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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Semeança - por Marília Abduani

Com um grão de melancolia
e em terra de cimento,
eu planto a minha poesia
no vento.
Com um punhado de saudade
e um resto de esperança
eu planto a minha ansiedade
na dança.
Com uma réstia de paixão
um anelo, uma aliança,
eu envolvo a solidão
na trança.
Com um grão de esquecimento
meio luz, meio vingança,
eu bordo o meu pensamento:
semeança.


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Insônia x Flamengo - por Adir Vieira


Sempre me orgulhei de ter um sono tranquilo, pesado e constante durante toda a madrugada.
Hoje percebi que algumas coisas começam a mudar. Essa noite não foi assim. Inexplicavelmente, passei toda a noite em estado de alerta, sem um pingo de sono.
Nas primeiras duas horas de vigília forçada pela falta de sono, tentei imaginar o porquê. Não era admissível que o meu corpo, cansadíssimo dos passeios do dia, não reclamasse pelo seu descanso, sem a mente a lhe provocar, impedindo-o de ali ficar somente se recuperando da energia gasta pela atividade fora da rotina. Não consegui explicação. Nas horas seguintes atribui o fato a alguma preocupação inconsciente, ao que imediatamente rebati, posto que utilizo o sono para a fuga dos problemas mais corriqueiros. Se preocupada estou com o que quer que seja, aí durmo muito mais. Continuei sem explicação.
Com o marido ao lado, ressonando tranquilo e ao fundo uma briga de casal em um apartamento próximo, consegui enfim entender o porquê de não ter conciliado o sono: a discussão do casal.
Ontem,como todo mundo sabe, foi jogo do Flamengo e quase toda a população do Universo gritou MENGO o dia todo. O vizinho, flamenguista doente, não perdeu a oportunidade de assistir à partida no Engenhão que, para minha tristeza, a Prefeitura colocou a algumas quadras da minha residência. Com certeza, deixou mulher e filhos em casa sozinhos, nesse domingo lindo, de calor. Como não poderia deixar de ser, chegou em casa “tocado” pela bebida e pela alegria do seu time de coração ter ganho do adversário que, para dizer a verdade, nem sei qual foi.
Enquanto ele se divertia, a mulher, em casa, engolia a raiva sentida durante todo o dia apenas esperando-o para revidar. O infeliz (ou feliz) chegou em casa quase meia-noite, hora em que se iniciou o embate. O silêncio da noite trazia essa “família” para dentro do meu apartamento e junto com ela os palavrões e todos os barulhos agregados, provocados por cadeiras e almofadas voando uns contra os outros. E olha que a “guerra” ocorria no último andar do prédio em frente.
O relógio já batia cinco horas da manhã quando eu, finalmente, consegui conciliar o sono.
Viva o Flamengo!



Visitem Adir Vieira
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Por Onde Andei - por Esther Rogessi

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Extasiada, em retirada...
Com o espírito científico aguçado, tentando desvendar o que é mais complexo do que as descobertas primeiras; do que todos os labirintos e quebra-cabeças; mais opaco do que a visão nebulosa nas montanhas, em tempo invernal; mais profundo, do que o fundo do poço; mais frio que o calabouço; bem mais que o determinado em ser mortal!
Minh’alma se inquietou se constrangeu...
Que descobertas fiz... Feras à solta, humanidade insana...
Prazer em ser e fazer o outro infeliz!
Das entranhas, palavras fortes, transformadas em ecos de morte!
Visão espiritual: hemorrágico discursar... As línguas, tais quais punhais a ferir, dilacerar, matar!
Espalhar peçonha... Não posso em êxtase continuar. Deixar-me contaminar!
Água e óleo não se unem... Diferentes são! Consistência, cor, sabor, porém a existência de cada um tem um fim e no final, ao enxergarmos o espiritual, encontraremos nos inversos os afins...
A pedra que mata é a mesma que edifica. Pura questão de mãos e direção!
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domingo, 8 de novembro de 2009

Memórias de um Seminarista (Parte XVI) - por Paulo Chinelate

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Juvenato São José
(Hoje sede da Prefeitura de Uberaba.)
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Se em Mendes eu fazia parte dos “menores” porquanto estivera nas turmas ginasiais inferiores, aqui em Uberaba eu pertencia ao “staf” dos mais velhos.
Ser mais velho, aprendi logo, tinha suas vantagens e também responsabilidades. Eram os mais velhos que escolhiam os times na montagem dos campeonatos de futebol, vôlei, basquete, sinuca, natação etc. Isto dava status, muitas vezes eu era bajulado e paparicado. Verdadeiras lições no trato da vida. Por outro lado, tinha o dever de ser mais esforçado nos estudos. Não coadunava ser líder só das “peladas” e “rachas”, tinha que ter ascendência intelectual e, porque não dizer, moral. Por conta disto, minha colocação nas notas de aula aumentou. Era chamado pelos colegas a dar opiniões em diversas áreas.
Já com quatorze anos, notei mudanças outras que nem imaginava acontecer. O corpo de rapazinho se fazia notar. Comecei a ter dificuldades em participar do coral do colégio onde fora soprano desde que chegara ao Juvenato. Minha voz não obedecia às notas mais altas. Parecia pinto velho gogo transformando-se em frangote: nem piava nem cantava, era um cacarejo rouco.
Papai, congregado mariano, conseguira, para eu ler, desde os sete anos, uns livrinhos que pegava lá na igreja intitulados “Antes que aprendam na rua”. A cada ano de idade um livrinho diferente. Os primeiros informavam como as plantas se reproduziam, o trabalho das abelhinhas, e finalmente a sementinha que papai plantara em mamãe, sem contudo haver aprofundamento no assunto. Antes porém que eu viesse a saber de “outras novidades” saí para o Juvenato.
Se algo se modificava exteriormente em mim, o que diria sobre sentimentos interiores? Mas papai estava tão longe para dirimir minhas dúvidas e questionamentos... Foi quando recebemos a visita de lúcido Irmão Provincial. Com olhos da experiência de pedagogo e guia espiritual viu logo minha aflição. Chamou-me em conversa particular e compreendendo meu estágio de ignorância das coisas da vida pediu-me que elaborasse por escrito uma lista de perguntas sobre o que quer que fosse e que na entrevista seguinte mas responderia. Dito e feito.
Saí da conversação olhando o mundo diferentemente. Percebia agora os meus colegas menores com olhos de superioridade. Eu sabia de “coisas” que eles nem imaginavam. Olhava os mais velhos e adultos com a cumplicidade dos segredos da vida.
E os meus primeiros dias de puberdade foram passando.
Diferentemente de Mendes, pelo confinamento da fazenda, aqui saíamos a passear pela cidade em duplas ou trios. Fui conhecer o parque de exposição dos Zebus cuja capital brasileira da espécie era Uberaba. Terra dos arrozais a perderem-se de vista, identicamente ao feijão apelidado de uberabinha, traziam à cidade um ar de progresso que minha Juiz de Fora não possuía. E nós como que participávamos da vida extramuros.
Facilitados por antigos alunos do Diocesano, fazíamos piqueniques em suas fazendas, beiras de rio e cachoeiras. O Colégio Diocesano, o maior da cidade, oferecia-nos, com seus múltiplos campos de futebol rodeados de mangueiras, oportunidade para praticarmos as peraltices símias.
Findo o ano letivo, novidades bateram à porta. Não fora economicamente viável a manutenção de um seminário naquelas plagas. Voltaríamos no ano seguinte para Mendes.
Um misto de satisfação pelo retorno à antiga pousada. No entanto o medo de perder também a “pose” de maior. Aqui, em terra de cego, quem tinha um olho era rei, lá a coisa deveria ser diferente.
Pela metade do mês de dezembro empreendemos viagem de volta. Retornamos passando por São Paulo. Pelas cidades que cruzamos, Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo e outras, tivessem colégios Maristas, lá pousávamos. Conhecemos Aparecida do Norte. O bom, porém, foi trilhar as estradas já antes conhecidas entre Vassouras e Mendes. Entrar na fazenda de São José das Paineiras, nosso destino, foi uma sensação antes não experimentada.
O reencontro com antigos colegas e amigos, tomar conhecimento de outros tantos que tinham desistido da vida religiosa e que lá mais não encontramos, foi impressão mista que ia do contentamento à decepção.
E o ano de 1962 chega ao final com seus encontros, desencontros e reencontros.


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Contradição - por Ana

Eu te possuo.

Nas noites, nas tardes, nos dias de espera.
Eu te busco louca, rápida, faminta, voluntariosa, possessiva.
Onde estiver, te trago.
Enlaço, enrosco, envolvo, domino, aprisiono.
Com carícias brandas, definitivas e certeiras
te curvo ao meu desejo, e eu ao teu.
Te beijos apaixonados, revoltados, inconformados,
em lágrimas silenciosas às vezes.

Teu corpo clama libertação,
explodir um arco-íris de sensações talvez insuportáveis.

E eu te instigo, provoco, sem descanso,
perfumando tua pele com o aroma de meu prazer teu,
o mais profundo, incansável, infinito prazer,
ainda sem tua presença.

Minha língua te prova sob as roupas,
te enlouquecendo a vontade, turvando a visão,
confundindo os sentidos, nublando o pensamento.
Eu te exausto sem cansar, sem pesar, sem pressa,
te exausto de querer e cada vez mais querer.

Sem ter.

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sábado, 7 de novembro de 2009

Duelando Manchetes X: Crianças na Internet - por Ninguém Envolvente

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CUIDE BEM DO SEU AMOR


Rachel Maria Lobo Oliveira Genofre - 9 anos.
Foi encontrada morta, dentro de uma mala, na rodoviária de Curitiba.

Um crime ainda não solucionado e com suspeitas de que o criminoso a tenha conhecido no site de relacionamentos: ORKUT.Não adianta haver uma lei sobre crimes contra crianças e virtuais, se os pais nada sabem sobre seus filhos.
9 anos - Foi negligência deixar uma criança tão nova, navegando na internet sem um supervisor?
Mesmo que o crime não tenha relação com internet, muitos já tiveram e serve de aviso aos responsáveis por menores... cuide bem do seu amor...


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Gentileza - por Alba Vieira

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Tantas oportunidades de sorrir
Perdem-se em gestos truculentos
Quando seria tão simples iluminar cada momento



Visitem Alba Vieira
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Sonhos - por madruga

felizes os que escutam
felizes os que querem
felizes os que tem
felizes os que gostam
felizes os que sonham
felizes os que acordam
felizes os que nascem
felizes os que namoram
felizes os que falam
felizes os que Beijam
felizes os que amam
felizes todos sejam

tento deixar verter o que por mim escorre
não impedirei o seu curso natural
extravasar de sentimentos que sejamos todos felizes
num plural redondo e abrangente

amemos-nos uns aos outros
já dizia há dois milênios
esse pregador do amor
sinto-me (sem cera)
pois de coração o digo
já mais haverá castigo para quem fizer o que digo

mais pesado, é o castigo de quem não ama!
porque amar não é singular
multiplica no plural e verás o quanto receberás
mas esquece o que dás, lembra-te apenas do que recebes
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Visitem madruga
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Horas - por Kbçapoeta

O tempo faz os relógios
Transcorrerem as horas,
Subvertendo cada segundo
Em destruição.
Consome a putrefação da carne
Etérea das almas.
Transcende a matéria
Em cada badalada.
Súbito de horror
Percorre a espinha da razão,
Faz-me saber que pereço
A cada hora.
Horas não param!
Quando as pálpebras da vida
Fecharem-se sobre os olhos da morte,
O relógio estará no mesmo lugar:
Sisudo, imponente e indiferente perante
O último sopro de vida.
As horas se sucedendo às horas
No perene girar de seus ponteiros
Que marcam relogiosas horas.
Hora da vida.
Hora da morte.
Em torno das horas.
Ora bolas!
Isso são horas?



Visitem Kbçapoeta
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Fantasia - por Alba Vieira

Cantando alegremente
Levo meus dias a bailar
Pra que pensar em problemas
Se posso viver a sonhar



.....................................................Visitem Alba Vieira
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Carta à Minha Alma (Se de Fato Existires) - por Leandro M. de Oliveira

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Sabes quanto é inexplicável. Muitos tentaram insistentemente me convencer disso, nunca acreditei de todo. E vós sois minha mais grave testemunha. Todavia, avesso àquelas implacáveis convicções produzidas em outrora, devo ceder. Há deveras alguns processos na mente humana que embora conduzidos por essa, não possuem um vínculo lógico com a racionalidade. Está acontecendo comigo agora. Alheio a tudo quanto foi de alto e elevado a meu pretenso entender, mergulho agora no túnel das lembranças mais frugais. Nenhum momento capital se me afigurou. Nem a lembrança de quando tive sexo pela primeira vez, nem a de quando chorei perdido ou a de quando fiz que chorassem por mim, nem mesmo o dia em que ganhei a primeira soma de dinheiro que me permitia mais que um punhado de balas e fui ludibriado por aquela velha que me vendeu coisas que eu nem queria. Nada. O frisson que nesse instante me domina é concebido de momentos banais, e ainda mais agudamente da displicência com esses. Vem me visitar agora, por exemplo, a lembrança que nem sabia se tinha, daquele dia de chuva. Um dia qualquer sem grandes eventos. Mas, lembro-me bem, a visão de meus pés pisando a terra molhada, a densidade do ar, o cheiro de vida acontecendo no ambiente... Tudo soa tão imaterial e mesmo assim tão presente. As formas assimétricas de minhas pegadas impressas no chão cor de chocolate, a fúria reconquistada das corredeiras do rio que com a chuva se despediam da vazante. O som da água contra as rochas na ribeira, o som dos cânticos pra sempre perdidos no tempo. Sempre. Haverão de existir em toda parte coisas perdidas, portos vazios, louça em cacos. Mas agora, depois de tempo passado é que posso enfim concluir. Na simplicidade daquele momento úmido eu estava em paz. Num assalto de inesperada transição fui dar em visita a outro quarto dessa casa estranha. Agora me vejo ainda mais remoçado. Minha pele lisa. Ainda virgem de pelos e espinhas, marcas de expressão ou testemunho dos anos. Olho à frente, como em mágica ou engenho do sobrenatural assisto à mulher de olhos agudos passar por mim. Não foi sequer um flerte, ela nem olhou diretamente. Mas como me lembro e de forma tão lúcida, do desenho assombrosamente perfeito de sua íris, naquela fração de segundo em que o sol raiava por sobre a fronte corada, pude testemunhar o reflexo que cega, a metamorfose de cores que daquela aquarela viva emanavam. Primeiro o negro, depois aclareando até um tom de mel e depois até um verde opaco. Misterioso, coisa em si ao mesmo tempo esparsa e concisa. Hipnótico como uma esmeralda tirada do útero da terra. Encantamento em estado bruto, perfeição não lapidada. Ela passou por mim. Foi quando nesse momento me dei ao exame mais apurado de sua silhueta. A textura de um algo esculpido por mãos superiores, o espírito das tentações míticas. Acho que foi ali, naquele acaso rápido, naquele momento insuspeitado, foi ali onde deveras aprendi a admirar uma anca. Não era mais possível retroceder. Não havia mais chances de tornar a ser criança. A invasão da masculinidade se fez em mim como tributo pago pelo fito ao desconhecido e eu subtraído da identidade cotidiana, nem me dei conta do que em verdade se formava à minha frente. De qualquer forma ela passou por mim, se foi pra nunca mais. Quantos anos faz? Dez, quinze? Não sei. Mas o perfume ainda habita minhas narinas como um hálito fresco. Mais uma porta cerrou, dei em outro quarto. Não reconheço o lugar, estou como que de olhos fechados. As sensações são familiares. Parte dos cabelos longos de uma moça deitados sobre meu ombro enquanto durmo, o cheiro que invadia a casa quando minha bisavó derretia rapadura pra fazer pé de moleque, o transe durante um beijo de quase hora em quem se gosta, ficar deitado ouvindo o som das tempestades de março. É tudo tão diverso e ao mesmo tempo tão uno. Filhos diferentes de um mesmo pai, dedos inaparentes da mesma mão. É como se durante a vida inteira eu tivesse feito a mesma coisa de várias maneiras. Uma forma diferente a cada dia, um dia em cada minuto. E sendo desagregado fui intenso, e perdendo o que mais amava encontrei a mim mesmo. É impossível recobrar a ausência adormecida por sob as areias do tempo. É impossível fazer planos quando a morte passeia por entre o bosque. Talvez tenha descoberto o enigma. Talvez entenda porque tanto me é agora revelado. Estou pra morrer! Há um pelotão de fuzilamento à minha frente. Nazistas, fascistas, judeus, cristãos, mulheres, crianças, chineses, neozelandeses... Gente de bem. Todos com armas apontadas. Todos estão com sede de sangue. Foi breve demais, minha alma. Será que de fato existes? Ou aquilo a que chamo alma é um departamento de arquivos que em momentos de angústia nos permite revisitar tudo o que não foi completamente sorvido pela percepção? Claro, um pouco de cada vez. Do contrário, o repertório se tornaria monótono. Parece injusto o fato de ter consciência de como se existe só quando esse estado de percepção vai prestes a fenecer. Nunca fui saudosista, aceito o novo, a mudança da biologia que é por si dinâmica. Entretanto, mesmo sabendo que não há perdão àquele que hesita, creio ter direitos de pelo menos nisso poder vacilar um pouco. Quase me entristece partir quando ainda existem tantos diamantes semeados pela estrada. Tão longa, tão sinuosa. Não tenho garantias e nem preciso tê-las. Durante alguns anos idealizei Valhala, onde os grandes ascendem à sede da imortalidade. Depois... Pó e sombra! Acidente da matéria, disso me senti composto. Quando a luz cessa sobre o corpo ele se funde com o esquecimento, deixa de existir. Foi bom sentir assim, foi bom ser tão livre quanto possível. Nenhum devir, nenhuma obrigação com a perenidade. O dilema de existir tem me vitimado nesses tempos. A consciência é minha porção divina? A consciência é o sintoma mais agudo da minha síndrome de fuga da própria condição? Pode ser que ocorra, talvez seja que tudo não passe de covardia. Seja como for, estou pronto. Posso morrer se assim o querem. Posso partir em vez derradeira. Mas como morrer ou partir? E se há algo depois? E se Valhala existe com outro nome, ou sem ele? Se esse escrito mesmo sobreviver, acaso não é uma forma de estar perene no inconsciente alheio e assim resistir à evasão última? O legado de cada um parece implacável, sempre reféns de nossos próprios fantasmas. Queria que alguém desligasse o plugue de meu corpo. Talvez uma oração sincera à santa da boa morte fosse útil. É pena, já não sou mais tão inocente. O pelotão faz mira em meu peito, engatilha as armas. Sei que a maioria das pessoas em meu lugar estaria no mínimo aterrorizada ou puta da vida, claro, no caso de que o medo permitisse essa última. Concretamente se pode dizer, pensar na brevidade da hora, ter ciência que caminha à extinção sem ter feito mais quando se podia. Andar a passos humanos por sobre a terra não é uma sucessão de horas coordenadas mas, antes, uma corrente infinda de questionamentos. Nunca ter perguntado o nome daquela moça, não ter rolado naquela lama que parecia chocolate, nunca ter se entregado à correnteza do rio que em minha frente seguia... Aos de osso e carne, lá estava, alheio e insondável como qualquer milagre deve ser. Sei que a indignação é legítima. Pelo julgamento dos que me conhecem e possivelmente daqueles que talvez me conhecerão (se houver para conhecer). Tenho tudo, ao mesmo tempo nada possuo. Não há segurança do que se leva, tão somente do que se deixa. Se acaso penetramos na totalidade daquilo que à nossa volta subsiste em silêncio. E são tantas coisas... É preciso mais que a eternidade pra chegar à comunhão plena e esse nó na garganta me fornece a suspeita vil de que talvez nem isso haja à disposição daquele que vai. Meu deus, meu deus por que me abandonastes?! Quando dei por mim já não estavas. Existes em aqui ou no sonho? Nas igrejas ou nos bordéis? Existes? Há muito não sei que são trombetas nem vejo anjos aqui ou lá. Queria ter a retidão dos monges, como não posso, galopo por sobre os sapatos, me meto a cabeça em fazer anarquias. Descendência de Caim. Tenho a praga dos hereges, se assim não fosse meu contento seria mais prático. Curiosamente, mesmo com toda a gravidade ainda quero sorrir. Poderia praguejar ou revoltar ou desesperar. Mas pra mim não parece justo. Como desperdiçar mais tempo se há entre nós tanta beleza?
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Att,
P.A
Porto Firme; Ano Domini? MMIX
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Descendência/Ascendência - por Poty

Está escrito na genética
A tua com a minha
A minha com a tua
Aparência.

Não tem como esconder,
Encontra-se na minúscula partícula
De nossos ancestrais.

Somos antepassados
Que as células nos conduzem.

Trazem-se marcados
Traços traçados pelas digitais.

Não há de se negar
As aparências
Que nos são negadas.

Transcende o que se descende.



Visitem Poty
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Entre Hífens e Tremas - por Gio

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A reforma está aí. Sim, obviamente estou falando da reforma ortográfica. E ela chegou de vez: não mais como uma novidade distante, mas uma alteração que está gradativamente fazendo parte da vida de todos. E, por mais que se crie resistência, não há como evitar: a moda vai pegar!

Não diga que isso não o afeta: a mudança já começou no dia-a-dia. Você passou a usar o forno de micro-ondas e a andar de micro-ônibus. Por causa dos micro-organismos à sua volta, terá algumas doenças, e ocasionalmente tomará anti-inflamatórios. Mas não se preocupe: se isso o consola, tudo isso está acontecendo com seu arqui-inimigo também.

Não adianta resistir e se achar o mandachuva do pedaço. Seu carro vai passar a ter parachoques, parabrisa e paralamas. Quem cair de paraquedas nesse meio, vai ficar confuso. Mas, pelo menos, ainda temos anos-luz para nos acostumarmos com isso. Ainda usamos guarda-chuva; ainda odiamos as segundas-feiras; ainda teremos algum beija-flor ou bem-te-vi no nosso quintal, couve-flor na mesa e erva-doce para o chá; e para a sorte das mulheres, elas continuarão enxergando azul-claro, azul-ciano e azul-bebê, bem como a diferença entre eles.

Uma hora ou outra, você vai tomar uma vacina antirrábica (talvez o “rr” seja para lembrar um cão rosnando). O teatro agora precisa de contrarregras, ironicamente sem contrariar a regra. Tiraremos autorretratos para os novos documentos, não sem antes passar um bom creme antirrugas. Temos um novo velho órgão no corpo, as glândulas suprarrenais. Novamente, seu arquirrival passará por tudo isso também. Se este for mulher, e ficar grávida, vai precisar fazer alguns ultrassons.

Não fique confuso e nem sequelado com essas mudanças, você vai se adaptar. Tudo bem que podemos ser sequestrados, e não temos mais nem o trema para negociação... Porém, a fauna agradece: ficou mais fácil se referir aos nossos amigos equinos e pinguins na escrita. Frequentemente, seremos perguntados sobre nosso tipo sanguineo, só para ter certeza de que não mudou. Aguente firme, pois as consequências da reforma são mais benéficas do que maléficas. (Falar do trema pode até parecer “enxer linguiça”, mas acho que é a principal mudança que sofre(re)mos.)

A ideia é boa: padronizar a escrita de todos os países da Língua Portuguesa. Por isso eu apoio, e assino embaixo. Não adianta ficar paranoico - se até as duas Coreias vão ter que se acostumar (um pouco) com a mudança, por que nós não? Vamos usar tipoias, encontrar mocreias, ser mordidos por jiboias, e picados por colmeias inteiras de abelhas! E não adianta tentar dar uma de herói para a plateia.

Alce voo (só tome cuidado para não sentir muito enjoo) na nova Reforma, que tudo começa a fazer sentido, tudo tem um porquê. Muitos creem que foi desnecessária, pois não veem que ela já facilitou, e muito, a nossa vida na hora de escrever. Mais fácil de se acostumar para aqueles que leem, então é bom começar.

Quando você para para pensar, a mudança mexe até nas raízes de nossa cultura. Coitado do Leoni, que agora se agarra pelos pelos...


P.S. - Proponho um desafio: peguem a primeira parte do conto que eu estou postando no outro blog e tentem encontrar todas as palavras alteradas para se adequar à nova regra. Uma dica: “pela pela” não foi erro de digitação.



Visitem Gio
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Aedo Cibernético: O Mestre-sala dos Mares - por Cacá

......Dentre as muitas formas de resistência às condições de vida e de trabalho da maioria da população brasileira, seja sob a monarquia, seja sob a república, uma revolta marcante foi a da vacina, em 1904, quando Oswaldo Cruz tentou imunizar a população do Rio contra a varíola e febre amarela. Sem aviso prévio, invasivamente e sem nenhuma campanha esclarecedora. Uma tentativa de erradicação e uma revolta contra a profilaxia.
.......A outra (1910) foi a dos marinheiros que ficou conhecida como a Revolta da Chibata, contra maus tratos aos tripulantes dos navios da marinha brasileira. O líder era o marinheiro João Cândido, também conhecido como Almirante Negro. Ameaçavam bombardear a cidade, se não fossem atendidos (a maioria era de negros).
.......Houve uma relativa vitória dos insurgentes, pois os castigos físicos foram abolidos um dia após a Proclamação da República mas foram restabelecidos no ano seguinte (1890):
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“Para as faltas leves, prisão a ferro na solitária, por um a cinco dias, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias, no mínimo; faltas graves, vinte e cinco chibatadas, no mínimo.”
(J. M. Carvalho, in Os Bestializados)
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.......Foram violentamente reprimidos e o governo não cumpriu a promessa de acabar com a situação, prendendo os líderes e enviando outros para a floresta amazônica. O Almirante Negro foi expulso da Marinha e internado como louco.

.......Vejam essa pérola de música para ilustrar esse momento histórico que o compositor João Bosco produziu.



O MESTRE-SALA DOS MARES
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas

Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então

Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias

Glória à farofa
à cachaça, às baleias

Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história não esquecemos jamais

Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas salve
Salve o navegante negro
Que tem por monumento as pedras pisadas do cais

Mas faz muito tempo
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*Na Antiguidade, como a escrita era pouco desenvolvida, o AEDO cantava as histórias que iam passando de geração para geração através da música. Depois, veio o seu assemelhado na Idade Média, que era o trovador. Hoje, juntado tudo isso com a tecnologia, criei o AEDO CIBERNÉTICO.
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Visitem Cacá
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Achei que Tinha Me Esquecido - por Duanny

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Nos encontramos novamente, pouco tempo se passou, por onde devemos começar? Parece que foi eterno. No meu coração, há memória do amor perfeito que você me deu.

Sim, eu me lembro.

Quando você está comigo me sinto livre, despreocupada, eu creio que voaremos acima dos demais, e isso traz lágrimas aos meus olhos.

Pensei por um momento ter te esquecido mas, para desespero do meu coração, você continua aí, intacto, me olhando como se estivesse perto de dar o bote, a qualquer momento.

Temos vivido nossos momentos altos e baixos. É, como a vida pode dar voltas tão rapidamente... em um instante parece ser tão bom reunir a sua alma e a sua mente... vamos achar a paz lá.

Eu só queria dizer oi novamente, deixar para trás o que já passou, queria mesmo poder ter esquecido, mas você continua aí.

No meu coração ainda há a memória do amor perfeito que você me deu.
Queria mesmo ter esquecido, mas, sim, ainda me lembro.



Visitem Duanny
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sombras - por Leo Santos

A sombra se locomove por lugares sombrios,
pois a claridade tem muita luz;
Barganha aquecer recantos sós e frios,
pelo combustível do vício, inglória cruz…

A noite sua aliada permanente,
noite que chega a cada dia;
Com seu véu oculta ao olhar dessa gente,
que um amor sem amor, a miséria propicia.

A luz não alcança onde a sombra habita,
não têm pois, nada em comum;
O que uma expõe, outra evita,
não coabitam em tempo algum.

Súditos da luz até cruzam recantos,
onde a outra estabelece seu reinado;
Desconfortáveis passos, no entanto,
que pressa em sair do outro lado!

Escolhem pelo instinto essas pessoas,
e as ocultas usufruem falsa paz;
Não porque as trevas sejam boas,
antes, porque suas obras são más.

O luminar veio, foi repelido,
a cruz mostrou o que o homem pensa;
Amor-próprio quando desmedido,
é a medida exata da indiferença.

Suas obras então, só escombros,
mas propaladas em alvoroço;
Não suportando uma cruz nos ombros,
penduram um simulacro no pescoço.



Visitem Leo Santos
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Sorte - por Cacá

Às vezes a pessoa é abençoada em um lance de sorte e continua contando apenas com ela (a sorte) para prosseguir seu caminho. Acho que é necessário usar o bom senso e abrir os olhos quando se depara com uma situação que chamamos de afortunada. Como diz o ditado, “o cavalo arreado costuma passar na porta de nossa casa somente uma vez”. Daí para frente precisa-se conduzir a sua rédea.



Comentário em O Que é Sorte?, de Ignoto Jardim.
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Visitem Cacá
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Eu Amo Livros... - por Escrevinhadora

Eu amo livros e leio assim: primeiro a contracapa (que já deve começar me conquistando) depois as orelhas, depois o prefácio (assim, devagarinho como quem vai desembrulhando um doce e experimentando um pedacinho) e só depois entro no livro mesmo. Às vezes, pra demorar um pouco mais, ainda leio os agradecimentos antes de começar a leitura de verdade.



Comentário em Meus Eternos Amores, de Ana.
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Chamado - por Leandro M. de Oliveira

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Te encontro às seis pra mudar o mundo. Se não der pode ser às sete ou às oito, avise com antecedência. Seus pais, assim como seus fantasmas, não dormem à noite, temo que fique muito tarde. De que adianta um triunfo se todos estão em suas camas. Esperaremos outro dia. Essas medidas artificiais de tempo. Os dias são como cartas de baralho, com naipes diferentes em mãos diversas, mas sempre servindo ao mesmo jogo sujo. O tempo em si é um artifício sujo, o cadáver pré-fabricado de si mesmo. Como quero transgredir! Como quero entender como se pode ter nostalgia por lembranças que às vezes nem são suas... O maio de 68, a primavera dos povos, minha habilidade em ser melhor nunca posta em prática. Sombras ruidosas, ecos do fundo. Gostaria de uma bebida ou uma noite de sono, ambas serviriam bem ao propósito de me entorpecer um pouco. E andamos mil léguas usando o sonho como um par de coturnos, aqui estamos, de volta à miséria que consome a cada um. Ela diz acreditar na ordem, do mesmo modo que todos os tiranos conhecidos, talvez só não tenha atinado para essa parte. As pessoas são boas ou indulgentes até que alcançam seus objetivos. Busco o natural que vem de dentro, antipatizo com as regras que vêm de fora. Pra que tanta euforia em dizer que o fascismo vale a pena? Se homens são como gado ou formigas, quero me matar com uma faca cega, não tolero isso. Entendo que a sua carência por um novo Hitler seja um sentimento urgente mas compreenda, seu sangue não é o dos escolhidos. Só porque Deus está morto, não queira exibir sua cabeça por mera vaidade. As balas e fuzis não têm consideração com quem os deseja. É mais fácil teorizar sobre o inferno quando nunca se esteve nele. É mais fácil matar que deixar viver. Droga! O óbvio sempre me embrulha a vida e o estômago. Quero o não trilhado. Odiar e amar, é como abrir os olhos ou ir ao banheiro. E se fosse tão simples a ponto de ser mentira? E se fosse tão acessível a ponto de ser engodo? Não há mais porque temer a luz ou a sombra. Aos que caminham pela senda tortuosa da descoberta do “EU” não deve haver espaço para outra companhia senão o da presença santa do nada sem termo. Esqueça as algemas e os cadáveres que te deram de presente, a libertação é uma experiência solitária. O templo só abre as portas aos que estão completamente nus diante dele. Mas você prefere fechar os olhos e vestir sua vergonha, levanta cedo pra ser adestrado como um cão. Ainda me lembro do canto dos ressentidos... Nas escolas ensinam algo como que o nosso modo de vida foi construído a partir de termos éticos e morais, que a religião e a política são o escudo e lança do homem de bem. Não obstante isso, a história do mundo ocidental (cristão) é construída por guerras, suplícios e martírios sem nenhum sentido. A política vai conduzida por tiranos e aspirantes aos mesmos, invariavelmente como abutres sobre o corpo decomposto do povo. Como falar em bem ou ética ou moral? A beleza dos sistemas é a tragédia dos que a ele são submetidos. Talvez a vida seja mesmo uma causa perdida. Talvez haja pó demais assentado por sobre os móveis. Pode não ser o melhor pensamento, mas é uma hipótese pedagógica. E a consciência da finitude do tempo e espaço de cada um faz o Sísifo que há no homem reclamar seu inútil papel de eternidade. A vontade de poder nos guia a cooptar a vida alheia pra que a nossa se nos pareça um pouco mais perene. Esse deve mesmo ser o segredo dos ratos que fazem barulho à noite no sótão. Acordai, homens! Acordai do sono de ontem, do medo de sempre...


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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Eu Não Vou Morrer Nunca - por Fatinha (Ao Querido Brógui)

Querido Brógui:

Hoje, dois anos após a morte do Tio Mário, comecei a desocupar de suas coisas o seu apartamento. Por que tanto tempo depois? Um misto de deixa-pra-depois com a sensação incômoda de estar mexendo naquilo que não me pertence. Decidi ir lá depois que sonhei com ele me dizendo que estava mesmo querendo falar comigo, que estava tudo bem e que ele já tinha falado com Deus.
Enquanto futucava seus objetos pessoais, fui conhecendo meu tio. É impressionante o quanto conseguimos saber acerca de uma pessoa por aquilo que esta reúne ao longo de sua existência terrena e, mais ainda, como os “aquilo” são organizados. Percebi que pouco sabia sobre ele e o quanto teria sido bom sabê-lo de outra forma que não essa. Temos tanto em comum como jamais imaginara.
Livros. Centenas de livros. Não sei se ele chegou a ler todos, acho que não, há algumas coleções de banca de jornal ainda dentro do plástico, mas ele os amava. Acho que comprava pelo prazer de tê-los, ainda que fossem repetidos, mesmo que não os lesse.
Há, no acervo, exemplares datados de antes do meu nascimento. Romances, livros de História, Filosofia, dezenas de dicionários, enciclopédias, livros sobre saúde, animais, Atlas, Direito (!). Foram dez caixas de livros. Duas de roupas. Dá o que pensar, não? Poucas roupas e muitos livros.
Descobri que meu tio aprendeu inglês com um dicionário e a coleção completa de Agatha Christie nessa língua. Também descobri que ele aprendeu a mexer em um computador antes de ele virar um eletrodoméstico, encontrei uma apostila da linguagem Cobol! Descobri que ele adorava matemática, palavras cruzadas, charadas, testes de inteligência, jogar na loteria.
Gostava de viajar. Nas suas gavetas desorganizadas, há poucas fotos e muitos cartões postais. Tem um monte de cartões postais do Vesúvio. Acho que ele se encantou com o vulcão. Tem roteiros de viagens, um monte folders de hotéis, até nota fiscal de um almoço em Foz do Iguaçu.
Li uma carta do Vovô Ricardo, datada de maio de 1945, enviada para a Itália em plena 2º Guerra. É, Tio Mário foi pracinha da FEB.
Achei um exemplar do livro que publiquei, cartões de inscrição de concursos públicos que ele fez (acabou passando), um Diário Oficial agradecendo pelos serviços prestados com eficiência ao Estado do Rio de Janeiro, um documento de nomeação para um cargo de chefia assinado por Carlos Lacerda (!), um diploma de honra ao mérito assinado por Chagas Freitas, meus convites de primeira comunhão, de quinze anos e de formatura. Todos (!) os contracheques dele estavam lá, naquela miscelânea de meias, revistas antigas, recortes de jornal, extratos de banco, cadeados sem chave e chaves sem porta…
O duro foi jogar coisas fora. Até que não foi muita coisa pro lixo não, apenas pilhas de revistas e jornais velhos, uns cacarecos tipo caneta que não escrevia, antena de televisão quebrada, mas mesmo assim me senti invadindo a privacidade dele, selecionando o que era ou não “viável”. Foi como se eu estivesse decidindo o que era ou não importante na sua vida. Em determinado momento pensei: daqui a quarenta anos meu sobrinho estará fazendo a mesma coisa, com a diferença de que achará tanto livros quanto roupas e sapatos. Vai dar mais trabalho.
Então é isso? É isso o que resta de uma vida? É assim que contamos nossa história? Coisinhas que guardamos nas gavetas e nas estantes? Acho que sim. Acho que não. Ainda restam as memórias que deixamos na cabeça dos outros, lembranças que não nos pertencem e por isso delas não dispomos (nem nossos herdeiros), registros que enfim também se apagarão quando os seus receptáculos se forem. Ou não. Eu tenho o Querido Brógui. Não vou morrer nunca.



Postado, originalmente, em 21/07/2008.
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