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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Camping do Fim do Mundo - por Escrevinhadora

Eu tinha perto de 16 anos e quase não saía de casa. Meu pai, um homem antiquado e severo acreditava que lugar de mulher é em casa, que uma moça deve casar-se virgem e me trazia sob rédeas curtas (a década de 60, a pílula, a revolução sexual não tinham entrado na cabeça dele). Meu sonho de consumo era acampar. Algumas amigas de colégio já tinham acampado e vivam contando maravilhas sobre isso. Então eu me mordia de vontade.
Num fim de semana prolongado minha prima, mais velha que eu uns dois anos (ela já era maior de idade) ia acampar com duas amigas, acompanhadas pela mãe de uma delas. Eu não sei que milagre aconteceu, mas meu pai concordou que eu também fosse (acho que foi influência do meu tio, que prometeu que a prima tomaria conta de mim).
Então na sexta-feira, logo após o almoço, não sem antes ouvir um sermão do meu pai me garantindo que me moeria de pancada se por acaso eu bebesse ou fumasse (coisas piores que isso ele nem ousava supor que eu pudesse fazer), lá fui eu, cheia de expectativa e fantasias.
Chegamos ao acampamento no começo da tarde. O camping, na verdade, nada mais era do que um velho sítio que o proprietário resolvera transformar num negócio alternativo. Cobrava uma taxa de quem armasse barracas em seu terreno. Em troca, oferecia banho (água fria, de um pedaço de cano pendente da parede do lado de fora da casa), um único banheiro dentro da casa e um lugar pra lavar louça (dois tanques velhos nos fundos da casa).
Armamos nossa barraca e saímos pra um passeio de reconhecimento. Tinha chovido durante toda a semana e o terreno era um lamaçal só. O rio prometido na propaganda nada mais era do que um fiozinho de água, correndo sobre umas pedras cobertas de limo. O sítio tinha muito mais mato do que plantas. Mas eu, tão excitada com minha aventura, não notei nada de errado.
Até que me deu vontade de fazer xixi...
Para ir ao banheiro, era preciso passar pela sala da casa, que também servia como uma espécie de escritório do proprietário. O sujeito, por si, já era um tipo assustador. Moreno, pele muito queimada de sol, barba e cabelos compridos que ele trazia presos num rabo de cavalo, braços musculosos e cobertos de tatuagens (estrelas, dragões, espadas) e um vozeirão de trombeta.
A sala, escura e recendendo a incenso, era um museu anárquico. Havia caveiras na estante, teias de aranha pelos cantos, numa parede um quadro enorme que deveria ser a representação do inferno (homens e mulheres nus, se retorcendo sobre labaredas), uma coruja empalhada e mais uma infinidade de objetos estranhos e assustadores. (Depois vim a saber que o homem pertencia a uma seita que esperava o apocalipse, o fim do mundo que deveria ocorrer na virada do milênio. Misturava Jesus com John Lennon. Acreditava que no dia do Juízo o demônio despertaria de seu sono nas profundas do inferno e voltaria para um duelo final com Deus. Era vegetariano. Consumia e oferecia aos hóspedes que comungassem de suas crenças, um chá produzido lá mesmo no sítio, que possuía a miraculosa propriedade de purificar o corpo e preparar o espírito para o grande momento da transição.)
Mas voltemos ao desenrolar da história: atravessei a sala com as pernas meio trêmulas. Entrei no banheiro, fechei a porta e já ia me sentando no vaso quando levei um choque: na parede à minha frente, em tamanho natural, uma imagem de Jesus. Tentei abaixar a cabeça, olhar para um lado, para outro, não adiantou. Meu olhar era atraído pelo olhar hipnótico daquela figura. Impossível fazer xixi com Jesus me olhando daquele jeito. Apertadíssima, saí às pressas do banheiro e fui procurar lá fora uma moita que pudesse me servir. Encontrei uma, me abaixei e já estava me aliviando quando vi, bem pertinho de mim, imenso, verde, olhos esbugalhados, um sapo. Saí correndo, escorregando na lama, a calcinha que eu tentava erguer enquanto corria, se enroscando em minhas coxas.
A partir daí meu final de semana dos sonhos se transformou em pesadelo.
Vasculhei o sítio atentamente e descobri que havia sapos em todos os cantos, de todos os tipos, pequenos, grandes, verdes, marrons, cinzentos.
Dormi mal ou mal dormi todas as noites que passei lá. Depois de verificar se a barraca estava hermeticamente fechada eu me enrolava toda no cobertor, sem deixar nenhuma fresta. Mesmo assim, passava horas de olhos abertos no escuro, esperando que a qualquer momento um sapo fosse entrar debaixo das cobertas, subir pelas minhas pernas, pular em cima do meu peito. Xixi eu só fazia nas moitas, depois de examinar cada metro do terreno pra ver se não tinha nenhum sapo por perto. O resto eu nem fazia. Passei o fim de semana com a barriga inchada, cheia de gases, dura feito um tambor.
Minha prima, surpreendentemente, parecia muito relaxada, totalmente integrada ao ambiente (algum tempo depois descobri que era efeito do chá servido aos iniciados; na verdade, cogumelo alucinógeno, nada mais que isso). Não contei pra ninguém, porque não sou dedo-duro e também porque não queria ficar mal com minha prima.
Desde então, mais de 20 anos são passados. O mundo, felizmente, não acabou.
Mas eu nunca mais quis saber de acampar em toda minha vida.
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Certeza - por Alba Vieira

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Coisa mais certa nesta vida... é o descaso.
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.Comentário em Recado, de Ana.
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Visitem Alba Vieira
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Entrevista com o Papai Noel - por Cacá

Arcanjo Isabelito Salustiano*, o filósofo das ruas, estava passeando pelos shoppings e feiras da cidade em busca de assunto, já que desde o início do ano ele já sabe para quem pode e quanto pode gastar com presentes. Encontrou vários Papais Noéis, tirou fotos, conversou muito e observou tudo, até o momento em que passou um cara e roubou um saco que estava ao seu lado. Provavelmente pensou que estivesse cheio de presentes ou dinheiro. Tudo caixa vazia. Enquanto as crianças e populares corriam atrás do sujeito, ele conseguiu essa rápida entrevista com o Papai Noel.

ARCANJO: Papai Noel, explique para nós a sua origem geográfica. Não precisa falar de sua onipresença, isso todo mundo sabe. Onde fica essa tal de Lapônia?

PAPAI NOEL: A Lapônia não é um paraíso fiscal como muitos podem pensar. O saco cheio que carrego é proveniente de muitas doações de gente honesta do mundo inteiro. E a Lapônia fica num lugar onde as renas nascem. Nem avião chega lá. Só as renas. E só as minhas. Rena é um bicho criado exclusivamente para Papais Noéis.

ARCANJO: A tradição cristã fala também que você é a representação do São Nicolau?

PAPAI NOEL: Era, meu filho, era! Pelo menos aqui no Brasil! Apareceu aí um certo Nicolau, de quem falam ser ele um juiz e derrubou a minha reputação de bondade, caridade e solidariedade. Já pensou eu ser tratado pelas criancinhas de Lalau? Vamos ficar só com o epíteto do “bom velhinho”, que já tá bom...

ARCANJO: E sendo assim, meio gordo, por que entrar pela chaminé?

PAPAI NOEL: Isso vai se modificando com o tempo, meu filho. Em primeiro lugar, são raríssimas as casas hoje em dia em que há chaminés. Aliás, o número de casas vem só diminuindo. Nos prédios onde não tem elevador, eu ainda tenho é que subir escadas em vez de descer pela chaminé. Eu tenho que tocar nos interfones e há lugares onde é difícil liberarem minha entrada. Tem tanto clone de Papai Noel mal intencionado por aí... Quanto à chaminé, era uma forma de me aquecer, já que de onde venho é muito frio. Agora, além do sumiço das casas, e com esse aquecimento global, já estou querendo é mudar o uniforme, algo mais leve.

ARCANJO: Por que você não se adapta em cada região aos seus costumes? Por exemplo: esse negócio de neve no Brasil nesta época do ano, não cola com a sua imagem nem com o clima. Não acha muito americanizada a sua atitude? Você não estaria puxando a brasa para a sardinha dos americanos? Quer dizer, trazendo essa ideia de neve para cá em pleno verão? Eles já dominam tantas coisas no mundo... Será que o Natal não pode ser cada um com seus costumes e deixar o ecumenismo somente para celebrar o nascimento de Cristo? Não bastou esse tal de panetone que você espalhou por aqui? Deu até confusão numa certa cidade lá no planalto central do Brasil. Tinha um cara disfarçado de Papai Noel sem o devido traje roubando dinheiro e dizendo que era para distribuir panetones aos pobres...

PAPAI NOEL: Bom, em assuntos internos de cada país eu não me meto, sabe como é, a minha imagem universal... Imagine se eu chego no Brasil, por exemplo, e me visto de bermuda, chinelão, boné e camiseta regata? Aonde iria parar a minha credibilidade com as crianças? Fora o fato de que eu iria ter que ficar me explicando para a polícia. No mínimo iam me confundir com vagabundo. Ou então, num traje desses com um saco nas costas, eu ia era ganhar esmolas.

ARCANJO: Obrigado seu Noel. Quer deixar uma mensagem final para seus fãs no mundo inteiro?

PAPAI NOEL: Se quero! Tenho notado que em todo lugar as pessoas, por mais que dêem e ganhem presentes, estão sentindo falta de mais presença do outro em suas vidas. Disfarçam as suas faltas e carências com artigos de consumo imediato mas não conseguem preencher seus espíritos com uma substância que não está à venda em nenhum lugar. Eu gostaria mais de ser outros símbolos. Queria simbolizar mais a tolerância em vez da indiferença. Mais a humanização em vez da coisificação. Mais a essência em vez da aparência. Queria que fôssemos mais sujeitos das coisas e valores e não meros objetos de dominação por falta de envolvimento real nos destinos de cada lugar, de cada país.
Eu desejo natais onde, em vez de meu sem graça HÔ,HÔ,HÔ, eu poderei escancarar um satisfeito HAHAHA!
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*ARCANJO ISABELITO SALUSTIANO é um personagem que criei.
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.Visitem Cacá
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O Meu Melhor Presente de Natal - por Esther Rogessi

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Naquele 23 de dezembro, acordei durante a madrugada e, na minha cabecinha de criança, contando apenas 7 anos de idade, fiquei sonhando acordado com o Natal. Eu não sabia bem o que era, porém ouvi os meus colegas do ‘Grupo Escolar’ contarem uns para os outros os pedidos feitos ao ‘Papai Noel’... E, timidamente perguntei-lhes:
– Quem é? Vocês têm um pai com o mesmo nome?
– Não! Seu bobo... Papai Noel é um velhinho que no dia de Natal dá presentes às crianças... Você nunca ganhou presentes dele não?
– Não... eu não tenho pai...
Imediatamente Hugo respondeu:
– Não é preciso ter pai pra ganhar presente do papai Noel!...
Perguntei-lhe:
– Não?...
– É claro que não! Eu não tenho pai, mas todo Natal Papai Noel me dá presente! - falou o Marquinhos, outro colega nosso, todo orgulhoso...
E perguntei espantado:
– Ah... Ele dá mesmo? Como é que eu faço? Como é que ele vai saber onde moro?
Hugo disse alegremente:
– Minha mãe me ajuda a fazer o pedido, me diz o que é melhor. Sabe? No Natal passado, eu pedi uma bicicleta, então a minha mãe disse que o Papai Noel era muito velhinho e que era difícil para ele subir o morro, carregando tantos presentes e, ainda mais, uma bicicleta pesada... Eu concordei com ela e pedi um carro bem bonito...
– E ele deu?
– Claro! Igualzinho ao que eu mostrei a minha mãe!
– Ah... Foi mesmo?

Fiquei pensando durante todo o dia... Como eu queria ganhar um presente... Quando mamãe chegou do trabalho – minha mãe trabalhava há dez anos na casa de um casal de médicos –, contei para ela sobre a minha conversa com os meus colegas. Ela ficou em silêncio, olhando para mim... E vi lágrimas escorrendo por suas faces... Perguntei-lhe:
– Por que a senhora está chorando, mãe?
– Por nada filho... É que eu cresci sem natais e esqueci de fazer você viver os seus... Perdoe-me, filho... Mas, o que você gostaria de ganhar mesmo?
– Um carro bem bonito!
– Vou falar para o Papai Noel, está bem?

Ah! Que alegria eu senti... Pela primeira vez, eu ganharia um presente do Papai Noel...
“Papai!” Que palavra mágica! Boa de falar... Ah! Eu cresci chamando mamãe e só mamãe. Não sei do meu pai... Algumas vezes eu perguntava a minha mãe: – Mãe, por que eu não tenho pai? Por que eu não sou como as outras crianças?
Ela rodeava, porém não me falava a verdade.

Foi perdido em sonhos, com a alma agitada, que naquela madrugada abafada, no escuro do meu barraco, fitando o teto de zinco, me refrescando através dos chuviscos de uma chuvarada repentina que se fez cair... no descanso do desconfortável sofá sem pés rente ao chão, com um único lençol que eu tinha de optar entre forrar o seu plástico barato para não me esquentar as costas durante o sono ou me cobrir, me livrando dos pernilongos que brigavam entre si em disputa pelo meu sangue. Já passava das vinte e quatro horas. Havia uma casa de jogos próximo ao nosso barraco, que costumava fechar muito tarde, eu ouvia os comentários da vizinhança, que o seu fechamento se dava após as vinte e quatro horas... Ouvindo o barulho do fechar de portas, deduzi ser muito tarde... A minha mãe ainda não tinha chegado, porém eu não sentia medo, os meus pensamentos eram tão bons... Quantos sonhos!
Pelos furos do zinco, percebi pequenos raios luzentes, entrando e causando um efeito bonito no nosso barraco de dois cômodos. Os pingos fortes da chuva faziam-se ouvir no zinco... Era como se Deus estivesse a me falar em mensagem codificada: ‘Estou bem presente aqui, não estás só! Trago o céu para ti como presente de Natal, essas são as luzes de todos os natais que você não viveu meu filho!’...

Comecei a chorar mansinho. Eu era criança, não entendia... Mas, no meu coração, eu ouvia uma voz doce que, de repente, deixou de falar dentro do meu coração e inundou o nosso barraco, uma doce voz que soava forte; que se fazia ouvir como que fosse amplificada, enquanto o lugar simples e humilde ficava repleto de estrelas... O chão de barro batido, os poucos utensílios e projetos de móveis, a ‘minha cama’, tudo estava bordado por estrelas de luz tênue... Sou o teu Deus! O Pai dos órfãos e o marido das viúvas... Sou eu que zelo por ti e vou te dar o presente de Natal que, Noel não poderá te dar , não o receberás aqui, no morro, mas te farei descer o morro para recebê-lo, porque SOU o teu Deus!

Não sei se aquela voz se alongou ao falar-me... Foi um bálsamo para a minh’alma inocente e ansiosa, perdida em questionamentos mudos. A doce voz inundou não só os cômodos do nosso barraco, porém a minha alma... Adormeci ouvindo-a... não vi a minha mãe chegar. Acordei com ela me chamando, me apressando, pois iríamos passar o Natal na casa dos patrões da minha mãe – o casal de médicos –, algumas das vezes ela me levava para passar o dia lá... juntinho a ela naquele apartamento imenso e elegante.

O Dr. Fábio ficava olhando-me demoradamente... Algumas vezes era carinhoso... Eles não tinham filhos, a Drª Olívia – sua esposa– era estéril. Eles estavam em férias. E planejavam viajar logo após o Natal. A minha mãe também teria férias... Poderíamos ficar juntos por mais tempo. A família dos patrões da mamãe morava em outro país... distante, muito distante! Naquela noite de véspera de Natal éramos em número de quatro. Jantamos alegres e, em seguida, a Drª Olívia nos convidou para nos assentarmos junto à grande árvore de Natal, muito bonita e iluminada, com várias caixas de presentes embaixo... À vista de todos, o Dr Fábio calmamente me perguntou:
– O que você pediu ao Papai Noel, filho?
Olhei para ele muito sério e lhe respondi:
– Eu e minha mãe pedimos um carro bem bonito... Mas eu ouvi uma voz muito bonita e calma no meu coração dizendo que Ele era o pai dos órfãos e marido das viúvas e que eu não estava só... e que iria me dar um presente que o Papai Noel não poderia me dar, e eu teria que descer o morro para recebê-lo... Eu já não sei mais o que vou ganhar... Sabe o que eu queria mais do que qualquer presente doutor?
– Não, filho! Não sei... O quê?
– O meu pai! O meu pai de verdade! Eu só tenho mãe...
Sem entender, vi o Dr. Fábio chorar como eu nunca pensei que um homem pudesse fazê-lo... Mesmo eu sendo tão pequenino, entendi que algo muito sério estava acontecendo naquela noite de Natal... E espantado vi o Dr. Pegar as mãos de sua esposa e lhe pedir perdão em pranto, a minha mãe nervosa colocou as mãos na boca e gritou:
– Não! Não conte, Fábio!...
Fiquei mais confuso ainda... A minha mãe chamara o doutor simplesmente de Fábio... Ele não a ouviu e contou a doutora Olívia – a sua esposa – que eu era seu filho...
Não ficamos para a entrega dos presentes... mamãe me pegou e saímos rapidamente...

A minha vida mudou, a nossa vida mudou! Minha mãe não mais precisou trabalhar em casa de família, eu ganhei o pai que eu pensei não ter, o doutor Fábio me reconheceu como filho, nos deu uma casa decente, uma pensão para minha mãe cuidar de mim... E sua esposa, ao longo dos anos, lhe perdoou. Não se separaram. Não fiz a infelicidade deles, causei lágrimas, é verdade... Sem querer fiz a boa doutora sofrer...
Entendi que eu não deveria desejar presente algum na vida... Além do que ‘Aquela doce voz’ me deu... Ele cumpriu com suas palavras! A verdade sempre vence! Pois ela é amor, é fruto do Espírito de Deus e o amor vence o mundo!
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Fininho e seu Amor Impossível - por Escrevinhadora

Fininho era um maconheiro meio amalucado, porém inofensivo. Típico hippie de meados dos anos 70, sabe cumé? Muito cabelo, muitos ideais, pouco dinheiro e pouco banho. Não era vagabundo (só muito dorminhoco, sabe-se se lá se por sua natureza ou por efeito do fumo). Trabalhava num lava-rápido. Emprego ruim, salário pior ainda, mas dava pra viver e garantia carteira assinada. Não tinha muitos gastos. O pai morrera quando ele era criança e desde então vivia com a mãe numa casa simples, num bairro afastado. Dava parte do que ganhava pra mãe, pra ajudar nas despesas. O que sobrava era mais do que suficiente pra ele. Sua vida inteira era um marasmo. Sua vida financeira um marasmo, sua vida amorosa um marasmo, sua vida intelectual um marasmo. Não tinha dívidas, também não tinha economias. Não tinha namorada (magrelo, como indicava o apelido, branquelo, de inteligência curta e duro, onde ia arrumar namorada?). No geral detestava ler, só se interessava por leitura se o assunto fosse extraterrestres ou disco-voadores. Sua única diversão era a erva e com ela gastava quase todo o dinheiro que lhe sobrava. Só não fumava no horário de trabalho. Tinha medo de perder o emprego e ficar sem dinheiro para o seu sagrado bagulho. Quando ouviu falar no tal do festival de rock Fininho ficou alucinado. Pensou logo em alguma coisa tipo Woodstock, todo mundo peladão num clima de paz e amor. Correu comprar os ingressos (caros pra diabo, mas fazer o quê? Era um festival de rock, ele tinha que ir). Não pediu licença ao patrão pra faltar ao trabalho. Simplesmente resolveu ir e depois veria o que fazer. Enfiou-se num ônibus noturno e viajou horas a fio com a mochila nas costas. Durante a viagem, comeu biscoitos murchos que comprou numa parada. Numa outra parada, tomou água da torneira do banheiro. No meio da madrugada o ônibus o despejou na rodoviária de uma cidadezinha perdida no interior (aquilo não era bem uma rodoviária, apenas uma guia rebaixada onde o ônibus encostava e um cubículo escuro que servia de guichê). E o festival não era bem no centro da cidade. Era longe, muito longe e àquela hora não havia ninguém pra indicar o caminho. Fininho resolveu esperar o dia amanhecer e enquanto isso, aproveitou pra dormir mais um pouco, a mochila servindo de travesseiro. Ao amanhecer acordou e viu à sua volta mais uma meia dúzia de cabeludos que também dormiram por ali.
Pelas roupas e pelos cabelos, era evidente que também iam ao festival. Seguiram juntos. Pedindo carona, que só conseguiram de um sitiante com uma camionete velha, que exigiu que eles fossem na parte de trás, amontoados entre sacos de milho e engradados de galinha. A partir de um trecho da estrada o homem (um caipira muito desconfiado) os mandou descer dizendo que seu caminho não passava pela porta da fazenda onde acontecia o festival. Tiveram que seguir a pé, por uma estradinha barrenta e estreita. Durante a caminhada Fininho estava doido pra acender um baseado, mas se aguentou. Um pouco porque era muito tímido pra fumar na frente de estranhos e outro tanto por avareza mesmo. Tinha medo de mostrar quanto fumo estava levando e ter que dividir com seus acompanhantes. Chegaram à fazenda já no meio do dia, mortos de fome e cansaço.
Fininho logo foi fazer o reconhecimento da área. A fazenda era enorme, com muitas árvores, muito mato, muitos recantos onde alguém podia se esconder pra fumar sossegado. Não havia os peladões que ele esperava encontrar (a chuva da semana inteira tinha feito a temperatura despencar e quase todos usavam o mesmo uniforme: calças e jaquetas jeans). Os banheiros eram um completo desastre (um mistura fétida de urina e vômito emporcalhavam o chão). Mas o palco era uma beleza, grande, bem montado, equipado com uma aparelhagem de som da pesada. Fininho concluiu que os shows seriam muito bons e achou melhor descansar um pouco, pra aguentar o agito da noite.
Procurou um local afastado e deserto, curtiu seu fuminho, depois dirigiu-se para o espaço onde a moçada tinha montado acampamento. Recostou-se na sombra de uma barraca e dormiu por algumas horas. Quando acordou, viu pela primeira vez as três, paradas à porta da barraca. Duas morenas, uma delas com cara de brava e a terceira, bem loirinha. Cabelos longos e lisos, rosto fino, traços delicados, cara de santa. Fininho encantou-se pela moça assim que a viu. Ficou parado, olhando pra ela embasbacado, desejando se aproximar, falar com ela, ouvir-lhe a voz. Só desviou os olhos quando a morena de cara de brava deu-lhe uma encarada. Mas mesmo assim, continuou por ali, disfarçadamente admirando a moça. E quase não se afastou mais. Sumia de vez em quando pra fumar seu baseado, tomava um banho na cachoeira, ia assistir ao show, mas sempre voltava pra dormir. Começou dormindo na sombra da barraca mas depois, vendo que as moças estavam sozinhas, passou a dormir na porta mesmo, como que montando guarda. Não entendia muito bem o que aquelas três faziam ali. Estava na cara que não tinham nada a ver com aquele ambiente. E se arvorou meio que em anjo da guarda das moças (em especial da carinha de santa, por quem estava obviamente apaixonado).
Tanto zanzou por ali que acabou atraindo a atenção da moça. Trocaram algumas palavras. Ela lhe deu uma fruta, que Fininho aceitou prontamente (não estava em condições de recusar comida). Sentiu-se muito pobre e um pouco envergonhado por não ter nada para oferecer a ela. E foi ficando por perto, feliz apenas por conversar um pouco com a moça. Ficou sabendo que as três eram amigas de colégio e tinham ido atraídas unicamente pela música. As duas morenas eram irmãs. A de cara de brava era a mais velha e dona do fusquinha que as levou ao festival. A outra, mais nova, andava meio enrabichada com um sujeito fortão, de barba escura (com quem desaparecia no meio da tarde). A santinha era doida por rock e especialmente apaixonada por um astro pop americano que, obviamente, não ia aparecer pra tocar naquele fim de mundo.
E assim o tempo passou e chegou o último dia de festival. Perdido entre sentimentos contraditórios, alegria por ter curtido aqueles dias, a tristeza de saber que era o fim, Fininho fumou feito louco, até de madrugada. Depois, deitou-se na porta da barraca e dormiu. Dormiu e dormiu. Sonhou que alguém o chamava aos berros, que o sacudiam. Sonhou que acordava, entrava na barraca e ia dormir junto da moça. E acordou de susto, com a barraca despencando-lhe em cima, uma haste do ferro da armação acertando-o bem no meio da testa (na verdade, no meio de seu sono profundo, tinha mesmo entrado na barraca, as moças tinham feito de tudo pra acordá-lo e não conseguindo, resolveram desmontar a barraca mesmo com ele dentro).
Ao ver que aquele era o momento da separação, Fininho entrou em desespero. Queria dizer algo para a moça, não sabia exatamente o quê. De repente, lembrou-se de um poema que arrancara certa vez de um livro e que andava sempre dentro de sua mochila. Um pedaço de papel amassado com um poema de amor que dizia mais ou menos isso: “quando você não estiver mais perto de mim, nenhum fiapo de vida me restará para viver”.
Desajeitado, sem saber falar sobre a tristeza que estava sentindo, Fininho enfiou o pedaço de papel na mão da moça e se afastou rapidamente, sem coragem de ficar para vê-la partir.
Mas depois que as moças foram embora, Fininho arrependeu-se de sua covardia. Então, procurou pela fazenda inteira o fortão com que a morena mais nova saía. Encontrou-o e conseguiu arrancar dele (em troca de uma boa porção de erva), o endereço das moças.
Fininho voltou pra cidade. Retornou ao trabalho onde o patrão furioso nem quis ouvir explicações. Simplesmente o despediu (pelo menos foi generoso, pagou-lhe uma boa indenização).
Desempregado, mas com dinheiro no bolso, Fininho fez a barba, cortou os cabelos, arrumou-se todo e foi à procura da moça (o endereço não era difícil e Fininho conhecia bem a cidade inteira).
A rua ficava num bairro de classe média. A casa era muito ajeitada, um portão largo e guia rebaixada indicando a existência de um carro. Fininho ficou circulando na rua, sem saber o que fazer. O que diria para a moça? Falaria de seu amor repentino? E o que poderia oferecer a ela? Nem mesmo seu emprego no lava-rápido possuía mais...O tempo foi passando e Fininho desanimando.
Já fazia horas que Fininho dava voltas pela rua, quando a moça passou por ele, mas nem sequer o viu. Era o fim de suas esperanças.
Fininho deixou-se ficar perambulando pela rua e quando anoiteceu, aproveitando-se da escuridão, deixou pichado no muro em frente à casa o que julgava ser um recado.
Depois, foi a uma boca de fumo que conhecia, onde gastou quase toda a indenização em maconha. Daquela vez, só daquela vez, pra dar um realce (como se diz no jargão dos usuários) comprou também uma trouxinha de pó.
Tomou um trem e rumou para o subúrbio, onde enfiou-se no banheiro imundo de uma estação ferroviária para curtir sua desilusão.
Na manhã seguinte, quando a moça abriu a porta de casa, teve um susto de quase desmaiar. No muro em frente, em letras garrafais, a pichação dizia FININHO TE AMA.
Naquele mesmo instante, do outro lado da cidade, o corpo de Fininho dava entrada no IML, morto por overdose, numa parada sinistra na periferia.
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O Presente Especial! - por Adir Vieira

Tem gente que sabe presentear. Confesso que eu não tenho habilidades para tal.
Sempre que presenteio alguém, acabo me presenteando, pois sempre imagino que as pessoas vão olhar para o presente com os meus olhos. Aí, mesmo antes da entrega, fico imaginando todas as possibilidades de ter acertado. Vejo em minha mente a gratidão efusiva de quem recebe o presente, suas caras e bocas ao abrir o embrulho e, quase nunca, as coisas se dão como eu imagino.
Mas tem gente que sabe presentear.
Inesperadamente, recebi nesse ano, de Natal, um presente que jamais compraria para mim, embora tenha me alegrado sobremaneira. Não o compraria porque minhas outras prioridades não permitiriam que eu me presenteasse com algo que fosse só para mim.
Penso que erramos muito quando, na vida, não damos atenção aos nossos anseios pueris, quando agora, com o meu presente instalado, tenho à mão momentos vividos com felicidade diante dos meus olhos, sem precisar abrir gavetas ou armários e folhear álbuns e mais álbuns de fotografias.
Minha satisfação em reunir as imagens significativas da minha vida, escaneá-las, inseri-las no meu álbum digital, foi idêntica àquela vivida nas épocas de infância, quando a expectativa de receber o presente de Papai Noel era o mais importante da vida. Todas as manhãs, ao acordar, ligo meu álbum de histórias e, diante dele, revivo, com emoção, passagens superimportantes para mim.
O presente me foi dado por uma grande amiga. Minha alegria ainda foi maior porque descobri que ela conhece meus gostos que, como boa psicóloga e grande conhecedora do ser humano, consegue ver a alma das pessoas. Ainda mais: se gosta de alguém, gosta mesmo.
Amei o presente, amei saber que sou querida e que mereci um presente tão especial.
Obrigada, minha amiga!
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Visitem Adir Vieira
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Recado - por Ana

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Caríssimo Poeta, vamos sentar rapidamente nestas cadeirinhas do Duelos Café pra eu te dizer uma coisinha rápida: adorei o seu poema Vingança da Pena, e achei fantástico o final: “Coisa mais certa nessa vida, / É o acaso.” (pretendo, assim que puder, escrever algo sobre isto). Mas o que eu queria mesmo comentar, se me permite, foi o que me ocorreu, de forma inevitável: “Coisa mais certa nesta vida, mesmo... é o ocaso”. rsrsrsrs
Beijos, Poeta!
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domingo, 20 de dezembro de 2009

O Grande Barato da Esperança é Esperar - por Bruno D’Almeida

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Eu nem gosto muito das festas de fim de ano. Duvido de mensagem sincera que tenha nos créditos finais as logomarcas dos patrocinadores. Mas ao mesmo tempo, quando essa época chega, não há como deixar de refletir sobre algo que nasce, essa famigerada esperança. Alguns comemoram o nascimento de Jesus, outros mais antigos o solstício de verão. Muita gente comemora porque não aguentava mais um ano tão sem sal, feito comida de hipertenso. Não importa: todos esperam, de uma forma ou de outra, que algo de extraordinário aconteça em suas vidas.

É por isso que eu não gosto dos últimos dias de dezembro. Na verdade, eles têm cheiro, sabor e consistência dos primeiros dias de janeiro. Não gosto de alimentar esperanças com endereço extraviado. Não espero que uma nuvem abra do céu, nem uma redenção da raça humana no dia do Juízo Final. Como posso acreditar que algum mágico vá bater a sua varinha e todos nós seremos felizes? Tolice. Não há transformações mirabolantes ou desfechos cinematográficos, nada vai mudar de uma hora para outra em nosso jardim. Se quisermos algo de verdade, devemos acreditar no poder de nossas próprias ações.

Há sim, as transformações pessoais e das pessoas que estão ao nosso redor. Isso eu comemoro todos os dias, nem precisa fechar a porteira do ano. Mas quem sabe o Natal e o Ano Novo possam trazer algo de bom, mesmo que Papai Noel e Santa Clauss sejam incapazes de tomarem um café dormido na minha casa. Eu não convido mesmo, e se vierem eu boto para fora debaixo de vassouradas. Essas festas de final de ano só me fazem gastar mais dinheiro. Porém, eu começo a não acreditar que as coisas podem melhorar: tomo a convicção de que posso fazê-las melhorar. A cada ano, uma reflexão, novos caminhos, novas trilhas, novos rumos, novas estações.

É o lado bom de pensar no ano que vem. Olho pra esse ano que passou e meu espírito me diz que ano que vem pode ser diferente. Que seja mesmo. O homem ama a felicidade porque ela nunca diz quando vai aparecer, basta vivermos com ela todo dia para não darmos valor. A esperança se encarrega de aguardá-la. Afinal, esperança é o único sentimento que nunca se realiza, pois o grande barato dela mesmo é esperar. É isso. Esses dias reacendem a faísca sublime da esperança. Esperança numa vida melhor. E esse sentimento é maior do que todo torpor, toda angústia, toda aflição dessa estada sem data de partida definida, contudo tão certa quanto inevitável.

Só que antes de ir, quero ter para mim a certeza de que algo valeu a pena. E por isso posso comemorar. Pronto. É o suficiente para que todos os meus projetos de vida saiam correndo do baú velho de trancas enferrujadas. Que ano que vem eu possa ter mais dinheiro e menos dores na coluna. Que eu possa comer mais brigadeiro. Que eu possa me reunir mais vezes com os amigos que não vejo há tempos. Não tem jeito, essa festinha comercial, para todos consumirem, comprarem presentes e roupas brancas me faz, depois de uma certa tristeza momentânea, mimetizá-la num rio de fé em busca de um punhado de felicidade.

Eu já disse que não gosto muito dessa época de fim de ano. Mas nestes dias eu costumo sorrir sozinho, feito criança boba, e dizer que vou deixar meu nome escrito nas mesmas estrelas por onde passaram os Reis Magos. Ah, sim, eu vou! Eu não estou nessa vida por brincadeira e vou ser muito feliz. Minhas asas são tortas, mas sabem planar e sentir o faro do infinito. Boas festas e felicidades para todos nós! Pelas sementes de esperança que todo ano brotam novamente, feito ervas daninhas, em nossos corações.
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História Conta História

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Queridos amigos:

Inauguramos a categoria “História Conta História”,
que é consequência de uma ideia que surgiu durante o bate-papo no chat do Duelos
entre Fatinha, Escrevinhadora e Ana.


A proposta foi a seguinte:
cada uma delas escreveria uma história que tivesse vivido;
a seguir, cada uma criaria uma história contendo os principais detalhes das três histórias iniciais.


Dia 17 demos início à categoria com a história pessoal de Escrevinhadora.
Dias 18 e 19 foram postadas as Partes 1 e 2 da história pessoal de Ana.
Hoje foi postada a história pessoal de Fatinha.

Na sequência, serão postadas as histórias derivadas das três autoras.


Portanto, a categoria funciona da seguinte forma:
com base em qualquer (ou quaisquer) das histórias apresentadas podem ser criadas histórias derivadas.
Leiam as histórias publicadas, criem suas histórias e enviem para postagem!
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“Era uma Casa Muito Engraçada...” - por Fatinha

Tinha eu acabado de entrar para a faculdade. Estudante de História, meus colegas de curso ou eram bichos-grilo ou comunistas. Eu, nem uma coisa nem outra, sempre fui careta e pequeno-burguesa, mas isso nunca foi um problema. O problema era que meus pais nunca me deixavam fazer as viagens que a galera planejava. Depois de muitas recusas, parei de ser convidada. Aí decidi que na próxima eu iria. Tomei coragem e anunciei em casa que viajaria com o pessoal para São Pedro da Serra. Fui.

Nos encontramos na rodoviária, pegamos um ônibus pra Friburgo e de lá um cata-corno até a outra cidade. O cata-corno é aquele ônibus comum, que mal presta para andar na cidade, mas que é usado para fazer o trajeto de uma cidade pequena até a outra menor ainda. Ele vai parando para qualquer um que faça sinal, em qualquer lugar da estrada. A estrada, a propósito, era inexistente. Cada cratera homérica, parecia que havia ocorrido um bombardeio. Nós íamos sacolejando agarrados na mochila e no colchonete – sim, viagem de estudante sempre tem que ter um colchonete.

No meio da estrada, no meio do nada, no meio do mato, a menina que tinha alugado a casa pediu para o motorista parar. Descemos. Depois descemos mais um pouco porque a casa era à beira de um despenhadeiro. Quando olhei para o pardieiro, comecei a cantarolar: “Era uma casa, muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada...”

A casa tinha três cômodos: uma sala, um quarto e uma cozinha. O banheiro era do lado de fora. Guarnecendo o imóvel, uma roda de carroça em cima de um toco de árvore. Era a mesa. Na cozinha, um fogareiro a carvão. Sem carvão. No quarto, um lampião. Só. Cama? Cadeira? Televisão? Geladeira? Eletricidade? Confortos burgueses dispensáveis para um bando de garotos a fim de curtir a natureza.

Fomos à cidade comprar comida e carvão. Ao menos ninguém se perdia. A cidade tinha apenas uma rua e nela uma mercearia que vendia desde pilhas até absorvente higiênico, passando por pão, cenouras e banheirinhas de plástico para dar banho em bebês. Não entendi muito bem o critério do comerciante para abastecer o seu estabelecimento, mas, pra quem ia ter que dormir no chão em cima de uma folha de jornal, tudo era festa.

Voltamos pra casa. Almoçamos laranjas, que comemos sentados no batente da porta, jogando as cascas despenhadeiro abaixo.

Quando foi anoitecendo, começou a esfriar e fui comunicada que, ou tomava banho frio, ou tomava banho de cuia. Optei por esquentar um balde com água no fogareiro, o que não dava muito certo. Demorava e éramos muitos para tomar banho. Alguns escolheram o banho frio e ficávamos escutando os urros de dor que vinham de dentro do banheiro. Quando a minha cota de água estava mais ou menos morna, entrei no que chamavam de banheiro. Pia, vaso sanitário com descarga de cordinha, box sem cortina. Luz de velas. Entre o chuveiro e o sanitário, um sapo. Não dava pra sair correndo, já tinha me despido. Olhei para a parede do box. Jesus Cristo, de braços abertos, olhava para mim. Disseram que o dono da casa fez aquela pintura depois de tomar um chá de cogumelo e encontrar Jesus face a face. Mas precisava ser no banheiro? Virei de costas para Jesus, de frente para o sapo, lavei as partes essenciais do corpo e pronto.

Hora de dormir. Primeira tarefa: forrar o chão com jornal. São Pedro da Serra fica na... serra. Frio. Depois do chão forrado, colchonetes. Depois, matar todas as baratas que pudéssemos. Depois, deitar um por um, como um joguinho de dominó. Um ficou encarregado de apagar o lampião e todos ficamos proibidos de levantar de madrugada para fazer xixi. Primeiro porque naquele breu havia o risco de esmagar dedos e cabeças, depois porque ia ter que abrir a porta e o vento frio ia entrar, não bastasse o fato de a casa não ter forro e já ventar pela fresta das telhas.
Eu me diverti de monte. Se faria de novo? Só se voltasse a ter dezoito anos.
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Domingo, Pé de Cachimbo! - por Adir Vieira

Domingo, pé de cachimbo!
Que bom acordar e ter nada para fazer!
Poder decidir se continuar no clima de inverno proporcionado pelo ar-condicionado ligado a mil ou se pular da cama e ir de encontro ao sol que teima em me chamar à vida, batendo forte na janela, às seis da manhã...
Que bom se sentir rica, por dentro e por fora!
Que bom ter a tranquilidade de saber que a vida é o que é, queiramos ou não!
Que bom poder olhar cada ser com suas diferenças e ainda assim apreciá-los no seu lado bom ou ruim!
Que bom ser, ao menos uma vez na vida, humilde e receber sem culpas!
Hoje é domingo, pé de cachimbo! Vamos aproveitá-lo então!
Bom domingo a todos!
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Palavras - por Ana

Palavras não são gentis, não são amigas, não trazem consolo.
Palavras são verdades implacáveis que armazenamos num lugar importante para utilizá-las nos momentos certos.
Palavras são veículos e nós seus passageiros. Elas nos levam em seus significados e ressignificados. Elas nos acidentam, elas nos suicidam.
Palavras são peças de encaixe, nem sempre perfeito, que formam desenhos mutáveis ao longo da vida.
Palavras são santos imóveis, paralisados numa bênção prometida.
Palavras são fantasmas inconformados que insistem em ignorar a própria morte.
Palavras são obscuras, tendenciosas, comprometedoras, tangenciais e credoras.
Palavras são baús de sinônimos duvidosos e impossíveis que nos confundem no mar revolto das interpretações.
Palavras são furacões indomáveis que tragam os sentimentos, levando-os ao sabor de seus movimentos caprichosos.
Palavras são ecos dos primórdios da evolução humana.
Palavras são a sombra. São.
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Natal que Passa... - por Poty

A cada Natal que vem,
Outros passarão.

Vem outro e passará.

Fica a preparação do próximo.
Agonia sem fim.

Todos a festejar!

Comida farta
Outros sem pão.

Uns choram
Alguns até soltam gargalhadas.

Celebram a vida
Outros lembram a morte.

O Natal será o mesmo.
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sábado, 19 de dezembro de 2009

Festival de Águas Claras (Dias 3, 4 e 6) - por Ana

No terceiro dia, mais barracas, nada de quiosques, uma fome de cão, pois não tínhamos levado muita comida, pensando em comprar lá. Vendedores ambulantes? Neca. Água? Neca, só a do filete-cachoeira que era extremamente duvidosa, porque o pessoal ficava lá em cima, ao lado da pedra, brincando de fazer xixi em quem tomava banho embaixo.
As pessoas estavam esquisitas, meio zumbizadas, meio agressivas, andando meio torto e muito tortas, falando sozinhas... Esquisitíssimo!
De repente ouvimos uns berros que pareciam ser de um vendedor ambulante. Nosso amigo disse:
- “Acho que ele tá gritando: ‘Olha a Coca!’”. E saiu correndo desabalado atrás da voz. Voltou com um cara que tinha uma bolsa grande e um tabuleiro. Diálogo:
- “Cara, tu tem Coca?”
- “Tenho, bródi!”
- “Mas só Coca?”
- “Não! Tem mais coisa aqui! Da boa!”
E a gente:
- “Ai, até que enfim! Pelo menos um refrigerante!”
Quando o cara se aproximou, olhamos o tabuleiro repleto de trouxinhas e papelotes.
Não era Coca, era coca! Távamos ferrados!
Fizemos reunião-relâmpago. Pauta: Vamos embora já! Mas eu e minha irmã queríamos ficar. Afinal, tínhamos ido assitir ao Egberto e ÍAMOS ASSISTIR ao Egberto! 2 a 2. Ficamos. Nossos amigos apavorados e irados.
Esperamos a noite e acho que todo o tempo eles ficaram rezando para nada de grave acontecer. À noite nos dirigimos ao palquinho. Mais sei-lá-quem em cima do tablado urrando e resmungando coisas ininteligíveis. O som paulêra o tempo todo. De repente parou. Pensamos: é o Egberto, é o Raul. Acho que, nesse momento, nossos amigos esqueceram suas rezas. Não sei quem era, porque o palquinho tava longe pra burro, mas a figura tocava violão. O som era tão baixo e ruim, tão cheio de microfonia que ninguém ouvia nada. Depois de uma meia hora, o cara saiu tão mole quanto entrou, o palco se apagou e a paulêra recomeçou. Voltamos para a barraca decididos a ir embora na manhã seguinte.
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.Quando acordamos, havia um magricela branquelo dormindo na varanda. Nós já o tínhamos visto antes. Era o Fininho. Hiperativo, taquilálico, tocava o maior horror. Minha amiga, que já tinha medo dele de longe, ficou apavorada. Ele dormia barrando a entrada da barraca. A gente empurrava, empurrava e nada dele acordar ou se mover. E nós lá dentro, presos. De repente ele acordou e se pôs dentro da barraca para continuar dormindo. Ninguém conseguia tirá-lo de lá e tínhamos que desmontar a barraca. Foi uma guerra dificílima, mas conseguimos despejá-lo depois da barraca desmontada.

Então nos dirigimos à entrada da “fazenda”, a fim de pegar o cacarecobus de volta. No caminho, o povo doidaço nos cercou pedindo dinheiro, tentando arrancar as mochilas da gente, mexendo nos nossos bolsos... Sabem aquela cena dos vampiros no teatro atacando a mulher, no filme “Entrevista com o Vampiro”? Pois é, assim. Havia um cara alto, forte, com voz de Tim Maia, que ficava gritando pro povo: “Tem dinheiro aqui! Tem dinheiro aqui! Aqui! Aqui!” E cada vez mais enlouquecidos em volta de nós e a gente tentando chegar à porteira. Minha amiga dizia:
- “Não tenho dinheiro. Não tenho dinheiro.”
E eles:
- “Não? O que é isso na sua mão?”
- “Nada. Tira a mão! Larga!”
- “Ih! É passagem de ônibus! Isso serve! E se tem passagem, tem dinheiro! Dá! Dá!”
Aí o do vozeirão partiu pra cima e minha amiga lutou feroz e heroicamente pelas passagens. Saiu vencedora, apesar de magrinha e apavorada. Chegamos à porteira quase correndo com aquela turba enfurecida atacando pelos flancos e retaguarda.
Do lado de fora, o ônibus já estava cheio. Outras pessoas ingênuas, revoltadas e enganadas, como nós, também estavam indo embora. Os doidões invadiram o ônibus tentando tirar alguma coisa de quem estava lá dentro; outros ficaram do lado de fora, na porta, tentando coletar alguma coisa de quem tentava entrar; e outros, ainda, pendurados nas janelas, atacavam os que estavam lá dentro, esticando os tentáculos famintos para mochilas, bolsas ou qualquer coisa que pudessem agarrar. Era o caos. Apesar dos obstáculos, conseguimos entrar. O ônibus partiu com gente sentada nas janelas, hipersupermegalotado. Apesar de tudo, sobrevivemos e chegamos ao Rio de Janeiro. Eu, indignada e frustrada, minha irmã apaixonada por um caminhoneiro careta que tinha conhecido lá (e que, posteriormente, iria pedi-la em casamento por telefone e propor que passassem a vida viajando romanticamente pelas estradas do Brasil e, quem sabe, do mundo) e minha amiga totalmente em choque por tudo o que tinha acontecido, principalmente por causa do Fininho, que a deixou em pânico total.
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.Dois dias depois de voltarmos, fui à casa de minha amiga e a encontrei com portas e janelas fechadas e portão trancado, o que nunca havia visto antes. Chamei. Depois de muito tempo, alguém olhou pela fresta da janela e jogou as chaves pra mim lá fora. Entrei. Ela estava sozinha em casa, deitada na cama, toda encolhida, coberta até a cabeça, tremendo que nem vara verde. Eu perguntei:
- “O que foi, você tá doente?”
Ela descobriu os olhos esbugalhados e perguntou, em pânico:
- “Trancou tudo? Trancou tudo?”
- “Tranquei. Mas... o que foi?”
- “Você viu? Você viu?”
- “Viu o quê?”
- “Ele me seguiu! Ele me seguiu! Nunca mais vou me livrar dele! Ele me seguiu, sabe onde eu moro, me seguiu até aqui. Ele está aqui. Está aqui me vigiando...”
- “Quem? Quem te seguiu? Quem está te vigiando?”
- “Ele! Ele! ELE!”
E fazia aquele olhar de você-sabe-quem, mas eu não sabia. Então ela disse:
- “Olha lá fora! Olha só! Olha! Foi ele! É ele!”
Eu fui até a porta da frente, abri a portinhola e li, no enorme muro da casa em frente, em letras garrafais:
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FININHO ESTÁ AQUI
.Raul Seixas
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A Culpa Foi do Médico - por Adir Vieira

Depois da chuva de ontem, parece que o dia promete um clima mais ameno. Foi assim que senti quando acordei com aquele friozinho vindo de fora, passando pela janela aberta, pois essa noite os aparelhos de ar-condicionado puderam ganhar um descanso.
Apressei-me com o café, visto que meu estômago já reclamava uma alimentação. Estranhei o fato porque jamais acordo com fome - meus horários de comer sofregamente são aqueles após as 16 horas - e culpei a temperatura mais baixa.
Escolhi uma salada de frutas com cereja preparada no dia anterior e, em poucos minutos, apreciei a vida e as coisas boas que nos oferece como, por exemplo, uma boa comida.
Lamentei de pronto não poder abusar dos carboidratos, meu alimento preferido. Por sorte, o rádio anunciava uma entrevista com um endocrinologista famoso que recomendava a ingestão de carboidratos até para os diabéticos que, graças a Deus, não é o meu caso.
Como uma flecha a me apontar um caminho, eu que já havia preparado minha refeição - além da salada, uma fatia de queijo minas e uma fatia de pão integral - mudei meu rumo e com grande satisfação construí um sanduíche de três andares com direito a salaminho, alface e maionese.
A culpa foi do médico.
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Bitsunami - por Kbçapoeta

Estava com o nariz pregado
Respirando no fundo,
Destilando emoções
Quem vem a soçobrar
Devaneios
Manifestados em transe profundo.
Utilizo a verborragia popular
Para espalhar vocábulo
De vereda.
Alma reta, linha torta,
Letra morta
Do poema se recorre à inspiração.
Tempos difíceis para poetas...
Fazer seus versos singrar
Madrugadas pelo mar de palavras digitais,
Deixando impressões aos poucos
Para tão distantes leitores.
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Festival de Águas Claras (Dias 1 e 2) - por Ana

Lá pelas bandas dos anos 70/80. Eu, cheia de rebeldia, amor pela música e idealismos, via, na TV, o comercial do Festival de Águas Claras: palco iluminado, todo bonito, multidão embalada por vários nomes do cenário musical brasileiro, especialmente o meu “idolatrado” Egberto Gismonti. Eu assistindo e doida pra estar lá, vivendo um momento histórico...
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Comecei a trabalhar. Um dos primeiros pensamentos: “Poderei ir a Águas Claras”. Na época da edição seguinte do Festival, lá fui eu ao centro da cidade para comprar os ingressos. Me deparei com um prédio meio pé-sujo, mas tudo bem. Devia ter desconfiado que alguma coisa estava errada quando me vi no “escritório” da firma organizadora do evento: uma mesa fulêra, um telefone velho, um talão de ingressos, infiltrações brabas nas paredes e reboco caindo nas nossas cabeças. O cara que estava lá para atender agia meio assim como um bicheiro que aguarda, nervoso, a chegada da polícia. Mesmo assim, eu, adolescente, otimista e sonhadora, comprei os ingressos.
Daí até o dia da viagem fiquei envolta naquilo que, acreditava eu, me esperava em Sampa: uma fazenda linda, com riachos e cachoeiras de águas claras (já dizia o nome), perfeita infraestrutura do Festival, gente muito alto astral reunida, por três dias, por amor à música de boa qualidade.
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Sonhei, sonhei muito até estar no ônibus que nos levaria de São Paulo a Águas Claras: um cacareco horroroso, repleto de gente esquisita que se embrenhava por estradas cada vez mais esburacadas e lugares inóspitos, elameados, feios, barro por todos os lados, nem um verdinho ao longe pra contar a história... De repente o ônibus parou e o motorista berrou: “Águas Claaaaras!!!!”.
O cenário era desolador: uma cerca toda torta, de mourões e arame farpado; o chão era pura lama, até o horizonte uma terra careca, só umas duas ou três árvores magricelas perdidas em meio àquela tristeza. Palco? Não havia. Riacho? Só nos sonhos. Cachoeira? Um filete mínimo de água que saía de uma pedra e onde uma multidão tentava se banhar. No chão, perto dela, absorventes, camisinhas, plásticos, papéis, restos de comida, uma lixarada fedida e porca.
Montamos a barraca num lugar mais sequinho, perto de duas construções malfeitas, ao lado de umas árvores ralas: quatro paredes caiadas sem telhado. Resolvemos ficar por ali porque imaginamos que fossem os banheiros. Não vimos sinal dos quiosques de comida e pensamos que fossem montá-los no dia seguinte. Fomos dormir tarde sonhando com o que de bom poderia nos esperar depois que montassem tudo. E com a certeza de que havíamos chegado cedo demais.

No dia seguinte, mais barracas montadas à nossa volta, mas de infraestrutura, neca de pitibiriba. Fomos ao que pensamos ser, além de local de banhos, banheiro. Mas só havia canos saindo das paredes, dos quais escorriam filetes d’água. Uma entrada aberta e nenhuma porta. Era só para banhos, mesmo. As árvores serviam de arquibancadas para os caras ficarem olhando as garotas lá dentro. E elas tomando banho nuas, na maior! Batemos em retirada: eu, minha irmã e minha amiga.
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No final do dia, nada de quiosques, nada de shows. De repente, lá pelas 23 horas, alguém disse que o palco estava montado “lá atrás”. Fomos ver o lá atrás. Andamos que nem uns condenados e nada de palco. Música? Só um rock brabo paulêra berrando o tempo todo e nós com baita dor de cabeça. De repente achamos um palquinho, com umas lâmpadas de “brilho” amarelado muito das sem-vergonhas, um breu desgraçado e um sei-lá-quem no “palco”, mais doido que o Jimmy Hendrix em seus melhores dias, tocando violão e cantando algo que não se conseguia compreender.
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O som baixíssimo, um troço surrreal. Começaram os comentários de que o Egberto e o Raul viriam no dia seguinte. Ficamos lá por umas duas horas. O cenário não mudava. Resolvemos ir dormir.
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Fotos: Festival de Águas Claras
Raul Seixas.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Um Churrasco e um Atoleiro - por Escrevinhadora

Formavámos um grupo na ginástica. Eu, uma amiga, dois sobrinhos dessa amiga (um rapaz e uma garota) e o professor de ginástica. Um dia fomos convidados por um colega da aula de aeróbica (que não era da nossa turma) pra ir a um churrasco. O churrasco seria num domingo, num sítio nos arredores de São Paulo e o convite era pra que nós fizéssemos uma apresentação de aeróbica (lembram-se daquela época? As fitas de videocassete da Jane Fonda, workout, alto impacto?). Pois bem, a ideia era essa. De imediato, pensamos numa coreografia e resolvemos ensaiar pra fazer bonito no dia do tal churrasco. Logo na primeira tarde de ensaio eu caí de mau jeito sobre o tornozelo e tive uma entorse. Voamos para o hospital mais próximo. Bota de gesso no pé direito e assisti ao restante dos ensaios desolada, sentada no chão, num canto da sala de ginástica. (Mas os outros ensaiaram e a coreografia ficou até bem bacana.)
No dia marcado, nos aboletamos em dois carros (eu, minha amiga e o sobrinho no meu carro; o professor e a sobrinha no carro dela) e lá fomos nós. Tínhamos encontro marcado com a turma do churrasco numa praça no centro da cidade. Só não sabíamos que a polícia e a cia. de trânsito tinham fechado algumas vias do centro pra um evento qualquer. Demos voltas e mais voltas. Chegamos atrasados ao local do encontro. Todo mundo já tinha ido. Alguém, mais diligente, tinha deixado pra nós um mapa. Tosco, mas era um mapa e lá fomos nós tentar segui-lo. Pegamos a Marginal do Tietê, depois a Fernão Dias (a estrada que liga São Paulo a Belo Horizonte). Naquele tempo, uma péssima estrada, pista simples, mal sinalizada, muitas curvas, tráfego pesado. Rodamos por uns 40 minutos e alguém chegou à conclusão que tínhamos passado do ponto marcado no mapa, que não era muito distante da cidade. Era preciso voltar. Eu, com o pé engessado não podia dirigir, então ao volante do meu carro ia o sobrinho da minha amiga, garotão ainda, mas habilitado. Pois bem, o meu motorista fez uma conversão proibida e perigosa bem no meio de uma curva de uma rodovia federal. Gelei no banco do passageiro (era a hora de perceber que algo não ia bem?).
Retornamos ao ponto marcado no mapa, que deveria nos levar ao sítio. Atravessamos o centro de uma cidadezinha, passamos pela periferia, chegamos a uma estrada de terra (detalhe, tinha chovido a semana toda, a estradinha de terra era lama só). Rodamos, rodamos e nada. Nem sítio, nem ninguém a quem perguntar, nem sinal de qualquer dos pontos assinalados no mapa. Estávamos perdidos no meio do nada e só havia uma chance de chegar ao churrasco: seguir em frente. É claro que também já estávamos mortos de fome.
De repente, bem no meio de uma subida enlameada, meu carro dá uma derrapada, desliza para o lado e para, perigosamente equilibrado num barranco, definitivamente atolado: pra frente não podíamos ir, sob pena de cair do barranco; pra trás o carro não obedecia. Desceram todos pela porta do motorista. Eu, com o pé engessado, fui a última a ser resgatada.
Por perto não havia nada, nenhum bar, nem telefone público (o celular ainda não tinha invadido nossa vida), nenhuma casa onde pedir socorro. E a chuva, como que adivinhando nosso sufoco, tinha voltado a cair.
Decidiu-se que eu, inútil com o gesso no pé, deveria voltar no carro com a outra motorista em busca de ajuda. Nós voltamos. Voltamos muito. Mas nada de encontrar alguém, ou o asfalto ou a cidade. Na verdade, acho que também nos perdemos. Nem sabíamos mais onde era o atoleiro onde ficaram nossos amigos. Já estávamos naquele estado em que uma mulher começa a querer chorar. E eis que surge na nossa frente um sujeito conduzindo uma carroça, puxada por um burro. Era o único ser vivo num raio de quilômetros e então foi pra ele mesmo que pedimos ajuda. O homem tinha caído do céu. Conhecia a subida do atoleiro. Disse que era comum os carros atolarem ali. E foi na frente nos guiando.
Um burro tirando um carro do atoleiro é uma ideia muito estranha, mas o fato é que ele conseguiu. Manobrou a carroça de jeito que a traseira dela ficasse alinhada com a traseira do carro, amarrou uma corda, gritou umas ordens para o burro e ufa!!! o carro saiu direitinho do lamaçal, dançando um pouco para os lados, mas intacto.
Sujos de barro, famintos, furiosos e frustrados, resolvemos voltar pra casa. Principalmente porque, assim que escapamos do atoleiro, passaram por nós dois carros com gente que já estava voltando do churrasco. Tinham chegado lá, comido e quando a chuva recomeçou, decidiram voltar com medo de que a estrada ficasse completamente intransitável.
Chegamos em São Paulo já passava de 5 e meia da tarde. Felizmente, em respeito ao sagrado costume paulistano de comer pizza no domingo à noite, a pizzaria do bairro já estava aberta. Compramos três pizzas gigantes e três litros de refrigerante.
Depois de saciados, todos quiseram assinar no meu gesso, pra deixar registrada a data.
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A Grande Notícia! - por Adir Vieira

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Sabe quando você aguarda uma notícia boa por meses?
Aquela notícia dos seus sonhos, que vai minorar de uma só vez a maior parte dos seus problemas?
Pois é. Se você pensa que quando ela chegar você vai ficar feliz, ledo engano.
Sem explicação, bate um aperto no peito e um medo tão grande de ser feliz...
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Refazendo - por Duanny

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Malas em cima da cama, guarda-roupas e gavetas vazias abertas, eu me encontrava aflita, agitada, presunçosa, queria sair dali, fugir o mais depressa possível, não queria mais motivos, mas eu já tinha minhas razões.

Parei, olhei ao meu redor, sentei naquela poltrona de vinil, e chorei, sim chorei. Chorei como nunca tinha feito há muito tempo, pra mim você era mesmo uma página virada, arrancada da minha vida, mas será que retirei toda aquela página, ou simplesmente deixei um pedaço insignificante lá, esquecido, solitário?

Minha vida iria se tornar um caos depois de tudo aquilo? Você iria mesmo cumprir suas ameaças? Ou será que você continua ali guardado e fui eu quem arrancou a página errada?

Decidi não querer ouvir aquelas respostas, seriam amargas, ou fatais demais para meu ego, ou até mesmo significantes para meu orgulho, já ferido por tudo aquilo.

A última coisa de que me lembro daquela noite quente, estrelada e invejavelmente acompanhada, era de uma janela grande, robusta, aberta, deixando todos aqueles pensamentos indevidos entrarem e vindo em minha direção, descendo goela abaixo, e depois você entrava por aquela porta e, cinicamente, vinha em minha direção.

Tarde demais, acho que finalmente a última gota daquela bebida barata fez efeito.
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.Continua...
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