quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meu Tipo Inesquecível - por Adir Vieira

Hoje falei, por telefone, com meu tipo inesquecível. Lembrei-me da minha infância e de sua presença constante em minha vida.
Devia ter uns trinta e cinco anos. Era mãe de dois meninos, um da minha idade e o outro da idade de uma das minhas irmãs. Sabíamos que ela e o marido não se davam muito bem. Ouvíamos com relativa freqüência suas brigas conjugais. Era nossa vizinha do lado direito. Tinha uma alegria permanente, apesar dos problemas. Não me lembro de nunca tê-la visto verdadeiramente triste. Era isso o que me fascinava! Gostava de vestes coloridas e nunca esquecia o batom e o pó compacto. No bairro, tinha fama de namoradeira, pois era jovem e bonita, diferente das mães da rua que aparentavam um semblante mais responsável, de acordo com a época.
Eu e minhas irmãs a admirávamos, visto que sua felicidade aparente e seu porte de moça descompromissada com a vida nada tinha a ver com seus constantes votos pra tudo e pra todos de – vá com Deus!, que Deus te crie!, que Deus te proteja e te guarde! – tão próprios das velhinhas beatas do local.
Sabia uma imensa coletânea de simpatias e rezas para curar os pequenos males – as frieiras e as erisipelas. Nunca contou como aprendeu o ofício, mas nele acreditávamos piamente e constatávamos seus efeitos em nós mesmos e em quem se permitia experimentá-lo.
Apesar de sua fama de irresponsável, minha mãe gostava muito dela, para nossa sorte, e só a ela nos confiava quando, depois de muitos pedidos, concordava em nos deixar acompanhá-la à padaria, à quitanda ou à papelaria, locais próximos de nossa casa. Aquele pequeno percurso que, na maioria das vezes, não durava mais de dez minutos, de mãos dadas com ela, parecia uma eternidade extasiante. Corríamos no seu ritmo, sorríamos com suas brincadeiras, enfim, saboreávamos cada gesto, cada som vindo dela.
Lembro-me perfeitamente do dia em que fomos todos juntos assistir à cantora Emilinha Borba numa apresentação no palco montado num caminhão, no Convento que precisava arrecadar fundos. Muitas pessoas lá estavam, parece que todo o bairro havia se deslocado para lá, mas a alegria de nossa grande amiga sobrepujava a de todos.
Lembro-me, hoje ainda, já passados quase cinqüenta anos, do brilho do seu olhar, da sua alegria genuína. O dia seguinte, com seus comentários sobre a festa, as canções, o figurino da artista, era melhor ainda. Ninguém conseguia contar uma história e prender tanto nossa atenção daquele jeito. Só ela, meu tipo inesquecível.
Ali, ao lado de nossa casa, no parapeito do muro divisório, nas conversas das tardes, nos relatos sobre os problemas de sua família e antepassados, ia lançando mosaicos de aprendizado na nossa formação, inesquecíveis para sempre.
Choramos quando, depois da separação do marido, precisou se ausentar por dois anos. Sofremos por ela quando ficou longe dos dois filhos para garantir a pensão alimentícia. Na sua volta, vibramos.
E, assim, foi seguindo a vida. Crescemos e vimos seus filhos crescerem. Na luta pela sobrevivência criava artesanatos variados, todos voltados para a espiritualidade. Quantas colchas de retalhos e quantos panos de crochet multicoloridos nos exibia com orgulho…
Há alguns anos, adoeceu brabo. O fumo acirrado deu-lhe de presente um enfisema incurável. Já nessa época tivemos a certeza de que a morte do filho mais velho, vitimado de câncer no pulmão, em muito havia contribuído para que sua doença se alastrasse. Necessitou de novos ares e com muita tristeza, mais uma vez, sentimos essa separação. Embora já estivéssemos casadas e fisicamente longe dela, com a venda da casa e sua saída definitiva, parecia que um cordão crucial de nossas vidas havia sido rompido.
Hoje, distante, ainda doente, sem grandes possibilidades, já conta com mais de oitenta anos, conserva a alegria - sua eterna companheira - e a fé inabalável na vida, a certeza de que tudo é o que tem que ser.
Como eu ia dizendo, hoje falei com ela por uns longos dez minutos e, como sempre, meu coração se encheu de fé e esperança.

.

3 comentários:

  1. Comentário por ana — 9 janeiro 2009 @ 18:55

    adir
    ler sua cronica me levou ao passado. Pude ver e sentir tudo o que vc disse. Quero dizer que depois de le-la me tornei fã da sua vizinha pois ela com tudo o que ensinou a vcs ensinou o que de melhor existe no ser humano - a amizade, a saudade, a preocupação com os amigos
    Por isso voce é minha guru
    parabens
    amei

    ResponderExcluir
  2. Comentário por ana — 9 janeiro 2009 @ 18:59

    SOBRE A DOÇURA DO ABRAÇO
    Ana Maria Guimarães Ferreira

    Braços que envolvem corpos de forma suave porém com firmeza.
    Que transmitem tanta coisa que fazem com que nossa alma suba por instantes ao Criador para dizer : Obrigado Senhor por esse abraço.
    Um abraço pode ser suave pode transmitir doçura, quietude, meiguice
    Um abraço pode ser forte pode transmitir segurança, confiança
    Um abraço pode ser ligeiro pode transmitir medo,vergonha, insegurança
    Um abraço pode ser longo pode transmitir saudade, vontade de ver novamente
    Um abraço pode ser envolvente pode querer dizer te amo
    Um abraço pode ser frágil, equivocado, disfarçado
    Um abraço… um abraço pode ser tudo, pode ser a razão de ser, de viver, de querer
    Pode ser um amigo que parte, um amigo que chega
    Pode ser um amparo de um soluço perdido, sufocado, esmigalhado no peito
    Pode ser um adeus, um ate logo, um nunca mais
    Pode ser de um irmão distante, afastado e sempre amado
    Pode ser de uma mãe que soluça com o filho ao peito
    Pode ser de um pai que volta arrependido
    De um filho que partiu revoltado amargurado e voltou feliz amado
    Pode ser de alguém que entra na nossa vida para dela fazer parte
    Pode ser de um ser que se afasta
    Pode ser tudo
    Mas nunca é nada!

    Mas uma coisa é certa:

    Não tem coisa mais gostosa
    Que um abraço

    ResponderExcluir
  3. Temperamental

    Sou sanguíneo quando pisam
    nos meus calos mais doídos
    não entendo porque faço
    nem quero ser entendido;
    o sangue ferve na cara,
    a personalidade escancara

    Melancólico quando solo
    música composta pra orquestra
    a demando à sorte
    querendo uma melhor que esta;
    ciente que a vida me deve
    me pesa até o fardo leve.

    Colérico quando revido
    páro o mundo para descer;
    mira o rosto do inimigo,
    que ousou me aquecer;
    um embate só é pouco
    extravaso meu lado louco

    Fleumático como agora
    lendo meu próprio umbigo;
    e trazer pela mão pra fora
    outros que vivem comigo
    nem prezo outra têmperas, diria
    se as posso verter em poesía.

    ResponderExcluir