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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




quarta-feira, 15 de julho de 2009

Tirando o Filtro da Censura - por Adir Vieira

Foi você quem quis assim.
Quando eu cheguei não quis ocupar o seu lugar.
Vim, sabe-se lá porquê, fazer parte da família.Não quis que esquecessem de você, não quis que te ignorassem (se é que fizeram isso, porque não acredito).
Não tenho culpa se minhas formas redondas e meu sorriso cativante tomaram conta de todos...
Se você fosse esperta, ia perceber que aquilo era sazonal, duraria enquanto eu fosse um bebê.
Mas acho que junto com o meu crescimento, meu amadurecimento, você, embora com atos velados, foi amargando o desprazer de conviver comigo.
Lembro agora que, para me fazer sofrer, você escolheu ressaltar as qualidades daquela que veio depois de mim para se aliar a você contra mim. Acho que não conseguiu.
Que pena!
Eu, a vida toda, tinha muito no que pensar, minha mente fantasiosa não dava espaço para perceber essa “luta constante” de você contra mim.
Por que, só agora, eu percebo tudo com clareza?
Será que agora, na velhice, eu gritei um basta?
Será que a falta de tempo para a compreensão, a aceitação e o disfarce me impulsionaram para enxergar tudo?
É, acho que foi isso! Hoje, caminho para o fim e, portanto, o meu umbigo é muito mais importante do que tudo. Se eu não me satisfizer hoje, quando o farei?
E tenho tanto ainda a realizar...
Por que tentar compreender, se não vou mudar mais nada...
Estranho... essa simples constatação me traz um grande alívio!
Que bom!



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Abandono - por Alba Vieira

Deitados sobre o chão duro da calçada
O casal compartilha sua intimidade
Com os transeuntes indo para o trabalho
Desconhecem o que seja privacidade
São íntimos somente nas privações

Abraçados ternamente sob cobertas maltrapilhas
Contrastam com a agressividade dos que neles quase tropeçam
Imundos, em andrajos, os corpos emagrecidos
Desfalecem mais pela fome que por cansaço

Nos arredores veem-se dejetos espalhados no meio do lixo
Empesteiam o ar trazendo à consciência miséria
Mas hoje acontece o inusitado
Àqueles que passam é impossível ignorar
O odor acre no ar não deixa dúvidas:
A desgraça da noite que passou na ilusão das drogas
Melenas denunciam que a vida se esvai em desesperança.



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terça-feira, 14 de julho de 2009

As Nossas Palavras XVIII

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Wordle: As Nossas Palavras XVIII
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Clique na imagem para ampliar.
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Imagem: Wordle
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Harold MacMillan em As Nossas Palavras XVII - Enviado por Adhemar

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Deveríamos usar o passado como trampolim e não como sofá.


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Mãe Será Sempre Mãe - por Adir Vieira

Hoje parei para pensar na importância eterna que uma mulher que tem filhos tem para o marido, o amante ou mesmo o namorado (como é tão comum nos dias de hoje), longe ou perto deles.
Observo pais de primeira viagem emocionados com a primeira experiência de ver aquele pequenino ser diante de si e parte deles mesmos.
Observo pais velhos que viveram repetidas experiências nesse sentido, orgulhosos das suas crias.
Percebo também que os homens que não têm filhos acham-se, nas atitudes, meio incompletos.
Vejo uma raiva incontida naqueles que não conseguem tentar outras experiências, porque amarrados que estão na mulher que não consegue fazer realizar o seu desejo, não podem ir em busca de ver uma parte de si nesse mundo.
Uma das coisas que mais me chama a atenção nesses homens que, favorecidos por alguma mulher (seja ou não ela o seu amor) colocam no mundo um outro indivíduo, é o respeito eterno que têm por elas.
Sentem-se magnificamente beneficiados por aquelas que emprestaram seu útero para a colheita do seu sêmen e transformação num novo ser.
Já que eles não podem parir, que pelo menos seja assim...
Pobres daquelas que, nessa encarnação, não se tornaram mães, fisicamente, porque nunca sentirão por parte do homem amado essa reverência...



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Pipas - por Alba Vieira

Sonhos de papel erguem-se...
Coloridos, esvoaçam a esmo,
Buscam o alto
Atados pelas linhas imaginárias
Do desejo dos meninos

Tremulam, bailam, voam...
Desenham formas audaciosas;
Mergulham na profundeza dos ares,
Misturam-se a outros no céu,
Competem pelo espaço livre

Pintam de cores vivas as tardes,
Motivam a algazarra dos moleques,
Permitem o exercício da liberdade,
Incitam às exibidas disputas
E, por fim, testemunham de cima avoadas frustrações.



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Tropa de Elite - por Ana

Bruno:

Vamos sentar nas mesinhas e tomar um chá quente com torta de avelã?

Acho que as críticas ao Capitão Nascimento se inserem numa polêmica importante sobre como abordar a violência (suas causas e consequências). Claro que ninguém chegou ainda a lugar nenhum em termos de solução efetiva, mas pensar sobre o assunto pode, pelo menos, fazer ver que a situação não é simples.
Mas acho que uma das principais questões colocadas pelo filme diz respeito à incoerência da classe média: as mesmas pessoas que reclamam da violência são as que a alimentam com seus hábitos ilegais. Para mim, este foi o ponto alto das denúncias embutidas no roteiro.

Mais teria a dizer, mas tenho que conversar com os outros também, neste domingo carioca frio e chuvoso.
Eu pago a conta... Afinal, o convite foi meu.
Um abraço.



Resposta a Tropa de Elite, de Bruno D’Almeida.
José Padilha

O Último Adeus - por Fatinha

Querido Brógui:

Nada como voltar à vida para eu recomeçar a falar besteira.
Vou começar pela mais recente, que é a morte da minha caixinha de som. Tô arrasada! Minha caixinha, contando apenas sete anos de uso, foi ao chão. Não, não foi de propósito não. Foi um acidente. Não costumo dirigir minha ira a coisas, prefiro fazê-lo contra os seres humanos, pelo menos eles podem se defender. Ela escorregou de seu pedestal quando eu tentava alcançar o telefone, que também foi ao chão. Esse último sobreviveu. Mais jovem, mais resistente…
Foi praga daquele Um, que cismou que eu tenho que comprar uma mais moderna, mais potente, mais isso e mais aquilo, inclusive mais cara. O cara adora gastar o meu dinheiro, ainda bem que não pede pra comprar nada pra ele, senão eu estava lascada.
Com muita dor no coração e no abdômen, me espremi entre a escrivaninha e a parede para pegar a pobre da caixinha, que jazia morta, de bandinha, fazendo um ruído esquisito (acho que caixas de som têm um jeito todo especial de dar o último suspiro). Fiz o resgate, mas ela não sobreviveu à queda. Seu botãozinho de liga e desliga ficou torto, qual um olho saltando da órbita e quando dei uma sacudida nela, percebi que algo havia quebrado. Danos internos, disse-me Bão.
Fui chorar no ombro do Carlo, que disse, todo sensível: “Joga essa merda fora!”, engrossando o coro do rogador de praga.
Ainda não comprei outra, vou ficar um tempo em silêncio, prestando minha última homenagem à minha companheira de tantos anos, a única parte do meu computador ainda não trocada por uma mais moderna.
É. A vida é assim mesmo: cheia de despedidas, cheia de saudades, cheia de sentimentos tolos por objetos inanimados.




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Fernando Pessoa e a Inação - Citado por Penélope Charmosa

A inação consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.



In “O Livro do Desassossego”.
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segunda-feira, 13 de julho de 2009

Seria Tão Bom... - por Adir Vieira

Seria bom se hoje ele não viesse.

Sinto que hoje quero dissociar-me de tudo e de todos e colocar o olhar atento apenas sobre mim, cuidando das minhas vontades e desejos pueris.
Seria tão bom se hoje ele não viesse...

Poderia esquecer horário, a preparação do ambiente, a escolha das roupas, o cuidado com os cabelos, o amansamento da fala e deixar correr o mundo, em volta de mim, como sou, sem a preocupação do agradar e do servir...
Seria tão bom se hoje ele não viesse...

Poderia sair por aí, a pé, esbarrando em qualquer tipo de pessoa, descobrindo seus anseios, o que fazem, como passam o dia...
Seria tão bom se hoje, apenas hoje, ele não viesse, para que eu pudesse sentir, genuinamente, como seria a vida sem ele...



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No Limite - por Alba Vieira

Há algumas semanas atrás, vimos níveis de violência crescentes com várias mortes no trânsito na cidade do Rio de Janeiro. Transporte escolar irregular com motorista demonstrando dificuldades para realizar seu trabalho e acontece um acidente com vários mortos e feridos em estado grave, por provável imprudência. Uma estudante de doze anos que tenta embarcar num ônibus comum e fica presa depois que o condutor do veículo arranca, acaba morrendo debaixo da roda traseira e quando o motorista percebe entra em crise e é hospitalizado.
Esses acontecimentos mexem com a emoção de todos nós que pensamos que poderíamos estar passando pelo que estão sofrendo esses pais que perderam seus filhos. E parece tão absurdo que essas coisas aconteçam! Muitos se revoltam, outros se deprimem, outros ainda se afastam das notícias na tentativa de fugir dessa dura realidade, talvez para se protegerem, já que a vida continua e as pessoas vão prosseguir trabalhando e precisando deixar seus filhos com outras pessoas em escolas, creches e transportes.
Seria fácil encontrar culpados e descarregar a raiva nessas pessoas; exigindo que respondam pela imprudência e sejam condenadas.
Mas isso é apenas uma parte do problema que se chama a hegemonia da impunidade. Acontece em vários segmentos da sociedade e já há grande mobilização para reverter este quadro.
Entretanto, essa visão maniqueísta é simples demais para algo que é muito mais complexo. Na verdade, a maioria das pessoas, hoje, trabalha no limite da irresponsabilidade, aguentando cada vez mais pressão por parte dos empregadores que alegam estarem pressionados também por dificuldades de várias ordens, vinculadas à crise econômica atual. Isso é real, mas não justifica e é usado como desculpa cada vez mais em nosso meio.
O fato é que tudo está correndo rápido demais, o nível de estresse é cada vez maior, com maiores exigências para todos.
Dessa forma, é fundamental que cada um de nós fique atento para determinar até que ponto poderá ceder às pressões. É necessário saber quando dizer que já chega e que a partir daí não dá pra continuar. Não se pode simplesmente contar com a sorte, imaginando que não vai acontecer nada. Todos os dias assistimos nas ruas, no trabalho, nas nossas próprias casas a situações de risco que se tornaram rotineiras e, ao invés de exigirmos que as falhas sejam corrigidas para que possamos viver com um mínimo de normalidade, estamos nos acostumando a estar cada vez mais no limite, vivendo perigosamente, na corda bamba.
A resposta para lidar com as crises que se apresentam a cada dia é aumentar a nossa atenção, é ter nossa consciência cada vez mais aguçada e desenvolver a responsabilidade por nossas escolhas de cada momento. Trazer a responsabilidade para si mesmo é a única saída, até porque, quando o pior acontece ficamos mesmo sozinhos, somos nós com a nossa consciência. E aí, não há consolo que conforte.



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De Orelha em Pé... - por Ana

O Duelos né mole, não!
Às vezes entendo é nada!
É como já disse antes:
Num dia flor, no outro pedrada!

Eu ando desconfiada
De que há algo errado comigo...
Recebo o que não espero
De quem considero amigo.

Agora sofri ameaça
De baita lesão corporal.
Fiquei pasma, boquiaberta,
Desacreditei total

Daquilo que estava lendo
Na caixinha da amizade
Em que se põe comentários
Embrulhados em bondade.

Mas tal de Gio, o gaúcho,
Gente!, pegou de surpresa!
Deixou um recado assim:
“Vou te dar tapa nas orelhas!”

Isso porque achou
Que eu me inferiorizei
Quando disse à Escrevinha
Que cozinhar eu não sei.

Talvez por ter dito também
Que meu dom pra versejar
É menor do que o dele
(Do Gio, poeta exemplar).

Pra que fui elogiar?
Pra que falar a verdade?
Levei tapa nas orêia
Sem a menor piedade!

Escrevinha, minha amiga!
Tu já me salvou uma vez!
Que recurso legal cabe
Contra o que o moço fez?

Sou uma donzela tão frágil
E pobre rabiscadora...
Eu não sei me defender...
Me socorre, Escrevinhadora!

Sou menos que um micróbio,
Menos que vírus, poeira,
Sou um nada, uma miséria,
Íon de pingo na cachoeira,

Sou um verme amarronzado,
Nojento, embaixo da terra;
Menos que pulga, carrapato,
Aquela que tenta e só erra.

Sou sombra na escuridão,
Lazarenta sem bandagem,
Valho menos que um cão,
Tão feia e sem maquiagem.

Sou apenas resto humano,
Burra, idiota e afins,
Com joanetes, verrugas,
Sou mesmo um troço ruim!

E eu não me inferiorizo,
Eu lido é com a verdade!
Tenho culpa de ser tudo isso?
Ter tanta dificuldade?

Aí vem um comentário
E eu fico a ver navio
De guerra, lá no horizonte,
Só porque fiz eloGio...



Resposta a comentário de Gio em Escrevinhadoce, de Ana.
Referências: Vaia para Ana, de Escrevinhadora;
Das Flores às Pedradas, de Ana;
Livre, Intrigada e Vingada, de Ana;
Escrevinhadoce, de Ana;
Resposta, de Escrevinhadora;
A Verdade a Ver Navios, de Gio.
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Nós Dois - por Daisy

O tempo leva tudo.
O tempo também trás tudo de volta
Na memória, na saudade.
Vamos fazer de conta
Que estamos em nossa ilha.
Aqueça-me ao luar,
Prove-me com seus beijos,
Toque-me até que eu trema.
Mostre-me como amá-lo,
Ensine-me como agradá-lo,
Perca-se dentro de mim.
E que nunca se acabe,
Que dure para sempre,
Como se não houvesse amanhã.
Aprendendo um com o outro,
Explorando um ao outro,
Envolva-me com seus braços.
Deixe-me saber que você me ama,
Você foi feito para amar-me,
Eu fui feita para amá-lo.




Visitem Daisy
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E Só Me Basta Querer? - por Duanny

Sabe quando estamos pensando na vida, no rumo em que queremos que ela tome? Muito bem... normalmente, quando me pego em um desses pensamentos, ele termina em uma única pergunta: ”O que eu quero?”
Muitos achariam fácil responder a esse pergunta, mas eu não. Quero tantas coisas, mas, ao mesmo tempo, não quero nenhuma.
Eu quero... uma amiga sem noção, sorvete de chocolate no inverno ou, quem sabe, um amor de verdade?
Quero ir sem saber como vou voltar, quero vomitar palavras sem me preocupar com quem vai ouvir ou ler.
Quero poder sentir o gosto da sua boca sem nenhum tipo de remorso.
Quero gritar e chorar por um beijo seu ou, quem sabe, um único olhar.
Quero me vestir do jeito que eu acordar, sem me preocupar com que os outros vão achar, afinal não há nada mais confortável do que meu pijama.
Quero sentir o cheiro do seu perfume em minhas roupas.
Quero um barraco no meio da rua.
Quero um amor de contos de fadas e, quem sabe, correr uma maratona de salto alto.
Quero gritar, para todos ouvirem, que nunca fui eu mesma, sim estou pronta para mudar, mas me esconder foi meu maior erro.
Quero poder finalmente olhar em seus olhos e perceber que tudo não passou de uma ilusão.



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Michel de Montaigne e a Motivação de Nossas Ações - Citado por Penélope Charmosa

Quem só é homem de bem porque os outros o ficarão a saber e porque o estimarão mais depois de o ficarem a saber, quem só quer agir bem na condição da sua virtude chegar ao conhecimento dos homens não é homem de quem possamos obter grandes serviços.
(...) Não é para alarde que a nossa alma deve desempenhar o seu papel; é dentro de nós, no íntimo, aonde outros olhos não chegam exceto os nossos: ali ela nos protege do temor da morte, das dores e mesmo da desonra; tranquiliza-nos contra a perda dos nossos filhos, dos nossos amigos e das nossas fortunas, e, quando a ocasião se apresenta, também nos conduz para os acasos da guerra. Não por algum proveito, mas pela honra da própria virtude (Cícero). Esse proveito é muito maior e muito mais digno de ser desejado e esperado do que as honras e a glória, que são apenas um julgamento favorável que fazem de nós.
É preciso selecionar de uma nação inteira uma dúzia de homens para julgar sobre uma jeira de terra; e entregamos o julgamento das nossas inclinações e das nossas ações - a matéria mais difícil e mais importante que existe - à voz do povo e da turba, mãe da ignorância, da injustiça e da inconstância. Será razoável fazer a vida de um sábio depender do julgamento dos insensatos?
O que é mais insensato, quando não te importas com os homens tomados individualmente, do que lhes dares importância quando estão juntos? (Cícero). Quem visa a agradar-lhes nunca o consegue; esse é um alvo que não tem forma nem solidez. Nada mais sem valor que as opiniões da multidão (Tito Lívio). Demétrio dizia, zombeteiramente, sobre a voz do povo, que não levava mais em consideração a que lhe saía por cima do que a que lhe saía por baixo. Aquele outro diz ainda mais: Quanto a mim, considero que uma coisa, mesmo quando não é torpe, passa a sê-lo quando é louvada pela multidão (Cícero).



In “Ensaios”.
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domingo, 12 de julho de 2009

A Revolta do Pão de Queijo - por Bruno D’Almeida

O casal mineiro, em plena primeira viagem de namoro, foi barrado na saída do hotel em Gramado com dois pães de queijo na mão. Eles não podiam ficar para a belíssima ceia matinal, pois estavam atrasados para um passeio pelas cidades das serras gaúchas. Diante de compotas de doces de leite, de goiaba, guloseimas de chocolate, suco de uva Isabel, bolos e tortas caseiras, frutas macias, frescas e doces, cestas de todos os pães possíveis e imaginários, eles não podiam levar um pão de queijo.

Depois de uma argumentação amigável, uma discussão controlada e vários xingamentos inomináveis, deu-se naquele lugar a maior revolução desde que os farrapos se voltaram contra o poder do Império. A bela mocinha disse que aquele trem não ia ficar barato, e quando voltassem do passeio de trem em Bento Gonçalves, o dono do hotel ia ver com quantos pães de queijos se faz uma Maria Fumaça. O gerente devolveu um bá, guria, deu pra ti, e eles saíram revoltados sem ao menos saber o que aquela expressão regional significava.

Entraram indignados na van que os conduziria ao passeio. Nem todo o glamour das ruas perfeitas de Gramado e seu Festival de Cinema com estrelas do Brasil e do mundo, nem a arquitetura colonial alemã imponente de Canela, nem o frescor do vento matinal de Nova Petrópolis, nada os animava. As belíssimas peças de inox na maravilhosa fábrica de artefatos domésticos de Carlos Ribeiro eram uma monotonia. As provas de queijos e vinhos se tornaram entediantes. O passeio no Maria Fumaça não teve a menor graça. Era um paradoxo: enquanto todos ao redor estavam felizes e admirados com tudo, um casal recolhido a uma tristeza inquebrantável formava uma imagem fosca daquele belo quadro.

Bastou um ato de desrespeito e de descortesia para mudar a percepção de todas as coisas. A maior revolução que podemos nos permitir é a mudança do olhar. Um mundo de magia pode se transformar no pior dos porões das almas castigadas de qualquer inferno imaginário. Findado o passeio, o casal pôs em prática o plano que arquitetaram durante todo o dia.

Foram a Câmara Municipal, à rádio e ao jornal. Cada pessoa que encontravam no saguão do hotel era informada da barbaridade que tinham passado. Almoçando, passeando, a todo o momento contavam o acontecido. Passaram a acordar mais cedo para participarem do café da manhã do início ao fim para relatar a quem quer que fosse o direito augusto de um mineiro comer seu pão de queijo.

A confusão chegou aos ouvidos do prefeito da cidade. De maneira diplomática e evidentemente política, foi se retratar publicamente ao casal na frente do hotel e na presença da comunidade local gramadense. Disse que a razão de existir do povo gaúcho daquela região era tratar bem cada turista. Que eles tinham razão na sua revolta e que um acontecimento isolado não podia macular toda a grandeza de um povo. Ao lado do dono do hotel, que perdera quase metade dos hóspedes em dois dias de confusão, pediram perdão pelo ocorrido, dando ao casal passagem e hospedagem uma vez por verão pelo período de dez anos.

Voltaram para casa de alma lavada, travestidos do espírito de luta dos mártires da Inconfidência Mineira. Tomando um chimarrão no fim da tarde, souvenir comprado na viagem, os nossos ferrenhos defensores dos direitos do consumidor estampavam um sorriso no rosto maior do que qualquer trem bão que você possa imaginar.



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Duelando Manchetes IV: Violência Contra Crianças - por Ana

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O MAL NA VIDA

Se eu fosse um cão
Não ia querer teu pão
Numa tigela fedida
Num canto do teu porão.

Não ia querer tua acolhida,
Nem teus restos de comida,
Nem tua “boa vontade”,
Nem tua vida fedida.

Não queria tua amizade,
Nem tua dificuldade.
Dos teus afagos sutis
Eu não teria vontade,

Porque teus gestos febris
São tentativas senis
De esconder o abismo
De teus desejos sutis.

Estou farta do teu egoísmo,
Conviver com teu sadismo,
Náufraga só nesta ilha
Formada de escarpas e abismo.

Não seria cão com presilha.
E sinto que Deus me humilha
Me jogando neste porão
Em que, por desgraça, sou tua filha.



Inspirado no verso “Se eu fosse um cão”, do post O Sal da Vida, de Leandro M. de Oliveira.
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Luvas, P’ra Que Te Quero - por Adir Vieira

Abro uma de minhas gavetas. Aquela que guarda as relíquias, como cartões de amigos, santinhos, grampos de cabelo com strass, enfim, pequenas miudezas que só vem à tona, uma ou duas vezes por ano, em época de faxina geral. Sem querer, dou de cara com um par de luvas brancas de renda vazada, com um botãozinho de pérola próprio para o abotoamento no pulso.
Num piscar de olhos, volto no tempo e vejo-me ao vivo e a cores, com nove anos de idade, no teatrinho da escola pública. Meus cabelos encaracolados e compridos, faziam uma moldura para o rosto rosado e redondo. Eu representava uma daminha e entrava num salão finamente decorado, dirigindo-me a uma senhora à moda antiga, sentada num divã e dizia: - Boa noite, Dona Gertrudes. Essas eram as únicas palavras ditas por mim; e como levei tempo para decorá-las no tom desejado pela instrutora!
Lembro-me dos dias anteriores ao espetáculo e revejo minha mãe preocupada em arranjar vestido, chapéu e as tais luvas. Vejo-me experimentando o traje e ensaiando todas as tardes na mesa da cozinha:
- Boa noite, Dona Gertrudes!
- Boa noite, Dona Gertrudes!
- Boa noite, Dona Gertrudes!
Num piscar de olhos vejo mãe, pai e irmãos menores na plateia do pequeno teatro, com os olhos fixos na cortina e o sorriso nervoso de todos quando terminei minha apresentação.
E aí eu pergunto: luvas p’ra que te quero? Ao tempo em que respondo – para, no futuro, lembrar novamente desse doce momento da minha vida.



Visitem Adir Vieira
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O Imaginário - por Alba Vieira

A realidade está vinculada ao ponto de vista do observador. Apreendemos o mundo, neste nosso estágio de evolução, utilizando, principalmente, os cinco sentidos: visão, audição, olfato, gustação e tato.
Tudo o que acontece no mundo acontece primeiro na nossa mente. Einstein disse que a imaginação é mais importante que o conhecimento.
Nós atribuímos significados às imagens segundo nossos condicionamentos. Se a forma como olhamos algo nos prejudica, temos a capacidade de mudar isso a qualquer momento, já que somos nós que enterramos, no nosso inconsciente, estímulos desagradáveis. Ao olharmos a realidade por outro ângulo ela será modificada. Podemos fazer a escolha de sair do casulo condicionado. Isso é transformação.
Cada um de nós apresenta um sistema sensorial que é mais relevante na percepção do meio externo: visual, auditivo ou cinestésico, segundo a utilização na PNL (programação neurolinguística).
Sobretudo para aqueles que são mais visuais na sua forma de apreensão da realidade, o treinamento com imagens é enriquecedor. Mas, também para aqueles que “ouvem” ou “sentem”, predominantemente, o mundo que os cerca, é importante esse trabalho.
A observação de pinturas abstratas pode ser uma forma de treinamento na esfera visual, para desenvolver a capacidade de olhar por outro ângulo. Um novo olhar para determinada experiência ou ver o outro de nova perspectiva ou ainda nos vermos de uma forma diferente é transformador, muda o nosso estado.
Ao pintar um quadro, o artista coloca na tela uma visão de algo segundo seu ponto de vista, como o impressionou aquilo que tenta expressar. Pode ser algo concreto: uma paisagem, um objeto, um ser vivo ou algo abstrato. Utilizando as tintas, compõe as imagens de acordo com o seu mundo interior.
Pintar é terapêutico porque é expressão, é linguagem, permite extravasar.
O que percebemos ao olhar uma pintura é totalmente individual e um mesmo quadro poderá simbolizar algo diverso em momentos diferentes da vida do observador.
Constitui um exercício interessante olhar uma pintura e escrever sobre o que ela representa num determinado momento e reolhá-la outras vezes, sentindo como muda a perspectiva, tornando-se possível enxergar outras coisas na mesma tela. A escolha do que vê pertence sempre ao observador. É como na vida, em que escolhemos a forma como recebemos cada pessoa, acontecimento; como percebemos cada fragmento da realidade.
Trabalhando com o imaginário, podemos desenvolver a capacidade de transformação, isto é, alterar o nosso estado diante de qualquer experiência. Estar bem ou mal só depende de nós mesmos, de como vemos o mundo. Podemos, em qualquer momento, ressignificá-lo, promovendo transformação em nossa vida.



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Will Durant e a Felicidade - Citado por Penélope Charmosa

Felicidade é a plena expansão dos instintos - e isso confunde-se com mocidade. Para a maioria dos homens, é o único período da vida em que realmente vivemos; depois dos quarenta anos tudo são reminiscências, cinzas do que já foi chama. A tragédia da vida está em que só nos vem a sabedoria quando a mocidade se afasta.
A saúde está na ação e portanto a saúde enfeita a mocidade. Ocupar-se sem parar é o segredo da graça e metade do segredo do contentamento. Não peças aos deuses riquezas - e sim coisas para fazer.
Na Utopia, disse Thoreau, cada criatura construirá a sua própria casa - e o canto brotará espontâneo do coração do homem, como brota do pássaro que constrói o ninho. Mas se não podemos construir a nossa casa, podemos, pelo menos, andar, pular, saltar, correr - velho é quem apenas assiste a isso. Brinquemos é tão bom como rezemos - e de resultados mais seguros. Por isso a mocidade tem muita razão em preferir os campos desportivos às salas de aula - e em colocar o futebol acima da filosofia.



In “Filosofia da Vida”.
Henry Thoreau