sábado, 31 de janeiro de 2009

O Homem no Lixo - por Ana

Ontem, andando na rua,
Vi um homem adormecido
No meio de sacos plásticos.
A sua cama era o lixo.

Parei ao olhar praquilo,
Olhei e tudo parou…
Sequestrou-me o inusitado,
Minha cabeça pirou.

É o cimento da calçada?
O lixo é mais confortável?
Os sacos são travesseiros?
Mas… e o cheiro insuportável?

Eu não entendia niente,
Os neurônios não agiam,
Não enxergava mais nada,
Os meus pés não se moviam.

Não havia mais trabalho,
Ponto a bater, o horário,
Chefia, clientes, agenda,
Desconto no meu salário.

Éramos eles e eu:
Homem, lixo, catatonia,
Sono, sujeira, susto,
Cansaço, imundície, agonia.

Um esbarrão me acordou
Do estado de letargia,
Consegui dar alguns passos
Em direção ao meu dia

Que agora não era meu,
Era deles totalmente:
Mais que imagem, uma verdade
Paralisando a minha mente.

Fui zumbi até a noite
Na hora em que fui dormir.
Fui arrumando a cama,
Mas parei pra refletir.

Sentei no chão contra a parede,
Relembrando aquela cena:
O sono profundo e calmo
Numa face tão serena…

Ele teria bebido,
Tanto que nem percebeu
Onde descansava o corpo
Em uma noite de breu?

Pensei: só pode ser isso…
Ele estava sem noção,
Dormiu sem ter consciência,
Não agiu por opção.

Então eu dormi tranqüila…
Não foi algo voluntário…
Ninguém agiria assim
De modo tão temerário…

Então, na manhã seguinte,
Me arrumei, comi, saí,
Me dirigi ao trabalho,
Nem pensava no que vi.

Até que, no mesmo local,
Não cri no que o olhar via:
No mesmo lixo de ontem
Uma família dormia.


Inspirado em O Homem no Lixo é Lixo, de Alba Vieira;
Escuro, de Luiz de Almeida Neto.
.

18 comentários:

  1. Comentário por adhbrgsz — 31 janeiro 2009 @ 11:55

    Bom dia…
    Bela e tocante esta poesia da Ana…
    Shintoni, feliz idéia esta de reunir tanta gente boa e que sabe se expressar tão bem; espero não fazer feio. Segue abaixo mais uma sugestão para a categoria “desencanto” e ou “despedida”. Grande abraço,
    Adh
    DIÁLOGO DE NOVELA

    (ou DO AMOR E OUTROS SUSPENSES)

    Por que as mulheres não se contentam com o momento?
    Por que são românticas, paradas, “expectantes”?
    Por que não o risco, a incerteza, a emoção?

    Eu não sei o que é uma sinceridade intensa
    ou uma sincera intensidade;
    Por que não vou embora?
    Por que não a emoção da espera?
    O “será que ele volta?”
    “Será que ele liga?”
    Ou:
    “Será que ela gostou de mim?”
    “Será que achou uma porcaria?”

    Por que os casais fazem tudo tão perfeito no início?
    Por que tudo é tão maravilhoso
    e cada um preenche o seu papel de príncipe e princesa?
    Por que ninguém pensa:
    “será que ele mija em pé?”
    “Será que ela escova os dentes?”
    E a toalha molhada na cama,
    a roupa suja espalhada
    e os bifes queimados?!

    Por que o amor é tão bobo e tão descarado?
    (Por que tomar banho juntos para ‘quebrar o gelo’?)

    Casa redecorada, armário rearrumado.
    Por que o amor é tão sério e tão desorganizado?
    Por que os papéis correspondem
    e depois o trem descarrilha?
    Por que encaixamos tão bem
    e depois cada um numa trilha?
    Por que um sonho tão bom
    é tão predestinado?
    Por que começa tão bem
    e acaba tão errado?
    Por que a melhora e a cura
    para o que será enterrado?

    O par perfeito é a resposta,
    pra tudo,
    até o que não foi perguntado.
    “Você é a mulher dos meus sonhos”,
    “você é o meu sapo encantado”.
    Aí, o futebol, os amigos,
    os chás, o shopping, trabalho.
    A princesa era a fada má;
    o príncipe acorda um canalha.

    Então, malas feitas, adeus.
    Adeus, saudades, mais nada.
    Até no rompimento, o cinismo,
    o amor que se avacalha.
    Período de vida indelével
    que se sufoca, se esconde mas não se apaga.

    Por que os homens não são mais atentos,
    persistentes e cavalheiros?
    Por que o amor é um tudo?
    E quem não amou não viu nada…

    E tudo começa de novo,
    com os mesmos, com outros, sei lá.
    Felizes dos que, teimosos,
    não correm riscos por nada…

    [Adhemar - São Paulo, 24/09/2003]

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  2. Comentário por Ana — 31 janeiro 2009 @ 14:51

    Adhemar:
    Muito obrigada pelo elogio…
    Um abraço!

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  3. Comentário por Luiz de Almeida Neto — 31 janeiro 2009 @ 17:55

    Mt bom o texto “O homem no lixo”. O títilo me lembrou algo que eu já conheço… Acho que é Mario de Andrade. Mas, com toda a certeza, saiba que fico muito feliz sempre que vejo textos sobre o próximo, sobre pessoas que não são nós mesmas. Vc tah d parabens pela ideia. Abraço.

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  4. Comentário por Luiz de Almeida Neto — 31 janeiro 2009 @ 17:57

    Heheheheh… O título… Às vezes acontece. Desculpe.

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  5. Comentário por Ana — 31 janeiro 2009 @ 18:46

    Luiz:
    Na realidade, a idéia não foi minha. O texto foi inspirado no post da Alba “O Homem no Lixo é Lixo” e no seu post “Escuro”.
    Agradeço os elogios e a inspiração!

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  6. Comentário por Penélope Charmosa — 31 janeiro 2009 @ 18:47

    Luiz, acho que você se refere ao poema “O Bicho”, de Manuel Bandeira. Vê se não é:

    “Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando encontrava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.”

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  7. Comentário por rosa — 1 fevereiro 2009 @ 13:26

    Oi Ana, parabenizo-a, pois tens os pés bem fincados ao chão gosto muito de ler o que vc escreve, principalmente qdo trata de assuntos cotidanos. As babaries acontecem c tanta frequencia q a maioria das pessoas já ñ se assustam e como diria o nosso eterno Che: “Se vc é capaz de tremer de indignação cada vez q comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.” Bjs fraternos.

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  8. Comentário por Ana — 1 fevereiro 2009 @ 14:03

    Rosa:
    Muito obrigada por suas palavras!
    Realmente eu percebo que nos indignamos igualmente diante desta forma bruta que é o ser humano em toda a sua magnitude.
    É isso aí, companheira!
    Beijos solidários!

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  9. Comentário por rosa — 1 fevereiro 2009 @ 14:27

    percebo afinidade nos nossos escritos
    bjão

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  10. Comentário por Ana — 2 fevereiro 2009 @ 10:41

    Penélope:
    De repente é a esta poesia que ele se refere mesmo… Fala, também, de um homem no lixo, só que o meu dorme sobre as sacolas.
    Há muitos anos, eu vi algo parecido com o que o Manuel Bandeira descreve, só que se tratava de uma família: mãe, pai e quatro filhos comendo arroz estragado de um latão de lixo no centro da cidade do Rio de Janeiro; do ônibus dava para sentir o cheiro de podre do arroz. Foi no início deste fenômeno dos sem-teto. Muito triste… Muito triste mesmo…
    Um abraço.

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  11. Comentário por vicenzoraphaello — 3 fevereiro 2009 @ 20:17

    Uma de menos

    Sofrida
    maltratada
    em dores
    nas sombras das árvores
    numa escura rua
    ponto fazia

    Carros passavam
    carros paravam
    esquálida figura
    ninguém queria

    Bando de jovens
    já chapados
    num carro bacana
    oba!!!
    que sarro legal

    Num lugar deserto
    deu a um
    deu a dois
    a todos

    Porra!!!
    que merda
    quanto sangue
    da figura inerte

    E agora???

    Joga fora
    é uma de menos.

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  12. Comentário por vicenzoraphaello — 3 fevereiro 2009 @ 20:31

    Ai está Ana
    a miséria do nosso cotidiano
    Sds
    vicenzo

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  13. Comentário por Ana — 4 fevereiro 2009 @ 11:55

    Vicenzo:
    Sua poesia é contundente demais! Parabéns!
    É isso aí! Miséria!
    Já cantava Adriana Calcanhoto:
    “Que tempo mais vagabundo
    Esse agora
    Que escolheram pra gente viver?”
    Um abraço!

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  14. Comentário por Raquel Aiuendi — 8 fevereiro 2009 @ 22:18

    Se o horror, o crime e os absurdos cometidos sobre essa terra em cadeia de humanos sobre humanos não têm cor, raça e razão; também o Amor é para todos independente de cor, raça e razão. O Amor é a causa das soluções e suas fórmulas; dignifica e transforma; edifica e amplia; o Amor é em si a Razão da lógica, sem o Amor não há lógica e a Lógica vai sempre se apresentar pela Razão (do) Amor.

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  15. Comentário por Raquel Aiuendi — 8 fevereiro 2009 @ 22:22

    Sobre quantos cadáveres, vítimas de horrores, a humanidade vai continuar a erguer-destruir-erguer nações? Vítimas, populações infinitas de vidas, que em nada contribuíram para a barbaridade contra elas… esse cemitério há de ser, um dia, se já não está acontecendo, a ‘areia movediça’ que irá engolir a podridão.
    A dor dos horrores há sempre de ser o empecilho da evolução humana? Avançar em sustentabilidade através da inteligência-amor é mais difícil que a promoção em moto-contínuo de dor e consciência-dor?
    Horrores são horrores. Para as vítimas, como todos o sabemos; e, também, para seus patrocinadores e agentes diretos (todos não dormem e, se dormem, têm pesadelos – o peso deles).

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  16. Comentário por Raquel Aiuendi — 8 fevereiro 2009 @ 22:26

    A humanidade se arrasta em pesadelos desde séculos a perder de vista; dissemina a doença plantada em sua existência e cultivada por indivíduos ao longo de todos os processos “civilizatórios”. A pré-história ainda é; com diferença dos rótulos, mas a alma da humanidade se entrega à permanência consciente do estado pré-histórico. A alma da humanidade se aprisiona ao estado latente e se deixa manipular utilizando instintos de ferocidade e medo que distancia de outro estado latente de Paz e usufruto, de Amor e sustentabilidade.

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  17. Comentário por Casé Uchôa — 10 fevereiro 2009 @ 17:46

    Lindo texto, Ana…pra variar, né?
    Tocante ao extremo. Parabéns!
    Interagindo, vamos lá!

    ESCRAVOS URBANOS

    Acorda Tom, que já raiou o dia
    Urubu já pousou lá no lixão
    Vamos lá catar papel, renovar nossa agonia
    Que eu até desistiria de viver, humilhação

    Acorda Tom, vem ver
    Que a vida não melhorou
    Acorda Tom, vem ver
    Deixa de ser sonhador

    Quem sabe a gente encontre
    Nas sobras de um banquete
    Algo que se aproveite
    Pra matar a nossa fome

    Quem sabe a gente conte
    Com um pouco de sorte
    Pra escapar da morte
    Mas escapar pra quê?

    Acorda Tom, vem ver
    Que a vida não melhorou
    Acorda Tom, vem ver
    Deixa de ser sonhador

    Vem ver que essa cidade
    Por falta de caridade
    Desde a tua tenra idade
    Te largou, te abandonou

    Vê que a rotina é dura
    Não há espaço pra candura
    No menino que atura
    Do lixo ser catador

    Vê que não há beleza
    Na criança que peleja
    Na dor que tudo caleja
    Na falta do cobertor

    Vê que não há poesia
    No lixo de todo dia
    Desespero que judia
    Da alma do sofredor

    Acorda Tom, vem ver
    Que a vida não melhorou
    Acorda Tom, vem ver
    Deixa de ser sonhador

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  18. Comentário por Ana — 10 fevereiro 2009 @ 20:12

    Casé:
    Obrigada pelo elogio… Fico até com vergonha…
    Boa é a sua poesia! E eu que te digo: como sempre!
    Um abraço e obrigada novamente!

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