos ser, habita em mim essa contradição vacilante. Um homem sem bandeira, credo ou partido. Que o vento seja gentil, que nossas velas inflem rumo ao desconhecido. E que nesse nos reconheçamos como criaturas livres. A noite passou como um vulto, enfim vem se aproximando a aurora. É hora de partir, é hora de ficar, é tempo de transcender.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Discurso de Existir - por Leandro M. de Oliveira

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Cisma-me por vazio, ó visão que a minha turba. Sabendo além do que devo, podendo muito menos do que ouso. De argila e utopia vai moldando a terra. O homem passou por ti e continua de mesmo modo, um animal a carregar um cadáver consigo. Sei que sou finito. Que tal se inventássemos uma nova religião a fim de reparar esse imbróglio? Você se sente só? Quanto pagaria pra não se sentir? A política orienta a vida na polis. Saudações aos fascistas travestidos de gente de bem. A realidade bate à porta enquanto o morador se esquiva. Pergunta a calhar número um: Sou um homem? Não, ainda não houve tempo o suficiente para saber da vassalagem enquanto profissão de fé. Como é duro carregar uma metralhadora na cabeça. O que leva alguém a ratificar um pacto estranho a si? O homem, sempre ele, optando por estar desacordado enquanto a vida acontece. Eu sonhando em ser livre, os religiosos insistindo na luta armada. Sodoma não caiu, o cataclismo tem escolhido bem os seus mensageiros. A crença em si próprio poderia moldar um mundo novo, inglória verdade. Ser fútil é menos oneroso. Ser relapso é garantia de absolvição alheia. A senso comum o pré-fabricado é uma experiência messiânica. Mas afinal que é ser fútil, oneroso ou utópico? Palavras são conceitos, ação é sentença. O corpo, destino convergente de todas as blasfêmias, os anos passam o tecido somatiza. Diminuo enquanto se me aumenta a contagem dos dias, veloz. Estar vivo é aceitar o caos. Na impossibilidade de reinventar o meio dou graças pela cretinice alheia. Deus segue como aquele velho bonachão, o pai não castrado, a virilidade em pessoa. Terrivelmente amoroso. Tudo pode, tudo pode. Essa idéia é magnífica, consolo clichê dos que não aprendem com as próprias limitações ou se rebelam ao verificar que às vezes os seus possuem membros amputados. Pensar assim é fabricar transcendência. Talvez eu me drogue um pouco, ou quem sabe, recite um salmo. A totalidade é uma experiência sem precedente. Bem-aventurados aqueles sem memória, pois a tragédia não lhes questiona durante o sono. Meu único devir é ser eu mesmo, urge uma fórmula que aponte a direção, me sinto todos e ao mesmo tempo nenhum. Nossa tacanhice frente ao ser viabiliza com presteza a tiranização da “persona”. Autoconhecimento tem sido a mais insidiosa utopia, somente a embriaguez nos é acessível. Consciência esta para o homem como a pá esta para o coveiro, más notícias, o acidente da matéria não se repara com hipóteses. Tentei ser mais sociável, não foi exatamente um sucesso, detesto dialogar com zumbis. A experiência animal tornou-se suportável. Tão logo ele optou pelo engodo, o tom pálido foi ganhando cores, as equações foram simplificando-se. O dilema era esse, uma vida cor de rosa ou o desejo imanente de mil vezes estourar os miolos. Bendito seja o homem que inventou a coca-cola. Anestesia cotidiana, paz de um espírito anão. Pra que lado fica a terra de Marlboro? Vamos todos, enquanto ainda dispomos de nossos pulmões e nossa inocência. A máquina do mundo continua, eternamente a fabricar totalitarismos. É claro que o mal existe, a miséria humana fez-se prova irrefutável disso. Resta saber se há algum bem gratuito. Nisso tenho posto minhas dúvidas. Afinal a idéia audaz de construção do nome como continuação perene da memória conforta muito mais que aquela inevitável transfiguração em resto decomposto de um delírio esquecido. Mísero legado, abençoada condição. Ser eterno é como imitar as rochas, no fim o alheio não suporta o tédio das ditaduras. A mídia é orientada como um dos braços de trincheira da democracia, talvez por isso haja tantos campos de concentração sem cercanias estabelecidas. Isso dá uma sensação de liberdade. É aprazível a falta de grades físicas. Todavia, passear pelo campo minado pode nos deixar sem pernas, daí por diante aleijados para sempre. Quem vai caminhar por mim? Não é uma questão que causa pânico, há inevitavelmente alguém apto a reclamar passos que nunca foram seus. Se eu morresse amanhã viria ao menos fechar meus olhos, minha tresloucada irmã? Sou feito do que suponho, vendido pelo que rejeito. A vida glacial será extinta, a primavera não produzirá mais flores. Pastoreio o destino como se acreditasse nele. Pensar dói, esperar desfigura.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

No Mar - por Leandro M. de Oliveira

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..................Desenho de Violeta
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Das torres de areia e silêncio
Uma mulher se ergue no espaço,
Abraça a cal do tempo. Ama só
E murmura à espera do encanto.
Líquida como a água,
Arcaica como o sonho.
De sangue e carvão verte as veias,
Chora a desventura, ri do que vem.
- “O mar sou eu”. Remota feito tempo,
Mira o rosto ao firmamento; nada vê...

Nas agruras da chuva que não vem,
No inconstante das ondas caudalosas.
Sem reposta ou esperança
Dissolve a vista que erra a esmo,
Abre o peito, resiste à dor.
Pra um dia se encontrar e morrer,
De uma vez ir e se perder,
Na promessa de um mar sem termo.
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Desdobramento - por Leandro M. de Oliveira

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Um dia ele mergulhou num sono profundo e lá permaneceu por eras incontáveis, no escuro da caverna sedimentou o seu sonho. Todavia, num desses golpes da natureza, como que fosse ânsia de vida por si própria, aquele homem acordou. Sua pele não era como a de outros homens ou mulheres, começava a se mudar em forma de uma espécie de couraça, delgada porém de resistência incomum. Darwin tenha um bom lugar no céu! A lei de sobrevivência foi embrutecendo-lhe ante os perigos da sombra, ainda que inconsciente do abismo a evolução brotou-lhe como a primavera em campo aberto. Ergueu-se finalmente daquela cama de campanha, tumular, ineditamente após mil ciclos da lua metafórica viu-se fora da caverna. O sol queima-lhe tanto a tez como os olhos, a essa altura inabituados com qualquer espasmo de claridade. Muito, porém, do desconforto daquela hora fora suprido por revelação mais grave, os pulmões inflavam sem que doessem as costelas, os pés caminhavam sem que houvesse ranger de correntes. “Meu Deus! Estou livre!” Sussurrou em espanto, aquele momento capital de sol a pino e agressão ocular convertera-se em verdade, no momento da descoberta última. Era como se pudesse rasgar com as mãos o quadro do tempo e repintá-lo a seu modo. Aquele homem teve a benção de escolher o próprio caminho. O arrefecido de mitos pretéritos fora reduzido a não mais que isso, alegoria da ignorância ou roupa que não mais se usa. Foi-se o tempo e o assombro, o degelo chegou, o inverno desfaleceu. Compartilhou entre as pessoas, cantou entre os homens, fornicou com as mulheres. Tudo era possível pra alguém sem passado. Caminhava só e tão preenchido de si que era ele mais uma multidão singular que um alguém a carregar coisa por dentro. Mas a vida tem seus desvarios, ele erra em medos cotidianos, e se não há respostas pula a janela da frente e caminha descalço na chuva. O alto cosmo não é de estrelas fixas, para o algo além é necessária a vida de planeta andarilho. Não há modos de se acomodar.

Como aquele homem, meto a mão na consciência quando existir é grave e se ela nada me diz, meto o pé na lama e caminho como um animal a pasto. Mas há um empecilho aqui, esse homem é uma ficção! Ele existe como alegoria, daquilo que sei e do que eternamente suponho. Mais uma vez eu; a usar a máscara do futuro sonhado, a estar ainda em contradição por desprezar o tempo que me leva sem saber. Que posso saber de uma vida nova? Só tenho minhas hipóteses e meu convencimento. Se falar de um novo começo fosse simples como gritar ou esquecer, teria eu mais méritos nisso. Sorry minh’alma, muito prazer, até mais. Fui abominado por não crer na família. Acontece que mesmo não admirando o status quo, suspeito que as pessoas de bem devem estar alheias ao crime organizado.

E o quarto continua avesso à realidade, apenas um cômodo em aparência, muito mais em perspectiva. E eu continuo avesso ao que penso crer, de fora um dogma em construção, de dentro a sombra do precipício. Súbito isso me bate, e me arrepio e cismo. Sou estrangeiro na terra que me deram. Posto aqui, sobrevivo como um personagem habitando clandestinamente dentro de mim.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Daquilo que Sei (Eles Foram Formatados) - por Leandro M. de Oliveira

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Porque a mim nunca coube a arte de entreter, antes a de deixar o outro em grave tormenta. Se me mudo em arlequim, é a indulgência de meu desprezo pelo mundo! É preciso caminhar rumo ao abismo, é necessário tomar retiro naquela planície gélida a que os homens chamam solidão. Banha-te nas águas do esquecimento, deixa-te alheio ao mundo e um dia tornarás aqui como homem livre! Nalgum lugar de porvir haverá, para teu assombro, um remoçamento do ser que carregas, quando expulsar de ti todo o sangue condenado. Sorria, ou chore se quiser. As emoções são filhas do engano. Quando habitares longe, muito longe essas palavras terão eco. No dia em que entoares teu próprio cântico serás monarca de teu corpo inteiro, soberano de todo o mundo. Veja os homens que passam, com suas cangalhas e seus ressentimentos. Cangalhas servem a animais de tração e ressentimento é algo feito apenas para escravos. Seja subversiva, dance sem roupa, urine na frente de todos, transe enquanto os outros vão à igreja. Lembra, meu amor, de quando a gente ficava deitado tentando explicar a vida e eu fantasiava que as nuvens eram alguma coisa caída do saco de pipocas de Deus? Tempos depois, como cedi ao pânico! Ao descobrir que não havia nem Deuses e nem pipocas, pelo menos da forma como nos ensinaram. Também aquilo nem foi amor, era só o nosso espasmo particular da esquizofrenia coletiva do eu buscado no outro. Seguir tendências de moda nunca resolveu a vida de ninguém. Foi bom ter recuperado a sanidade, agora já podemos nos odiar em paz. Como é aguda a pungência da vida. Já que não posso fingir, calço meus pés com o pó da terra enquanto devoro sonhos alheios. Vamos caminhar sobre brasas, vamos vomitar nosso medo antes que o inverno chegue. Em campo aberto a carícia do vento tem a sutileza de um tapa na cara. Ressuscitar o espírito é ordem do dia, ocorre que o sangue ultimamente tem perdido sua cor. Morram os déspotas, vivam os ditadores de si próprios. Perdido por entre as manadas sem governo a gravidade de existir torna-se ainda mais exterior. Vida de gado, morte de indigente. Nenhuma dor de homem pode causar afetações na economia, essa é a lei. Já que daria a alma por tal sofisma, retorne à sua fonte, vista de novo seu uniforme e sua tristeza. O mestre espera por você. Quem vai te salvar a vida outra vez? Os raios costumam ser ruins de mira.

Tenho que partir pra nunca mais, até esse momento não o suspeitava. Vou sacar minha arma e disparar como um bandido da escória. Queria uma noite de porre, mas sou abstêmio...






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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Espírito do Tempo - por Leandro M. de Oliveira

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Cabe a nós, aqui, um breve comentário acerca da obra máxima de Franz Kafka. Em primeira análise é mister dizer que a base da força desse escrito é a sua atualidade. Mesmo depois de quase um século, a ideia central de “A Metamorfose” segue como tema de ordem do dia. Kafka redige seu texto às vésperas da primeira grande guerra na fase conhecida como crise da “Bélle Époque”. Nesse momento histórico o homem se vê em um dilema racional e religioso quanto a si mesmo. Era a crise nascente da modernidade oferecendo ao ente humano as mais agudas reflexões existenciais. Um dos temas mais bem trabalhados nesse livro é a impossibilidade da crença, o massacre de princípios que a esse passo estava financiado pela “nova era”, com seu espetáculo de frieza e relações impessoais. Nesse sentido, quando Samsa está metamorfoseado nesse inseto gigante, tem-se uma alegoria da falência social de nosso tempo. Convertemo-nos em seres essencialmente estranhos ao outro. Gregor é, em verdade, o arquétipo do homem moderno, esse desesperado, sem respostas, conforto ou esperança. O símbolo do inseto torna isso ainda mais exterior, esse animal esdrúxulo é o desprezo do homem por si mesmo.
O contemplo da pequenez humana, do estado de abandono ante a grandeza do mundo, levam aquele modesto caixeiro viajante a somatizar as penas de seu cotidiano, sendo essas, de modo geral, as mesmas de todos os cotidianos de qualquer homem comum. Ainda que esteja em casa na companhia dos seus, esse personagem verifica que suas experiências de vida são indissociáveis e inexpurgáveis dele, fazendo-o assim remoto por ser dono de um legado singular. Há também o fetiche da libertação, quando aquele homem se vê alheio ao mundo, sente-se de alguma sorte realizado em não estar mais participando de relações a seus olhos abomináveis.
Então por força sua atual forma, a de uma barata enorme, ele tem uma espécie de vingança inconsciente. Já não é mais o escravizado arrimo de família, já não é mais o vendedor obrigado a sorrir. Todavia, ao passo que se deleita, Gregor sente-se oprimido ao verificar que sua forma física não está suficiente à expressão de tudo quanto sente. Sua repulsa acumulada pela família de exploradores, pelo insensível patrão, pela hipócrita social. Sentindo, mais uma vez, a impossibilidade de ação que é própria do homem médio em todos os lugares.
Gregor Samsa é, em última análise, um ser desprovido do “animus” da mudança, amordaçado em sua condição de filho dominado, de empregado explorado, de aspirante decadente a burguês. Como se aos poucos os pequenos fracassos fossem se sedimentando dentro dele de tal forma a reduzir-se em um animal treinado, abraçando assim a condição subumana. Para compreender o estruturalismo da psique desse personagem, possivelmente o momento mais simbólico é aquele em que seu pai atira-lhe uma maçã com intenção de matá-lo, isso sugere um algo bem edipiano e mal resolvido, dando assim as linhas gerais para o entendimento de sua inanição frente às desventuras do mundo. Há uma sugestão por parte de Kafka de que o pai de Gregor, aquela besta insensível, o tenha reduzido à condição de uma barata gigante mas, em verdade quem o tempo todo não arcou com o ônus da transformação foi o próprio Gregor.
Por fim vem a morte do protagonista em forma de libertação, tanto para ele quanto para os outros. Sua vida apática era um empecilho, um mal que acabara de ser curado. A irmã sai da completa solidão do lar para o convívio externo, o pai se vê remoçado. A morte de Samsa representa um marco na recuperação do tempo perdido, assim, por mais solitário que o homem esteja, sua existência produz transformações nos outros.
A mensagem contida nessa ideia de transcendente do eu tem eco filosófico, psicológico e religioso muito acentuado. É o eterno discurso da imolação da carne própria em favor alheio, ainda que isso se dê de maneira involuntária. Dessa forma, “A Metamorfose” nos convida a uma reflexão profunda acerca do papel do indivíduo no corpo social, seja em âmbito externo ou privado. O texto de Kafka é, antes de mais nada, um questionamento severo, sobre para onde caminha o ser guiado tão somente pela razão instrumental, pelas relações de consumo de nosso tempo, pelo desconhecimento do outro. É deveras ao leitor atento um texto imprescindível.


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