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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Presente que Ganhamos! - por Poty

Não ganhei,
Mas tive carinho
Abraço e
Beijos.

Estive triste porque me senti mal com a desolação do outro.

Não quero presente por causa da pressão comercial,
Por obrigação,
Mas por livre escolha.

Quero ganhar presente
Por estima,
Dedicação,
Espontaneidade,
Amor e
Paixão.

Sem demérito aos que vivem achando que é oblação.
Há os que acham que compram os outros dando as migalhas
E há os que escolhem o presente que querem ganhar.

Quero ganhar presente,
Mas que seja sem pretensão.
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............................................Visitem Poty
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Feliz Natal!

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Agradeço e retribuo os votos de Boas Festas
recebidos dos autores do Duelos,
que são a postagem de hoje.
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E a todos os queridos amigos do Duelos,
os votos de Ótimo Natal,
repleto de alegrias.
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Adhemar

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Boas Festas e um Feliz 2010: sucesso, paz e saúde.
Deus nos permita a crescente integração com os amigos deste espaço tão bacana que é o Duelos.
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.Visitem Adhemar
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Cacá

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Desejo a todos os membros do DUELOS, ótimas festas, muita saúde e harmonia em 2010 e que possamos continuar nessa arrebatadora e enriquecedora troca literária. É uma satisfação imensa poder estar no meio de tão grandiosas feras das letras.
Um abraço fraterno. Paz e bem.
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.Visitem Cacá
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Dan

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Para todos meus amigos os votos de FELIZ NATAL.
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...............................Visitem Dan
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Escrevinhadora

.A todos os amigos, frequentadores e passantes dos Duelos, votos de um Feliz Natal.
E que 2010 venha realmente novo e seja inspirador.
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.Visitem Escrevinhadora
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Esther Rogessi

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Desejo ao Duelos toda a felicidade do mundo!!
FELIZ 2010
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.......................Visitem Esther Rogessi
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Kbçapoeta

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Fico feliz de estarmos quase encerrando o ano e o Duelos segue firme e forte e com cada vez mais adeptos.
Um grande abraço e um feliz natal.
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Visitem Kbçapoeta
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Pedaços - por Leo Santos

Que peso rude traz o dia!
Dor e dúvida marcam os passos;
Engendrando uma aporia,
à qual Sophia cruza os braços…

Conflito em busca do mais forte,
travado sob um céu não azul;
Entre o olhar que anela o norte,
e a alma que ruma p’ro sul.

Os que miram, anelam a fuga,
psiquê, almeja o retorno;
O lenço cúmplice enxuga,
devolvendo o elíptico contorno.

Dicotomia não platônica,
pois o corpo não participa;
será a alma divisível ou atômica,
se ambígua força se exercita…

Não são os olhos, janelas da alma,
por onde se expressa ao mundo?
Não afirmei nada, calma!
Apenas, acho o poço profundo…

É que muitos pedaços,
são visíveis, por seus reclames;
Ora, tomos p’ra retos passos,
outra, p’ra veredas infames.

O orgulho, a vergonha, o medo,
a carência, o perdão, o amor;
Pedaços d’alma, acabou o segredo,
ante infortúnio, o estripador…
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Visitem Leo Santos
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A Saga de Ana e Escrevinhadora no Reino das Águas Claras - por Fatinha

Ana e Escrevinhadora durante muito tempo acalentaram um sonho: ir ao festival de música do Reino da Águas Claras. Ouviram dizer que rolava música de primeira qualidade, muita paz e amor, banho de cachoeira, um verdadeiro encontro espiritual com os gnomos e as fadas, além da oportunidade de conhecer o Príncipe Escamoso.
O pai delas disse que não liberava grana pra essas bobagens, então elas resolveram se virar. Ana arrumou um emprego de recepcionista numa academia de ginástica. Escrevinhadora dava aulas de aeróbica – tinha aprendido todas as coreografias assistindo ao vídeo de Jane Fonda. Nos finais de semana faziam pequenos bicos. Davam banho no cachorro do vizinho, limpavam telhados, consertavam encanamentos, calibravam pneus no posto de gasolina. Nada era penoso demais para elas.
Finalmente conseguiram juntar o dinheiro necessário. O pai deu a autorização com a promessa de que não bebessem, não fumassem, não se drogassem e não fizessem sexo. Foram comprar os ingressos numa salinha suspeitíssima do Centro da Cidade, descolaram uma barraca de camping de segunda mão, mas ainda inteirinha. Compraram alguns pacotes de miojo, biscoito cream cracker, água, latas de salsicha. Pediram emprestado, de joelhos, ao amigo Shintoni, o seu fusquinha 69. Ele concordou, ameaçando-as de morte caso dessem um arranhãozinho que fosse na lataria do veículo. Tudo estava perfeito. Até demais.
Murphy, de plantão, decidiu que não ia facilitar as coisas para as duas. Um dia antes da viagem, Escrevinhadora torceu o pé num arrojado salto mortal de costas. Teve que engessar. Ana, preocupadíssima, andava de lá pra cá como um leão enjaulado, pensando que ia acabar perdendo o festival por causa daquela irresponsável que não tinha nada que ficar se exibindo.
Escrevinhadora, guerreira que não chora, com medo de ser espancada pela Ana, logo que saiu pulando que nem um saci da sala de curativos, já foi dizendo que elas iriam de qualquer jeito. Ana abriu um sorriso de orelha a orelha e deu o braço para a outra se apoiar.
No dia seguinte, com o gesso ainda mole, colocaram tudo dentro do fusquinha e lá se foram cantando músicas de Beto Guedes estrada afora. Escrevinhadora, de navegadora, ia dando as coordenadas de acordo com o mapa que Shintoni havia desenhado.
Vira aqui, nessa estradinha de barro. Tinha chovido na véspera, a estradinha era uma verdadeira pista de rali. Será que o fusquinha tem tração nas quatro rodas? Não tinha. O carro derrapou, guinchou, soltou fumaça e atolou.
Ana, é contigo mesmo. Eu não posso sair desse carro, pulando num pé só, no meio da lama. Ana, bufando, arregaçou a calça, meteu o tênis novinho no atoleiro e embrenhou-se no mato para procurar socorro. Quarenta minutos depois, chegou com um velho, um menino e um burro. Escrevinhadora pensou que já tinha visto aquela cena antes, mas não lembrava onde.
Ana sentou-se ao volante, espumando de ódio, enquanto o velho amarrava o burro no pára-choque e o menino empurrava. Duas horas depois, o fusquinha desatolou e saiu corcoveando pela estrada.
Rodaram, rodaram, começou a chover de novo, e nada da tal da cachoeira que Shintoni tinha desenhado no mapa aparecer. Será que pegamos o caminho errado? Vamos pedir informação. Só se for para os bichos peçonhentos que habitam esse lugar.
Mato de um lado, mato de outro. Odeio a natureza! Escrevinhadora pediu pra ir ao banheiro. Putz! Você e essa sua bexiguinha! Vai no matinho mesmo. De forma alguma, tô com o pé quebrado.
De repente, vislumbraram uma fumacinha saindo do meio do mato. Olha lá! Onde tem fumaça, tem gente. Ana embicou o fusquinha numa trilha e deram de cara com uma tapera. De dentro dela emergiu uma figura estranha. Pronto! Deve ser uma psicopata assassina canibal. Vamos desaparecer sem deixar rastro.
Boa tarde. Será que a senhora deixa a gente usar o banheiro?
Fatinha apontou com a cabeça uma portinha do lado da tapera.
Escrevinhadora, pulando num pé só, enfiou a cabeça no vão da porta. Estava tudo escuro. Ela procurou o interruptor de luz. Não achou. Desculpe, mas, onde acende a luz?
Fatinha apontou para um candeeiro pendurado na parede.
Escrevinhadora iluminou o lugar. Era um cubículo com um cano saindo da parede – provavelmente um chuveiro - e um buraco no chão. Buraco no chão? Nem morta! Mas ou era o buraco ou o matinho. Escrevinhadora se resignou. Pelo menos o cubículo tinha porta. Começou a se preparar, quando olhou para baixo. Dentro do buraco, um sapo gigante a encarava. Virou-se desesperada para porta e levou outro susto. Nela havia uma pintura. Ela aproximou o candeeiro e viu que era a imagem de Jesus, tamanho natural, que a olhava fixamente.
E aí? Fez o seu xixizinho? Não deu, com um sapo me olhando de um lado e Jesus de outro, perdi a vontade.
Obrigada, moça!
Fatinha apontou para a trilha, virou as costas e sumiu dentro da tapera.
Será que a gente não vai chegar nunca nesse lugar? Chegamos. Olha quanta gente esquisita! Pára de reclamar e arma logo essa barraca. Já tá escurecendo e eu estou morrendo de cansada! Vamos comer biscoito com água e ir dormir!
No dia seguinte, as meninas se dispuseram a fazer o reconhecimento do terreno. Não conseguiram nem sair da barraca. Tinha um rapaz deitado na entrada.
Dá licença? Nada. Dá licença? Nada. Ana cutucou o cara. Nada. Será que ele está morto? Só me faltava essa: um defunto logo de manhã... Escrevinhadora deu mais uma cutucada nas costelas do cara com a ponta da bota de gesso. Perdeu a paciência. Meteu-lhe um chute.
Fininho acordou. Hei, não precisa chutar, não. Já acordei. Fininho, ainda deitado, olhou para as duas ninfetas. Seus olhos brilharam. Estava apaixonado.
Fininho era um ex-estudante de Direito que tinha largado tudo para levar uma vida natural. Vivia de artesanato, tinha renunciado aos hábitos burgueses como tomar banho e escovar os dentes, mas, em contrapartida, tinha adquirido outro, que lhe rendeu o apelido. Morava no Reino da Águas Claras há nem sei mais quanto tempo.
As duas, já irritadas, deram um empurrão no pobre do Fininho e foram procurar o lugar do festival.
Voltaram apavoradas com o que viram. Um bando de gente com aparência de drogada pedindo dinheiro, comida, água. Parecia o purgatório. A duras penas conseguiram voltar para a barraca. Ana ia à frente, distribuindo sopapos e puxando Escrevinhadora pelo braço. A última, coitada, ia pulando atrás.
Vamos comer alguma coisa e voltar pra casa imediatamente. Papai vai matar a gente se souber que viemos parar num lugar desses.
Quando chegaram à barraca, mais uma surpresa desagradável: ela tinha sido saqueada. Não sobrou nem um pacotinho de miojo pra contar a história. Pra completar, Fininho estava lá dentro. Tinha decidido que ia morar alí, com elas. Iriam formar uma comunidade, ter muitos filhos e viver em contato íntimo com a natureza.
Comunidade? Natureza? Filhos? Com você?
A viagem de volta foi num silêncio sepulcral. Não havia palavras que pudessem expressar a frustração, a raiva, a fome e a sede que sentiam.
Quando chegaram a casa, Ana se virou pra pegar as coisas no banco de trás. Quase teve um ataque cardíaco quando viu que tinham trazido do Reino das Águas Claras muito mais do que péssimas recordações: Fininho. Dormindo.
Como esse cara veio parar aqui? Sei lá. E o que a gente vai fazer com ele? Sei lá. Deixa ele aí mesmo. O Shintoni resolve. O carro é dele, o que estiver dentro também.
E assim foi feito. Fininho mora até hoje no fusquinha do Shintoni. Ele até já se acostumou com aquela companhia inusitada. Fininho mantém o carro limpinho, e de vez em quando vai visitar as meninas para renovar suas juras de amor eterno. Elas não se comoveram. Ainda.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

E Por Falar em Natal - por Fatinha

Querido Brógui:

E por falar em Natal, quem aqui nunca recebeu um presente nada a ver?

Começando pelo nefasto amigo oculto, uma solução boa pra economizar uma grana, mas sempre causa de profundas decepções. Há muito tempo que eu não participo de um, mas sempre acontecia a mesma coisa: eu me esmerava em comprar uma coisa maneira e recebia um treco que eu jamais em sã consciência teria coragem de dar de presente nem se fosse para meu inimigo oculto.

As situações mais embaraçosas são aquelas em que a pessoa toda sorridente diz pra você que o presente é a sua cara. Quando ouço isso tremo nas bases, porque lá vem bomba (eu tenho cara de bomba?). Como minha santa mãezinha me domesticou muito bem, eu agradeço, disfarço a decepção e penso: “Que que eu faço com isso?”.

Eu mesma já devo ter dado presentes assim. Munida da mais singela intenção de fazer o outro feliz e acabando por dar um tiro na água.

Já sei. Você deve estar procurando no seu disco rígido quais foram os presentes dados a mim e tentando adivinhar se eu gostei ou não. Pode parar de se torturar porque você nunca vai saber mesmo. E também nem pense em parar de me dar presentes por causa disso, porque aí eu vou ser obrigada a escrever um diário-denúncia dedurando você.

Em retribuição ao carinho, mesmo não gostando da coisa, procuro usá-la, em homenagem à pessoa que me presenteou. Sim, Querido Diário, minha crueldade tem limites. Não é assim que funciona? O outro me faz feliz dando e eu tento fazê-lo feliz usando. Quando não dá mesmo pra salvar o presente – há casos irremediáveis como roupa pequena, ou uma bijouteria que vai deixar minha pele em carne viva – há solução. Vou trocar, passo adiante – nem adianta fazer cara feia porque duvido que você nunca tenha feito isso – ou simplesmente meto no fundo do armário e pronto.

Temos aqui em casa a nossa secretária do lar – nome politicamente correto para empregada doméstica – que todo Natal traz um presentinho para nós. Ficamos sempre comovidos porque sabemos o quanto o dinheirinho dela é curto, inversamente proporcional ao prazer que ela sente em nos presentear. Quando ela vem toda contente com o embrulhinho na mão, entramos em pânico porque a cada ano ela se supera trazendo objetos de decoração pavorosos.

Um ano ganhamos um porta-papel higiênico. Sabe aquele que a gente pendura os rolinhos na parede? Tem coisa mais cafoninha? Na minha escala de valores, está no mesmo nível da roupinha para bujão de gás ou o pano de prato calendário – aqui em casa não usamos gás de bujão, graças a Deus.

No ano seguinte foi um vasinho de flores artificiais cor-de-rosa com areia colorida também cor-de-rosa. De chorar. O problema das flores artificiais é que além de serem horrorosas não morrem nunca. Não secam, não apodrecem. Só ficam ali se enchendo de poeira e desafiando meu senso estético. E tem mais: tudo quebra, menos o tal do vasinho.

Esse ano, veio a pérola. Umas flores amarelas – artificiais também – submersas em um aquário, com os dizeres: “Jesus o segredo da paz”. Tem noção?

PAUSA PRA EU RIR, TÔ ME CONTORCENDO, O TROÇO É MUITO FEIO…

O pior é que não dá pra defenestrar as coisas. Ela vai dar falta e ficar magoada. Solução: deixar os enfeites enfeiando o ambiente e ela sorrindo. Muito justo.

Mas, vou confessar a você que eu e minha santa mãezinha já arquitetamos o plano maligno de deixar esses objetos ao alcance do João Pedro. Se ele quebrou o galo do Presépio que armamos aqui em casa desde que eu me entendo por gente, tenho certeza de que não vai falhar nessa nobre missão que vamos a ele confiar.
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Postado, originalmente, em 26/12/2007.
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O Camping do Fim do Mundo - por Escrevinhadora

Eu tinha perto de 16 anos e quase não saía de casa. Meu pai, um homem antiquado e severo acreditava que lugar de mulher é em casa, que uma moça deve casar-se virgem e me trazia sob rédeas curtas (a década de 60, a pílula, a revolução sexual não tinham entrado na cabeça dele). Meu sonho de consumo era acampar. Algumas amigas de colégio já tinham acampado e vivam contando maravilhas sobre isso. Então eu me mordia de vontade.
Num fim de semana prolongado minha prima, mais velha que eu uns dois anos (ela já era maior de idade) ia acampar com duas amigas, acompanhadas pela mãe de uma delas. Eu não sei que milagre aconteceu, mas meu pai concordou que eu também fosse (acho que foi influência do meu tio, que prometeu que a prima tomaria conta de mim).
Então na sexta-feira, logo após o almoço, não sem antes ouvir um sermão do meu pai me garantindo que me moeria de pancada se por acaso eu bebesse ou fumasse (coisas piores que isso ele nem ousava supor que eu pudesse fazer), lá fui eu, cheia de expectativa e fantasias.
Chegamos ao acampamento no começo da tarde. O camping, na verdade, nada mais era do que um velho sítio que o proprietário resolvera transformar num negócio alternativo. Cobrava uma taxa de quem armasse barracas em seu terreno. Em troca, oferecia banho (água fria, de um pedaço de cano pendente da parede do lado de fora da casa), um único banheiro dentro da casa e um lugar pra lavar louça (dois tanques velhos nos fundos da casa).
Armamos nossa barraca e saímos pra um passeio de reconhecimento. Tinha chovido durante toda a semana e o terreno era um lamaçal só. O rio prometido na propaganda nada mais era do que um fiozinho de água, correndo sobre umas pedras cobertas de limo. O sítio tinha muito mais mato do que plantas. Mas eu, tão excitada com minha aventura, não notei nada de errado.
Até que me deu vontade de fazer xixi...
Para ir ao banheiro, era preciso passar pela sala da casa, que também servia como uma espécie de escritório do proprietário. O sujeito, por si, já era um tipo assustador. Moreno, pele muito queimada de sol, barba e cabelos compridos que ele trazia presos num rabo de cavalo, braços musculosos e cobertos de tatuagens (estrelas, dragões, espadas) e um vozeirão de trombeta.
A sala, escura e recendendo a incenso, era um museu anárquico. Havia caveiras na estante, teias de aranha pelos cantos, numa parede um quadro enorme que deveria ser a representação do inferno (homens e mulheres nus, se retorcendo sobre labaredas), uma coruja empalhada e mais uma infinidade de objetos estranhos e assustadores. (Depois vim a saber que o homem pertencia a uma seita que esperava o apocalipse, o fim do mundo que deveria ocorrer na virada do milênio. Misturava Jesus com John Lennon. Acreditava que no dia do Juízo o demônio despertaria de seu sono nas profundas do inferno e voltaria para um duelo final com Deus. Era vegetariano. Consumia e oferecia aos hóspedes que comungassem de suas crenças, um chá produzido lá mesmo no sítio, que possuía a miraculosa propriedade de purificar o corpo e preparar o espírito para o grande momento da transição.)
Mas voltemos ao desenrolar da história: atravessei a sala com as pernas meio trêmulas. Entrei no banheiro, fechei a porta e já ia me sentando no vaso quando levei um choque: na parede à minha frente, em tamanho natural, uma imagem de Jesus. Tentei abaixar a cabeça, olhar para um lado, para outro, não adiantou. Meu olhar era atraído pelo olhar hipnótico daquela figura. Impossível fazer xixi com Jesus me olhando daquele jeito. Apertadíssima, saí às pressas do banheiro e fui procurar lá fora uma moita que pudesse me servir. Encontrei uma, me abaixei e já estava me aliviando quando vi, bem pertinho de mim, imenso, verde, olhos esbugalhados, um sapo. Saí correndo, escorregando na lama, a calcinha que eu tentava erguer enquanto corria, se enroscando em minhas coxas.
A partir daí meu final de semana dos sonhos se transformou em pesadelo.
Vasculhei o sítio atentamente e descobri que havia sapos em todos os cantos, de todos os tipos, pequenos, grandes, verdes, marrons, cinzentos.
Dormi mal ou mal dormi todas as noites que passei lá. Depois de verificar se a barraca estava hermeticamente fechada eu me enrolava toda no cobertor, sem deixar nenhuma fresta. Mesmo assim, passava horas de olhos abertos no escuro, esperando que a qualquer momento um sapo fosse entrar debaixo das cobertas, subir pelas minhas pernas, pular em cima do meu peito. Xixi eu só fazia nas moitas, depois de examinar cada metro do terreno pra ver se não tinha nenhum sapo por perto. O resto eu nem fazia. Passei o fim de semana com a barriga inchada, cheia de gases, dura feito um tambor.
Minha prima, surpreendentemente, parecia muito relaxada, totalmente integrada ao ambiente (algum tempo depois descobri que era efeito do chá servido aos iniciados; na verdade, cogumelo alucinógeno, nada mais que isso). Não contei pra ninguém, porque não sou dedo-duro e também porque não queria ficar mal com minha prima.
Desde então, mais de 20 anos são passados. O mundo, felizmente, não acabou.
Mas eu nunca mais quis saber de acampar em toda minha vida.
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Certeza - por Alba Vieira

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Coisa mais certa nesta vida... é o descaso.
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.Comentário em Recado, de Ana.
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Visitem Alba Vieira
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Entrevista com o Papai Noel - por Cacá

Arcanjo Isabelito Salustiano*, o filósofo das ruas, estava passeando pelos shoppings e feiras da cidade em busca de assunto, já que desde o início do ano ele já sabe para quem pode e quanto pode gastar com presentes. Encontrou vários Papais Noéis, tirou fotos, conversou muito e observou tudo, até o momento em que passou um cara e roubou um saco que estava ao seu lado. Provavelmente pensou que estivesse cheio de presentes ou dinheiro. Tudo caixa vazia. Enquanto as crianças e populares corriam atrás do sujeito, ele conseguiu essa rápida entrevista com o Papai Noel.

ARCANJO: Papai Noel, explique para nós a sua origem geográfica. Não precisa falar de sua onipresença, isso todo mundo sabe. Onde fica essa tal de Lapônia?

PAPAI NOEL: A Lapônia não é um paraíso fiscal como muitos podem pensar. O saco cheio que carrego é proveniente de muitas doações de gente honesta do mundo inteiro. E a Lapônia fica num lugar onde as renas nascem. Nem avião chega lá. Só as renas. E só as minhas. Rena é um bicho criado exclusivamente para Papais Noéis.

ARCANJO: A tradição cristã fala também que você é a representação do São Nicolau?

PAPAI NOEL: Era, meu filho, era! Pelo menos aqui no Brasil! Apareceu aí um certo Nicolau, de quem falam ser ele um juiz e derrubou a minha reputação de bondade, caridade e solidariedade. Já pensou eu ser tratado pelas criancinhas de Lalau? Vamos ficar só com o epíteto do “bom velhinho”, que já tá bom...

ARCANJO: E sendo assim, meio gordo, por que entrar pela chaminé?

PAPAI NOEL: Isso vai se modificando com o tempo, meu filho. Em primeiro lugar, são raríssimas as casas hoje em dia em que há chaminés. Aliás, o número de casas vem só diminuindo. Nos prédios onde não tem elevador, eu ainda tenho é que subir escadas em vez de descer pela chaminé. Eu tenho que tocar nos interfones e há lugares onde é difícil liberarem minha entrada. Tem tanto clone de Papai Noel mal intencionado por aí... Quanto à chaminé, era uma forma de me aquecer, já que de onde venho é muito frio. Agora, além do sumiço das casas, e com esse aquecimento global, já estou querendo é mudar o uniforme, algo mais leve.

ARCANJO: Por que você não se adapta em cada região aos seus costumes? Por exemplo: esse negócio de neve no Brasil nesta época do ano, não cola com a sua imagem nem com o clima. Não acha muito americanizada a sua atitude? Você não estaria puxando a brasa para a sardinha dos americanos? Quer dizer, trazendo essa ideia de neve para cá em pleno verão? Eles já dominam tantas coisas no mundo... Será que o Natal não pode ser cada um com seus costumes e deixar o ecumenismo somente para celebrar o nascimento de Cristo? Não bastou esse tal de panetone que você espalhou por aqui? Deu até confusão numa certa cidade lá no planalto central do Brasil. Tinha um cara disfarçado de Papai Noel sem o devido traje roubando dinheiro e dizendo que era para distribuir panetones aos pobres...

PAPAI NOEL: Bom, em assuntos internos de cada país eu não me meto, sabe como é, a minha imagem universal... Imagine se eu chego no Brasil, por exemplo, e me visto de bermuda, chinelão, boné e camiseta regata? Aonde iria parar a minha credibilidade com as crianças? Fora o fato de que eu iria ter que ficar me explicando para a polícia. No mínimo iam me confundir com vagabundo. Ou então, num traje desses com um saco nas costas, eu ia era ganhar esmolas.

ARCANJO: Obrigado seu Noel. Quer deixar uma mensagem final para seus fãs no mundo inteiro?

PAPAI NOEL: Se quero! Tenho notado que em todo lugar as pessoas, por mais que dêem e ganhem presentes, estão sentindo falta de mais presença do outro em suas vidas. Disfarçam as suas faltas e carências com artigos de consumo imediato mas não conseguem preencher seus espíritos com uma substância que não está à venda em nenhum lugar. Eu gostaria mais de ser outros símbolos. Queria simbolizar mais a tolerância em vez da indiferença. Mais a humanização em vez da coisificação. Mais a essência em vez da aparência. Queria que fôssemos mais sujeitos das coisas e valores e não meros objetos de dominação por falta de envolvimento real nos destinos de cada lugar, de cada país.
Eu desejo natais onde, em vez de meu sem graça HÔ,HÔ,HÔ, eu poderei escancarar um satisfeito HAHAHA!
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*ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO é um personagem que criei.
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.Visitem Cacá
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O Meu Melhor Presente de Natal - por Esther Rogessi

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Naquele 23 de dezembro, acordei durante a madrugada e, na minha cabecinha de criança, contando apenas 7 anos de idade, fiquei sonhando acordado com o Natal. Eu não sabia bem o que era, porém ouvi os meus colegas do ‘Grupo Escolar’ contarem uns para os outros os pedidos feitos ao ‘Papai Noel’... E, timidamente perguntei-lhes:
– Quem é? Vocês têm um pai com o mesmo nome?
– Não! Seu bobo... Papai Noel é um velhinho que no dia de Natal dá presentes às crianças... Você nunca ganhou presentes dele não?
– Não... eu não tenho pai...
Imediatamente Hugo respondeu:
– Não é preciso ter pai pra ganhar presente do papai Noel!...
Perguntei-lhe:
– Não?...
– É claro que não! Eu não tenho pai, mas todo Natal Papai Noel me dá presente! - falou o Marquinhos, outro colega nosso, todo orgulhoso...
E perguntei espantado:
– Ah... Ele dá mesmo? Como é que eu faço? Como é que ele vai saber onde moro?
Hugo disse alegremente:
– Minha mãe me ajuda a fazer o pedido, me diz o que é melhor. Sabe? No Natal passado, eu pedi uma bicicleta, então a minha mãe disse que o Papai Noel era muito velhinho e que era difícil para ele subir o morro, carregando tantos presentes e, ainda mais, uma bicicleta pesada... Eu concordei com ela e pedi um carro bem bonito...
– E ele deu?
– Claro! Igualzinho ao que eu mostrei a minha mãe!
– Ah... Foi mesmo?

Fiquei pensando durante todo o dia... Como eu queria ganhar um presente... Quando mamãe chegou do trabalho – minha mãe trabalhava há dez anos na casa de um casal de médicos –, contei para ela sobre a minha conversa com os meus colegas. Ela ficou em silêncio, olhando para mim... E vi lágrimas escorrendo por suas faces... Perguntei-lhe:
– Por que a senhora está chorando, mãe?
– Por nada filho... É que eu cresci sem natais e esqueci de fazer você viver os seus... Perdoe-me, filho... Mas, o que você gostaria de ganhar mesmo?
– Um carro bem bonito!
– Vou falar para o Papai Noel, está bem?

Ah! Que alegria eu senti... Pela primeira vez, eu ganharia um presente do Papai Noel...
“Papai!” Que palavra mágica! Boa de falar... Ah! Eu cresci chamando mamãe e só mamãe. Não sei do meu pai... Algumas vezes eu perguntava a minha mãe: – Mãe, por que eu não tenho pai? Por que eu não sou como as outras crianças?
Ela rodeava, porém não me falava a verdade.

Foi perdido em sonhos, com a alma agitada, que naquela madrugada abafada, no escuro do meu barraco, fitando o teto de zinco, me refrescando através dos chuviscos de uma chuvarada repentina que se fez cair... no descanso do desconfortável sofá sem pés rente ao chão, com um único lençol que eu tinha de optar entre forrar o seu plástico barato para não me esquentar as costas durante o sono ou me cobrir, me livrando dos pernilongos que brigavam entre si em disputa pelo meu sangue. Já passava das vinte e quatro horas. Havia uma casa de jogos próximo ao nosso barraco, que costumava fechar muito tarde, eu ouvia os comentários da vizinhança, que o seu fechamento se dava após as vinte e quatro horas... Ouvindo o barulho do fechar de portas, deduzi ser muito tarde... A minha mãe ainda não tinha chegado, porém eu não sentia medo, os meus pensamentos eram tão bons... Quantos sonhos!
Pelos furos do zinco, percebi pequenos raios luzentes, entrando e causando um efeito bonito no nosso barraco de dois cômodos. Os pingos fortes da chuva faziam-se ouvir no zinco... Era como se Deus estivesse a me falar em mensagem codificada: ‘Estou bem presente aqui, não estás só! Trago o céu para ti como presente de Natal, essas são as luzes de todos os natais que você não viveu meu filho!’...

Comecei a chorar mansinho. Eu era criança, não entendia... Mas, no meu coração, eu ouvia uma voz doce que, de repente, deixou de falar dentro do meu coração e inundou o nosso barraco, uma doce voz que soava forte; que se fazia ouvir como que fosse amplificada, enquanto o lugar simples e humilde ficava repleto de estrelas... O chão de barro batido, os poucos utensílios e projetos de móveis, a ‘minha cama’, tudo estava bordado por estrelas de luz tênue... Sou o teu Deus! O Pai dos órfãos e o marido das viúvas... Sou eu que zelo por ti e vou te dar o presente de Natal que, Noel não poderá te dar , não o receberás aqui, no morro, mas te farei descer o morro para recebê-lo, porque SOU o teu Deus!

Não sei se aquela voz se alongou ao falar-me... Foi um bálsamo para a minh’alma inocente e ansiosa, perdida em questionamentos mudos. A doce voz inundou não só os cômodos do nosso barraco, porém a minha alma... Adormeci ouvindo-a... não vi a minha mãe chegar. Acordei com ela me chamando, me apressando, pois iríamos passar o Natal na casa dos patrões da minha mãe – o casal de médicos –, algumas das vezes ela me levava para passar o dia lá... juntinho a ela naquele apartamento imenso e elegante.

O Dr. Fábio ficava olhando-me demoradamente... Algumas vezes era carinhoso... Eles não tinham filhos, a Drª Olívia – sua esposa– era estéril. Eles estavam em férias. E planejavam viajar logo após o Natal. A minha mãe também teria férias... Poderíamos ficar juntos por mais tempo. A família dos patrões da mamãe morava em outro país... distante, muito distante! Naquela noite de véspera de Natal éramos em número de quatro. Jantamos alegres e, em seguida, a Drª Olívia nos convidou para nos assentarmos junto à grande árvore de Natal, muito bonita e iluminada, com várias caixas de presentes embaixo... À vista de todos, o Dr Fábio calmamente me perguntou:
– O que você pediu ao Papai Noel, filho?
Olhei para ele muito sério e lhe respondi:
– Eu e minha mãe pedimos um carro bem bonito... Mas eu ouvi uma voz muito bonita e calma no meu coração dizendo que Ele era o pai dos órfãos e marido das viúvas e que eu não estava só... e que iria me dar um presente que o Papai Noel não poderia me dar, e eu teria que descer o morro para recebê-lo... Eu já não sei mais o que vou ganhar... Sabe o que eu queria mais do que qualquer presente doutor?
– Não, filho! Não sei... O quê?
– O meu pai! O meu pai de verdade! Eu só tenho mãe...
Sem entender, vi o Dr. Fábio chorar como eu nunca pensei que um homem pudesse fazê-lo... Mesmo eu sendo tão pequenino, entendi que algo muito sério estava acontecendo naquela noite de Natal... E espantado vi o Dr. Pegar as mãos de sua esposa e lhe pedir perdão em pranto, a minha mãe nervosa colocou as mãos na boca e gritou:
– Não! Não conte, Fábio!...
Fiquei mais confuso ainda... A minha mãe chamara o doutor simplesmente de Fábio... Ele não a ouviu e contou a doutora Olívia – a sua esposa – que eu era seu filho...
Não ficamos para a entrega dos presentes... mamãe me pegou e saímos rapidamente...

A minha vida mudou, a nossa vida mudou! Minha mãe não mais precisou trabalhar em casa de família, eu ganhei o pai que eu pensei não ter, o doutor Fábio me reconheceu como filho, nos deu uma casa decente, uma pensão para minha mãe cuidar de mim... E sua esposa, ao longo dos anos, lhe perdoou. Não se separaram. Não fiz a infelicidade deles, causei lágrimas, é verdade... Sem querer fiz a boa doutora sofrer...
Entendi que eu não deveria desejar presente algum na vida... Além do que ‘Aquela doce voz’ me deu... Ele cumpriu com suas palavras! A verdade sempre vence! Pois ela é amor, é fruto do Espírito de Deus e o amor vence o mundo!
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fininho e seu Amor Impossível - por Escrevinhadora

Fininho era um maconheiro meio amalucado, porém inofensivo. Típico hippie de meados dos anos 70, sabe cumé? Muito cabelo, muitos ideais, pouco dinheiro e pouco banho. Não era vagabundo (só muito dorminhoco, sabe-se se lá se por sua natureza ou por efeito do fumo). Trabalhava num lava-rápido. Emprego ruim, salário pior ainda, mas dava pra viver e garantia carteira assinada. Não tinha muitos gastos. O pai morrera quando ele era criança e desde então vivia com a mãe numa casa simples, num bairro afastado. Dava parte do que ganhava pra mãe, pra ajudar nas despesas. O que sobrava era mais do que suficiente pra ele. Sua vida inteira era um marasmo. Sua vida financeira um marasmo, sua vida amorosa um marasmo, sua vida intelectual um marasmo. Não tinha dívidas, também não tinha economias. Não tinha namorada (magrelo, como indicava o apelido, branquelo, de inteligência curta e duro, onde ia arrumar namorada?). No geral detestava ler, só se interessava por leitura se o assunto fosse extraterrestres ou disco-voadores. Sua única diversão era a erva e com ela gastava quase todo o dinheiro que lhe sobrava. Só não fumava no horário de trabalho. Tinha medo de perder o emprego e ficar sem dinheiro para o seu sagrado bagulho. Quando ouviu falar no tal do festival de rock Fininho ficou alucinado. Pensou logo em alguma coisa tipo Woodstock, todo mundo peladão num clima de paz e amor. Correu comprar os ingressos (caros pra diabo, mas fazer o quê? Era um festival de rock, ele tinha que ir). Não pediu licença ao patrão pra faltar ao trabalho. Simplesmente resolveu ir e depois veria o que fazer. Enfiou-se num ônibus noturno e viajou horas a fio com a mochila nas costas. Durante a viagem, comeu biscoitos murchos que comprou numa parada. Numa outra parada, tomou água da torneira do banheiro. No meio da madrugada o ônibus o despejou na rodoviária de uma cidadezinha perdida no interior (aquilo não era bem uma rodoviária, apenas uma guia rebaixada onde o ônibus encostava e um cubículo escuro que servia de guichê). E o festival não era bem no centro da cidade. Era longe, muito longe e àquela hora não havia ninguém pra indicar o caminho. Fininho resolveu esperar o dia amanhecer e enquanto isso, aproveitou pra dormir mais um pouco, a mochila servindo de travesseiro. Ao amanhecer acordou e viu à sua volta mais uma meia dúzia de cabeludos que também dormiram por ali.
Pelas roupas e pelos cabelos, era evidente que também iam ao festival. Seguiram juntos. Pedindo carona, que só conseguiram de um sitiante com uma camionete velha, que exigiu que eles fossem na parte de trás, amontoados entre sacos de milho e engradados de galinha. A partir de um trecho da estrada o homem (um caipira muito desconfiado) os mandou descer dizendo que seu caminho não passava pela porta da fazenda onde acontecia o festival. Tiveram que seguir a pé, por uma estradinha barrenta e estreita. Durante a caminhada Fininho estava doido pra acender um baseado, mas se aguentou. Um pouco porque era muito tímido pra fumar na frente de estranhos e outro tanto por avareza mesmo. Tinha medo de mostrar quanto fumo estava levando e ter que dividir com seus acompanhantes. Chegaram à fazenda já no meio do dia, mortos de fome e cansaço.
Fininho logo foi fazer o reconhecimento da área. A fazenda era enorme, com muitas árvores, muito mato, muitos recantos onde alguém podia se esconder pra fumar sossegado. Não havia os peladões que ele esperava encontrar (a chuva da semana inteira tinha feito a temperatura despencar e quase todos usavam o mesmo uniforme: calças e jaquetas jeans). Os banheiros eram um completo desastre (um mistura fétida de urina e vômito emporcalhavam o chão). Mas o palco era uma beleza, grande, bem montado, equipado com uma aparelhagem de som da pesada. Fininho concluiu que os shows seriam muito bons e achou melhor descansar um pouco, pra aguentar o agito da noite.
Procurou um local afastado e deserto, curtiu seu fuminho, depois dirigiu-se para o espaço onde a moçada tinha montado acampamento. Recostou-se na sombra de uma barraca e dormiu por algumas horas. Quando acordou, viu pela primeira vez as três, paradas à porta da barraca. Duas morenas, uma delas com cara de brava e a terceira, bem loirinha. Cabelos longos e lisos, rosto fino, traços delicados, cara de santa. Fininho encantou-se pela moça assim que a viu. Ficou parado, olhando pra ela embasbacado, desejando se aproximar, falar com ela, ouvir-lhe a voz. Só desviou os olhos quando a morena de cara de brava deu-lhe uma encarada. Mas mesmo assim, continuou por ali, disfarçadamente admirando a moça. E quase não se afastou mais. Sumia de vez em quando pra fumar seu baseado, tomava um banho na cachoeira, ia assistir ao show, mas sempre voltava pra dormir. Começou dormindo na sombra da barraca mas depois, vendo que as moças estavam sozinhas, passou a dormir na porta mesmo, como que montando guarda. Não entendia muito bem o que aquelas três faziam ali. Estava na cara que não tinham nada a ver com aquele ambiente. E se arvorou meio que em anjo da guarda das moças (em especial da carinha de santa, por quem estava obviamente apaixonado).
Tanto zanzou por ali que acabou atraindo a atenção da moça. Trocaram algumas palavras. Ela lhe deu uma fruta, que Fininho aceitou prontamente (não estava em condições de recusar comida). Sentiu-se muito pobre e um pouco envergonhado por não ter nada para oferecer a ela. E foi ficando por perto, feliz apenas por conversar um pouco com a moça. Ficou sabendo que as três eram amigas de colégio e tinham ido atraídas unicamente pela música. As duas morenas eram irmãs. A de cara de brava era a mais velha e dona do fusquinha que as levou ao festival. A outra, mais nova, andava meio enrabichada com um sujeito fortão, de barba escura (com quem desaparecia no meio da tarde). A santinha era doida por rock e especialmente apaixonada por um astro pop americano que, obviamente, não ia aparecer pra tocar naquele fim de mundo.
E assim o tempo passou e chegou o último dia de festival. Perdido entre sentimentos contraditórios, alegria por ter curtido aqueles dias, a tristeza de saber que era o fim, Fininho fumou feito louco, até de madrugada. Depois, deitou-se na porta da barraca e dormiu. Dormiu e dormiu. Sonhou que alguém o chamava aos berros, que o sacudiam. Sonhou que acordava, entrava na barraca e ia dormir junto da moça. E acordou de susto, com a barraca despencando-lhe em cima, uma haste do ferro da armação acertando-o bem no meio da testa (na verdade, no meio de seu sono profundo, tinha mesmo entrado na barraca, as moças tinham feito de tudo pra acordá-lo e não conseguindo, resolveram desmontar a barraca mesmo com ele dentro).
Ao ver que aquele era o momento da separação, Fininho entrou em desespero. Queria dizer algo para a moça, não sabia exatamente o quê. De repente, lembrou-se de um poema que arrancara certa vez de um livro e que andava sempre dentro de sua mochila. Um pedaço de papel amassado com um poema de amor que dizia mais ou menos isso: “quando você não estiver mais perto de mim, nenhum fiapo de vida me restará para viver”.
Desajeitado, sem saber falar sobre a tristeza que estava sentindo, Fininho enfiou o pedaço de papel na mão da moça e se afastou rapidamente, sem coragem de ficar para vê-la partir.
Mas depois que as moças foram embora, Fininho arrependeu-se de sua covardia. Então, procurou pela fazenda inteira o fortão com que a morena mais nova saía. Encontrou-o e conseguiu arrancar dele (em troca de uma boa porção de erva), o endereço das moças.
Fininho voltou pra cidade. Retornou ao trabalho onde o patrão furioso nem quis ouvir explicações. Simplesmente o despediu (pelo menos foi generoso, pagou-lhe uma boa indenização).
Desempregado, mas com dinheiro no bolso, Fininho fez a barba, cortou os cabelos, arrumou-se todo e foi à procura da moça (o endereço não era difícil e Fininho conhecia bem a cidade inteira).
A rua ficava num bairro de classe média. A casa era muito ajeitada, um portão largo e guia rebaixada indicando a existência de um carro. Fininho ficou circulando na rua, sem saber o que fazer. O que diria para a moça? Falaria de seu amor repentino? E o que poderia oferecer a ela? Nem mesmo seu emprego no lava-rápido possuía mais...O tempo foi passando e Fininho desanimando.
Já fazia horas que Fininho dava voltas pela rua, quando a moça passou por ele, mas nem sequer o viu. Era o fim de suas esperanças.
Fininho deixou-se ficar perambulando pela rua e quando anoiteceu, aproveitando-se da escuridão, deixou pichado no muro em frente à casa o que julgava ser um recado.
Depois, foi a uma boca de fumo que conhecia, onde gastou quase toda a indenização em maconha. Daquela vez, só daquela vez, pra dar um realce (como se diz no jargão dos usuários) comprou também uma trouxinha de pó.
Tomou um trem e rumou para o subúrbio, onde enfiou-se no banheiro imundo de uma estação ferroviária para curtir sua desilusão.
Na manhã seguinte, quando a moça abriu a porta de casa, teve um susto de quase desmaiar. No muro em frente, em letras garrafais, a pichação dizia FININHO TE AMA.
Naquele mesmo instante, do outro lado da cidade, o corpo de Fininho dava entrada no IML, morto por overdose, numa parada sinistra na periferia.
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O Presente Especial! - por Adir Vieira

Tem gente que sabe presentear. Confesso que eu não tenho habilidades para tal.
Sempre que presenteio alguém, acabo me presenteando, pois sempre imagino que as pessoas vão olhar para o presente com os meus olhos. Aí, mesmo antes da entrega, fico imaginando todas as possibilidades de ter acertado. Vejo em minha mente a gratidão efusiva de quem recebe o presente, suas caras e bocas ao abrir o embrulho e, quase nunca, as coisas se dão como eu imagino.
Mas tem gente que sabe presentear.
Inesperadamente, recebi nesse ano, de Natal, um presente que jamais compraria para mim, embora tenha me alegrado sobremaneira. Não o compraria porque minhas outras prioridades não permitiriam que eu me presenteasse com algo que fosse só para mim.
Penso que erramos muito quando, na vida, não damos atenção aos nossos anseios pueris, quando agora, com o meu presente instalado, tenho à mão momentos vividos com felicidade diante dos meus olhos, sem precisar abrir gavetas ou armários e folhear álbuns e mais álbuns de fotografias.
Minha satisfação em reunir as imagens significativas da minha vida, escaneá-las, inseri-las no meu álbum digital, foi idêntica àquela vivida nas épocas de infância, quando a expectativa de receber o presente de Papai Noel era o mais importante da vida. Todas as manhãs, ao acordar, ligo meu álbum de histórias e, diante dele, revivo, com emoção, passagens superimportantes para mim.
O presente me foi dado por uma grande amiga. Minha alegria ainda foi maior porque descobri que ela conhece meus gostos que, como boa psicóloga e grande conhecedora do ser humano, consegue ver a alma das pessoas. Ainda mais: se gosta de alguém, gosta mesmo.
Amei o presente, amei saber que sou querida e que mereci um presente tão especial.
Obrigada, minha amiga!
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Visitem Adir Vieira
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Recado - por Ana

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Caríssimo Poeta, vamos sentar rapidamente nestas cadeirinhas do Duelos Café pra eu te dizer uma coisinha rápida: adorei o seu poema Vingança da Pena, e achei fantástico o final: “Coisa mais certa nessa vida, / É o acaso.” (pretendo, assim que puder, escrever algo sobre isto). Mas o que eu queria mesmo comentar, se me permite, foi o que me ocorreu, de forma inevitável: “Coisa mais certa nesta vida, mesmo... é o ocaso”. rsrsrsrs
Beijos, Poeta!
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domingo, 20 de dezembro de 2009

O Grande Barato da Esperança é Esperar - por Bruno D’Almeida

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Eu nem gosto muito das festas de fim de ano. Duvido de mensagem sincera que tenha nos créditos finais as logomarcas dos patrocinadores. Mas ao mesmo tempo, quando essa época chega, não há como deixar de refletir sobre algo que nasce, essa famigerada esperança. Alguns comemoram o nascimento de Jesus, outros mais antigos o solstício de verão. Muita gente comemora porque não aguentava mais um ano tão sem sal, feito comida de hipertenso. Não importa: todos esperam, de uma forma ou de outra, que algo de extraordinário aconteça em suas vidas.

É por isso que eu não gosto dos últimos dias de dezembro. Na verdade, eles têm cheiro, sabor e consistência dos primeiros dias de janeiro. Não gosto de alimentar esperanças com endereço extraviado. Não espero que uma nuvem abra do céu, nem uma redenção da raça humana no dia do Juízo Final. Como posso acreditar que algum mágico vá bater a sua varinha e todos nós seremos felizes? Tolice. Não há transformações mirabolantes ou desfechos cinematográficos, nada vai mudar de uma hora para outra em nosso jardim. Se quisermos algo de verdade, devemos acreditar no poder de nossas próprias ações.

Há sim, as transformações pessoais e das pessoas que estão ao nosso redor. Isso eu comemoro todos os dias, nem precisa fechar a porteira do ano. Mas quem sabe o Natal e o Ano Novo possam trazer algo de bom, mesmo que Papai Noel e Santa Clauss sejam incapazes de tomarem um café dormido na minha casa. Eu não convido mesmo, e se vierem eu boto para fora debaixo de vassouradas. Essas festas de final de ano só me fazem gastar mais dinheiro. Porém, eu começo a não acreditar que as coisas podem melhorar: tomo a convicção de que posso fazê-las melhorar. A cada ano, uma reflexão, novos caminhos, novas trilhas, novos rumos, novas estações.

É o lado bom de pensar no ano que vem. Olho pra esse ano que passou e meu espírito me diz que ano que vem pode ser diferente. Que seja mesmo. O homem ama a felicidade porque ela nunca diz quando vai aparecer, basta vivermos com ela todo dia para não darmos valor. A esperança se encarrega de aguardá-la. Afinal, esperança é o único sentimento que nunca se realiza, pois o grande barato dela mesmo é esperar. É isso. Esses dias reacendem a faísca sublime da esperança. Esperança numa vida melhor. E esse sentimento é maior do que todo torpor, toda angústia, toda aflição dessa estada sem data de partida definida, contudo tão certa quanto inevitável.

Só que antes de ir, quero ter para mim a certeza de que algo valeu a pena. E por isso posso comemorar. Pronto. É o suficiente para que todos os meus projetos de vida saiam correndo do baú velho de trancas enferrujadas. Que ano que vem eu possa ter mais dinheiro e menos dores na coluna. Que eu possa comer mais brigadeiro. Que eu possa me reunir mais vezes com os amigos que não vejo há tempos. Não tem jeito, essa festinha comercial, para todos consumirem, comprarem presentes e roupas brancas me faz, depois de uma certa tristeza momentânea, mimetizá-la num rio de fé em busca de um punhado de felicidade.

Eu já disse que não gosto muito dessa época de fim de ano. Mas nestes dias eu costumo sorrir sozinho, feito criança boba, e dizer que vou deixar meu nome escrito nas mesmas estrelas por onde passaram os Reis Magos. Ah, sim, eu vou! Eu não estou nessa vida por brincadeira e vou ser muito feliz. Minhas asas são tortas, mas sabem planar e sentir o faro do infinito. Boas festas e felicidades para todos nós! Pelas sementes de esperança que todo ano brotam novamente, feito ervas daninhas, em nossos corações.
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História Conta História

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Queridos amigos:

Inauguramos a categoria “História Conta História”,
que é consequência de uma ideia que surgiu durante o bate-papo no chat do Duelos
entre Fatinha, Escrevinhadora e Ana.


A proposta foi a seguinte:
cada uma delas escreveria uma história que tivesse vivido;
a seguir, cada uma criaria uma história contendo os principais detalhes das três histórias iniciais.


Dia 17 demos início à categoria com a história pessoal de Escrevinhadora.
Dias 18 e 19 foram postadas as Partes 1 e 2 da história pessoal de Ana.
Hoje foi postada a história pessoal de Fatinha.

Na sequência, serão postadas as histórias derivadas das três autoras.


Portanto, a categoria funciona da seguinte forma:
com base em qualquer (ou quaisquer) das histórias apresentadas podem ser criadas histórias derivadas.
Leiam as histórias publicadas, criem suas histórias e enviem para postagem!
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