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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Paspalho - por Leo Santos

Só ternura me visitou
Depois do respeito que te tive
Vivi como qualquer vive
Alheio ao que o Fado preparou

Fui conselheiro às vezes quando
Teu lamento podia ouvir
Inocente até apontei pra ti
Rumos que só eu estava olhando

Nunca esforcei meu rosto
Pra que te parecesse belo
Aliás, até fui martelo
Quando teu siso vagava o posto

O lobo do tempo soprou as palhas
Da cabana utópica que ergui
Então, ao vê-la ruir
Só me coube guardar as tralhas

Aí caíram as escamas
Que faziam meus olhos baços
Refiz a vereda dos passos
Ante o crepitar dessa chama

Desperto te vi mulher então
A taça da paixão foi servida
Vi a bela, não adormecida
Que lento meu coração!

O vinho que o tempo curou
Flui agora, aroma de terra
O detetive paspalho, o caso encerra
Tinha consigo o que procurou

Certo desrespeito, sem perder a ternura
Dois, enfim, na mesma rede
Quem está morrendo de sede
Lança-se à fonte, sem muita mesura…



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O Poeta e Eu - por Adir Vieira


Fico aqui pensando que a sensibilidade de um poeta é por demais avassaladora. E olhem que, por experiência própria, posso afirmar que essa sensibilidade vai às raias do inexplicável.
Em todos os campos, em todas as matérias, em todas as situações de vida, são intensos por demais em sua análise.
Parece que querem extrair da vida sua forma humana e pintar de acordo com os seus olhos de mel o que há ao redor, ao seu bel-prazer.
Acompanhar um poeta nessa trajetória é, com certeza, uma viagem a um caminho sem volta, onde em certos momentos procuramos uma parte de nós e não a encontramos.
Aqueles que não vêm para a vida com esse dom, veem a vida com mais simplicidade, acreditam no que veem, sejam coisas boas ou más. Mas o poeta não, quer ver rosa no cinza e sofre.
Quer a sua volta seres especiais, sem quaisquer erros, como se pudéssemos extrair do ser humano hábitos corriqueiros e sutis.
Planejam, como numa escrita, sua própria palavra, fazem do seu caminhar algo surpreendente como o verso que compõem em cada ato de vida.
Penso que talvez num balanço diário, apesar de tudo, ainda sofram muito menos que nós, pobres mortais que, mesmo se atropelando, vão organizando a vida, às vezes mais preta do que azul.



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Vale Tudo, de Nelson Motta - por Escrevinhadora


“Acabo de ler ‘Vale Tudo’, a biografia do Tim Maia escrita pelo Nelson Motta. O texto é bom, claro, de fácil leitura e bastante fiel no relato da vida do Tim. Terminei a leitura meio perplexa, com a complexa personalidade do biografado: genioso e genial. Criativo, divertido, temperamental, explosivo, generoso, autodestrutivo, Tim Maia definitivamente era uma figura ímpar.”
 

E você? Que livro gostaria de resenhar aqui?
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Verbatin - por Kbçapoeta

Vagamente sigo indeciso,
Ouvindo conselhos das estrelas,
Astro no céu, branco e roliço
Aconselhou-me nunca perdê-las.

Diamantes em noturno manto,
Instantes de máxima certeza,
Delírio de causar espanto,
Clarão almejado de pureza.

Hoje sigo em profundo transe,
Atrás de estética e rima.
A singular matéria-prima

Belo mar já navegado antes,
Decassílabos parnasianos
Não sensibilizam os amantes.



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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Samambaia de Plástico - por Fatinha

Querido Brógui:

Não tem escapatória: é preciso assumir que sua vida sexual é comparável à de uma samambaia de plástico quando a simples notícia de um beijo na boca causa frisson. Funciona assim:
Você começa a pensar que talvez tenha uma vida sexual de uma samambaia de plástico (e que, pra piorar, todo mundo sabe disso) quando esse pequeno acontecimento converte-se no evento mais significativo do século, digno de um relatório contando tudo tintim por tintim e depois entrando em detalhes (como diria Millôr).
O segundo passo, que lhe leva à certeza de que tem uma vida sexual de uma samambaia de plástico, é quando faz a sua narrativa escutando um foguetório de comemoração ao fundo (padrão reveillon), corinho de leleleô e o estouro de um champagne, além de saber que sua amiga vai ter que pagar uma promessa que fez. É, quando as amigas começam a fazer promessa pra você desencalhar antes do naufrágio, definitivamente você tem uma vida sexual de uma samambaia de plástico. E todo mundo sabe disso.



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Millôr Fernandes.

Amor - por Adir Vieira

Ouço sua voz. A princípio ela vem mansa, como a concebo para mim.
Quando se aproxima, seus olhos são doces e ternos, a invadirem minha alma, exatamente como espero que devam ser todas as vezes que me olhar.
Suas mãos, na minha direção, ensaiam e dançam no ar até pousarem por sobre as minhas, com a suavidade dos gestos dos amantes, como eu quero que sejam para mim.
Seus carinhos impetuosos têm o tamanho exato e a força transformadora do meu ser, como eu desejo que seja para mim.
Seu descanso junto ao meu, bem paralelo, confirma, em câmera lenta, dessa forma, a existência e o egoísmo do amor.



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Resposta - por Cacá

Tem razão. Às vezes à imposição nos é inevitável o cumprimento. Outras, dada a irrelevância de suas consequências e o desnecessário desgaste de energias todas, melhor ceder de pronto.



Resposta a As Nossas Palavras XXVII, de Alba Vieira.
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O Nosso Amor a Gente Inventa - por Duanny

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Eu amo você porque você é maravilhoso ou você só é maravilhoso porque eu te amo?! Acho que pra você isso não tem e nunca teve importância, desconfio que você é mais uma das minhas alucinações, mas acho que você foi uma das mais realistas.

Coloquei qualidades onde não existiam... na maioria das vezes elas realmente estavam ali, mas, mesmo assim, você tinha que ser perfeito, pelo menos pra mim. Eu escondia o que não queria ver e aumentava a idealização de como você era tudo.

Me fortaleci com esperanças e ideias inexistentes, achei que poderia estar certa e talvez apostar tudo o que eu tinha ali mesmo. Você nunca percebeu o quanto era perfeito, me disseram que você também sonhava comigo, você insinuava isso o tempo todo e eu achando que poderia, sim, dar certo.

Pra falar a verdade, sem nenhuma enrolação, acho que você cansou sem antes tentar, me fez acreditar em algo que nunca existiu, pra dizer apenas “Larguei de ser besta”. Deve ter largado mesmo, você nunca me olhou como antes ou falou comigo como se fôssemos os melhores amigos do mundo. Foi aí que eu vi como a perfeição é chata e patética: você começou a me enjoar. Claro, sentia saudade - penso que sinto até hoje - de ter a melhor pessoa comigo, mesmo como amigo.

Quem sabe um dia você vai olhar pra mim e pensar: “Devia largar logo de ser besta”. Mas o amor é assim mesmo, nunca vemos defeitos e sim qualidades, na verdade podem existir os piores defeitos do mundo, que o amor dá conta de deixar as minúsculas qualidades como se fossem as mais importantes.

Todos nós idealizamos a ideia de amor perfeito, de cara perfeito e de vida perfeita, mas quer mesmo saber? Isso tudo não existe, é só uma desculpa pra esconder a ambição, a cobiça, o desejo de ter o melhor pra si mesmo.

Quem sabe um dia as pessoas aprendam a se disfarçar de perfeição.

Quem sabe um dia a vida não dependerá do poder aquisitivo.

Quem sabe um dia eu esteja certa.

Quem sabe um dia eu olhe para trás com a certeza de que tudo valeu a pena.

Quem sabe um dia você veja aquela perfeição inexistente em mim.



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12 de Outubro: Dia da Leitura - por Escrevinhadora

Domingos Pellegrini - Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século


“Hoje, além de dia de Nossa Senhora Aparecida e dia das crianças, é também o dia da leitura. Fiz questão de ler ao menos um texto novo: li o conto ‘A maior ponte do mundo’, de Domingos Pellegrini (está na coletânea ‘Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século’).
Me abstenho de fazer qualquer observação a respeito do dia santo e da criançada, uma vez que em relação a estes outros já deixaram registros.”



E você? Que livro leu ou está lendo?
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Poço Fundo - por Marília Abduani

Se o sol nos afaga com a luz,
com o perfume nos fala a flor.
Com as nuvens nos fala o tempo,
com a chuva, nos fala o amor.

Viagem definitiva,
mistério a nos envolver,
no cumprimento da vida
tão linda no alvorecer.

Não sopra mais nenhum vento
na plenitude do mundo.
Fresco abismo de cimento,
a cal desse poço fundo.

Inda há mais um inverno,
inda em mim mais um verão.
Encardido do que é terno,
rangendo essa solidão.


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Terna Lembrança - por Adir Vieira


Hoje é um dia realmente especial. Dia de Nossa Senhora Aparecida.
Era a santa de devoção do meu pai e com ele aprendi, fervoroso que era, a dedicar também a ela meus pedidos e agradecimentos ao longo da vida. Hoje, rezando aos seus pés e agradecendo a ela a minha vida, vejo a figura de meu pai, crédulo por demais. Vejo-o sentado na cama, com o pequeno quadro em que sua imagem foi emoldurada em mãos, rezando a cada manhã e impedindo-nos de entrar no quarto enquanto estivesse em oração. Lembro que quando comentávamos sobre qualquer dificuldade, ele dizia de pronto que ia pedir a nosso favor a Nossa Senhora Aparecida.
Vejo hoje, sobretudo, a importância do seu gesto, tão desconexo na sua candura, com aquele homem grande e forte. Gesto de determinação de valores morais e sentimentais, tão ausentes nos adultos de hoje. Sinto, em sua grandeza, a real importância da família no que diz respeito à formação das crianças e às sementes de amor e reverência às suas crenças que, por certo, carregarão para o resto da vida nos momentos cruciais.
Fico feliz, imensamente feliz, por essa lembrança terna e eternamente presente, do meu pai.



Visitem Adir Vieira
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As Três Crianças - por Alba Vieira

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Cada um de nós, inevitavelmente, estará, ao longo de sua existência, em contato com três tipos de criança. E se ignorar uma delas, não conseguirá sentir-se pleno. É um engano imaginar que somos diferentes nesse aspecto pelo fato de termos filhos ou não, de nossa condição econômica ou psicológica.
Essas crianças precisam ser alimentadas, indiscriminadamente, por cada um de nós.
Se temos ou não temos filhos, não importa. Se optamos por não tê-los ou se não pudemos gerá-los, se adotamos alguma criança ou não concordamos em fazê-lo, de alguma forma teremos crianças por perto na família, de amigos, de vizinhos, no trabalho ou mesmo em alguma instituição à qual podemos nos filiar. Essas são crianças diretamente ligadas a nós, de quem podemos saber os nomes e detalhes da vida. Elas precisam do nosso cuidado, orientação, do nosso olhar e da nossa atitude.
O segundo tipo são aquelas crianças ligadas a nós de forma indireta. Não conhecemos suas identidades nem muitas coisas da sua história, mas as vemos jogadas pelas ruas, com fome, prostituídas, vítimas das drogas, dos abusos ou esquecidas em orfanatos esperando, indefinidamente, por adoção. Também são crianças fotografadas e filmadas em outras terras, protagonizando documentários sobre os horrores da miséria, da guerra, das desigualdades sociais, espalhadas pelo mundo. Elas necessitam do mínimo que pudermos fazer por elas, através do nosso trabalho, da nossa denúncia, indignação, nossas ações cívicas ou globalizadas.
E a terceira categoria de crianças existe dentro de cada um de nós. Elas precisam, urgentemente, do nosso resgate, por meio do reconhecimento de que existem, dos cuidados que devem ser a elas dirigidos para que desenterremos sua história, as recuperemos e permitamos que ganhem vida outra vez. E assim, através de cada um de nós renascido e renovado, possam ser responsáveis pela melhora desse mundo e evolução da humanidade.
Desejo que neste dia das crianças, todos nós possamos ter a oportunidade de refletir e nos deixarmos acercar por essas três espécies de criança, nem que seja só através da imaginação e sermos capazes de dirigir a elas um sorriso grandioso de acolhimento.



Visitem Alba Vieira
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Criança - por Dan

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Como luz
Caminha por entre nuvens
Festa e Fantasia
Amor, desejo, fartura

Brincadeiras
Total Liberdade
Anjos disfarçados
Verdade e beleza

Criança, queria nunca crescer
Sentir a realidade
Desse mundo de homens
Homens que destroem

Não devia sofrer
Não devia ser abandonada
Não devia chorar
Devia sim, ser feliz




Visitem Dan

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Canto em Tom Maior - por Daisy

Meu canto inicial era visceral.
Brotava de um canto escuro de minha mente,
Escuro e triste.
Era um canto desafinado, sem ritmo.
Harmonia pesada e complexa.
Um canto que estava engasgado,
Que precisava se fazer presente,
Gritar, colocar para fora
Toda aquela melancolia e solidão.
Em tom menor!
Meu canto não me encantava,
Nem a ninguém, suponho.
Meu canto cansado que se cale!

Meu canto vem se modulando,
Mostrando uma harmonia leve e simples.
Vem se afinando aos poucos.
Parece que flui com um ritmo suave.
Quero meu canto soante, cantante.
Que me encante e a quem o ouça.
Em tom maior!




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Desdobramento - por Leandro M. de Oliveira

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Um dia ele mergulhou num sono profundo e lá permaneceu por eras incontáveis, no escuro da caverna sedimentou o seu sonho. Todavia, num desses golpes da natureza, como que fosse ânsia de vida por si própria, aquele homem acordou. Sua pele não era como a de outros homens ou mulheres, começava a se mudar em forma de uma espécie de couraça, delgada porém de resistência incomum. Darwin tenha um bom lugar no céu! A lei de sobrevivência foi embrutecendo-lhe ante os perigos da sombra, ainda que inconsciente do abismo a evolução brotou-lhe como a primavera em campo aberto. Ergueu-se finalmente daquela cama de campanha, tumular, ineditamente após mil ciclos da lua metafórica viu-se fora da caverna. O sol queima-lhe tanto a tez como os olhos, a essa altura inabituados com qualquer espasmo de claridade. Muito, porém, do desconforto daquela hora fora suprido por revelação mais grave, os pulmões inflavam sem que doessem as costelas, os pés caminhavam sem que houvesse ranger de correntes. “Meu Deus! Estou livre!” Sussurrou em espanto, aquele momento capital de sol a pino e agressão ocular convertera-se em verdade, no momento da descoberta última. Era como se pudesse rasgar com as mãos o quadro do tempo e repintá-lo a seu modo. Aquele homem teve a benção de escolher o próprio caminho. O arrefecido de mitos pretéritos fora reduzido a não mais que isso, alegoria da ignorância ou roupa que não mais se usa. Foi-se o tempo e o assombro, o degelo chegou, o inverno desfaleceu. Compartilhou entre as pessoas, cantou entre os homens, fornicou com as mulheres. Tudo era possível pra alguém sem passado. Caminhava só e tão preenchido de si que era ele mais uma multidão singular que um alguém a carregar coisa por dentro. Mas a vida tem seus desvarios, ele erra em medos cotidianos, e se não há respostas pula a janela da frente e caminha descalço na chuva. O alto cosmo não é de estrelas fixas, para o algo além é necessária a vida de planeta andarilho. Não há modos de se acomodar.

Como aquele homem, meto a mão na consciência quando existir é grave e se ela nada me diz, meto o pé na lama e caminho como um animal a pasto. Mas há um empecilho aqui, esse homem é uma ficção! Ele existe como alegoria, daquilo que sei e do que eternamente suponho. Mais uma vez eu; a usar a máscara do futuro sonhado, a estar ainda em contradição por desprezar o tempo que me leva sem saber. Que posso saber de uma vida nova? Só tenho minhas hipóteses e meu convencimento. Se falar de um novo começo fosse simples como gritar ou esquecer, teria eu mais méritos nisso. Sorry minh’alma, muito prazer, até mais. Fui abominado por não crer na família. Acontece que mesmo não admirando o status quo, suspeito que as pessoas de bem devem estar alheias ao crime organizado.

E o quarto continua avesso à realidade, apenas um cômodo em aparência, muito mais em perspectiva. E eu continuo avesso ao que penso crer, de fora um dogma em construção, de dentro a sombra do precipício. Súbito isso me bate, e me arrepio e cismo. Sou estrangeiro na terra que me deram. Posto aqui, sobrevivo como um personagem habitando clandestinamente dentro de mim.
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domingo, 11 de outubro de 2009

Colcha de Retalhos - por Ana

Misturo letras com amor
para que, à noite,
elas possam te chegar delicadamente,
uma a uma beijando tua pele,
como se meus lábios fossem.

Tranço as palavras delicadamente
para que, à noite,
elas possam te acariciar a saudade,
aquecendo teu coração,
como se fossem minhas mãos.

Teço as sentenças com cuidado
para que, à noite,
elas possam te enlaçar carinhosamente,
de maneira lenta e doce,
como meus braços o fariam.

Vou urdindo textos pouco a pouco,
atenciosamente,
para que neles, à noite,
possa repousar teu corpo macio
enquanto o percorrem
as letras,
as palavras
e as sentenças
que, unidas,
buscam te cobrir suavemente
para que durma,
tranqüila,
sonhando com uma história
que te envolve e faz feliz.

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Salve 27 de Setembro - por Adir Vieira

Desde há muito tempo, sou uma fiel seguidora dos Santos Cosme e Damião. Já lá se vão mais de 30 anos que eu, religiosamente, distribuo doces em homenagem aos dois e às crianças que foram. Se algum motivo me impede de fazê-lo no dia 27, o faço no dia 12 de outubro, das crianças.
Desde pequena curto aquela correria nas casas vizinhas, visto que na minha época de criança, na rua em que eu morava, as casas predominavam. Ouço ainda aquele seu ruído gostoso, fazendo fila, a mando das senhoras que faziam a distribuição que, mesmo praticando um ato que envolvia os santos, se negavam terminantemente a ceder um saquinho que fosse a alguém, mesmo faminto, que não fosse criança. Até os adolescentes que traziam pelas mãos irmãos menores ficavam fora desse favorecimento.
Lembro que na esquina da rua ficava o único prédio do quarteirão. Lá morava uma senhora de uns 70 anos, já viúva e sem filhos que distribuía semanas antes da data, na porta do prédio, cartões para a coleta dos sacos no dia 27. Esse era o mais precioso para nós. O saco era bem grande, pois abrigava, unicamente, um pão doce de uns vinte centímetros de comprimento, recheado de goiabada e coberto de glacê. Lembro que deixávamos para trás qualquer outro recebimento, mas aquele nunca. Sonhávamos já de véspera com aquele presente, pois a cada ano se apresentava de forma diferente.
Lembro também de um dos meus irmãos, saindo e voltando várias vezes para casa com os braços cheios de saquinhos coloridos com a imagem dos santos. Lembro também que ao pedido dos irmãos menores de ganharem apenas uma cocada que fosse, mandava que aguardassem até a noite para a distribuição. Aquele monte de sacos era guardado fora do alcance de nós todos até depois do jantar que, de banho tomado, sentávamos em volta dele que, pacientemente, separava, diante dos nossos olhos atentos, os doces embrulhados, as balas etc. acondicionando-os em potes com tampa, classificados devidamente.
Depois de fazer um balanço da sua coleta, aí, sim, permitia que fizéssemos a festa, sob a permissão de minha mãe sobre o que cada um poderia comer. Essa regra que ele nos impunha hoje nos traz lembranças adoráveis quando, como agora, aqui, da minha janela, observo as crianças correndo em busca dos doces.



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Ampliação de Consciência - por Alba Vieira

Quando meu olhar escapa de mim, existe uma chance de acalmar minha aflição. É que por paradoxal que possa parecer, o que me aflige no que observo, nada mais é do que um reflexo de mim naquilo que me cerca. Assim, para que a miséria, a fome, a degradação da condição humana, a dor, a doença, o desequilíbrio, o caos e tudo que me provoca incômodo, não tenham mais esse efeito devastador, é necessário me colocar como mero observador, alcançar o caráter balsâmico do distanciamento. É preciso discernir bem, através da vivência e da conscientização o real sentido do egoísmo, da compaixão, da indiferença e da capacidade de observar mantendo-se distanciado (misturando-se, mas guardando a individualidade e integrando-se ao todo com a consciência de que tudo tem um sentido e segue seu curso na roda da existência).



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sábado, 10 de outubro de 2009

As Nossas Palavras XXVII - por Alba Vieira

O que tiver de ser será.
Inútil resistir e espernear. Faça a sua parte.
Só o que puder e estiver ao seu alcance.
Onde é que isso vai dar?
Aí já é outro lance...



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O Que Está Havendo? - por Adir Vieira

Hoje parece que acordei “destrambelhada”.
Ao me dirigir à cozinha para fazer o café, senti sede e imediatamente abri a bica do filtro e esqueci o copo embaixo, inundando a cozinha de água. Já que tive que enxugar todo o chão, para ganhar tempo, coloquei a máquina de lavar para funcionar. A bicha encheu, fez todo um processo de lavagem e eu esqueci completamente de colocar o sabão em pó e o alvejante. Resultado: repeti todo o processo.
Dirigi-me ao computador para postar o blog e tive que reiniciar o mesmo por três vezes, devido ao congelamento da tela.
Ao fundo, algo me incomodava - o ventilador de teto da sala resolveu chorar, fazendo aquele ruído estranho de peças de ferro em contato. Quis ver o que ocorria e, ao exame, uma das lâmpadas queimou.
Decidi não me irritar, pois desde que levantei achei-me em câmera lenta, mas a gota d’água foi descobrir, no site da Previdência, que agora, para acessar meu extrato, tenho que cadastrar uma senha, antes obtida através de agendamento e ida a uma agência. Já viu, né? Aí, não prestou. Joguei a toalha.
Hoje não faço mais nada!



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