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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




sábado, 12 de setembro de 2009

Solilóquio Perdido - por Leandro M. de Oliveira

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A boca seca, a boca cospe, a boca amarga o fel do dia. As mãos têm sangue, as veias ferrugem, o escuro incerteza, o mundo tem um oco. Pude muitas coisas, e agora com meu medo e minha esclerose, não sei mais como ousá-las. Ela estava aqui, ela ainda continua aqui, como um cão ou uma árvore. Acordei cedo pra tomar o desjejum, fui moço à cozinha antiga, achei-me a deglutir um pão mofado, quis caminhar até a padaria mas, havia esquecido meus pés. Quem me roubou de mim? As horas consumidas na fuligem de um quadro desbotado significam o mesmo que não ser coisa alguma. Tenho pena do que tenho sido, vem a mim, quero vomitar o antigo e copular o novo. Se meus sonhos me causarem indigestão acaso haveria antiácidos para isso? Vou morrer, ou viver um dia mais, que importa? O mundo não deu importo a essa querela? A lavra dos anos perdidos, a lavra do caminho não trilhado. Tenho vergonha de tanta covardia, tenho uma indiferença miserável. Se eu tivesse uma arma guardaria em segredo, se eu tivesse flores deixaria que murchassem sem colhê-las. Ela violentou a si mesma, assim como desde sempre, o bode expiatório sou eu. Eternamente culpado, eternamente em exílio, quando verei as luzes de Roma outra vez? Não sei, nunca sei conjeturar ânsias tão íntimas. Perdi as certezas e o alforje, o caminho e a vontade, perdi tudo quanto aos homens é aprazível, e mal percebi acontecer. O dilema das prostitutas sifilíticas, a dor silente dos homossexuais sem teto, os judeus matando palestinos... O mundo prossegue em suas tragédias ancestrais. Eu obtuso, não dei conta disso. As geleiras antárticas, a rota invisível do sal, cordilheiras líquidas que separam homens e ideações. As caravanas terminam todas no fundo do meu pátio de marfim. A casa é repleta, as sombras abrigam por longas horas. Noite mudada em manhã sem sol, noite nesse país é um evento perene. Os ecos batem à porta, donde estão aqueles que aqui habitavam? Partiram pra longe, partiram pra sempre... Que queres nobre peregrino? Há mais não informo, também tenho andado exterior a mim.
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Sol, Meu Sol - por Poty

Ilumina esta escuridão que quer invadir...
Irradia o meu amanhecer...
Jorre teus raios sobre nós...
Sol, meu Sol.
Não me queime, mas o quero raiando o dia
Para com você navegar.
Vai, brilha e
Esquenta
Meu sol.
Aquece-me.



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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Estanho - por Kbçapoeta

Foram loucas paixões.
Beijos no retrato do almejado
Querendo deliciar-se no regaço do escolhido.
Súbito entorpecimento, uma noite de delírio.

Ósculo inocente, roubado.
Sua boca como grilhões,
Prende-me em seu calcanhar de Aquiles.
Paraíso do qual nunca teria voltado.

O inferno soa frio,
Gelado como seu beijo morno.
Sua mão, que não toca a minha.
Mão solitária na tarde de outono.

O criado-mudo é testemunha
Desse devaneio de palavras tensas.
No passado, você guardaria as rosas que lhe dei.
Mesmo depois de secas.



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Bi-Atriz - por Gio

(Paródia da música “Beatriz”, de Chico Buarque e Edu Lobo)

Olha,
Lá vem essa moça
Com o punho em riste
Me achando otário
Será que é pintura o sangue no nariz?
Se ela dança e vai pro beleléu
Se ela acredita que ganha, ou já quis
acreditar, e agora só reclama... Créu
Devia ir cuidar da sua vida

Olha,
Será que ela é louca?
É doida de pedra?
Parece loucura
cantar qual canário, e estar por um triz
Um desaforo, e estarás no céu
Ou no inferno, mastigando giz
Que já não escreve mais no seu papel
Por que não vai cuidar da sua vida?

Xiii, mais drama deprimente de atriz
Devia duelar com os pés no chão
Sua vida está sempre por um triz
Ah, você é um desastre, está na minha mão
Digo, é perigoso e muito infeliz

Olha,
Se acha uma estrela
Só conta mentira, mentira, mentira
Já virou comédia
(Feito cocaína na Amy, o nariz)
Logo, logo, vai despencar do céu
E os pagantes exigirão bis
Mas estarás fora, frita (como pastel)
Era melhor cuidar da sua vida...




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A Professora - por Adir Vieira

Essa noite sinto que sonhei. O estranho é que me lembrei do sonho, o que normalmente não acontece.
Não foi um sonho agradável e buscando razões para tê-lo sonhado, não as encontro.
Imaginem vocês que eu era ainda uma menina, de mais ou menos uns oito anos e me encontrava na sala de aula de uma escola pobre, daquelas que ficam em centro de terreno e todo o pátio ao redor é de terra batida.
Árvores imensas rodeiam o local e vejo que não são árvores frutíferas nem, tampouco, floridas. Galhos, muitos galhos verdes, muito verdes e firmes. Os troncos são da largura de um homem alto e forte e de um marrom que seria difícil qualquer pintor chegar ao tom.
Dentro da sala de aula, carteiras antigas, como no meu tempo de escola - aquelas que têm um fundo para a guarda dos objetos e têm acopladas em si a cadeira. São carteiras novas, sem sequer um arranhão e brilham como se tivessem sido há pouco enceradas.
Ocupo a terceira fileira e lá na frente uma mesa imensa, cujos pés são troncos de árvores, dispõe em cima uma pilha de livros igualmente grossos. São dicionários e livros de história geral.
A professora, uma senhorinha miúda, de óculos e cabelos amarrados em coque, é austera, como para convencer a todos os alunos que ali não estamos para brincadeiras.
Traz nas mãos uma régua comprida e a cada virada que os alunos dão na carteira, a agita na sua direção pedindo silêncio.
Ninguém ousa um movimento enquanto ela fala com sua voz rouca e seca.
Uma das meninas do meu lado se inquieta e começa a rir, não sei porquê. A professora que estava escrevendo no quadro-negro se volta para a turma e severamente atribui a mim a desordem, me fazendo levantar e ir ao seu encontro sob o olhar piedoso dos demais. Obriga-me a ficar de pé, com o rosto voltado para a parede, até a aula terminar.
Enquanto ali estou, fico ruminando uma raiva crescente e, num dado momento, saio correndo e fico no pátio, dando voltas e mais voltas em torno de uma das árvores.
Não sei o que isso significa, mais acordei ainda com aquela sensação de dissabor e bastante ofegante. Não foi à toa que lembrei do sonho. UFA!
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Varal - por Alba Vieira

No amplo quintal da casa, balançam ao vento roupas coloridas pregadas ao varal. E quem fica perto sente no rosto os respingos da água que são lançados pelas peças que ainda deixam escorrer a água do enxágue no chão depois de lavadas, umedecendo a grama que fica então mais verdinha. É coisa bonita de se ver.
Lavar roupas nas casas do interior ou nas zonas mais pobres da cidade é um prazer ainda hoje. Não existe o som monótono e barulhento das máquinas de lavar. O que se ouve são as vozes das mulheres entoando as suas cantigas de saudade e nostalgia pelo estímulo do contato com a água, enquanto ensaboam e esfregam as roupas nas beiras dos rios ou nos tanques das casas. São roupas que elas conhecem, das quais tratam com um desvelo especial. É uma reunião de mulheres onde a conversa corre solta ou são mães e filhas que desnudam as almas enquanto lidam com os afazeres domésticos. É um espaço pleno de aprendizados transmitidos oralmente. As roupas são lavadas em água abundante e colocadas para quarar, ficando mais claras, absorvendo a energia do sol. No pátio aberto, depois de enxaguadas, são espremidas deixando um pouco de umidade ainda. E quando sacudidas molham o chão e as moças que irão pendurá-las e sempre trazem os pregadores presos aos vestidos como broches.
É um ritual de liberdade. É um trabalho de renovação: lavar, retirar a sujeira, enxaguar, receber a energia do sol, secar ao vento, exibir as cores, deixar que dancem, alegremente, balançando presas ao varal. E depois de já secas vão ser recolhidas e encostadas aos peitos das mulheres, pertinho do coração delas, incorporando um quantum de emoção e afeto, tornando mais vivos e abençoados os que irão usá-las depois.



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Harriet Logan e as Pipas da Liberdade - por Esther Rogessi

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Harriet Logan... Um exemplo de mulher!
Espírito guerreiro, protegido por uma armadura aparentemente frágil – corpo feminino. De origem inglesa. Uma cidadã do céu!

Os confrontos entre o Taliban e as tropas nacionais e internacionais, os maus-tratos sofridos por seu povo e a submissão imposta às suas mulheres levaram a fotógrafa inglesa a infiltrar-se dentre elas, as mulheres de Cabul.

Disfarçada sob a burkha – vestimenta que encobre totalmente o corpo, deixando a mulher irreconhecível – , sob ela levava sua máquina fotográfica e assim entrava nos lares para entrevistar as mulheres... Desta forma se tornou possível mostrar ao mundo os horrores que o povo deste país sofreu – em particular suas mulheres –, durante o Regime Taliban, que se estendeu de setembro de 1996 a outubro de 2001.

Harriet Logan aceitou o convite da London Sunday Times Magazine, em dezembro de 1997, para colher imagens das mulheres afegãs, subjugadas pelo dito regime, há quinze meses.

Juntamente com um fotógrafo e intérprete, no trajeto de seis horas do Paquistão a Cabul, simplesmente por não ter coberto devidamente o corpo e ter deixado à mostra uma mecha de cabelo, os seus acompanhantes foram duramente espancados.

Os afegãos eram proibidos, dentre outras coisas, de rir em público, ouvir música ou empinar pipas e aos homens, era-lhes proibido cortar a barba. Às mulheres, além de se esconderem sob a burkha, não podiam estudar, trabalhar ou mesmo usar produtos de beleza.

Harriet colheu dezenas de depoimentos de mulheres – profissionais competentes – que foram obrigadas a abdicar de seus ofícios. Algumas delas, após os depoimentos, não mais foram encontradas. Entre tantos testemunhos de opressão, foram colhidos os de meninas que, impedidas de estudar, carregavam sob suas vestes livros e cadernos para estudarem com as corajosas mestras que se escondiam em seus lares e os transformava em salas de aulas... Tanto quanto em salas clandestinas de uma ONG de costura, cujas profissionais tinham sido presas por exercerem a profissão.

Harriet voltou a Cabul, após a partida do Taliban. Queria constatar a realidade atual. Não mais haveria subjugados...

Viu muitos aparelhos de TV, música no ar, risos, gargalhadas... E muitas pipas voando livremente. Porém as mulheres afegãs continuavam usando suas burkhas.

O Taliban se fora, porém, em cada homem, continuava o espírito opressor!
Alegaram que não estavam acostumados a ver suas mulheres com os corpos desnudos.

Resta-nos a alegria de sorrir, vendo o colorido das pipas no céu...



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No Século Vinte e Um... - por Ninguém Envolvente

Não tenho pena dos pandas estarem sumindo da face da Terra, são preguiçosos demais até para se reproduzirem, eles são uma vergonha para o mundo animal e nós estamos indo no mesmo caminho dos pandas. Duvida?
Primeiro veio o leite de caixinha, já fervido sem micróbios e prontinho para tomar; o que dizer do cubinho? O tempero em forma de cubinho, tão gracioso e saboroso, mas será que tem mesmo cebola e alho naquela porcaria oleosa? E as coisas light? Por que simplesmente não conseguimos comer menos? Talvez comer preencha o vazio e a angústia da espera pelo próximo brilhante invento prático e reciclável.
Há algo muito errado, as pessoas estão cegas, o que é isso? É carne enlatada, basta esquentar e rezar para não ter botulismo, mas é tão delicioso e cômodo que não deixamos de comer e quando terminar é só jogar no lixo e como num filme da Disney, a cozinha está limpa e nem uma única panela está suja. Exceto seu fígado, boiando e gritando em tanto óleo.
Espremer laranjas é muito complicado e ridículo, compre logo a caixinha longa vida já que ela é reciclável, compre refrigerante de cola já que você não precisa mais mastigar com tanta força, os alimentos já vêm praticamente digeridos em latinhas e pacotinhos, não tem problema se o refrigerante corroer seu dente e ele cair, você já se adaptou aos pastosos Pack.
O que fizeram com a água? Agora ela tem gás e gosto de limão! Qual o problema com a original, insípida e inodora? Por que aromatizar algo que já é perfeito e se basta? Mais uma porcaria, como se os Dolly® da vida já não bastassem, precisavam mexer na água, e agora estão pondo gás até no leite! O fim do mundo está a caminho...
Clique espere carregar... Imprima e rasgue logo, fiz o resumo da nossa vida miserável e catastrófica indo rumo ao nada progredindo para virar uma tonelada de obesos em meio a um chiqueiro de Pack e lixo eletrônico.
Quando você morrer, tem três escolhas: enterrar, cremar ou fazer diamante humano com o carbono do seu corpo e deixar de herança para seus netos, já que vão precisar de dinheiro para comprar água potável que não tenha sabor e seja própria ao consumo humano. Você não vai poder doar seus órgãos, vão estar feito lixo por conta de tanta porcaria que você ingeriu em seus anos de vida. Algumas coisas são recicláveis, você não.
“Volto logo... Vou ali recarregar a bateria do meu pulmão de plástico biodegradável”. Seria isso o diálogo do próximo século? Quem sabe...



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Vasco Pinto de Magalhães, Prioridades ou Emergências? - Citado por Penélope Charmosa

Há uma pergunta que me parece essencial: movo-me por prioridades ou por emergências? Isto é: ando a correr atrás de urgências, como tantas vezes nos acontece, ou sou capaz de parar e ver o que é prioritário ser feito? Ser “bombeiro” é simpático, mas será esse o meu papel no mundo, aquela missão que a mais ninguém pertence? Podemos ter que andar a “apagar fogos”, mas que o imediato não encubra o essencial e que o contributo específico de cada um não se perca.



In “Não Há Soluções, Há Caminhos”.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O Maníaco do Mictório - por Gio

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Intervalo. Chegando ao Centro de Convivência da faculdade, decido ir ao banheiro antes de comprar um lanche. Aparentemente vazio, entro em uma das cabines, fecho a porta e... Sinto alguma coisa ao botar a mão no bolso. Papel. Papel-moeda. 50 reais. Não é todo dia que se acha uma onça no bolso da calça, certo? Fui guardar o dinheiro na carteira, sorridente e certo de que aquilo era um sinal. Foi, mas não de sorte: era sinal de um dia incomum.

Depois de voltar da Lua e parar de imaginar o que fazer com o dinheiro não esperado, voltei ao meu objetivo inicial. Coloquei a mão no zíper da calça, mas parei imediatamente. Tinha a sensação de estar sendo observado. Resolvi olhar para cima: um careca de óculos estava apoiado na divisória dos banheiros, me olhando. Intrigado com a cena, perguntei “O que foi?”, no que ele prontamente respondeu me encarando “Que que é o que!?”.

Fiquei imaginando que tipo de substância ilícita o ser tinha ingerido, enquanto o encarava incrédulo. Quando ele desceu, fiquei alguns segundos processando a cena que tinha acabado de presenciar. Finalmente, achei que estava em paz, e fui novamente tentar abrir o zíper. Tu tens um celular pra me emprestar?

Era ele, de novo. Tive que fazer uma “manobra de recolhimento”, e a situação embaraçosa conseguiu alterar meus nervos. Não consegui responder nada àquele ser que não parecia fazer sentido algum. Saí do banheiro: ficaria para outra hora. Ao sair, vi um amigo meu e um desconhecido rindo de mim, e quando eu cheguei perto, indagaram: Ah, então tu foi atacado pelo maníaco do mictório?

Foi assim que eu conheci o “maníaco do mictório”, um dos personagens lendários da FURG. Seu nome eu não sei, mas sei que cursa História, pois está na aula de um amigo meu. Graças aos seus “ataques”, já foi indiciado, já levou surra de algumas turmas e já foi suspenso durante algum tempo. Ele para um pouco, mas logo continua com seus atentados.

O CC é a sua zona de caça: fica esperando na frente de um dos bares, e quando algum homem entra no banheiro, ele o segue. Logo, ouve-se alguém bufando, ou o barulho de alguém apanhando. Um colega meu fez ensino médio no mesmo colégio e ano que o maníaco, e alguém lhe perguntou se o dito era gay ou louco. Ele respondeu: “Os dois, e ainda não toma banho”.

Muitas histórias circulam a respeito dessa figura. Reza a lenda que alguém entrou em uma cabine e não fechou a porta: ele seguiu a pessoa, parou atrás dela, e baixou as calças. Outro estava usando o mictório, no que alguém chega para usar o mictório do lado. Ele levou alguns instantes para perceber que o “vizinho” não estava realmente usando o mictório – e mais uma fração de segundos para perceber que ele estava olhando... É, vocês sabem para onde.

Ultimamente ele anda parado, resolveu dar uma trégua. Ou cansou de apanhar, ou achou outro banheiro para azucrinar. Mas a fama segue, e a tensão de usar o banheiro no CC também. Se ele estiver por perto, nem pensar.
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Visitem Gio
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As Nossas Palavras XXVI - por Kbçapoeta

Outra vez o nada!
Chama que acende
Toda vez que a luz
Se perde.
Luz do sol apagada
Como a última vela da procissão
Esperar, esperar, esperar...



Visitem Kbçapoeta
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Espera - por Alba Vieira

Estou à deriva. Pensamentos invadem a minha mente e não se fixam. Não há obsessão que, pelo menos, direciona. Há um céu escuro e o mar bravio que joga a embarcação para onde quer. Não há bússola, não há farol, somente imensidão e vazio.
Quero ficar quieta, como quando temos medo de altura e ao atravessarmos uma ponte e nos darmos conta da altitude, nos abaixamos de cócoras no meio do seu trajeto e não há quem consiga nos arrastar dali. O encolhimento e a inércia parecem nos colocar a salvo. Mas, na verdade, é a morte prematura não experienciar o perigo.
Sei o que vem a caminho. Sei o que terei de enfrentar e a angústia da espera faz o fantasma ainda mais aterrorizante. Queria poder abreviar os dias e transpor essa dificuldade que toma grandes proporções por causa da expectativa.
Enquanto aguardo, parece que não consigo fazer nada direito. Os dias parecem nublados, o sol não consegue penetrar na minha alma, nem vem a chuva incessante para lavar de pranto as minhas dores e saudade. Estou alheia à vida. E afasto de minha mente o meu objeto de saudade. É como se relutasse em aceitar a dor da perda definitiva, pois que ultrapassado o tempo do luto, instala-se a ausência definitiva onde as lembranças rareiam e é como se a pessoa amada não mais nos acompanhasse no cotidiano, mesmo em recordação. É isso o que temo, é o que rejeito em aceitar e é o que será marcado com a exumação do corpo de minha mãe, quando se completar o terceiro ano de sua morte. Então terei que olhar para os seus ossos, os restos dos cabelos (que tantas vezes eu penteei e afaguei ao longo da minha vida), a ausência de carne, o reencontro com os despojos e também com a bonequinha que levou nas mãos quando partiu para a eternidade e que tem um significado simbólico tão importante para a família.
E ao olhar a morte de perto, o fim, bem diferente da simples saída do sopro do corpo que cedeu à doença, será impossível deixar de aceitar que ela se foi definitivamente como o ego que me acompanhou nessa vida e que tanto amei e agora é, paradoxalmente, só um espírito.
E assim, para quem a ama, sobreviverá como consciência apenas e lembranças.



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O Sexismo em Todas as Eras - por Esther Rogessi

De forma peculiar, John Stuart Mill (1806 -1873) fez notória a dificuldade que as mulheres encontrariam no tocante a fazer valer a própria emancipação. Isto devido à multiplicidade de condicionamentos a elas impostos. Mesmo diante de tantas vitórias, alguns destes ainda subsistem maquiados.

Ao longo do tempo, a mulher passou por vários tipos de opressão, em grupos sociais diversificados. No passado, subjugadas pela classe dominante – senhores de escravos – que as usavam e tinham sobre elas todos os direitos, acobertados pela lei, como se objetos fossem. Na realidade, “os homens,” sempre tiveram em si o sexismo, que tende a favorecer um sexo em detrimento de outro; que difere do machismo, por ser este um sentimento que denota ódio.
Podemos dizer, e exemplificar tal abominável conduta, usando o caso do Taliban contra as suas mulheres – mulheres de Cabul. Existia uma triplicidade de sentimentos contrários à mulher: o sexismo, o machismo e a misogenia, que é a aversão a tudo quanto seja feminino.

Como o homem sempre esteve – por si próprio – à frente da mulher, sendo ele a comandar, ditar leis e emendá-las, sempre com a visão voltada para o sexismo, tratou para que estas fossem educadas de forma a acatarem o subjugo de seus senhores. Hoje, não mais em senzalas fétidas, porém em senzalas d’ouro. Nestas, ora habitam escravas brancas e perfumadas.

As classes dominantes do passado mantinham um distanciamento dos seus dominados. A diferença hoje existente está nas prisões sem grades, no fato da classe dominante ser íntima do dominado.

Na verdade, onde nasceu ou qual a primeira atitude masculina sexista?
Qual a referência para tal atitude?
O livro da Lei? A Bíblia Sagrada?
Se desta, certamente interpretada, como não deixaria de ser, segundo a visão sexista.
Creio ser esta a direção para o homem temente e sabedor da existência de Deus. Independendo de crença religiosa. Dela, toda uma sociedade ordeira recebe e segue seus ensinamentos.
Está escrito: “E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só, far-lhe-ei uma adjutora, que esteja como que diante dele.” (Gn 2.18)

Como que diante, não é por trás, não é sob, e menos ainda, adiante ou à frente, porém, lado a lado: posição de igualdade. De onde, então, recebeu o homem a visão sexista de “ser sobre”, de subjugá-la, contrariando a Palavra de Deus, que diz: “Porque Deus não faz acepção de pessoas.”?

Bem sei eu que, teologicamente falando, o sentido hermenêutico do contexto bíblico, se refere a Eleição:“Pois o SENHOR, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno...” (Dt 10:17)
No Novo Testamento temos em Tiago 2:1,9: “Meus irmãos, não tenhais a fé em nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas... se, todavia, fazeis acepção de pessoas, cometeis pecado, sendo arguidos pela lei como transgressores.”

Há, em livros e epístolas bíblicas, situações que denotam o subjugo das mulheres, porém creio dever-se isto, não ao Deus incorruptível e justo, mas a sentimentos sexistas imbuídos em homens que traziam, em si, vestígios de dogmas existentes em suas raízes. Porém hoje, à luz do evangelho pleno, do amor verdadeiro de Cristo, da revelação do Cristo ressurreto, não podemos achar coerência na disparidade de pensamentos atribuídos por muitos ao caráter imutável e amável de Cristo.

Eras diferentes: senhores feudais, patriarcais... Caráter sexista, feras à solta! Cuidado!... Presas! Não fiquem... Não fiquem presas!



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Bruna Lombardi em “Dissonância” - Citada por Penélope Charmosa

Eu sei que seu país não é esse
talvez não seja nenhum outro
talvez não seja esse o planeta
talvez você não soubesse
pensasse ser diferente
quando o escolheu.
Quem sabe erraram o destino
quem sabe você errou sozinho
ou erraram seu feitio
te deram coração mole
e um peito fraco e franzino
e o medo te veio cedo
te veio ainda menino
e há muito você o carrega
como carrega as mãos.
E é assim mal acabado
mal cabendo em seu conteúdo
é assim tão sem espaço
se resumindo em tão pouco
que você enfrenta a luta
se nem te avisaram da guerra
que você enfrenta o tempo
que te controla e reserva
um corpo mais ressequido
um maior cansaço na espinha
um reflexo ainda mais lento
e uma grande aceitação.

É assim que você se protege
atrás dessa espécie de ausência
atrás desses olhos turvos
e dos livros de ficção.

E o jeito que você se esconde
dos seus próprios pensamentos
na comédia de cada dia
com seus olhos de todo dia
o seu heroísmo engolido
com a manteiga no pão.

E você ainda se assusta
com as coisas que acontecem
com seus sonhos remoídos.
Que adiantaram suas teorias
que importa outra guerra na guerra?
Meu Deus, o que estão fazendo...
se ao menos você pudesse...
Você e seu minúsculo destino
pequeno, patético, sentado
diante da televisão.

Alguém se enganou, é certo
certamente você mesmo
você e sua certeza tola
e esta apatia crônica
e esta odiosa obediência
e este não ver saída
nem entender como entrou.
Você e seus inúteis debates
frente ao espelho do banheiro
e o conflito entre sua conduta
e o que deveria ser.

Você chega a ser engraçado
com tanto peso e tão magro.



In “No Ritmo Dessa Festa”.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Ocaso - por Leo Santos

Cronos e Sophia, parceiros afins,
incidem sobre distintos aposentos;
enquanto o primeiro estraga o jardim,
a segunda adorna por dentro.

Adormecem os encantos de Afrodite
no leito daquele que dana o terreno;
hibernam pois, os ursos do apetite,
e a neve cobre o monte supremo.

Fraquejam as colunas do templo,
e os guardiões também a oscilar;
o pontífice instinto segue o exemplo,
e nada imola sobre o altar.

As musas arrumam o leito final,
onde há quem diga que a vida começa;
a chave gira o eterno portal,
e o trigo maduro ao celeiro ingressa.

Aí a sede se torna uma fonte,
manancial de exemplo que outros bebem;
Travessia serena no barco de Caronte,
aos Elísios, onde venturas recebem…



Visitem Leo Santos
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Ah!... Vaza! - por Ana

(Paródia da música “A Casa”, de Vinicius de Moraes)


Era um Monge muito engraçado...
Vivia implicando, o desgraçado.
Mas ninguém podia brigar com ele não,
Porque o Monge era um covardão!

Ninguém podia duelar na rede
Porque o Monge corria. Lede!
Ninguém podia dele divergir
Porque o Monge tinha piriri.

E era feito um quero-quero
A mendigar o um a zero.
Ouço-lhe os berros e nem me altero:
Já tá vencido. Eu digo. E é vero.



Resposta a Era uma Moça..., de Gio.
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Um Papo entre Adolescentes Velhos - por Adir Vieira

Ontem estava eu aguardando minha vez para ser atendida no banco e calmamente, como se fosse possível, estava de olhos e ouvidos atentos a tudo o que se passava a minha volta.
O banco em que tenho conta oferece aos correntistas aposentados cadeiras confortáveis, ar-condicionado e cafezinho até as 11 horas da manhã.
Todo esse conforto faz com que aqueles que esperam, enquanto o fazem, relaxem e não reclamem da morosidade com que os caixas e clientes idosos interagem.
Não demorou muito para que sentados atrás de mim, uma mulher de uns sessenta e poucos anos, com os cabelos mal pintados de um louro chamativo e trajando roupas joviais demais para sua idade, iniciasse uma conversa com um outro senhor, mais recatado à primeira vista.
A princípio, a conversa dos dois - ela falando num tom mais alto do que ele - discorria sobre banalidades, como temperatura do dia, má condição dos meios de transporte etc.
Não tardou para que a tal mulher começasse a contar a própria vida para o senhor desconhecido, mesclando cada frase com um tom sofrido de mulher abandonada pelo marido há vinte e sete anos e com um filho que, já adulto, não trabalha e lhe dá todas as dores de cabeça financeiras, as quais não pode arcar com sua parca aposentadoria de um salário mínimo.
O senhor rebatia suas queixas com frases aprendidas com sua mãe, que lhe ensinara que na vida as preocupações não valem de nada e que devíamos aproveitar a vida para tratar do corpo e da mente com exercícios ao ar livre. Gabava-se de a cada manhã percorrer mais de cinco quilômetros aos setenta e um anos.
Seu otimismo não colocava por terra o pessimismo de sua interlocutora.
Achando hilário tal papo, firmei meus sentidos naquela conversa.
O que mais me chamou a atenção foi o fato de que a mulher, como a se oferecer para o tal senhor, já não mais ouvia o que ele dizia, só fazia repetir frases com uma constância doida.
Dizia ela, sem esperar resposta:
- Todo dia digo para o meu filho: qualquer hora vou arranjar um coroa sacudido para me bancar!
- Mas o senhor não parece ter setenta e um anos, estou bege com sua afirmação!
- Sua pele é tão lisinha...
- Onde o senhor mora? Mora em casa ou apartamento? É grande? Sua aposentadoria dá para o senhor viver?
- O senhor é viúvo ou solteiro?
- Sabe que eu gostei do senhor?
Vi ali comportamentos adolescentes, tanto de um como de outro e, confesso, fiquei com medo.
Será que quanto mais nos aproximamos do fim, mais estamos retornando a nossa infância?
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Visitem Adir Vieira
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Calúnia - por Alba Vieira

Jorrar palavras
Só de maledicência...
Melhor calar-se!



Visitem Alba Vieira
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Resposta - por Ana

Minha querida Anônima,
Adorei o seu recado:
Foi uma surpresa total!
Absolutamente inesperado!

Você rimou perfeitamente,
Poesia de primeira linha,
Fiquei muito orgulhosa
De lê-la assim, tão lindinha!

De dentro da minha casca,
Eu, caracol, mando beijo,
Enquanto morro de saudade
Em cada letra que versejo.

Esta distância é por conta
Do que a vida determina,
Nem sempre dá pra escapar
Do que ela define, em surdina.

Mas cê está em meu pensamento,
Todos os dias, com certeza,
Eu te acompanho daqui,
Te desejando leveza,

A mesma força de sempre,
A mesma coragem, altivez,
Facilidades, bons dias,
Felicidades, sensatez.

E pra mim você será sempre
Aquela menina linda,
Diferente, decidida,
Aprendendo demais com a vida.

Mas não sou inalcançável:
Estenda a mão, eu te atendo,
Estou aqui pra isso mesmo,
Desde que por gente me entendo.

E esteja sempre iluminada
Por este sol que há em ti,
Para irradiar em seu mundo
O que em sua alma sorri.

Lembranças também vivem aqui
Impressas num porta-retratos,
Expostas em descanso de tela,
Enquanto o destino é ingrato.

Logo, logo as coisas mudam,
Nos veremos sempre, então.
Enquanto isso, eu reafirmo
Que te adoro de paixão

E que te quero todo o bem
Que alguém pode conseguir,
Que teu anjo da guarda te guie
Por onde você puder ir.

Que o seu chão seja firme,
Os seus passos, acertados,
Suas vontades, atendidas,
Seus desejos, realizados,

Seus esforços, nunca em vão,
Seus atos, iluminados,
Suas dúvidas, dissipadas,
Seus caminhos, abençoados.



Resposta a anA (ao contrário, pra ninguém saber), de Anônima.
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Alucinação de Você - por Duanny

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Sabe, eu sempre estive aqui, talvez você tenha até notado, mas seja sincero, prestou atenção?! Talvez eu não tenha te visto, mas vou dizer a verdade: não prestei atenção.
Você me parece tão inconveniente e tão perfeito ao mesmo tempo, será que isso é possível? Será que você não passa de mais uma alucinação minha? Criada por um desejo louco de me apaixonar mais uma vez?
Hoje tirei o dia pra pensar na vida e nas coisas que me rodeiam; sabe o que foi o mais engraçado? Só agora lembrei de você. Não que você seja desprezível, ou mais um, mas talvez não seja tudo o que eu sempre quis.
Acho que eu sou uma alucinação, um surto psicótico, aquela fantasia que fez a sua realidade ou talvez eu queira só me enganar. Hoje percebi que você é meu jogo de descobrir e explorar, então vem aqui, fica comigo e me deixa aproveitar essas alucinações, me deixa prestar atenção.
Quer mesmo saber? Devo ter realmente me apaixonado. Mas já faz um tempo e eu me esqueci de como fazer pra te contar.



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