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Psicodelia noctívaga, é
domingo e o comércio está fechado. A segunda vindoura anuncia a
rotina e mais uma semana que rompe o céu desbotado de um período chuvoso. Pensou
nos desabrigados. As águas de um canal invadiram o grande centro comercial
afetando a economia. Na sexta-feira do dia seis de maio escutou no recinto que o
shopping seria fechado. Pessoas apressadas, receio de alagamento, enchente e
aquela maré de gente. Era véspera de segunda...
Amanhecia, com a mesma
intensidade que enxergava cores celestes . Pássaros a deslizar por entre nuvens.
Apesar de nublado havia luz resplandecente. No céu a distante cor de suco
alaranjado e sabor de algodão doce. Nuvens remetiam-lhe ao cheiro pueiril de um
tempo remoto. Insone, Sonia, divagava entre a realidade e a fantasia. Foi quando
uma folha desbotada caiu tocando-lhe os pés. Sentia-se ridícula, Quando foi a
última vez que foi gentil com alguém de verdade? Desprezou a folha com
indiferença no olhar. Sonia, já não sonhava. Por mais que tenha se dedicado como
pesquisadora, a síndrome de Aycardi era um pesadelo. Culpava-se pelo
passado.
Aquela mulher, outrora cientista, cuja epiderme fora tocada por
uma folha que da natureza se desprendia, sentia no organismo a reação. A
negativa, de um tipo sanguineo, respondia-lhe a experiência. Cobaia de um
experimento de risco, tinha nas veias a doença e não o antidoto. Ninguém sabia
ao certo o que aquele ser ocultava. Tampouco ela teria respostas. Restavam
poucos dias para o derradeiro fim e a folha continuava no chão, até que ao cair
uma outra, algo a sensibilizou impulsionando-a a olhar para a leveza daquela
matéria desprendida.
Dominada por uma súbita esperança procurou por
outras e viu nas anotações um cálculo até então despercebido. Seria a fórmula da
cura? Quanto tempo de residência hospitalar e lágrimas abafadas por ter nas mãos
o instrumento e não a cura. A imagem daquela criança fragilizada atordoava seus
pensamentos. Por mais que estudasse a síndrome de Aycardi não compreendia....
enquanto uns lutavam para sobreviver outros pensavam simplesmente em morrer.
Envergonhou-se ao lembrar do passado funesto. Quando jovem, rebelou-se
afastando-se de tudo e de todos sobretudo de si mesma. Optou por caminhos que
conduziam ao vício, ao suicídio da alma e consequentemente tornou-se alvo de
desprezo. Desprezando a si mesma já nem lembrava das violências sofridas ou
cometidas.
Sônia desistiu de sonhar quando se entregou à perigosas
tentações. Arriscava-se entorpecida sem esperança alguma de mudar. O que a
motivou a estudar medicina possivelmente foi o juramento feito a Hipócrates que
por ironia viu morrer portador da tal síndrome. Seu primo, cujo nome remetia ao
pai da medicina, não tinha forças para andar ou falar, mas enquanto viveu
comunicou-se com o olhar e o exemplo de vida que só o amor de uma família pode
acalentar. A paciência nem sempre é um dom, constatou Sonia, a paciência é um
exercício por mim adiado. E pacientemente segurou a folha levantando-a como se
pudesse enxergar naquela desbotada existência a transparência que tanto queria
vislumbrar. Enquanto as horas passavam, exercitava a paciência. Guardou dentro
de um livro a parte que se desenvolve no caule e nos ramos dos vegetais. Depois
de tal episódio, inesplicavelmente caiu. A solitária taciturna tombou,
possivelmente enfeitiçada, visto que sonhou plantando oníricas raízes cujo fruto
era a resposta e também a cura.