Creative Commons License


Bem-vindo ao Duelos!
Valeu a visita!
Deixe seu comentário!
Um grande abraço a todos!
(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Inverno - por Therezinha

Sentada no jardim de minha casa olhava o céu. Nuvens escuras manchavam o firmamento, cobrindo com seu negro manto nuvens brancas que pouco a pouco se apagavam. O vento soprava, movimentando as folhas das árvores, despetalando as mais belas rosas, e cada pétala que caía era como uma lágrima que a roseira derramava, lágrima de dor e de saudade. A dor de perder o seu encanto, a saudade da primavera querida onde as flores vicejam com graça e magia, a primavera que há muito já se foi cedendo lugar ao verão. Agora é o inverno que chega, o reinado das chuvas, dos ventos, do frio… A natureza é triste, vazia, sombria. Os pássaros não procuram mais os galhos protetores e acolhedores de uma árvore para fazer os seus ninhos. As flores já não vicejam, as plantas já não sentem o fulgor de um raio de sol que brilha no horizonte vindo, de momento a momento, acariciar as suas flores, as suas folhas e o seu caule. Tudo é frio, tudo é solidão. As crianças não mais passeiam pelas praças brincando, pulando, ouvindo o cantar mavioso dos pássaros, admirando a beleza das flores, espalhando alegria por onde passam. Nem ao menos este consolo resta às plantas: a alegria de sentir a presença das crianças, que são a primavera da vida, enquanto reina, na natureza, o triste e doloroso inverno!
.

Saudade - por Jorge Queiroz da Silva

Saudade, sim, mas do futuro! O passado está em mim, presente e a saudade está na minha frente. Saudade de um "pai" repleto, que, como percebo agora, foi marca de um "pai nacional", ainda que por pouco tempo. Hoje, com mais de setenta anos, ao encontrar pessoas da minha época de criança, sinto prazer de reviver coisas que falam dele. Vivo hoje a saudade dessa vida curta, mas de uma história linda, forte, honesta e sadia em todos os sentidos; daí nunca ter me mostrado que eu teria essa perda prematura, a perda do meu pai! A partir daí, com os seus exemplos, o mundo foi para mim brilhante. Recebi desse ser seguro e tranqüilo, construído das participações mais importantes da mão de Deus, a certeza de que teria sempre a certeza da saudade do seu único filho. Outra saudade que me ocorre é a de minha nobre e abençoada mãe. Lembro que quando pedia qualquer conselho, me respondia que filho bom já nascia feito e, portanto, não necessitava de conselhos. Minha saudade eterna me diz que ambos, pai e mãe, estão hoje bem juntos, perto do Criador, pois não foi à toa que a morte de minha mãe ocorreu no mesmo dia em que se casou com meu pai. Não seria esse um encontro de saudade?

.

Traição - por Alba Vieira

Eu me perco nas encostas do teu ser.
Deslizo sobre as escarpas ferindo o corpo desnudo.
Agora tenho marcas do contato teu.
Sangro sem cessar quando cravas teus espinhos em meu peito.
E desfaleço nas poças vermelhas, testemunhas do meu vitimizar.
Subo pela tua pele de camaleoa,
crente que irás me esquentar enquanto me sinto gelar pela tua indiferença.
Experimento o desamor teu todos os dias em que te procuro e me repeles.
Choro lágrimas úmidas que contrastam com a secura do teu olhar para mim.
Lamento tê-la conhecido um dia.
Repudio a atração que exerces sobre mim.
Contudo, felicito-me por esta disfarçada dor que carrego comigo.
Dor companheira, hoje, de alguém que um dia,
antes da tua definitiva ausência,
havia deixado de ser sozinha
e se sentia feliz, plena, realizada, poderosa, dona de ti,
sem saber que te sabia somente uma parte -
a parte idealizada, o que de ti queria e hoje reclama.
Só isso.
E um dia, quem sabe,
possa, olhando-te o todo,
compreender-te e aceitar-te,
fazendo de ti, então, o verdadeiro amor,
aquele por inteiro, feito de luz e sombra,
de delícias e de dor.

.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Contradição - por Alba Vieira

.
Calor insuportável. Sol a pino. Eu imprensada entre um caminhão e um ônibus de turismo. A música alta no carro. Os vidros totalmente fechados. Nenhum ar, tudo me oprime, principalmente a sensação da inutilidade de viver nesta cidade horrorosa, agressiva, doida, que cria tensão, que dá medo, que é corrupta e nojenta. Sustos, indignações, inferno escaldante todos os dias, antes, durante e depois do trabalho. Carros enguiçados, rostos contraídos, ônibus apinhados de passageiros sem opção, sem destino.
Mas, ao olhar para o lado, encontro o rosto que sorri de tudo isso e compreendo seu sentimento de estar acima de todas estas coisas que fazem parte do caos; de saber que, quando quiser, pode estar num lugar calmo, fresco, com olhares doces e mãos que tocam profundamente.
.
.

Poesia - por Alba Vieira

.
Como é difícil necessitar da poesia, do sonho, do belo, do toque sensível e mágico, do olhar… e ter nada disso. Ao contrário, ser atropelada pela dura realidade que não olha, que é cruel dentro das suas expectativas, que impõe e dá um banho de água fria na nossa emoção. Há momentos em que sou só sensibilidade, que me desmancho por dentro, que preciso de alguém que me acolha, que me coloque num pires, que me dê limites e que este pires seja de porcelana com florzinhas pintadas à mão, que me remetam ao chá, à música, aos encontros de amor ou amizade, à vida interior plena e bela.
.
.

Roubada - por Alba Vieira

.
Roubada. Assim me sinto hoje e tenho estado desta forma na maior parte das vezes. Roubada de mim mesma, saqueada na minha energia, na minha paciência, na minha capacidade de amar. Eu preciso de mim: tenho que ouvir meus gritos abafados, meu choro contido que parece que vai explodir meu peito. Não consigo me dedicar a mim, eu que conheço agora tanto mais sobre minhas necessidades. Por que é que tenho que ignorar meus pedidos, já quase súplicas, adiar meu desejo, me tratar como se dura eu fosse quando extravaso em sensibilidade? Eu que não sou seca, que broto umidade de todos os poros, eu que anseio me expressar com sentimentos, eu que estou frágil e de tão vulnerável me derreto e perco os limites de mim, tonteio e morro. Morro, sim, a cada dia, morro de asfixia crônica, por não poder respirar o que sou. E eu sou tanto e gosto tanto do que sou, que só a morte poderá me impedir. Eu, ainda lagarta, presa, gosmenta por estar ligada a um casulo que me aprisiona, já sinto em mim a leveza, a beleza, a possibilidade, a transmutação em borboleta que sou.
.
.

Consciência - por Alba Vieira

.
Venho de um lugar de águas turvas que me impediam de ver adiante. Nadei exaustivamente, buscando enxergar as cores, sentindo o peso do desconhecido que me assusta e transforma em ser frágil conduzido pela correnteza formada pelos que se acercam de mim e conseguem me levar para onde, às vezes, não desejo nem imagino ser possível. Mas a escuridão se foi e agora, resgatada por mim e pela claridade desta manhã de compreensão profunda, já consigo ensaiar movimentos ondulantes em águas azuis de ser feliz outra vez.
.
.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O Canto da Sereia - por Ana

Mora em mim uma sereia louca que melodia por anos a fio. Tento viver as horas em silêncio, tratar assuntos importantes com sobriedade, mas há um som macio insistente, uma trilha sonora incansável que acompanha tudo o que sou. Este canto não me chama: ele apenas se impõe. Lembra, persistente, que existem as movimentadas e lentas ondas do mar, a profundidade abissal negra e fecunda, as imponentes naus tragadas, as indigentes almas que vagam ao sabor dos rios submersos, as duras rochas fertilizadas, os extraordinariamente coloridos recifes de coral, a claridade molhada do sol, os grãos de areia entremeados de habitantes e as múltiplas pegadas que se vêem e vão. Porém, sua mensagem mais contundente trata da natureza das coisas: daquilo que pode existir sem nunca ter sido visto; do que se pode encontrar nas atmosferas das tantas possibilidades; dos seres considerados mitológicos apenas por conta das limitadas leis que regem a condição humana; das metades excludentes que formam, prodigiosamente, a perfeição.
.

O Canto da Sereia - por Alba Vieira

Quem ainda não sentiu um apelo tão forte, de qualquer natureza, que fez com que sua visão ficasse ofuscada e partisse guiado apenas pela atração fatal em busca de alguma coisa que, sentindo ser verdadeira, perseguiu até o infinito, ultrapassando seus próprios limites e, talvez, tendo acabado a ilusão, se descobriu traído ou derrotado ante a verdade crua, exposta (a dura realidade)?
Como condição arquetípica, todos nós já nos encontramos enredados por ilusões (seja no amor, no trabalho, na família). E para alguns, mais afeitos às fantasias, isto pode ser muito freqüente.
Importante estarmos atentos ao examinar determinada questão ou nos relacionarmos com alguém, já que há sempre pistas que nos alertam para a possibilidade de tratar-se da fantasia (ouvimos o canto e não vemos a mulher linda). Há um quê de improvável, um certo véu nubla a nossa visão, as promessas ultrapassam nossas expectativas, a pessoa não aparece ou usa outras formas de comunicação virtual, a situação não encaixa com o contexto ou seja lá o que for. O certo é que algo nos faz duvidar da veracidade dos fatos ou da realidade e idoneidade das pessoas envolvidas. Entretanto, aquela parte de nós que sonha se deixa persuadir, cresce e segue enfeitiçada em busca do objeto do seu desejo. Até a derrocada final, quando cai atingida pela claridade ofuscante do real impiedoso que finalmente se mostrará.
Todavia, não é vetado ouvir o canto da sereia. Ainda que só nos deixemos embalar pela voz maviosa, sem cair no sono profundo da insensatez e depois jazer nas garras de algum monstro horroroso.
A fantasia alimenta a alma e pode ser o preâmbulo das grandes realizações e conquistas. Afinal tudo acontece, antes de se tornar realidade, em nossa imaginação.
É fato que nosso corpo e nossa mente podem responder prontamente ao que compomos em nossa imaginação, sendo possível alterar processos orgânicos e estados mentais com mudanças de humor ou mesmo curar doenças através de técnicas de visualização de imagens. Podemos nos beneficiar muito com isto. Como tudo no universo, ao considerarmos a ilusão - o canto da sereia - estaremos na dependência do ponto de vista, não sendo intrinsicamente bom nem mau, cabendo a cada um de nós, em cada circunstância, determinar o modo de vivê-la. Assim, em mar bravio, tanto pode o marinheiro recobrar as forças nos braços da sereia até que o pior passe, como segui-la, ignorando os perigos, sendo vítima de naufrágio fatal. A escolha é sempre nossa.
.