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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
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terça-feira, 2 de junho de 2009

Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Ana

Comentar esta indicação é muito especial para mim. Mas, antes, devo dizer que adoro esta categoria porque me permite expor, mais diretamente aos autores, o impacto de suas palavras quando as leio.
Ao me deparar com esta poesia, já conhecia alguma coisa do Leo aqui do Duelos e sabia que ele era genial no domínio da linguagem. Então, um dia, alguém postou algo sobre reencarnação (certamente deve ter sido a Alba... rsrs) e, logo em seguida, surgiu esta brilhante resposta (boa às pampas... rsrs).
O Leo é magnífico na escrita, impecável, lê-lo é estar em contato com a perfeição das letras, mas esta criação foi além.
Nesta minha vida de alguns razoáveis anos tive muitas oportunidades de discutir e assistir a debates sobre este tema, estando na arena as mais variadas crenças, inteligências e conhecimentos. Nunca, em nenhum destes colóquios, estive diante de argumento tão absolutamente perfeito e exponencialmente desafiador (refiro-me à 8a estrofe). Ao ler, parei e pensei por muito tempo... penso nisto até hoje. Na época, comentei que iria responder, mas ainda não consegui tempo para organizar como, exatamente, escreverei. Mas que virá, virá...
De lá pra cá li muito mais coisas do Leo (aqui e no seu blog), mas esta poesia é, para mim, além de emblemática por motivo intelectual, uma das mais perfeitas (é possível isto?) por sua abrangência (como é comum em suas obras, além de ser admirável com a forma de lidar com a linguagem, ele nos faz viajar pelo mundo da filosofia, da percepção das motivações alheias, da lógica inquestionável) e pelo final parnasiano, que é coisa que amo!
Obrigada, Leo, por esta pérola!



REENCARNAÇÃO
(LEO SANTOS)
Sei que mexer em afetos
Fere aos pais do rebento;
Mas quando quebra a vidraça
O amor, espera, da justiça o assento.

Isso posto viso expor
Outra arena, mais que isso;
Que mesmo sendo o afeto real,
ainda pode ser enfermiço.

Não carecem vários casulos
Pra uma borboleta apenas,
Inda que postulado por Sócrates,
O mais sábio de Atenas.

Muito certo versou coisas,
Que até hoje certo está;
Mas, ler o espírito é complexo,
A lupa natural não dá.

Se um fantasma trouxe carmas
Que eu tenho que pagar,
Fico impotente ante armas
Que não posso enfrentar.

E se um pode quitar por outro,
Em nome, talvez, do amor,
Que sucedeu em Jerusalém,
Que terá feito o Salvador?

Me perdoem os que creem,
Não os quero ofender;
Só não vejo como veem
E creio que posso dizer:

Se sofrer é pagar contas
E mandamento o amor,
Quem ama e socorre não afronta
O direito a pagar, do sofredor?

Inda que degeneremos na queda
Por méritos do próprio punho,
Não somos progresso de ameba:
O Eterno não faz rascunho.
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Visitem Leo Santos
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O Carrapato - por Alba Vieira

Acordou ainda meio sonado e começou a se coçar.
Coça, coça, não consegue ficar quieto num lugar.
Rodopia pela sala, corre pro quarto também.
Não alcança, não descobre de onde o incômodo vem.
Nunca antes sentira aquilo. Era coisa de endoidar!
Como podia o coitadinho voltar a se aquietar?
É que fato como este não cabia no seu mundo.
Afinal era de estirpe e não um cão vagabundo.

Coça, coça, ele pulava, não parava de rodar.
Procurava no seu pelo, pelo que o ousava perturbar.
Lambia debaixo das patas, roçava o focinho no dorso.
Eis que de uma só investida expulsa o criminoso.
Diante de todos no pátio finalmente se liberta.
Jamais se deixaria sugar, explorar ou sofrer incertas.
Era cachorro de madame, acostumado a bons tratos.
Como admitir permanecer morada de um carrapato?



Visitem Alba Vieira
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Da Charada I - por Ana

Mandei pra cá uma charada
Anteontem bem cedinho
Elaborada com esmero,
Rimada com muito carinho.

Apareceram respostas...
Quero aqui agradecer
Àqueles que se dispuseram
A nos comentários escrever.

Então deixo aqui a vocês
O que inspirou a questão,
Mas digo: de certa forma,
Não chamaria solução.

Pra Escrevinhadora e Eu
A morte era a verdade,
Já a nossa amiga Alba
Arriscou maturidade.

Gio pensou na primeira
Assim que leu, prontamente,
Mas concordou com a segunda
E está a esperar o assente.

Sim, pode ser a morte,
Pois nela os versos se encaixam,
Mas pensei em maturidade
Quando fiz. O que cês acham?

De forma que a charada,
Apesar de concebida
Com base em maturidade,
Não descarta a ceifa-vida.

Foi por isso que eu disse
Que é solução não sendo,
Pois podem surgir outras coisas
Conforme o povo for lendo...

A criação é assim:
A verdade é de ninguém,
Nem mesmo do próprio autor
Depois que outros olhos veem.



Resposta de Charada I, de Ana.
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Compactuar - por Raquel Aiuendi e Tiago Conrado

Coisas compactas:
Sabe o que é isso?
Não, falei só porque
Lembrei da palavra, é isso!
E isso pode ser tão pouco!
Mas pode ser muito.
Mas isso é o que vei no coco
Enquanto as canetas tagarelam
O mundo à nossa volta silencia
Enquanto todos silenciam,
Todos tagarelam
Seus sonhos revelam
Mais que palavras e seus roncos
Brincam com as palavras
Como ruídos do bicho:
De sete cabeças
Aquele que no sonho,
Num grande ato de coragem,
Foi morto por mim
E enterrado no quintal
Da porca sociedade
Que pisa e ainda cospe em cima
Sem ter a mínima ideia
Do que teria acontecido
Na manhã seguinte ter amanhecido
Depois da ressaca
Acordei desiludido
Ao ver que tudo não passara
de um simples sonho
que me deixaria livre
dos problemas das coisas compactas
ah! E a puta dor de cabeça
pra incomodar
por causa das porradas delas
no meu coco
e assim continuo vivendo de sonhos
rezando para que sejam realidade.
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Imaginação - por Alba Vieira

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A imaginação é o vínculo mais íntimo com a alma.
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Visitem Alba Vieira
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segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Autora de Maio

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PARABÉNS, VESTIVERMELHO!
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Wordle: Autor do Mês de Maio
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Clique na imagem para ampliar.
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Imagem: Wordle
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Coquinho no Arraial - por Ana

Eu recebi um convite
Pro Duelos’ Arraiá.
Eu fiquei maravilhada!
Mal conseguia esperar!

Seria a maior festança
Repleta de barraquinhas
(121, ao todo),
Concurso de Sinhazinha

(Ou então de Delegado),
Cadeia, música ao vivo,
Capela, litercafé,
Fogueira e desafios.

Chegado o grande dia,
Me arrumei, toda apressada,
Coloquei foi qualquer roupa,
De tanto que estava animada.

Nem pensei em me pintar,
Me esmerar no visual,
Só pensava em diversão
E encontrar com o pessoal.



A festa estava linda!
Diversidade sem par!
Barracas de todo Brasil
E também de Além-mar!

Havia trem colorido
Com maçãs em seda azul,
Guloseimas do Amapá
Ao Rio Grande do Sul.

Bolo inglês, de cogumelo,
Bolo-pudim e café,
Cookies, tortas, pão de queijo,
Pra família, picolé.

Vinha, da Terra do Nunca,
Chá quente com pedra de gelo.
Trouxeram garrafa de rum
(Bebiam pra ter argumento).

Barraquinha dos mais velhos:
Comida pastosa, sopinha,
Água mineral, café com leite,
Só dieta bem levinha.

Délicatesse: chá, biscoito,
Bala de coco, sorvete de limão...
Cheguei a ver pires finíssimos
Com flores pintadas à mão.

Na barraca natureba:
Berinjela refogada,
Alface, chuchu e vagem,
Várias frutas em cascata,

Muitas saladas cruas,
Macaxeira, água de coco,
Arroz branco ou com tomate,
Coisas pra quem come pouco.

Do Nordeste: feijoada,
Muita carne de fumeiro,
Tinha pirão de aipim
E até feijão tropeiro...

E cenoura com dendê,
Angu com lauta rabada,
Ensopado de jiló...
Gente... Sobrou foi nada!

Do Sudeste: strogonoff,
Suflê e carne ensopada,
Frango à parmegiana,
Linguiça frita, cachaça,

Farofa com ameixas secas,
Muito alho, sal, pimenta
Nos galetos temperados
Que nem todo mundo aguenta.

Maionese com presunto,
Mocotó, macarronada,
Camarão na moranga, rosbife,
Deliciosas empadas,

Três espécies de salsichas:
De frango, peru e porco,
Batata frita à vontade...
O povo aqui ficou louco!

Do Sul: almoços, jantares,
Churrasco ao ar livre, mesinhas,
Cerveja, salada russa,
Barris de chopp, farinha

E pão com alho na brasa,
Tinha coisa de montão!
Muito arroz de carreteiro,
Alguém tomando chimarrão...

Ainda havia a barraca
Que era só de sanduíche:
Mostarda, pimenta, ketchup,
Queijo, presunto e aliche;

Patês, os mais variados,
Na carne, no frango ou no peixe,
Muita maionese Hellman’s
No hambúrguer ou cachorro-quente.

Eram baitas sanduíches!
Deliciosos! Very good!
Pães altos, fofos, clarinhos...
Pros adeptos do fast food.

O buffet tinha refrescos,
Refrigerantes de cola,
Diversos fondants ornados
Com florezinhas cor-de-rosa,

Champagne, lindos pães doces
Recheados com aneizinhos,
Bacalhau e bacafá,
Chocolate bem quentinho.

Numa barraca extravagante
Peixe inédito-gororoba,
Lacraia e escorpião no palito,
Locusta para quem gosta.

Tinha gente vomitando,
Com marmita quem não é bobo,
Gente a viver de luz,
Gente com biscoito Globo.

Menino a mascar chiclé,
Um outro roía madeira...
Gente com sushi na bolsa...
Pedinte na maior choradeira...



De repente anunciaram
O resultado da votação.
Vencedora: Sinhazinha!
Não foi Delegado, não!

Daí então me toquei
Que eu estava concorrendo,
Mas nem me lembrava disso...
Só conversando e comendo...

Comentei com o pessoal
Que estava decepcionada
Com meu imenso descuido:
Não fiz propaganda nem nada...

Então apareceu, de repente,
Um moleque tri-abusado,
Chegou para mim e falou:
“Tô sabendo do babado!

Também, presta só atenção:
Sinhazinha é pra quem pode!
Você vem com este vestido
Cor de burro quando foge...”

Ouvindo estas palavras
Dei coquinho no fedelho,
Mas tinha razão, o pestinha:
Por que não vestivermelho?




Referências: “Coquinho no Matagal”, de Bruno D’Almeida;
todas as citações gastronômicas e relacionadas a festa junina no Duelos (posts, comentários e chat);
resultado da votação do melhor autor da 1ª quinzena de maio.
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Refletindo - As Nossas Poesias XVI

Lagoa tranquila refletindo meu rosto,
Como um Narciso às avessas
Não vejo indescritível beleza,
A minha figura só me traz desgosto.

A imagem que ondula nas águas me acusa,
A feiúra é minha alma refletida,
Triste, opaca, arrependida,
Espelho de uma vida confusa.

Errante, fugindo de tudo,
Incapaz de enxergar a beleza do mundo,
Incapaz de entregar-me a um sentimento profundo,
Vivo um destino infecundo,

Fruto de escolhas incertas
Guiadas por meus temores,
Reféns de meus vãos amores,
Vítimas de rígidas metas.

O rosto que a água reflete
E o tempo que já passou
Mostram a mim o que sou,
E o que sinto me perverte.

Sinto asco de mim mesmo,
Culpa descomunal
Ao ver a água matinal
Refletir a vida a esmo.



Poesia criada por Alba Vieira, Clarice A., Ana, Gio, Escrevinhadora, Aaron Caronte Badiz e Anônimo.
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Entardecer - por Alba Vieira

Cai o véu da noite devagar...
Todo o burburinho do dia se cala.
O corpo cansado busca aconchego,
O olhar se dirige agora para dentro.

Cai em si o que procura...
Já não há como escapar do incômodo.
Está frente a frente com a verdade,
O seu estado depende apenas de si mesmo.

O entardecer é a consciência...
Nenhum brilho de fora disfarça a escuridão.
Ou existe luz e a tarde é acolhedora,
Ou nos resta iluminar nosso porão.



Poesia cujos título e primeiro verso foram utilizados para a versão coletiva Entardecer - As Nossas Poesias XV.
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Visitem Alba Vieira
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Charada - por Eu

A vida é uma charada eterna a ser desvendada.
Momentos e caminhos.
Encontros e espinhos.
Pessoas e amores.
Tudo... absolutamente tudo.
Uma imensa e infindável
“Charada”.




Visitem Eu
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Tarde de Domingo - por Gio

Outono, o vento sopra devagar
Ou todo o mundo, abrupto, sacode?
Quem sabe a diferença? E quem pode?
Quisera eu saber de tudo isso!
Cantando, eu sigo, sem compromisso
Contando as andorinhas a voar

Mas hoje tudo cheira a calmaria
Matinê, os mesmos filmes de anteontem
Charada, cujo final não me contem!
Chá-mate, um passeio pela praça
Amigos com que a gente se embaraça
Amores que fazem valer o dia

Tarde em tons pastéis, melancolia
Tudo muda a cor e fica triste
A brisa; e então o sol, que logo insiste
Abrir sorrisos por onde passar
Desejo inesperado em ver o mar
Desenhos que uma criança faria

O tempo passa, e dele eu me vingo
O temporal me lava a alma inteira
Me vejo novo, queira ele ou não queira
Solfejo, alegre, a mesma melodia
Que sopra o vento agora, quem diria?
É só mais uma tarde de domingo




Visitem Gio
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Recado - por Raquel Aiuendi

Vou falar pra Kalim
fazer um favor pra mim
pintar em única tela
o trem da alegria
e as suas libélulas
que lindas são
que sonho me trazem
a inspiração
dos traços
que seus pincéis
nos quadros fazem.

Um abraço, Kalim
e continue assim.



Inspirado em “Trem da Alegria” e “Livres Libélulas”, de Kalim Autuori.
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Manuel Bandeira e seu “Neologismo” - Citado por vestivermelho

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
e mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.



Nota de vestivermelho
Poema de Manuel Bandeira... intransitivamente divino!
Lembrei dele ao ler “Os Amores de Minha Vida”, de Raquel Aiuendi.
Achei lindíssimo...
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Terremoto em Honduras - por Alba Vieira

Num terremoto
Parece que o mundo
Desequilibrou.

E tudo treme.
Coisas caem sem cessar,
Pavor vem do céu.

Como se manter
Íntegro na destruição?
Só ficando zen.



Visitem Alba Vieira
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domingo, 31 de maio de 2009

A Famigerada Desordem do Mundo - por Bruno D’Almeida

Ana Amélia tinha uma grande missão naquele dia: desencaixotar a mudança de sua casa nova. A vida corrida a impedia de procurar pratos, toalhas, incensos, roupas, computador, até a geladeira se perdeu no meio da bagunça. Filosofava sobre o processo de entropia escovando os dentes com os dedos. Antes de sair correndo para o trabalho, olhou para o caos dentro do próprio caos e disse a si mesma: de hoje não passa. Uma casa desarrumada pode ser uma metáfora inevitável sobre a bagunça que podemos propor às nossas próprias vidas.

É necessário dizer que nossa bela protagonista tinha um fusca 1967 amarelo. Um mimo. E lá ia ela, anacrônica, com sua roupa indiana bordada vermelha, margarida nos cabelos e uma cesta de vime com fitinhas coloridas no carona, onde levava sua refeição vegetariana: bananas, barras de cereais e bolacha Maria. Ana Amélia é um daqueles personagens de um bom filme francês que resolveu existir de verdade, com toda sua insustentável verossimilhança. E era assim que ela ia fazendo seu trabalho de agente de uma editora de livros, de escola em escola, tirando dúvidas sobre o uso do material didático. Nem esperava ela, naquele dia, encontrar uma bagunça muito maior do que sua casa nova.

A cidade chovia de maneira torrencial. Seu fusquinha atolava em aguaceiros, não era apenas uma chuva, era um dilúvio. Todas as visitas tiveram que ser canceladas, ou pela falta de possibilidade de chegar ao local ou pela suspensão das aulas nas unidades escolares. E foi assim durante todo o dia, uma sucessão de desacertos que só encontrava refúgio na certeza de arrumar a bagunça de sua casa. Ela precisava encontrar urgentemente a caixa de meias e de roupas miúdas, estava cansada de comprar promoções de três pares de meias por nove e noventa em lojas de departamentos. Sem contar o sumiço do cabo de água da máquina de lavar que a impedia de deixar as roupas com cheiro de sabão Omo. Atolava o cartão de crédito com roupas novas.

Mas o dia não estava perdido, havia uma palestra de amigos para assistir de noite. A chuva deu trégua. E lá foi Amélia, aquela que desafiava o compositor Mário Lago e sabia ser mulher de verdade. Depois da grande dificuldade de estacionar nas ruas estreitas de Salvador, encontrou uma multidão em frente ao prédio da faculdade com várias negativas e caras de adeus. Queda de energia, aulas suspensas. Ouvia e, mais do que isso, via com seus olhos vivos de âmbar a tristeza da amiga comunicar o adiamento da palestra. O que mais faltava acontecer? Vamos comer pizza, gritou. Tem uma pizzaria com massa de batata deliciosa perto de minha casa, vamos transformar a palestra em bate-papo para fechar nosso dia, discorria uma alma em busca do refúgio do prazer em meio ao turbilhão de vastas emoções de acontecimentos imperfeitos.

Bem, alguma coisa precisava dar certo naquele dia, não é? Sentada entre amigos, podiam todos falar e rir das besteiras que quisessem. Podiam pedir uma pizza família de rúcula com tomate seco, frango catupiry, margueritta e atum. Podiam discorrer sobre as experiências de uma aldeia hippie em Arembepe ou sobre o show de tributo a Bob Marley do fim de semana. Ana Amélia, no seu mundo hermético, desenhava no papel da mesa a paleta de cores de sua existência, a luta para se firmar no mundo que coubesse na grandeza de seus sonhos, a saudade dos sobrinhos em São Paulo e tantos outros pensamentos, até ser repreendida por seu comportamento autista e voltar a participar das conversas na mesa. Mas era fim de festa, diziam seus olhos vermelhos, seus bocejos áridos e a cara de quem, para conseguir dormir, bastava apenas fechar os olhos.

Subiu as escadas do Edifício Quitandinha, lugar escolhido a dedo pela nossa salvadora andorinha de seu universo particular, já lembrando da bagunça que a esperava. O banho serviu para refrescar a ideia de que, apesar do dia ruim, a beleza de seus anseios permanecia intacta. E lá ia ela fazendo contas de quanto tempo faltava para escrever uma nova peça de teatro, organizar um novo sarau ou espetáculo de dança e todas as coisas que uma artista precisa para tornar o viver muito mais do que a mera existência. Faltava pouco, muito pouco para tudo isso acontecer. E o sono era uma cantiga embalando aquela mulher cheia de vidas encaixotadas, dormindo tranquila diante da famigerada desordem do mundo.



Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Ana

Gostei desta poesia especialmente por causa dos dois primeiros versos (que trazem uma posição diferente em relação ao amor e lindamente escrita) e do último verso, que define, maravilhosamente, a ideia desenvolvida pela autora. Até pensei em criar uma poesia inspirada nestes versos, mas ainda não tive oportunidade de fazê-lo. É linda demais, Raquel! Parabéns!



OS AMORES DA MINHA VIDA
(RAQUEL AIUENDI)

Os amores da minha vida
Não são senhores do meu coração
Os amores da minha vida
trouxeram inesquecíveis sensações
verdades que jamais se vão
os amores da minha vida
não são senhores do meu coração
mas acalentam a lembrança
de felicidade infinda
acalmam os dias de escolhida solidão
os amores da minha vida
não são senhores do meu coração
na história que construímos
fomos em um inteiros dois
uma eternidade à frente, a sós
luta, canto, dança e festa...
os amores que tive são
foram e pra sempre serão
mas não senhores do meu coração
o Senhor do meu coração
é Senhor da mente, corpo, emoção
é único, completo e absoluto
hoje sigo meu caminho
lembrando muito carinho
mas, afinal e em resoluto
os amores da minha vida
não são senhores do meu coração
não são o foco de meu culto.
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Charada

Crie um texto sobre este tema ou um texto-charada e deixe aqui, em “comentários”, que nós postaremos.
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Charada I - por Ana

Às vezes tardo, mas não falho.
Caminho devagar e sempre.
Sigo estradas determinadas,
Sorrio dos que não me veem.

Não conheço liberdade,
Mas trago libertação,
Sou odiada e temida,
Muitas vezes uma opção.

Dependendo da pessoa,
Sou algo que se deseja,
Amada, amiga íntima,
Por mais difícil que seja.

Posso ser abominável,
Estranha, ignorada,
Trazer momentos de dor,
Definir o fim da estrada.

Pra outros não sou escolha,
Eles já nascem comigo,
Acompanho todo o tempo...
Sou dádiva em vez de castigo.

Querida ou detestada,
Inata ou opcional...
Respondam, nos comentários,
Quem ou o que sou eu, afinal?
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Estou me Sentindo Só... - por Manhosa

Estou me sentindo só...
O meu mundo esta demais silencioso...
Não consigo conversar nem com meu coração...
Ele também não quer falar comigo...
É noite escura... nem estrelas...
Tenho medo de mim...
O vento faz barulho... sopra forte
Sem controle... minhas lágrimas rolam
Não quero mais me iludir...
Vou parar de perseguir sonhos...
O dia a dia esta muito pesado...
Estou cansada de lutar...
Meus desejos continuam a me perseguir...
Tenho que deles também me libertar...
Única maneira de eliminar a amargura
Dos restos que ficaram no meu coração...
Não quero mais amar...
Fica quieto coração...
Até agora só soubeste me cobrar...
Sempre fui culpada por seres rejeitado...
Vamos nos unir... ficar quietinhos... escondidos da dor...
Se um dia... nossas feridas cicatrizarem...
E se... ainda tivermos tempo...
Quem sabe... poderemos até ensaiar um recomeçar...
Voltar a sorrir de mansinho...
Vamos ter que ser quer muito amigos...
Teremos que ser muito unidos...
Nunca mais... nunca mais mesmo...
Vou te entregar... Meu Coração...



Visitem Manhosa
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Adelmar Tavares e a “Ciranda” - Citado por Penélope Charmosa

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...e, embora irmãs,..................................................
não se vêem, não se dão, não se parecem..................................................
as doze tecelãs.....................................................
Guilherme de Almeida..................................................



Vejo a ciranda das horas,
moças lindas a cantar...
doze vestidas de branco,
umas de flores na testa,
outras de flores na mão...
E, no balanço da dança,
quando uma vem, outras vão...

Horas do dia e da noite...
Ó vocês!... Lindas que são!...
Qual será mesmo a minha Hora,
minha hora de Redenção?!...
Será das doze de branco,
ou das que de negro estão?!...
Qual virá, vindo o meu dia,
pousar a mão no meu peito,
parando o meu coração?!...
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