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(Aviso: Os textos em amarelo pertencem à categoria
Eróticos.)




domingo, 3 de agosto de 2014

Procura - por Marília Abduani


O que buscas tão longe
se o que precisas está justamente
dentro de ti?
Por que choras tão alto
quando o silêncio
embala melhor o grito.
A dor é silenciosa. Ninguém precisa ouvir.
O que esperas da vida?
Constante primavera?
Outono? Verão?
O frio também aquece
quando vem, em forma de prece,
direto do coração

 

Visitem Marília Abduani
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Saudosismo I - por Jeff Oliveira


Eita Saudade de tomar de banho de chuva.
Ficar embaixo da “biqueira”, fazendo tudo, fazendo nada.
De manhã, de madrugada, com a simplicidade do poeta.
Criança não quer saber de câmbio, inflação ou superávit.
Criança quer o pirulito e cabou-se. Quer jogar de bola na rua e ponto final.
Quer e mais nada. Mais nada. Num querer acanhado, livre, sorridente,
vazio de responsabilidades, um querer que é só um querer.

Já falava o poeta: “Simplicidade é querer uma coisa só”.
A criança sabe muito bem o que é isso.

Que tempos bons aqueles onde se jogava bila até bem tarde.
“Homem-pega-mulher”, “Carimba” e “7 pecados”.
A hora de entrar era boa não.
“Mãiêêê, só mais um poquinho, só mais um pouquinho” - Pedíamos quase chorando.
“Mais um pouquinho? Você já ta dizendo isso faz meia-hora.  Bora, pode entrar Seu Fulano. Pode entrar Dona Beltrana” - Berravam nossas mães.  Muitas vezes em frente aos nossos amigos.  (Acaso os pais não sabem que isso não se faz?)
Aí a festa se acabava. Mas no outro dia tinha mais. Sem preocupações. Aliás, o pesadelo talvez fosse ter que estudar, ir ao colégio.
O que é pesadelo pra nós hoje?
Éramos felizes. Desconhecíamos essa nossa condição.
Eita saudade. Eita saudade.

 
Visitem Jeff Oliveira
Rubem Alves.

sábado, 2 de agosto de 2014

Café de todos os dias - por Thiago de Sá

O cheiro do café me pôs de pé,
o sol raiava tímido.
O vento era frio e aconcheguei-me,
a cama era quente,
meus olhos estavam dormidos.
Mas o cheiro do café me pôs de pé,
ao longe ouvia sons de realidade,
bem longe meus sonhos se iam
E o cheiro do café...
Esse cheiro de café...
Vence qualquer preguiça.

Mãe, meu café, por favor!

Visitem Thiago de Sá
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“Caça à Raposa” com João Bosco e Aldir Blanc - por Ana


O olhar dos cães, a mão nas rédeas
E o verde da floresta
Dentes brancos, cães
A trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa:
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhoritas, seus anéis, corcéis
E a dor no coração vermelho
O rebenque estala, um leque aponta: foi por lá!...
Um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
- Oh, manhã entre manhãs! -
A trompa em cima, os cães
Nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança
Afaga o coração vermelho:
Uma cabeleira sobre o feno
Afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos: terminou...
Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah, recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah, recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah, recomeçar como a paixão e o fogo



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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Se Olhares pelas Frestas das Grades da Cela - por Tércio Sthal


E ENXERGARES A LAMA,
AO SAIR, CUIDA BEM DE TI E DE QUEM AMAS
PARA NÃO CAIR NELA.




















SE OLHARES PELAS FRESTAS DAS GRADES DA CELA
E ENXERGARES AS ESTRELAS,
CUIDA BEM DE TI, PARA NÃO SE ILUDIR,
POIS, DELAS, VISTES APENAS O RELUZIR.



DE VENTO EM POPA


No compasso das batidas do coração
firme bem os seus pés e estenda a mão,
se estiver subindo procure ajudar alguém,
todo mundo ganha quando se faz o bem.


O vento não sopra sempre na mesma direção,
abra portas e janelas da mente e do coração
aprenda a lidar com vento favorável e contrário,
saber remar e voar é extremamente necessário.



Visitem Tércio Sthal
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Medo - por Vicenzo Raphaello

Medo
Vem de repente
o medo
Por quê?
Não sei
Reajo
me fecho
Su fica triste
Sofia se espanta
que merda!
Mais frontal
e
de mentira
medo não tenho.
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O Adversário - por Maurício Limeira

 
 
 
 
 
Assoou o nariz e ficou olhando. Havia sangue no lenço.

Escondeu no fundo do bolso o pano ensanguentado, com medo de que alguém percebesse.

Precisava sair da multidão. Precisava sair antes que fosse tarde demais.

Foi então empurrando as pessoas que simulavam felicidade, que falavam alto, que riam e cheiravam a álcool e agiam como crianças mimadas e irritantes, até chegar à escada que levava ao segundo andar.

Quando escorregou no piso molhado, teve a certeza de que não conseguiria.

Mas alguém lhe segurou o braço, impedindo a queda. Alguém lhe perguntou se estava tudo bem. Alguém olhou para ele e viu.

“Ei, você está sangrando.”

Era tarde demais. Ele tentou se desvencilhar. Tentou a escada. Mas era mesmo tarde demais.

Faltou tão pouco.

O candidato seguinte já estava em posição. Esperava apenas o nariz começar a sangrar.

 

 

Há mais, aqui:
 
O ADVERSÁRIO

Blog do romance O ADVERSÁRIO, de Maurício Limeira,
+ contos com um pé no sobrenatural.
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Comentário - por Adhemar

 
Pois é, e sempre foi assim. Diretas já, meio-ambiente, caras pintadas... A patuleia não percebe o quanto somos uma democracia dirigida como o gado é pastoreado. Vamos para onde os cães mandam, felizes com a nossa "independência"...
Nossos líderes revolucionários de outrora chegaram finalmente ao poder depois de tanta "luta"; mas nitidamente mancomunados ou manietados pela velha oligarquia (hereditária) que manda nesta fazenda chamada Brasil. Somos "pagos" pra não pensar e nos manter "antenados" com novidades bacanas a consumir, com o futebol, pseudos movimentos sociais, o BBB e sabe-se lá o que mais. E a todas estas a grande mídia pagando pau: a gente vendo na imagem que não foi pênalti e os caras defendendo o maldito juiz...!
 
 
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FECHAR OS OLHOS - por KBÇAPOETA



    O homem está calcado em uma cultura de mercado em que se vendem e consomem intimidades.
    Atualmente devido à ânsia de saber o final antes de terminar o filme, do prazer imediato, o horror a surpresa. O Prazer desgastado.
    O despertar da vida com seus mistérios já não interessa. Queremos o pronto. Agora e já.
    A rima fácil, o gesto rude, a piada pobre com um toque de pseudo-nobreza. Cafonice.
    É preciso um “fechar de  olhos’ para perceber a vida por outros sentidos, culturas e maneiras.
    Perceber a vida por outras nuances e torna-la interessante, mais viva, emocionante e com surpresas.
    Quando se deixa de encantar-se com a vida, você morre respirando. Vira cinza, um atual walking dead.
    A pessoa que lê vê um mundo mais colorido, emocionante e significativo. Leia mais.

    

O Erotismo: Fantasias e Realidades do Amor e da Sedução, de Francesco Alberoni - por Alexandre



 

 

Quando peguei esse livro, pensei em descobrir o universo da psique feminina. Mas me surpreendi em descobrir coisas que nem eu sendo homem sabia sobre a psique masculina.

À medida que o livro vai transcorrendo em nossas mãos, vamos explorando temas mais profundos. Tanto é que fiquei surpreso com coisas que descobri no final do livro. Como, por exemplo, que a primeira coisa que as mulheres examinam no homem é o cheiro do seu corpo (O.O), depois é o hálito, em seguida ela analisa o beijo! Pelo beijo ela descobre muitas coisas sobre o caráter do homem: se ele é generoso, sensível, inteligente ou aventureiro. (Para quem não está surpreso, peço desculpas, pois essas características da mulher me deixaram de boca aberta.)

Então é isso: se me perguntarem sobre esse livro, eu direi "Super-recomendo!!!!". ^^
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Ciúmes - por José Ivo

Ciúmes, palavra aterrorizadora, que consegue destruir um relacionamento sentimental e até um casal de amantes, casados ou não.
Quanto mais intenso o amor entre dois corações, mais chances há de aparecer possessividade e exclusividade, num ou em ambos, dependendo da sensibilidade de cada um.
Há dois tipos de ciúme - O bom e o mau!!!
CIÚME BOM - Eu amo a minha amada de corpo e alma, e sinto ciúmes de alguém estranho que a deseje e até interfira com ela.
Mas se ela, se sabe comportar e defender de um ataque de assedio sexual, ou até sentimental, e não se deixa manipular e tentar por uma situação dessas, vai criar um sentimento em mim de confiança absoluta, portanto, HÁ CONFIANÇA.
E nem haverá um pedido de satisfação quanto ao ciúme bom sentido.
CIÚME MAU - Horrível, destruidor, porque é baseado em sentir DESCONFIANÇA.
Se eu puser em dúvida o comportamento da minha amada de não partilhar o nosso amor com um terceiro, e até demonstrar aceitação em ser cortejada por outro homem, ou até ter a iniciativa de se oferecer com entrega total, isso gera desconfiança.
E essa DESCONFIANÇA vai alimentar um ciúme defensivo por um lado, mas destruidor por outro, acabando o que há de amor entre dois corações, dando origem a discussões, ataques pessoais, insultos , uma completa falta de respeito entre os dois.
NO CIÚME MAU, DEIXOU DE HAVER AMOR!!!
NO CIÚME BOM, HÁ AMOR, mas esse ciúme tem que ser optimamente controlado, e nunca dar origem a falta de respeito entre os dois amantes.
A possessividade e exclusividade, em nada abona a favor de um amor saudável, gostoso e duradouro.
São exageros inaceitáveis que podem deteriorar um amor ideal.
É da nossa natureza sentir ciúme, não podemos viver sem ele, mas que não o deixemos prejudicar e até destruir o que mais há de belo nas nossas vidas e no mundo: AMOR!!!
DAR PARA RECEBER
AMO PARA SER AMADO
O AMOR VEM DO CORAÇÃO
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quinta-feira, 31 de julho de 2014

Conversando com Deus - Livro I: um diálogo sobre os maiores problemas que afligem a humanidade, de Neale Donald Walsch - por Alexandre

 
 
 
 
Em uma frase:

Este livro me ajudou a encontrar O Deus que nos criou e apontou caminhos para minha autocriação.

P.S.: Se este não é O criador, então Deus é um promotor de justiça sentado em um trono, com um livro de regras na mão a julgar os seres humanos após a morte, enquanto atravessam o inferno para chegar ao céu.
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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Orlando, de Virginia Woolf - por Ana

O Orlando que labirinta em todos nós
 
Esta é uma história fantástica.  Densa, intrigante e profunda.  Faz com que repensemos nosso posicionamento no mundo, principalmente em termos de identidade e relações sociais.
Orlando é um nobre do século XVI que repentinamente se vê transformado em mulher.  Além disso, atravessa várias épocas, tendo que se adaptar às novas realidades.
A partir desta temática, Virginia Woolf nos faz mergulhar em questões importantes, como as diferenças entre os sexos, as dificuldades diárias das relações humanas, o valor e a utilização do poder pessoal em suas várias facetas, as características comportamentais em diferentes épocas, a condição bissexual no ser humano.
É um livro que nos guia pelo labirinto mental da escritora, que deixa transparecer suas dúvidas, suas críticas, suas descobertas pessoais, suas certezas, suas vulnerabilidades, suas permissividades; levando-nos aos nossos próprios labirintos, formados pelos mesmos (e outros) tantos limites e aberturas.
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domingo, 27 de julho de 2014

A Cidade do Sol, de Khaled Hosseini - por Alba Vieira


É uma história comovente que expõe a vida no Afeganistão nas últimas décadas com os horrores da guerra, a realidade cruel dos refugiados e a condição da mulher no país, focalizando, de forma brilhante, a emoção humana. É um livro denso, em que as personagens mostram a crueza das relações onde a opressão, a fome e as dificuldades dos conflitos vividos retratam o que existe de pior e de melhor no ser humano.

O autor, nesta teia tão magnificamente elaborada, onde sobressaem as fraquezas e a grandiosidade da alma humana, destaca duas personagens femininas que, de oprimidas pela própria condição conseguem, através da força de seu caráter, salvaguardar seu poder de opção no momento limite de suas vidas. Ao decidir seu próprio destino, a despeito das situações mais adversas que se apresentam no desfecho da trama, a protagonista nos fala da única liberdade verdadeira: a de quem aprendeu, pela força do amor, o desapego.

As duas personagens centrais, unidas pelo sentimento de amor, nos mostram que foi a renúncia de uma delas que possibilitou a realização de seus anseios de uma vida feliz na vida da outra. Excelente livro.
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

FIM DA TARDE - Por Kbçapoeta











Fim da tarde torno a rever

Ele estava a esperar

Ver-me retornar

Os segredos que ninguém pode saber

Ao menos imaginar

Por favor, não vá contar

Como tão normal eu posso ser

Sem futuro a me esperar

Você não estava lá

Quando todo mundo já

Partiu

O estrondo já ouviu

Meu mundo desmoronar

Nesse instante tento me mexer

Uma alegria perceber

Mas desabo no sofá

Homem feito em pleno entardecer

Querendo só morrer


Você não vai voltar




Visitem Kbçapoeta







quarta-feira, 23 de julho de 2014

PAX - por Zaira Leite

Eu poderia dar o nome de vida
a esse despenhadeiro para a morte.
Não revolver a terra,
nem lançar a semente,
não burilar o seixo
ao sabor da corrente.
Desprezar meu madeiro,
inventar nova sorte.

E nessa estranha vertigem eu poderia
estrangular a voz do sentimento
ao som dos falsos guizos,
na folia das máscaras
de mentirosos sorrisos.
Toldar a luz do bem,
A transparência da alma e o véu do pensamento.

Eu poderia ignorar a fonte
De infinita doçura e do amor universal
Calando a consciência
Na erosão dos sentidos,
No conteúdo das taças
Do vinho em efervescência
Numa atração incoerente pelo erro fatal.

Mas não teria, porém, no caminho de volta,
Uma só flor sequer da colheita outonal;
Vazios, os meus braços.
E não haveria uma bandeira branca
Desdobrada, ao transpor minha reta final.
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terça-feira, 22 de julho de 2014

Urgência - por Ana

Eu te amo
com a urgência de te olhar por dias seguidos
sem temores, sem iminência de separação;
com a urgência de dormir tranqüila, sem portas trancadas,
sem movimentos perigosos que venham nos arrancar de nós;
com a urgência de quem se debate
para acordar de um pesadelo quase eterno;
com a urgência de um guerreiro
que luta por sua vida para salvar sua alma;
com a urgência dos anjos
que velam pelos seres que, sós e cegos, se perderiam de seu caminho;
com a urgência de ver os dias que,
implacavelmente velozes e ininterruptos,
consomem e restringem o tempo do encontro pleno;
com a urgência que teme a morte
que virá, sempre breve, quando se é feliz;
com a urgência dos lábios adormecidos que sonham beijos doces;
com a urgência de ouvir uma voz única preencher todos os sentidos;
com a urgência de sentir na pele
a textura de seu corpo macio repousando, solto, sobre o meu;
com a urgência de minhas mãos
que aguardam te enlaçar e trazer para junto, definitivamente;
com a urgência de meus carinhos,
que necessitam se expressar e só existem para ti;
com a urgência de um coração que pulsa teu nome, aflito,
pedindo aos olhos tua imagem presente todos os dias;
com a urgência de minha alegria,
que surge quando te vejo.

Eu te amo
com a urgência que tem o rio de chegar ao mar, seu destino;
com a urgência dos amores proibidos em se tornarem vivos;
com a urgência de retomar um lindo sonho interrompido;
com a urgência de libertar minha alma de um feitiço cruel e incessante;
com a urgência da solidão que sabe sua companhia vindo.

Eu te amo
com a urgência deste sentimento que te acompanha ao longe;
inunda-te de carinho, desejo e paixão, se perto;
e que te faz sentir a mesma urgência,
arder no mesmo desejo, transbordar o mesmo carinho,
viver a mesma paixão.

Sempre.
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segunda-feira, 21 de julho de 2014

Rubem Alves e “A Solidão Amiga” - Citado por Adir Vieira

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão... O que mais você deseja é não estar em solidão...

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música... Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa... Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão... A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a Sua Solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga... Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim!”

Nietzsche também tinha a solidão como sua companheira. Sozinho, doente, tinha enxaquecas terríveis que duravam três dias e o deixavam cego. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que ele amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões da saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, nem as flores, nem as nuvens e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer. O estar juntos não quer dizer comunhão. O estar juntos, frequentemente, é uma forma terrível de solidão, um artifício para evitar o contato conosco mesmos. Sartre chegou ao ponto de dizer que “o inferno é o outro”. Sobre isso, quem sabe, conversaremos outro dia... Mas, voltando a Nietzsche, eis o que ele escreveu sobre a sua solidão:

“Ó solidão! Solidão, meu lar!... Tua voz - ela me fala com ternura e felicidade! Não discutimos, não queixamos e muitas vezes caminhamos juntos através de portas abertas. Pois onde quer que estás, ali as coisas são abertas e luminosas. E até mesmo as horas caminham com pés saltitantes.

Ali as palavras e os tempos
poemas de todo o ser se abrem diante de mim. Ali todo ser deseja transformar-se em palavra, e toda mudança pede para aprender de mim a falar.”

E o Vinicius? Você se lembra do seu poema O operário em construção? Vivia o operário em meio a muita gente, trabalhando, falando. E enquanto ele trabalhava e falava ele nada via, nada compreendia. Mas aconteceu que, “certo dia, à mesa, ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção ao constatar assombrado que tudo naquela casa - garrafa, prato, facão - era ele que os fazia, ele, um humilde operário, um operário em construção (...) Ah! Homens de pensamento, não sabereis nunca o quanto aquele humilde operário soube naquele momento! Naquela casa vazia que ele mesmo levantara, um mundo novo nascia de que nem sequer suspeitava. O operário emocionado olhou sua própria mão, sua rude mão de operário, e olhando bem para ela teve um segundo a impressão de que não havia no mundo coisa que fosse mais bela. Foi dentro da compreensão desse instante solitário que, tal sua construção, cresceu também o operário. (...) E o operário adquiriu uma nova dimensão: a dimensão da poesia.”

Rainer Maria Rilke, um dos poetas mais solitários e densos que conheço, disse o seguinte: “As obras de arte são de uma solidão infinita”. É na solidão que elas são geradas. Foi na casa vazia, num momento solitário, que o operário viu o mundo pela primeira vez e se transformou em poeta.

E me lembro também de Cecília Meireles, tão lindamente descrita por Drummond:

“...Não me parecia criatura inquestionavelmente real; e por mais que aferisse os traços positivos de sua presença entre nós, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a víamos... Distância, exílio e viagem transpareciam no seu sorriso benevolente? Por onde erraria a verdadeira Cecília...”

Sim, lá estava ela delicadamente entre os outros, participando de um jogo de relações gregárias que a delicadeza a obrigava a jogar. Mas a verdadeira Cecília estava longe, muito longe, num lugar onde ela estava irremediavelmente sozinha.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soren Kierkegaard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria. Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. E sofri muito. E nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, eles nada podiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido. Como, por exemplo, a música clássica, a beleza que torna alegre a minha solidão...

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos... Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Mas essa conversa não acabou: vou falar depois sobre os companheiros que fazem minha solidão feliz.


(Correio Popular, 30/06/2002)
Rubem Alves
.Carlos Drummond de Andrade, Friedrich Nietzsche, Gaston Bachelard, Jean-Paul Sartre, Vinicius de Moraes

domingo, 20 de julho de 2014

Lembranças e Saudades de uma Mulher Madura - por Ana Maria Guimarães Ferreira

Eu estava na internet cansada e pensando que nunca mais tinha tido uma pequena inspiração para escrever o que eu chamava de crônicas do dia a dia.
Na verdade, pedaços de mim, que amigos mais queridos chamavam de crônicas e eu acreditava...
Encontrei por acaso... será que por acaso? Como diria Jung, “coincidências não existem”... uma crônica que adorei, o jeito dela estar ali, dizendo coisas tão simples de forma tão poética - numa casa feita de poesias - A CASA DE RUBEM ALVES - esse era o site do cronista.
Será que podemos dizer sem ofender a família, a esposa, filhos e netos, mas como uma adolescente impetuosa, "Amei-o"?
Amei suas crônicas, sorvi cada uma delicadamente e, como um doce pequeno porém precioso, fui colocando pedaços pequenos dentro de minha alma.
Me apaixonei perdidamente por cada uma delas e sem querer parecer vulgar sentia vontade de tê-las e lê-las.
Numa delas, em especial, me perdi e me achei. Quando ele fala do “Velho que acordou menino”.
Me senti assim renascendo, acordando num sonho e como ele fui me lembrando das pessoas especiais e interessantes que apareceram em minha vida e como num passe de mágica acordei menina.
Uma simples lembrança me levou de volta ao passado, à infância, à adolescência e à maturidade. Tudo em instantes, como um furacão que me rodopiava e me levava a lugares distantes da minha mente, das minhas recordações.
Foi assim que no meio de uma nuvem branca eu a vi:


A Professora Emília

Era uma mulher pequenina, talvez com quarenta e oito ou cinqüenta anos, bem morena, quase negra, um pouco curvada ou pelo tempo ou pela fragilidade do corpo magro, de cabelos crespos e mesclados com brancos e de uma doçura angelical.
Nunca soube seu sobrenome.
Naquele tempo professora era professora, não tia. Mantinha uma relação de afeto com respeito, mas com consciência de que estávamos num patamar abaixo dela, sem relações de parentesco mas com relações de amor e carinho.
Com ela aprendi as primeiras letras e a subir cada escada das palavras. Observadora atenta, ela era a grande mestra que, hoje, não existe mais. Cuidava de cada um de nós com o amor e o carinho de uma mãe. Sabia quando estávamos famintos, quando estávamos com problemas em casa. Nada lhe passava despercebido.
Foi assim que minha mãe foi chamada à escola pública pela minha querida mestra para me levar ao oculista, pois ela descobrira que eu era míope. Óculos feitos, eu estava ali radiante de alegria a galgar degraus e degraus do conhecimento.
Foi ali que descobri pela primeira vez a fome devassadora da paixão - foram suas mãos que me guiaram pelos caminhos do amor aos livros. Eu tomava café, almoçava e jantava livros.
Fiquei gulosa e depois de alguns anos, quando me mudei e passei a estudar perto de uma Biblioteca Municipal (hoje nem sei mais se as crianças freqüentam bibliotecas), li todos os livros da Biblioteca Municipal Carlos Alberto, no Méier, e foi assim que me tornei a “devoradora de livros”.
E a professora Emília ainda hoje continua povoando minhas memórias e é revivida por mim através de uma velha foto desbotada (daquelas de antigamente, nos grupos escolares onde as crianças sentavam-se e a professora permanecia perfilada ao lado dos seus pupilos).
Com certeza ela já içou vôo para Colégios no Alto e de lá me viu crescer...
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sexta-feira, 18 de julho de 2014