sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Quarto - por Ana

Meu quarto é esconderijo
Onde me afasto do mundo;
Tomando tantos remédios,
Buscando um dormir profundo

Que me isole dos meus sonhos,
Também dos meus pesadelos,
Pois uns não se concretizam,
Com os outros arranco os cabelos.

Então vou ficando careca
De tanto esquentar a cabeça.
Vou te contar o motivo:
Vejo fantasmas à beça.

Isso é culpa do meu pai,
Tão burro, tão esquisito,
Foi abrir uma funerária
Na própria casa, o maldito!

Já criança convivia
Com ele a cuidar das pessoas:
Lavava, vestia, arrumava,
E eu ajudava… na boa.

Então eu cresci assim,
Achando isso tudo normal,
Mas um dia eu descobri
O horror sobrenatural.

Como efeito funesto
Desta minha intimidade,
Os fantasmas dos clientes
Criaram dificuldades:

Começaram os petelecos,
Os gritos, os empurrões,
Os sustos a toda hora,
Pedidos e palavrões.

Almas pra todos os gostos,
Todas as raças e classes,
Pombas-giras, hare-krishnas,
Rabinos e kamikazes.

Desde meus quatorze anos
Na vida não tenho paz…
A morte me traz de tudo,
Me atentam até animais.

Pedi então, aos meus pais,
Um quarto só para mim,
Pra poder me proteger
Do assédio dos zumbis.

Dividir quarto não dava
Com meus outros seis irmãos,
Eles não gostam de mortos
E eu tinha uma solução:

Um exorcista famoso
Foi cliente lá da loja,
Usei seus restos mortais
Para afastar essa corja

Dos limites deste quarto,
Colocando, diariamente,
Um pouco do pó do santo
Nos umbrais e no batente.

E por causa disso, então,
Neste quarto são barrados;
Mas ficam do lado de fora
Berrando, os alucinados!

E todos os dias acordo
Em meio à maior zoeira:
Um vai convidando o outro
E assim cerrando as fileiras.

Eles são tão criativos
E também organizados,
Pra cada dia da semana
Têm um programa montado:

Às quintas, há possessão,
Às sextas, não posso comer,
Aos sábados, ladainha,
Domingos, karaokê,

Às segundas, vejam só,
Me jogam pelas janelas,
Às terças, total desespero!,
Dia de bater panelas.

Dolorosas são as quartas:
Resolvem arrastar correntes…
Nos dias de feriados
Danam a ranger os dentes.

Não agüento mais sofrer…
Eles são tão insistentes!
Pelas cinzas de minha avó
Já jurei, solenemente,

Nunca mais quebrar vasinho,
Nunca mais chutar jazigo,
Nunca mais roubar defunto,
Nunca mais puxar umbigo.

Não fazia de maldade
Ir zoar no cemitério,
Trazer sempre souvenir
Quando ia ao necrotério.

Peço a Deus pra me livrar,
Acho que eu meio mereço…
No quarto, com dedos nervosos
Giro as contas do meu terço

Pedindo pra eles sumirem…
Parece um tormento eterno!
Não agüento este sexto sentido!
Vão pros quintos dos infernos!

.

Um comentário:

  1. Triste quarto com triste mulher

    Nasceu infeliz
    bonita mulher

    Teve
    na época errada
    uma filha bastarda

    Mais tarde
    dois filhos gerados
    com homem apaixonado

    Família se fez
    o tempo passa
    a beleza o tempo consome
    em outras mulheres
    se consola o homem

    A mulher se desgasta
    com a filha bastarda
    com a mãe agregada
    família esgarçada

    Alcoólatra
    escreve
    escreve

    Doença implacável
    mutilada
    pulmão corroído
    perfurado
    o ar não lhe alcança

    Reencontra na dor
    por breve tempo
    o homem que um dia
    apaixonado foi

    Breve tempo
    o homem se vai

    Resta a mulher
    no quarto azul
    do triste hospital
    sua ultima morada

    Com a filha bastarda
    filhos ausentes
    morre
    deixando tristes imagens
    em tristes escritos
    da vida sofrida.

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