sexta-feira, 12 de junho de 2009
Construção - por Anita Bastos
A Missa - por Adir Vieira
Acho até que já demos um alto avanço nessa questão quando deixaram de rezar as missas em latim, mas, no entanto, agora, fora o fato do ritual com o padre de batina, os coroinhas, vários auxiliares e frases repetitivas como: “Que o Senhor esteja convosco.” “Ele está no meio de nós.”, poucos são os fatos que nos dizem estarmos assistindo, realmente, a uma missa.
O objetivo da tal missa era dedicá-la aos mortos de sétimo dia e a outros mortos (diversos), pois hoje, só se fazem missas comunitárias.
No entanto, a primeira providência é levantarmos para saudarmos, com palmas, o padre e auxiliares que vão celebrá-la.
Antes de qualquer coisa, já devidamente instalado, o padre faz questão de apresentar sua mãe (pasmem!) a toda paróquia, pois ela veio de uma cidade do interior para visitá-lo e, logicamente, como qualquer mãe beata e orgulhosa, dar vivas ao filhinho que se tornou padre, tal qual o seu desejo. Em seguida, mais de cinco minutos do cronometrado tempo em que a missa deve transcorrer, se perdem com uma das auxiliares lendo uma folha quilométrica com os nomes das pessoas beneficiadas - mortos de 30º dia, mortos de 1 ano, mortos de 2 anos, mortos de 10 anos, família Andrade, família Souza e por aí vai...
Enfim começa a missa e constato que a leitura do dia sequer faz qualquer menção à passagem, à morte, ao retorno...
Mais de metade da missa é dedicada a José de Anchieta e aos feitos do catequista nos anos de 1500.
Não sinto uma preocupação do padre com as famílias dos mortos, com a necessidade que têm, naquele momento, de uma palavra de conforto, doídos que estão, com a ausência dos seus entes queridos. Nem mesmo um senhor de meia idade sentado à minha frente e chorando convulsivamente lembra ao padre que ali deveria estar sendo rezada uma missa para mortos.
Seguindo o ritual, em alto e bom som, o padre anuncia o ofertório e quase todos os beatos e beatas se dirigem ao altar para depositar moedas e notas de qualquer valor, nas cestas, ricamente preparadas com tecidos rendados, enquanto um cântico de louvor se faz ouvir estridentemente.
Aliás, outra coisa que me chama a atenção é a música e os cantos que ocupam quase dois terços do ritual. Parece que a semente jogada pelo Padre Marcelo proliferou em todo o ambiente e já não se dá mais valor à palavra.
A palavra, propriamente dita, colocada na Bíblia e a palavra do sacerdote, se é assim que podemos chamá-lo.
Para minha surpresa - pois diante de tantas aberrações, não consigo sequer rezar pelo morto em questão, nem pelos meus mortos -, a única vez em que o padre se dirige às famílias que ali estão em busca de consolo é naquele momento. Momento muito importante para o padre, não para nós que ali estávamos. Como se aquilo fosse absolutamente normal, ele pede licença às famílias dos mortos para anunciar o aniversário de uma pessoa da comunidade e pedir a todos que cantem Parabéns a Você, para a aniversariante, jogando por terra toda a minha crença e a minha religiosidade.
Absurdamente, vejo-me como os outros cantando e louvando aquela aniversariante que não conheço e nunca vi mais gorda, enquanto meu morto, naquele local que julguei apropriado e único para tal, ouviu seu nome apenas uma vez, para, por certo, justificar o valor que tivemos que pagar pela celebração.
Que celebração!
Enamorados - por Alba Vieira
Como antes de você ser meu bem-querer.
Quando seu rosto que ainda não conhecia
Surgia nos meus sonhos em cada noite
Sorrindo com aquele brilho no olhar doce
Que eu reconheceria depois de tanta espera.
Quando enfim você chegou concretizando
Todos os meus desejos de relacionamento ideal,
Fazendo dos meus dias uma felicidade perene,
Tive medo que, de tanto amor,
O coração não suportasse se um dia a chama
Cedesse lugar ao sentimento morno da certeza.
Mas o tempo passou, passou a saudade, ficou você
Harmonizando a paisagem, colorindo meus dias,
Sendo muito mais do que eu esperava,
Fazendo de mim mais do que eu poderia ser,
Mostrando que se o amor é de verdade,
O fogo da paixão nunca deixará de arder.
O que Aparece Nem é Tudo - por Ana
Essa foi uma surpresa!
Fiquei olhando um tempão,
Mais idiota que uma zebra!
Eu só queria dizer que adorei
Procurar de várias maneiras,
Quebrei a cabeça legal!
Misturei letras... Mó doideira!
Eu, na viagem total,
Interpretando o poema,
Procurando outro sentido,
Ressignificando o tema,
Observando os versos,
Cada rima, cada estrofe,
Algoritmos de letras,
Posições... Como é que pode?!
Separei últimas sílabas,
Uni as letras das rimas
E descobri “roa o um”...
Biruta não desanima...
Até que enfim descobri!
Estava na minha frente!
Mas eu não postei resposta...
Deixei pra outro escrevente.
Se eu puder escolher
O doce melhor pra mim,
Eu te digo: de todos,
O que mais gosto é quindim!
Se eu for assim premiada
(Atente pro que direi
Plagiando outro poeta),
Nunca te esquecerei!
Você já sabe que eu sei
A mensagem que se esconde.
E eu, além de feliz,
Ainda ganhei um doce!
E confirmando a solução
Que apresento sem expor,
Te peço que não se esqueça:
O meu quindim, por favor!
Namorados - por Escrevinhadora
outras vezes a ação
algumas flores, uma canção
em alguns dias promessas, ilusão
em outros a realidade concreta
a vida ela mesma
com suas asperezas e arestas
mas sempre, sempre, sempre
seja nas horas de alegria
ou nos dias de atribulação
uma única certeza
você no meu coração.
Solidão - por Gio
Mergulhos de Inverno - por Jair Antônio Pauletto
Numa dessas visitas à serra, um fato interessante me inspirou o tema de hoje. Trata-se de uma brincadeira das crianças que, diante do mirante de um lindo vale, começaram a brincar de eco, ou seja, gritavam a toda a goela para, em alguns segundos, ouvir novamente o som mais ou menos claro da palavra gritada: o tal eco. Bom! Isso me fez lembrar que a natureza, constantemente, através de suas leis, nos dá demonstrações claras de como ela funciona, que o mundo em que vivemos é um lugar que faz eco.
Se emitirmos sentimentos de raiva, volta raiva, se espalhamos amor, volta amor, uma lei perfeitamente natural e facilmente comprovada. É bem possível que muitos de nós já tenhamos experimentado essa lei em relação a algum acontecimento na vida. Uma lei que é infalível, ou seja, tudo o que se faz volta, tudo o que se planta se colhe e assim por diante, essas são as diferentes interpretações da mesma lei.
Então, assim como o inverno é agora, temos que aproveitar esse momento para curtimos todas as suas delícias e especialmente aproveitar para nos aproximar dos amigos, familiares e de todos os que nos fazem bem. O inverno é uma estação de aconchego e parece chamar para essa ação. Nada mais apropriado que seguir esse chamado, estreitar laços, aquecer as relações com as pessoas, espalhando amor, alegria e fraternidade. Mas não espere que outros tomem a iniciativa, seja pró-ativo e faça o primeiro gesto de aproximação, mesmo que algum sentimento inadequado ainda esteja um pouco enraizado. Faça um gesto de aproximação e espalhe calor humano, solidariedade, afinal, o amor não é exigente, ele simplesmente existe para voar, para se libertar, para crescer entre as pessoas.
Aliás, nessas questões de reaproximação, de reconstrução de laços, um grande inimigo interno é o ego: ele nos induz a uma falsa sabedoria, nos oferece inúmeros argumentos e sólidas razões para evitarmos a aproximação e um dos seus truques preferidos é nos fazer perceber que o brigar, o resmungar e ser desagradável não tem o menor sentido, mas justifica-se pelo alterado estado emocional do momento. Tudo isso para nos fazer parecer sábios e nos eximir da responsabilidade, que é um grande engano, pois todos se tornam sábios quando o momento se foi, porém, isso de nada vale, pois ser sábio é ter consciência dos atos no exato momento que ocorrem. Não tem o mesmo valor entender o que aconteceu após o ocorrido, muito menos é sabedoria. Uma vez que sabedoria é ter a consciência presente o tempo todo, para que quando o fato estiver acontecendo se possa perceber que o que estamos fazendo é inútil.
Desta forma, com a consciência presente, podemos perceber claramente que o outro nunca é o responsável por coisa alguma. O problema sempre é algo que está fervendo dentro de nós, que não conseguimos identificar, apenas não temos consciência. Quando temos consciência não agimos com raiva, ressentimento ou mágoa, pois isso vai contra a própria consciência.
É claro que jogamos nossos disparates contra as pessoas que amamos, até porque elas estão mais próximas e não dá para fazer isso com um estranho, um alguém que está passando pela rua, seríamos tratados como tolos quando, na verdade, estamos sendo insanos ou no mínimo incoerentes em maltratar quem nos ama. Uma das formas de tomar consciência deste tipo de atitude e principalmente de culpar os outros pelos nossos problemas é mantermo-nos conscientes permanentemente, de modo que sempre que encontrarmos algo de errado no outro nos lembremos do nosso próprio estado de consciência.
É, o inverno é uma estação que exige posicionamento, aliás, não conheço ninguém que goste mais ou menos do inverno. Todos têm posição: ou gostam ou não gostam, assim como o verão, são estações bem definidas na cabeça das pessoas. O inverno tem uma característica peculiar que é o chamado ao recolhimento, à intimidade, ao aconchego, ao mergulho interno e à introspecção. Talvez não seja somente a brincadeira das crianças, mas também os dias frios que me fazem trazer toda essa reflexão. Seja como for, o certo é que não podemos esquecer que o outro nunca é o responsável por nossos problemas; que um gesto de aproximação faz bem em qualquer estação e que o mundo é um lugar que faz eco. No entanto, não há nada que não possa ser superado com amor este sentimento poderoso, porém frágil. Boa semana.
Violência - por Tércio Sthal
Violaram,
Sem viola,
Sem violão;
Violou,
Violaram,
Sem a bola,
Sem o balão.
Violou,
Violaram,
Sem a escola,
E sem o pão;
Violou,
Violaram,
Triste esmola,
A violação:
Que tira da mão
A viola e violão,
Que tira da mão
A bola e o balão,
E põe violentas armas
Que violam
O direito-cidadão.
Hace Frio en Mi Corazón - por Yuri
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Nem Tudo é o que Parece - por Gio
Só de saudade não penso viver
Queria com meus versos pelo ar
Dizer o que não posso mais conter
Que agora é tarde para um recomeço
Ainda que passes por essa porta
Te quis... Sofrer eu sei que não mereço
Amo! Mas sei que já não mais importa...
Não é fácil ver algo tão bonito
Se transformar em pó, eu admito
Esqueça: o abandono convenceu
Nunca pensei que fosse ser assim
Te digo: agora é mesmo o nosso fim
Esquecerei de cada passo teu
Fatinha e o “Colírio Para Meus Ouvidos” - Citada por Clarice A.
Cenário: supermercado. Personagens: açougueiro, promotora de vendas, eu.
Situado? Então vamos lá:
Estava eu há aproximadamente meia hora em pé na fila da carne, disposta a economizar alguns trocados já que era dia de promoção. Apesar disso, ainda estava com relativo bom humor porque estava com meus fones de ouvido devidamente posicionados, o que me ajudava a não escutar aquele cara insuportável que fica, ad nauseam, gritando as ofertas do minuto.
Musiquinha vai, musiquinha vem, eu meio que dançando apoiada no carrinho, comendo uma batata frita (que paguei na saída, viu?) ignorando os olhares desconfiados de gente que não sabe como é bom dançar enquanto se escolhe a melhor marca de sabão em pó ou o iogurte mais em conta. Repentinamente, Murphy comparece. Acabou a pilha do mp3. Putz, putz, putz. Mil vezes putz. Vou ter que ouvir o cara do microfone, dar papo pras velhinhas da fila e de quebra ouvir o pagode que tocava como som ambiente. Calma, relaxa, tudo vai dar certo.
Quando chega a minha vez, o açougueiro pergunta o que eu quero e, antes de eu responder, a promotora de vendas se aproxima do balcão para cumprimentar o colega. O cara dispara: “Sua voz é um colírio para meus ouvidos!”
Hein? Colírio nos ouvidos? Será que eu ouvi direito? Será que estou precisando de umas gotinhas de colírio para melhorar minha audição?
O fato é que, aparentemente, apenas eu percebi a gafe. A colega promotora de vendas se derreteu toda, lisonjeada. É aquela coisa: há sempre um pé velho para um chinelo descalço. Ou será ao contrário?
Um (Breve) Manifesto à Preguiça - por Flavio Braga
Esta é a primeira declaração do partido que se intitula Partido da Preguiça, representado pela figura deste que vos fala, que conta com vários membros e colaboradores em todas as partes do mundo. Até declararíamos guerra ao sistema, mas já beira às 19 horas de uma sexta-feira. Deixa para segunda.
Amigos, uma sombra de coqueiro paira sobre o neoliberalismo – a sombra da preguiça.
Durante toda a história da Humanidade estivemos relegados ao papel de vilões.
Desde o engenheiro que calculou mal o nariz da esfinge no Egito (deu no que deu) até o burocrático funcionário público brasileiro. Não é de nosso feitio lutar por um papel de protagonista na História, até porque ser protagonista dá muito trabalho. Estamos apenas exigindo o respeito que merecemos. Respeito, sombra, água fresca e um Playstation 3.
A história de toda Humanidade até nossos dias não foi mais do que a luta do trabalho contra o ócio criativo.
Espartanos e a filosofia ateniense, a formiga e a cigarra, paulista e o baiano, o Caxias e o malandro – numa palavra, o workaholic contra o preguiçoso, em oposição constante, que só não travaram uma luta sangrenta porque o preguiçoso estava dormindo depois do almoço.
A sociedade moderna, construída sobre o alicerce de uma suposta liberdade, não aboliu a tentativa de lição moral onde só o workaholic é tido como exemplo a ser seguido. Muito pelo contrário, apenas estabeleceu o politicamente correto para que nós, preguiçosos, não pudéssemos tirar uma soneca com todo esse estardalhaço que fazem em prol de trabalhar e produzir cada vez mais.
O neoliberalismo julgou-se o último biscoito do pacote de Trakinas, mas só faz explorar (desde bandas de reggae até crianças vietnamitas), em prol do lucro predatório. O neoliberalismo não é um santo remédio como julgavam os economistas de palavras incompreensíveis em meados do distante século XX. É uma afronta à nossa santa preguiça de cada dia. Amém!
Não há mais preguiça num mundo onde cada pessoa parece um Simeone pronto para dar um carrinho violento no primeiro brasileiro que cruzar seu caminho, baseado no mantra “ficar rico ou morrer tentando”.
Os preguiçosos não têm nada a perder senão seus despertadores. Tem uma rede de dormir novinha esperando na varanda mais próxima para ganhar.
PREGUIÇOSOS DE TODO O MUNDO, UNI-VOS!
Uni-vos para um luau, ao pôr do sol, claro.
P – Partido da Preguiça (o “P” de Preguiça do nome do partido saiu para almoçar. Volta depois das 16 horas só para bater o ponto).
Santo Agostinho: “A Memória é como o Ventre da Alma” - Citado por Penélope Charmosa
Não é isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, não é de admirar. Aqui, porém, o espírito é a memória. Efetivamente, quando confiamos a alguém qualquer negócio, para que se lhe grave na memória, dizemos-lhe: “vê lá, grava-o bem no teu espírito”. E quando nos esquecemos, exclamamos: “não o conservei no espírito”, ou então: “escapou-se-me do espírito”; portanto, chamamos espírito à própria memória.
Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo?
Não há dúvida que a memória é como o ventre da alma. A alegria, porém, e a tristeza são o seu alimento, doce ou amargo. Quando tais emoções se confiam à memória, podem ali encerrar-se depois de terem passado, por assim dizer, para esse estômago; mas não podem ter sabor. É ridículo considerar estas coisas como semelhantes. Contudo, também não são inteiramente dessemelhantes.
Reparai que me apoio na memória, quando afirmo que são quatro as perturbações da alma: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza. Qualquer que seja o raciocínio que possa fazer, dividindo cada uma delas pelas espécies dos seus gêneros e definindo-as, aí encontro que dizer e declaro-o depois. Mas não me altero com nenhuma daquelas perturbações, quando as relembro com a memória. Ainda antes de eu as recordar e revolver, já lá estavam. Por isso consegui, mediante a lembrança, arrancá-las dali.
Assim como a comida, graças à digestão, sai do estômago, assim também elas saem do fundo da memória, devido à lembrança. Então, porque é que o que discute, ou aquele que delas se vai recordando, não sente, na boca do pensamento, a doçura da alegria, nem a amargura da tristeza? Porventura nisto é dessemelhante o que não é semelhante em todos os seus aspectos?
Quem em nós falaria voluntariamente da tristeza e do temor, se fôssemos obrigados a entristecer-nos e a temer, sempre que falamos de tristeza ou temor? Contudo, não os traríamos à conversa se não encontrássemos na nossa memória, não só os sons destas palavras, conforme as imagens gravadas em nós pelos sentimentos corporais, mas também a noção desses mesmos sentimentos. As noções não as alcançamos por nenhuma porta da carne, mas foi o espírito que, pela experiência das próprias emoções, as sentiu e confiou à memória; ou então foi a própria memória que as reteve sem que ninguém lhas entregasse.
Amei - por Raquel Aiuendi
o tempo não existisse
como andar de trem
de uma estação a outra
e voltando também.
Amei certa de que despedida
significaria mais tempo
isso mesmo: tempo de vida,
por isso certa de que voltaria
tal e qual naquela partida.
Amei porque amando
se somam duas em uma
pessoa...
com chance maior de ser...
Amei porque amei
porque amei: voltei
porque voltei: amei
(de novo)
voltei a amar.
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Clarice Lispector e o “Escrever ao Sabor da Pena” - Citada por Alba Vieira
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quarta-feira, 10 de junho de 2009
Inanição - por Leo Santos
achei o fim do meu braço;
tentei amarrar a lua,
ela se foi, levando meu laço.
Resignei-me a ser sozinho,
e a solidão me chamou amigo;
ela não foi má companhia,
mas é úmido e sombrio, seu abrigo…
De onde a saudade é extirpada,
um afeto teve habitação;
novo alento minando lembranças,
mata aquela, de inanição.
Em outra fase, o brilho da lua,
olhares que miram o mesmo horizonte;
passos contíguos, marcam a rua,
e almas sequiosas, repousam na fonte…
Primavera fez a flor brotar,
ornando a margem do caminho;
também fez a ave voar,
levando partes do ninho.
Não mais vou cansar o braço,
agora é um lugar para repousar;
tampouco laçar a lua,
só beber, gotas de luar.
Separação - As Nossas Histórias XII
Não quero a nossa separação porque sei, desde já, a falta que vou sentir da tua mão firme segurando meu braço, me conduzindo na hora de atravessar a rua, do peso de tua perna descansando sobre a minha coxa toda noite antes de dormir.
Não quero a nossa separação porque sinto reciprocidade nos carinhos, sei o efeito do meu cheiro e da minha pele em você.
Eu não quero me afastar de você porque quando não formos mais nós, estaremos sós e todas as horas se precipitarão no vazio de tua ausência, e todos os nossos sonhos se precipitarão no vazio de uma vida sem amor.
Eu não quero a separação porque não há formas de fazermos isso, não há maneira de rompermos o indivisível: habitamo-nos mutuamente e não há saída, não há chaves que nos libertem, que desfaçam esta escolha antiga e, se é verdade o que dizem que vivemos muitas vidas, eu entenderia o porquê deste sentimento tão forte que resiste às diferenças e nos faz assim ligados um ao outro, isto explicaria a sensação que tivemos quando nos vimos pela primeira vez: que nos conhecíamos tão intimamente desde sempre.
Eu não quero me afastar de você porque quando descobrir que te perdi descobrirei que também perdi uma parte de mim e então só me restará vagar por aí, procurando em vão essa porção de mim que já não me pertencerá.
Definitivamente, eu não quero a nossa separação. Mesmo você se dizendo decepcionado, frustrado e infeliz com a nossa relação. Isso não importa. Você está enganado. Não consegue ver o quanto somos necessários em nossas vidas que, se for ver bem, é uma só vida. E por sermos um só te digo estas coisas com toda certeza. Você não sabe, mas eu sei. Definitivamente, você não quer a nossa separação. E fim.
Abandono - por Ana
Ele não tinha sido o primeiro, houvera outros antes, muitos, pois Maurício exigia demais... Tinham sido relações pouco duradouras, mas igualmente profundas. Ele sabia que um dia iriam se separar também, mas não imaginou que duraria tão pouco. Sim, para ele tinha sido tão breve porque tão bom... Maurício encheu sua vida de conversas, de sons, de cores, de emoção... E agora nada mais, apenas o silêncio insistente, o isolamento. E aquela situação deprimente: para onde quer que olhasse só via feiura, tristeza, abandono, tudo cheirava mal... “Tudo é descartável - pensava, com seus botões - tudo tem um fim, sempre. É tolice imaginar a eternidade neste mundo, a imortalidade das relações.” Aprendera... diante de seu triste fim, aprendera. Outro ocuparia seu lugar em breve. Deveria ficar apenas com as lembranças até que nada existisse mais. Resignou-se, imerso em infinita saudade e esmagadora sensação de inutilidade.
- Meu filho, joguei fora. E não adianta remexer o lixo, Maurício! O seu mp4 escangalhou mesmo...
As Nossas Palavras XIV - por Alba Vieira
Tente fazer do seu jeito, ainda que não tenha qualquer elogio. Fuja de repetir só para merecê-lo ou é um sujeito vazio.
Post Inesquecível do Duelos - Indicado por Raquel Aiuendi
O post é:
HÁ UM BISCOITO QUE EU ADORO...
(ANA)
Eu moro perto de uma escola
que é grande como o quê
lá tem árvores e sombra,
e dá p’ra rodar bambolê.
Nessa mesma escola aprendi
a escrever o bê-a-bá.
Hoje, ouço daqui os recreios
e a criançada a gritar.
Quando eu ouço a meninada
fazendo bagunça adoidado,
penso numa coisa boa
e o coração fica apertado.
É que nessa escola, agora,
estuda um lindo garotinho
que é fofo, branco, magrinho,
que eu chamava “biscoitinho”.
Depois ele virou biscoito
Porque, de repente, cresceu...
Do jeito que está espichando
ficará maior que eu.
Logo depois, outro segundo,
virou um lindo garotão,
esticou uma vez ainda,
e eu chamei de biscoitão.
Eu sou sua “tia Ana”,
que não gosta de ouvir: -“Tia”.
Porque tias existem muitas:
na escola, na rua, família...
Quando ele me chama assim,
meus ouvidos dão um nó,
eu faço ameaça, careta
e respondo assim: -“Óóóóóóó...”
Esse menino-biscoito,
branquinho como polvilho
hoje tem sardas lindas
e nos olhos tanto brilho!
Pois é por isso que eu,
que não posso mais ir vê-lo,
fico triste de dar dó
quando ouço, no recreio,
as vozes das criancinhas
e imagino o biscoitão,
já tão crescido brincando
no meio da berração.
Não posso vê-lo, nem nada,
e ele não vem me ver.
Estas coisas do destino
que não se consegue entender...
Às vezes eu vou à janela
e vejo as crianças sentadas
esperando a mamãezinha,
a titia ou a empregada.
Imagino que um dia
alguém pode se atrasar
e eu verei o biscoitinho,
sentadinho a esperar.
Meu coração bate forte,
olho, olho e nada vejo.
Deixo, então, para amanhã,
talvez, realizar meu desejo.
Mesmo que fosse de longe,
queria ver Ronier.
Sei que está lindo de morrer,
queria ver como é que é.
Dá um vazio por dentro,
uma tristeza calada,
é tanta falta que eu sinto...
uma saudade danada...
Lembro o sorriso, olho a foto,
é uma judiação!,
choro um pouquinho de nada
p’ra aliviar o coração.
Em breve ele vai mudar
p’ra longe, um lugar bom,
para perto da vovó
com a mamãe e o irmão.
Não sei como irei vê-lo,
ficará tão mais difícil!
Será mesmo absoluto
impedimento, impossível!
Mas, assim que eu tiver um quarto
todo espaçoso e arrumado,
enquanto eu trabalho duro,
vou pôr seu retrato a meu lado.
Olharei sempre pra ele
junto a tantas outras fotos
de gente que também amo...
o meu sentimento remoto.
Pensarei sempre em você,
querendo que esteja sorrindo
naquele momento e sempre,
do jeito que eu acho lindo.
Aproveitando essa vida
da melhor forma possível,
pois tem tantas coisas boas
e pode ser tão incrível.
Desejarei sempre assim,
só pensando positivo
a quem será sempre, pra mim,
o meu biscoito preferido.
Ah! Meu biscoito querido,
adorado biscoitão...
Quanta saudade que eu sinto
dentro do meu coração!
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