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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

É Natal! - por Ana

É Natal! Felicidade!
Ouça os alegres sininhos!
Espere o trenó, as renas,
Papai Noel, presentinhos.

Aproveite esta data
para sonhar, festejar,
encontrar com as pessoas
para confraternizar…

Se está triste de saudade,
tão sozinho, sem ninguém,
outros também sentem assim,
precisando de um bem.

O que fazer nesta hora
de tamanho sofrimento?
Ir pra baixo das cobertas
remoendo seu tormento?

Acho que não é boa idéia
cear só desilusão,
ter de presente o vazio,
e brindar com a solidão.

Se seu mal é de saudade,
se há uma pessoa ausente,
tente fazer o seguinte:
pense que ela está presente.

Diga coisas amorosas,
reviva os bons momentos,
deseje Feliz Natal,
abrace-a em seu pensamento.

Passe a noite com ela,
ligue a quem de direito,
depois vá dormir tranqüilo,
sonhando o amor perfeito.

Neste sonho, sem lamentos,
ela lhe aparecerá,
dizendo que ainda vive
e que sempre está a te olhar.

Sentindo-se renovado,
ao acordar no outro dia,
verá que o Natal foi bom
e a casa não está vazia,

porque você permitiu
saber que em sua alma habita
a certeza de outra alma
que, em sonhos, te visita.

E que embora não palpável,
é capaz de ainda ter
sentimento tão profundo
que fez você perceber

que a falta nós criamos
por sermos cegos demais,
já que amor não morre nunca
e não abandona jamais.

.

Desdobramento - por Alba Vieira

Não estou em mim, viajo por terras distantes, terras onde já vivi, onde deixei marcas profundas que ainda hoje se expressam em sentimentos de seres que habitam por lá. Passeio por estes lugares que me são familiares, refresco a alma em ares ali presentes, vibro numa dimensão estranha. Sonho. Talvez seja sonho, talvez desdobramento. O fato é que não estou aqui. Hoje sou pela metade e isso não me causa incômodo porque, afinal, qual de nós vive em plenitude?
.

Caminho - por Alba Vieira

Procuro dar sentido à minha vida. Passo pelos dias buscando o que realmente sou. Sei bem o que não sou. Não sou esta corrida desesperada, a cabeça tonta, os olhos vermelhos de se arregalarem o dia todo. Não sou esta máquina de fazer que repete, repete, repete. Não sou alguém alienado que passa pelos momentos sem ter a plena consciência deles. Sou algo além de tudo isso. Eu sou a delicadeza de movimentos. Sou o pensamento coerente. Sou o coração aquecido pela convivência com os semelhantes, próxima e harmoniosa.
Tento me expressar de alguma forma e quase não consigo. Na corrida desesperada, na gincana que se transformou meu cotidiano não encontro qualquer compensação. É tudo muito vazio de sentido. Procuro a arte como forma de expressão. É a alma querendo esvoaçar sem conseguir. Pinto e na mistura das tintas me liberto e encontro sentido. É muita coisa querendo explodir em mim. Mas o cansaço me acorrenta. O cansaço me impede de conseguir fazer alguma coisa realmente criativa. Se tento escrever, as palavras não seguem o fluxo das idéias. Fico titubeante, oscilando entre uma palavra e outra, sem terminar a frase. É um tormento!
Sou um barco à deriva depois de ter em vão me debatido contra os rochedos sem conseguir ultrapassá-los.
E navegar é preciso.
.

Expressão - por Alba Vieira

Pinto buscando saber quem sou.
Recolhendo os cacos de mim mesma,
refaço o quebra-cabeça
e ouso vislumbrar o todo…
Quem sabe, um dia?

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Colcha de Retalhos - por Raquel Aiuendi

É colcha de retalhos que vou criando diariamente. Retalhos que me são doados altruistamente: seleciono, organizo, acondiciono ou descondiciono de seus amarrotados modos. Nunca os jogo fora, os guardo e reciclo, recondiciono… retalhos que garantem meu crescimento, retalhos que me possibilitam unir o que separado esteve, retalhos que consertam o irreparável, que dá vida ao estático… retalhos são pensamentos, retalhos são momentos, retalhos, retalhos, retalhos… são principalmente você, eu e todos a construir uma colcha de retalhos de AMOR.

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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Convite - por Fernanda Lobo

CONVITE foi o tema a escrever e pego-me futucando a memória, buscando o ITE do CONVITE no termo literário. ITE é inflamação, como apendicite, amigdalite e assim por diante. Mas não existe ainda o literaturite, que seria uma inflamação positiva e transbordante de literatua terminanda com ITE.Parece loucura, mas vivi esse ITE da literatura, quando ela, toda poderosa, trazendo universos em palavras, invadiu meu ser contador, historiando Brasil afora. Contava de tudo e os contos populares foram mais que minha “literaturite”, revivendo as lendas, causos, contos de assombração e tudo que vem dessa gente simples, de pé no chão, a relatar suas crendices com magnitude de bacharel.
De CONVITE deixo meu “literaturite”, que faz da gente muito mais que baú de letras. Fazem memórias, outros mundos tão iguais e também díspares de nossos conhecimentos, amadurecimentos… E desejando que essa inflamação do ITE fique nas pontas dos dedos digitadores, escrevedores, cada vez mais que as asas voem a registrar o improvável que a mente nos traz.

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Resposta - por Edmilson

Você me fez um convite
E agradeço
Mas tenho pouco tempo pra escrever
Após o trabalho

O que se escreve
No blog ou site de alguém
Quase sempre faz pensar

No momento após a leitura
A pessoa que você leu
Faz parte e está na sua identidade

O efeito da leitura em alguém
Dura apenas um instante
Sem ligar dentro na alma do leitor

Se ligar
Se continuar a lembrar do autor e autora
É porque ainda está na sua alma

Com efeito e tudo mais
Invadindo na alma por leitura
Mesmo contra a vontade de quem leu

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Pirulitos e a Vida - por João Luis Amaral

Era um dia comum. Apenas mais um, entre tantos outros, tantos iguais.Sol quente, pessoas circulando às pressas, atentas apenas aos seus afazeres, desatentas aos semelhantes.Ninguém se importa com os outros, são somente outros. Que sigam seus caminhos. E não atrapalhem o meu. É o que pensam, é como agem.
Vejo um senhor caminhando pela rua. Rosto simpático, olhos e pele claras, bochechas rosadas. Cabelos brancos como neve, barba rala e também alva. Calças largas, sapatos e cintos pretos, camisa sóbria. Leva um discreto par de óculos pendurados por uma fina corrente ao pescoço. Caminha tranquilamente, cumprimentando a todos. Distribui pirulitos às crianças, sorrisos aos adultos. Sorrisos contagiantes, diga-se.
Figura que se diferencia da multidão. Figura que chama a atenção. Páro por alguns instantes para observar. O mundo que espere. Algo inusitado está acontecendo.
Ele continua sua caminhada. Com a mesma tranquilidade. Sempre.
Chega até mim. Coloca os óculos, cruza os olhos com os meus. Olhos azuis que irradiam paz. Estende-me a mão. Cumprimenta-me.Retribuo, calado. Sem palavras, na verdade. Apenas admiro, sem reação.Busca na sacola um pirulito, volta a olhar-me nos olhos e diz:
- Tome, meu filho. É seu. Você só queria parar por alguns instantes, não era isso? Queria pensar na vida. Agradecer a quem o ajudou. Pedir perdão a quem feriu. Doar-se mesmo que por breves momentos a quem precisa. Acertar alguns rumos. Eis aqui o seu tempo. E, de quebra, tem sabor de framboesa!
Os pensamentos se misturaram. A confusão tomou conta. A única pergunta que consegui fazer:
- Papai Noel?
Seguiu-se um leve sorriso, seus olhos agora mais brilhantes. Sua mão agora em meu rosto, morna, terna. E a resposta:
- Basta acreditar, filho. Basta acreditar….
E seguiu seu caminho.

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De Bem com o Mundo - por Alba Vieira

Meus olhos percebem o colorido de tudo. Estou aberta para o amor. Digo isto porque hoje saio pela rua e me deixo impressionar por imagens que ontem não me diziam absolutamente nada. Não é o mundo que está diferente. O trânsito continua caótico, as pessoas desesperadas, injustiçadas, depauperadas, correndo pelas ruas como sempre. Eu é que enxergo por uma lente benévola que me permite acreditar que o mundo é belo. Vejo poesia em tudo. No que observo, tantas coisas me trazem recordações de outras que já vivi. Os camelôs, as mães com seus filhos, a expressão dos que passam, tudo me transmite paz, tudo hoje é belo. Estou apaixonada pela vida e o amor dá colorido às coisas.
Pela janela do ônibus desfilam para mim imagens que aquecem meu ser. Estou por cima, suspensa, envolvida num manto amoroso, pairo acima de tudo, elevada pelo amor e, neste estado, nada parece difícil. Desprendo de mim um odor doce… de fazer amigos, de borrifar nas pessoas, de fazê-las serenas e também amigas.
Não sei o que possa ter motivado isto. Há dias em que acordo assim iluminada e então tudo ocorre perfeitamente bem. Abro meus caminhos com uma força invisível. Nem caminho… me desloco quase como numa dança, sem tensões. Não há medos, só confiança. E esta facilidade de me transportar para o momento presente é maravilhosa. Apenas sou, não há expectativa de futuro nem nostalgia de passado, estou aberta para tudo que se me apresenta, não há resistência. É só um fluir, sem estagnação, sem prisões nem bloqueios. Sou eu quem dirige meus passos.

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A Crise que Cura - por Alba Vieira

O que mais chama atenção no mundo atual são as mudanças repentinas. É certo que há algum tempo parece que o tempo passa mais rápido, a urgência é a ordem, todos têm pressa, as crianças já têm nascido aceleradas, o stress é a vedete dos consultórios, a comida é fast food, os carros são ultravelozes etc. Os estudiosos comprovaram que mudanças no eixo de rotação da Terra trouxeram a redução real do tempo, o dia ficou mais curto. Mas agora, além disso, estão sendo mais freqüentes os fatores externos trazendo alterações profundas nas vidas das pessoas, de formas abruptas e, quase sempre, alterações relacionadas à perda.
A crise mundial econômica é um empobrecimento globalizado, puxado pela desestabilização da economia da maior potência econômica do mundo. Isto não só foi inesperado como inusitado. Quem diria que os Estados Unidos passariam por isto? Diriam somente aqueles que tinham olhos de ver, os antenados com as verdades eternas que conhecem as leis, sobretudo a da polaridade. O crescimento impiedoso desordenado, completamente alienado e insano só poderia trazer, de rebote, a crise, o caos. Por que tudo isto? E para quê? As manchetes diárias mostram as maiores potências mundiais, paises ricos tremendo e se desestruturando, ainda que utilizando tentativas desesperadas de estabilização com perda financeira, desemprego e recessão. E tudo assim… da noite para o dia, pelo menos para a população geral que não estava inteirada da possibilidade da economia ruir e, num efeito cascata, dominó, sei lá como, todo o mundo vai sendo atingido porque a economia também é globalizada. O Brasil ainda não sofre, diretamente, mas já se prepara para o tempo ruim que virá e, por hora, alguns já se aproveitam para ganhar em cima da provável crise.
A natureza, por sua vez, contribuiu para esta puxada de tapete de iguais proporções, de qualidades diferentes, mas tão arquetípica quanto a crise financeira, expressão da carta da Morte do tarô e também da lei da polaridade. O exemplo mais recente, aqui no Brasil, é a catástrofe que ocorre em Santa Catarina. A proporção das enchentes é a maior que já se viu por aqui, atingindo milhares de pessoas e também afetando drasticamente a economia do país por paralisar o porto de Itajaí. É dor generalizada e súbita, que se prolonga e traz conseqüências funestas.
Mas o que podemos extrair de tudo isto? Sim, porque os atingidos não são e nem podem mesmo ser apenas aqueles diretamente tocados pela tragédia ou emocionalmente relacionados a estas pessoas, e sim qualquer um de nós, expectadores dos acontecimentos. Entretanto, é preciso que endireitemos e concentremos o olhar, apreendendo dos fatos a mensagem mais importante e urgente: o mundo mudou, os valores devem mudar, o que mais importa agora não são os bens e sim a emoção, o material perdeu para o coração. As leis do coração devem, agora, dominar o mundo e isto é óbvio, é gritante para os que querem ouvir. Se compreendermos isto e cedermos à mudança, a harmonização virá, já que se trata de lei. Se teimarmos, a dor será maior, as ocorrências deste tipo se repetirão até que possamos entender que os tempos já são outros e, apesar de tudo, bem melhores. As imagens sobre Santa Catarina são bem claras: famílias que perderam tudo, devastadas pela dor de repentinamente não terem onde ficar, apenas com a roupa do corpo, desmanchavam a expressão de dor e sorriam entre lágrimas, abraçando e sendo abraçadas, em todos os sentidos, por vizinhos emocionados que abriam suas casas e corações para eles; outros, vítimas de desabamentos, sorriam felizes porque, tendo perdido todos os bens materiais, conseguiram salvar o que para eles era mais importante: um filho, um parente, um amor… Não que em outras tragédias não tivessem ocorrido fatos desta natureza, mas é que, agora, eles são a regra e não a exceção. E, da mesma forma, a crise econômica mundial trará, para as nações mais ricas, um crescimento enorme, importantíssimo, só que de outra natureza: o nascimento de solidariedade e a transformação da base de segurança, que passará da solidez econômica para o sentimento.
A capacidade de subsistir à crise fortalecerá os valores internos e fará uma espécie de seleção natural daqueles mais emocionalmente seguros porque, ainda que tarde, os homens comuns entenderão, finalmente, aquilo que os místicos sempre souberam: que a força não é conferida por recursos materiais de qualquer natureza (dinheiro, bens, a porção física do ser…) e sim pelo imaterial (valores morais, crenças, habilidades…); enfim, pelo que anima nossos corpos, que está acima de tudo isto e não nos pode ser retirado em qualquer circunstância. A nossa alma, o amor que ela é capaz de expressar, é o que subsistirá e que, a partir de agora, deve estar à frente nas relações humanas para que haja o tão esperado equilíbrio em todas as esferas. E assim será, aceitemos ou não.
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Resposta a "Se Minha Criança Sofre"... - por Alba Vieira

Se escrever é terapêutico, o que dizer sobre o que você nos provoca com este texto sobre a dor da nossa criança?
É um convite irrecusável para que olhemos para ela. E todos nós a possuímos, mesmo que tantos não saibam disto. Mas de fato ela está dentro de nós e clama pelo nosso olhar e cuidados.
O seu texto é mágico, é lúdico, comunica-se imediatamente com a criança em nós. Ela é atraída por suas palavras doces, por seu cuidado amorosamente oferecido, seduzida pelo carinho e proteção contidos nas entrelinhas. Hipnoticamente nos deixamos levar e lá estaremos nós outra vez, vivenciando as experiências do passado.
Mergulhamos, em regressão, seja nos fortalecendo enquanto relembramos e revivemos aquilo que foi bom, seja repetindo momentos difíceis (tantas vezes quantas necessárias) com a oportunidade de cura.
É certo que ao lermos este texto mesmo que a mente consciente não entenda (e é até bom mesmo que se distraia), nosso inconsciente vai captar a sua proposta de cura e aceitá-la. A mente inconsciente sabe bem o que fazer para curar nossas feridas, só é preciso ativá-la. E, mesmo sem ter consciência, nossa parte adulta estará lá, ao lado da nossa criança sofrida, cuidando dela, repassando as dores, transformando, ressignificando e promovendo a cura.
E este processo irá se desenvolvendo sem que saibamos, enquanto nos ocupamos de outras tarefas, nos envolvemos com outras pessoas e também enquanto dormimos. E sabe porquê? Porque falando diretamente com a criança, nesse ritmo dos seus versinhos, não haverá resistência… só aceitação. (Espertinha, heim?)
E já que a viagem é bem sucedida, fácil, sem efeitos adversos perceptíveis, uma brincadeira mesmo, nós leitores voltaremos, em busca de novas oportunidades de melhorar.
Será possível, na imaginação, enfrentarmos as bruxas, os dragões, os castelos mal-assombrados, os abismos, as masmorras, os fossos fedorentos habitados por monstros terríveis e tudo mais, porque, no fundo, sabemos que possuímos em nós (sempre) todos os elementos necessários para vencê-los, ainda que estejam adormecidos há muito, muito tempo…
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Descoberta - por Alba Vieira

Seria descoberta o que me aconteceu ou acaso mais um resgate nesta já tão longa existência?
Experimento esta terra clara, sem cheiro, sem gosto, que se liga facilmente e vai-me permitindo, devagar, criar formas que são familiares para mim. Aprendi a trabalhar com argila ontem e a emoção do aprendizado foi enorme. Sentir a temperatura fria desta terra nas minhas mãos, que vai subindo à medida que o contato com ela vai aumentando… é maravilhoso. A argila permite esta troca de energia que é tão terapêutica.
Tomei uma porção de terra nas mãos e iniciei uma brincadeira de tentar moldar alguma coisa. Foi inútil. Percebi que não deveria conceber antes a imagem e passar a moldar as formas; pelo contrário, deixava minhas mãos livres para que, tocando a argila, como que fazendo carícias, ela cedesse à força das mãos e desvendasse a forma que seria então possível. À medida que eu percebia a forma em potencial e continuava alisando a peça, sentindo nas pontas dos dedos o que ela queria soltar, como queria exprimir-se… ela ia se revelando. Fui visualizando as formas, o nascimento da figura, as curvas do corpo que ia sendo moldado, a sua postura, a expressão do rosto, a totalidade da peça. Às vezes queria refazer algumas partes, acentuar uma curva, aumentar uma protuberância, afinar um traço e notava que, se quisesse realmente controlar algum detalhe, ele se perdia. Eu violentava a peça. Ela existia por si própria. O processo de criação, uma vez iniciado, tem vida própria. O artista tem que ter a sensibilidade de acompanhá-lo, seguindo seus passos apenas, sem desviá-los. De outra forma, mata a criação.
Moldar uma peça é como proceder no amor. Tocamos e sentimos o que o toque provoca no outro. Tantas vezes as reações são leves, tão sutis que podem escapar aos sentidos daquele que não estiver por inteiro na relação e assim se perde o melhor, o efeito não estará à altura do esperado. É uma relação. Depende de um e de outro. É preciso estar inteiro no processo da criação. Temos que captar as sutilezas para atingir o êxtase. De acordo com a sensibilidade do músico, será possível tirar, do mesmo instrumento, variadas qualidades de som. Assim é no amor, que é arte, e em qualquer arte.
Falei em resgate porque senti que já sabia fazer aquilo e sabia que alguma parte de mim havia registrado este conhecimento, esta vivência; então não foi uma descoberta… antes, foi redescoberta. Entrar em contato com habilidades perdidas no tempo é difícil de explicar, mas no fundo, bem lá no fundo, a gente percebe que já sabe aquilo.
Também no amor é assim. Há, em nossa alma, a vivência do amor verdadeiro. Nem sempre alcançamos o quanto sabemos amar porque o que importa não é o que o corpo sabe fazer nem o que a mente quer que o corpo faça; no amor, corpo e mente, juntos, conduzem à música orquestrada pela alma. Na relação com o outro o ego se perde, só quando ele cede a alma toma para si a condução do espetáculo, e só assim é grandioso porque é pleno, porque a alma sabe, porque já amou de verdade em alguma vida, em algum ego que já foi.
No amor, na arte, na arte do amor não há controle: há presença, agudeza de todos os sentidos, há entrega. E para a plenitude deve haver a transcendência dos sentidos. E no gozo, como na arte com argila, só se é tudo quando se permite não se ser nada. A peça só aparece quando não esperamos nada dela, quando soltamos as mãos, suavizamos os dedos para que, na dança com a argila, componham a música orquestrada pelo maestro maior que é Deus em nós, a expressão da alma.
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Chove Fino - por Raquel Aiuendi

Chove, fino?
talvez imperceptível
chuva que se deixa
cair
cair
sobre um sentimento
angústia, abandono,
desilusão, desesperança…
chuva subliminar
tece lentamente
a superação
planta
uma calma sensação…
É sempre assim
depois de uma longa
chuva de amor.



(Para você, minha irmã.)
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Aceleração do Tempo - por Theodiano Bastos

O físico alemão W.O. Schumann constatou em 1952 que a Terra é cercada por um campo eletromagnético poderoso que se forma entre o solo e a parte inferior da ionosfera, acima de 100 km do solo do planeta. Esse campo possui uma ressonância mais ou menos constante da ordem de 7,83 pulsações por segundo. É uma espécie de marca-passo, responsável pelo equilíbrio da biosfera. Schumam também verificou que todos os invertebrados e o nosso cérebro são dotados da mesma freqüência de 7,83 hertz. E a vida se desenvolvia em relativo equilíbrio ecológico.
Ao retornarem à Terra, tanto os astronautas russos como os americanos que ficavam em órbita acima de 100 km, só conseguiam recuperar a saúde e o equilíbrio quando submetidos a um “simulador Schumann”. Todavia, a partir de 1980 e de forma mais acentuada a partir dos anos 90, a freqüência passou de 7,83 para 11 e para 13 hertz por segundo. O coração da Terra passou a pulsar mais rápido e provocou um acentuado desequilíbrio; fez-se sentir: crescimento de tensões e conflitos em todo o planeta, perturbações climáticas, até furacão no Brasil e “até o aumento devido a aceleração geral, a jornada de 24 horas, na verdade, é somente de 16 horas. Portanto, a percepção de que tudo está passando rápido demais não é mais ilusória, mas teria base real neste transtorno da ressonância Schumann, afirma Leonardo Boff, que completa: “Cosmólogos e biólogos confirmam que Gaia, a Mãe Terra, é, efetivamente, um superorganismo vivo e que a Terra e a humanidade formam uma única entidade”.


O texto está na Internet no Blog Oficina de Idéias (O Blog do Thede).
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Theodiano Bastos é escritor, autor dos livros:
O Triunfo das Idéias, A Procura do Destino e coletâneas
e é idealizador e presidente do Círculo de Estudo, Pensamento e Ação – CEPA – ES.
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Tardios Ventos - por Leo Santos

Agora, afloram as pétalas da oportunidade?
Agora, que meus pés já não rompem o limiar da cidade?
Na verdade, mais que passos, o fado me traz um porto, aeroporto
Depois de morto o sonhador na ilhota da resignação;
Meu barco já não arrosta ondas e pelas rondas dos vadios,
Sumiu o capitão.
Os cupins carcomeram as pás do meu cata-vento
E, agora??? Infame sorte!
A harpa eólica rompeu-se mercê do tempo,
E agora, sopra o norte?
Agora divirto outros, bobo entre risonhos,
Eunuco num harém de sonhos, peso morto;
Idéia vaga do que seja anelo
submisso a Cronos e seu martelo
Eis o meu Conforto!
Labor de enfeitar beldades,
pra tantos, de menos idade
E o sultão nem me paga;
Contar das pedras pra outros pés
Pra que evitem meu revés,
Eis a minha saga!

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A Ovelha Desgarrada - por pgricardo

Havre nunca havia conhecido o amor, seus olhos desgastados, seu silêncio eloqüente e sua dor que dói e não se sente, eram-lhe um mistério sutil, quando muito, arquiteturas de poetas vestidos de neve. Foi quando encontrou uma evangélica num ponto de ônibus. Lembrou-se do vaticínio de sua falecida tia, exímia vidente, que lhe dissera que ele encontraria sua amada em um domingo e essa seria morena; de fato, era um domingo e aquela senhorita era morena. Ele então sentou-se ao lado dela e ouviu comovido a história, já conhecida, de um messias, de um caminho de amor e paraísos eternos. Mostrou-se tocado por tais palavras e inventou horas inenarráveis de solidão e torturas diabólicas. A garota, comovida, convidou-o à igreja. Era sem dúvida um caminho inegável de salvação, mas sua timidez, entrar assim, sozinho, se ela não tivesse namorado ou pudesse guiá-lo.
-Levarei-o como meu amigo, era o que ele esperava ouvir e ouviu e o ouviu se repetiu na sombra invisível dos sons da lembrança. Naquela noite foi à igreja e para sua decepção homens e mulheres ficavam separados, o Pastor, através de uma péssima retórica, quis convencê-lo a entregar sua alma no altar e as pessoas o olhavam como a uma piedosa alma que precisava de apoio. Voltou à igreja por várias semanas, porém não resistiu e disse a verdade à garota:
- Eu te amo e só vou a igreja por ti. A verdade, mesmo que dolorosa, era que seu amor por ela estava acima de seu amor por Jesus, amor esse que nunca, realmente existira, afinal considerava o tal messias como um pouco ameno símbolo religioso, dotado de seguidores assassinos e singular capacidade de conseguir adeptos. A pobre menina, como uma boa mulher, sentiu-se feliz, contudo não podia aquilo deixar crescer. Disse a seu candidato a derriço que não podia relacionar-se com alguém não batizado: eu me batizo: mas o batizado é para entregar a alma a cristo: ninguém saberá: eu saberei!
Havre ficou carrancudo e resolveu falar com o Pastor V., a fim de batizar-se. O Pastor V., homem experiente, já fizera um levantamento da vida de Havre e descobrira que ele jogava bilhar, bebia conhaque e, um dos irmãos convertidos lhe dissera o mais grave, andava com prostitutas baratas! Quando Havre conversou com o Pastor V. na solidão da igreja e ouviu aquele homem criticá-lo de forma indireta, resolveu abrir o jogo e livrar-se de toda e qualquer ladainha, converter-se-ia à igreja por amor a uma mulher. O Pastor V. então se recusou, terminantemente, a batizá-lo, pois aquela alma nefasta não conspurcaria a casa de Cristo.
As pregações do Pastor V. começaram a ficar mais fervorosas no que tange a filiação a Cristo. Havre sabia que já era visto como um corpo estranho naquela igreja, continuar, sim, por que não, afinal seu amor era correspondido e sua falecida tia nunca errara antes de morta, por que erraria depois? Tentou convencer a garota a mudar de religião, com outro pastor seria mais fácil, ademais convencê-la a sair da religião, foi uma tentativa perigosa que Havre longo abandonou.
Quando Havre não ia a igreja ou quando em conversa com os jovens da igreja, o Pastor V. insistia nas notáveis formas de perversão do demônio, suas obscuras façanhas para afastar da fé, sobretudo jovens, seu poder de manipular aqueles não batizados e sua amável simpatia pela palavra amor.
Havre então insistiu com a sua amada evangélica. A pobre menina, perdida, não sabia o que fazer e numa noite resolveu ir à igreja para falar com o Pastor V.. Era um dia de chuva e não haveria culto. A menina achou estranho o portão da igreja meio aberto e resolveu entrar. Apesar de tudo escuro, lá no fundo da igreja havia uma tênue luz de vela, resolveu, não sei por qual motivo, espiar pela janela e qual não foi sua surpresa ao ver a boca do Pastor V., sim aquela boca que tanto falava em salvador, que dizia ser iluminada, a lamber uma vagina, sim, ou melhor não!! O Pastor V. estava com uma de suas fiéis que não sua esposa. Elisângela ficou desesperada, um mundo ruiu, foi à casa de Havre e lá fizeram amor.
O Pastor V. nunca mais viu Elisângela em seus cultos.
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Oferecimento - por Ana

Li que você está mal,
não tem nem onde dormir,
mas não desista, afinal
algo bom está por vir…

De onde menos se espera
surge mais uma esperança…
a felicidade paquera
aquele que não se cansa

de lutar com os próprios meios,
de buscar as soluções,
de apaziguar receios,
superar más condições.

A esperança se aproxima…
vem em forma de trovinhas,
ao concluir minha rima
verá que não está sozinha:

se precisar de um amigo
em meio às desilusões,
pode contar comigo:
ainda tenho uns tostões…
.
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Resposta à "Crise" de Alba Vieira.
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Meditação - por Alba Vieira

Li coisas interessantes por não ter o que fazer. Refleti sobre o lido por não ter o que fazer. Compreender o que seria… Não fazer nada é a chance de compreender. Fazer é compulsivo, é automático. Pelo menos o fazer sem consciência. Assim, não fazendo, temos a oportunidade da reflexão.
Não pensar. Pensar é dar explicações para si mesmo. Pensar é tentar explicar o que, por si só, é.
Quando apreendemos alguma coisa com os sentidos não justificamos nada, simplesmente captamos o que a coisa é. Valorizar os sentidos, ter a medida de suas possibilidades, ter atenção, é expansão da consciência.
Sair pelo mundo olhando, perceber a enormidade de cada coisa, dissecar as suas partes… Observar particularizando o olhar, mas sem deixar de ver o todo.
A minha proposta de agora é sair pelo mundo olhando mais detalhadamente, discernindo sons que me invadem, captando os odores, criando imagens a partir dos cheiros que sentir, provar os gostos do mundo como fazem as crianças, que levam tudo à boca. Mas levar à boca para sentir o gosto como um verdadeiro degustador. E tatear o mundo, sentir os contornos de cada coisa, me esfregar no mundo, em cada pedaço dele, tatear não só com as mãos, mas com todo o corpo, captando a textura, a temperatura e tudo mais. Ser através de todos os cinco sentidos e desenvolver outros que são potenciais. Intuir, saber sem saber, prever, estar acima das coisas, pairando sobre elas como a entendê-las, compreendendo seus motivos.
Potencializar o cérebro direito, permitindo que ele saia da clausura, podendo observar com maior abrangência.
Como transmitir para alguém, através da fala ou da escrita ou até da imagem, um passeio pelo campo num dia de chuva? Como passar a sensação do cheiro da terra molhada? Como fazer alguém compreender o que é ter as folhas secas das árvores estalando debaixo dos pés antes da chuva cair? É impossível transmitir a sensação do vento soprando, trazendo os perfumes e a frescura antes dos primeiros pingos de chuva. Como definir em palavras ou com traços num papel ou até mesmo com imagens de uma câmera sofisticada a simplicidade de um buquê de margaridas? Mesmo que a imagem tenha movimento, que haja som, ainda vai faltar muito, porque as margaridas são por inteiro, não se pode dissociar a imagem da leveza dos seus movimentos ao sabor do vento, do perfume que exalam e da frescura das suas pétalas se o orvalho já caiu ou não. A flor é tudo ao mesmo tempo e é interação com o que está à volta. Ela só compõe uma parte do quadro que a natureza forma.
Os pensamentos, as preocupações, as inquietações com o futuro, as prisões ao passado nos tiram do momento presente, da possibilidade de vivenciar cada coisa por inteiro. Nos tiram da vida.
Meditar é, em cada momento, estar presente realmente, com todos os sentidos.
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Viagem - por Alba Vieira

Hoje estou acima, não vivo apenas o real, me comunico com outras esferas que, menos densas, me alimentam quando estou assim tão fora/dentro de mim.
E o contato com estes dois mundos, por vezes, é esquisito, e me arrepio toda por uma emoção que não vem do que apreendo com os cinco sentidos, que transcende e me acende de prazer.
É pura criatividade!
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Espírito dos Mestiços - por Raquel Aiuendi

Ó Espírito que não nasce e não morre,
que sempre foi desde sempre para sempre.

Grande Espírito da Unificação
que reunirá o Povo, Seu Povo.

Espírito, torna a todos,
revelados ou não,
torna e tira as pinturas,
as peles desnecessárias,
as feições não originais
e os corações artificiais;
torna àqueles que somos todos nós,
espalhados pelo mundo,
com uma única marca:
a comunhão com Grande Espírito.
Àqueles que respeitam a Vida,
que professam o Amor,
que caminham com a Lógica
e vivem com Equilíbrio.

Ñande Ru, venha a nós.
Wamama, semeie-se
em nossa intenção de Paz.

Nosso Pai, permaneça à frente
do povo guerreiro que trava a luta
da harmonia e não de sangue.
O sangue precisa continuar
correndo em nossas veias,
pois com Vida escrevemos a história
que nunca foi escrita,
a história da coragem
de seguir em Paz,
a história da Inteligência Superior
que é o próprio Amor.
Que nossas pinturas sejam de louvor,
que nosso louvor seja atitude,
que nossa atitude seja sempre
pelo menos o dízimo
de seu Infinito Amor.
Amém.

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